{"id":12004,"date":"2023-05-30T15:43:21","date_gmt":"2023-05-30T18:43:21","guid":{"rendered":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=12004"},"modified":"2023-05-30T15:43:26","modified_gmt":"2023-05-30T18:43:26","slug":"a-vitoria-de-erdogan-e-seus-impactos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=12004","title":{"rendered":"A vit\u00f3ria de Erdogan e seus impactos"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Bruno Beaklini<\/em> (@blimarocha) \u2013 maio de 2023<\/p>\n\n\n\n<p>No pleito finalizado domingo, 28 de maio de 2023, o presidente e ex-premi\u00ea da Turquia Recep <a href=\"https:\/\/www.trtworld.com\/elections\/turkiye\/2023\">Tayyip Erdogan foi reeleito <\/a>em um segundo turno muito apertado. O mais poderoso pol\u00edtico turco ap\u00f3s Kamal Ataturk (o her\u00f3i de Gal\u00edpolo e pai fundador do pa\u00eds), lidera o AKP (Partido da Justi\u00e7a e do Desenvolvimento) se mant\u00e9m em Ankara e n\u00e3o permite a retomada da coaliz\u00e3o liderada pelo kemalismo civil. O candidato derrotado, Kemal Kilicdaroglu, \u00e0 frente do CHP (Partido Republicano do Povo, a legenda secular da elite de Istambul), comanda a Alian\u00e7a Nacional, uma frente com outras seis legendas, incluindo um racha do AKP.<\/p>\n\n\n\n<p>O discurso do derrotado passava pelo elogio e defesa dos h\u00e1bitos da cultura moderna turca, buscava os votos mais nacionalistas (incluindo os mais extremados), mas n\u00e3o alcan\u00e7a este objetivo. O terceiro colocado no primeiro turno, Sinan Ogan \u00e0 frente da Alian\u00e7a Ancestral (ATA), compunha \u2013 em primeiro turno &#8211; basicamente o mesmo espectro da direita coligada com Erdogan. A diferen\u00e7a seria sua propens\u00e3o a recuperar o parlamentarismo. No segundo turno, Ogan e as lideran\u00e7as pol\u00edticas com ele alinhadas, fecharam apoio ao candidato da Alian\u00e7a do Povo (Erdogan), garantindo assim uma folga maior. Entre 14 de maio e 28 de maio, o atual presidente ampliou em 3 milh\u00f5es de votos a diferen\u00e7a e das 600 vagas no parlamento, a coliga\u00e7\u00e3o governista atingiu a 323 cadeiras, sem necessitar de outros apoios para governar com maioria.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>As alian\u00e7as minorit\u00e1rias foram fundamentais para a oposi\u00e7\u00e3o em 2023<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nas elei\u00e7\u00f5es de 7 de junho de 2015, o Partido Democr\u00e1tico do Povo (HDP), a frente eleitoral vinculada \u00e0 esquerda curda, ultrapassou a cl\u00e1usula de barreira de 10% (fez 13,12% dos votos) e poderia formar a composi\u00e7\u00e3o de governo pela primeira vez na hist\u00f3ria. O gabinete de Erdogan, composto pela maioria (e hegemonia do AKP) junto da extrema direita do Partido da A\u00e7\u00e3o Nacionalista (MHP, herdeira direta das Juntas Militares golpistas e do seu bra\u00e7o paramilitar, Lobos Cinzentos), conseguiu mudar as regras do sistema pol\u00edtico. Destituiu o parlamento, prendeu opositores seculares \u00e0 esquerda e convocou novo pleito para novembro daquele ano. O pa\u00eds passa a ser presidencialista &#8211; de facto e na regra \u2013 e a intensidade do n\u00edvel repressivo nas \u201cregi\u00f5es administrativas especiais\u201d de maioria curda aumentou muito.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde ent\u00e3o o HDP amplia seu leque de alian\u00e7as e se aproxima do CHP, mesmo com a elite kemalista negando a possibilidade da exist\u00eancia de um Curdist\u00e3o federativo dentro do Estado nacional turco. Nas elei\u00e7\u00f5es de novembro de 2015 o HDP fez 10,76% e em 24 de junho de 2018, alcan\u00e7ou 11,70%. Apesar do decr\u00e9cimo eleitoral, a proje\u00e7\u00e3o n\u00e3o era ruim, em fun\u00e7\u00e3o de alian\u00e7as improv\u00e1veis no pleito municipal de 2019.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 quatro anos atr\u00e1s, nas elei\u00e7\u00f5es metropolitanas e distritos municipais, a coliga\u00e7\u00e3o civil kemalista ganhou em Istambul e em Ankara (capital). Assim, criou as condi\u00e7\u00f5es para amea\u00e7ar realmente a perman\u00eancia de Erdogan \u00e0 frente do Estado controlador do segundo maior contingente militar da Organiza\u00e7\u00e3o do Tratado do Atl\u00e2ntico Norte (OTAN, o guarda-chuva de pa\u00edses aliados dos EUA).<\/p>\n\n\n\n<p>Ekrem \u0130mamo\u011flu, o prefeito de Istambul vitorioso em mar\u00e7o de 2019, tardou muito a chegar a ocupar o posto, porque o pleito foi contestado por semanas atrav\u00e9s da Suprema Corte. Desde a metade de dezembro de 2022, um dos pol\u00edticos mais importantes do pa\u00eds foi condenado pela Justi\u00e7a \u2013 a acusa\u00e7\u00e3o \u00e9 de ofensa contra magistrados da corte \u2013 e banido das elei\u00e7\u00f5es gerais deste ano. Ekrem estava cotado a ser candidato a vice do derrotado l\u00edder pol\u00edtico da CHP.<\/p>\n\n\n\n<p>Na corrida eleitoral das proporcionais \u2013 para o parlamento \u2013 a Alian\u00e7a por Trabalho e Liberdade (o mais amplo guarda-chuva de maioria curda) fez 11% das cadeiras do parlamento, sendo que a lista conjunta da Esquerda Verde (YSP e HDP) atingiu 8% deste total.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2019, a soma dos votos da esquerda, da juventude urbana e das elites civis seculares levou \u00e0 vit\u00f3ria do CHP nas maiores metr\u00f3poles (Istambul, Ankara e Izmir) e todo o Curdist\u00e3o. Ainda assim n\u00e3o foi suficiente para atingir a maioria entre os 66,4 milh\u00f5es de eleitores e eleitoras aptos na Turquia e na di\u00e1spora.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A cobertura majorit\u00e1ria das elei\u00e7\u00f5es na m\u00eddia ocidental<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 muito complicado cobrir elei\u00e7\u00f5es \u00e0 dist\u00e2ncia, sem entender nada ou quase nada do contexto pol\u00edtico do pa\u00eds e menos ainda relacionar o cen\u00e1rio dom\u00e9stico com o externo. Ap\u00f3s a reviravolta de 2015 e a derrota da tentativa de golpe de Estado por parte do movimento gulemista em julho de 2016, a pol\u00edtica turca entrou em uma espiral de tr\u00eas dimens\u00f5es. Uma, a nacional \u2013 ou de fronteiras geopol\u00edticas ao menos \u2013 traz um governo Erdogan muito agressivo, impondo uma \u00e1rea de territ\u00f3rio tamp\u00e3o, violando a soberania da S\u00edria e dominando parte dos cant\u00f5es de maioria curda na fronteira dos dois pa\u00edses.<\/p>\n\n\n\n<p>Simultaneamente, o l\u00edder do AKP modifica sua rela\u00e7\u00e3o com o Estado sionista, e mesmo sem romper completamente, eleva a tens\u00e3o com o aparelho militar do Apartheid Colonial e expande sua presen\u00e7a em todo o Oriente M\u00e9dio. Isso implica uma alian\u00e7a estrat\u00e9gica com o ascendente Catar e uma rela\u00e7\u00e3o de melhor conviv\u00eancia com o Ir\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>No cen\u00e1rio europeu, n\u00e3o sai da OTAN mas se torna um problema para a alian\u00e7a ocidental. Com o conflito russo-ucraniano, a situa\u00e7\u00e3o muda radicalmente, cabendo \u00e0 marinha turca a tutela e vigil\u00e2ncia do estreito cont\u00ednuo de B\u00f3sforo e Dardanelos, al\u00e9m do exerc\u00edcio de domin\u00e2ncia naval no Mar Egeu. Erdogan se p\u00f4s como intermedi\u00e1rio de primeira grandeza, incidindo nos pre\u00e7os mundiais de fertilizantes russos e gr\u00e3os ucranianos (a come\u00e7ar pela precifica\u00e7\u00e3o global de trigo e milho).<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, a pol\u00edtica econ\u00f4mica de Erdogan, tentanto manter a soberania da lira turca e dificultando a participa\u00e7\u00e3o do chamado \u201chot money\u201d &#8211; os fundos de aplica\u00e7\u00e3o financeira \u2013 atraiu para o pa\u00eds uma s\u00e9rie de ataques especulativos al\u00e9m da press\u00e3o inflacion\u00e1ria. E pensar que em 2002 o rec\u00e9m-empossado primeiro ministro demandava para a Uni\u00e3o Europeia o ingresso completo, incluindo a moeda \u00fanica e corrente! Ambas requisi\u00e7\u00f5es foram negadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Quase todos os n\u00edveis de an\u00e1lise acima descritos n\u00e3o foram narrados nas reportagens circulando em m\u00eddia brasileira e mesmo em emissoras de l\u00edngua inglesa. Menos ainda o compromisso de Kilicdaroglu de permanecer na OTAN e ampliar a presen\u00e7a de fundos especulativos na composi\u00e7\u00e3o da d\u00edvida p\u00fablica turca.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Dois pontos cr\u00edticos no cen\u00e1rio internacional<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Recep Tayyip Erdogan tem plenas condi\u00e7\u00f5es de tomar duas decis\u00f5es pol\u00eamicas e urgentes. A primeira \u00e9 romper rela\u00e7\u00f5es com o Estado sionista, elevando a temperatura e press\u00e3o da Ummah sunita contra os invasores europeus na Palestina Ocupada. Em consequ\u00eancia, a sa\u00edda da OTAN seria inevit\u00e1vel, ampliando a dimens\u00e3o multilateral de sua pol\u00edtica externa.<\/p>\n\n\n\n<p>No plano dom\u00e9stico, os aliados de Erdogan herdeiros das Juntas (e redes ergenekon) n\u00e3o sustentam essa posi\u00e7\u00e3o, mas ap\u00f3s mais uma vit\u00f3ria isso seria perfeitamente poss\u00edvel. Resta o desafio de gerar uma conviv\u00eancia vi\u00e1vel com os mais de 4 milh\u00f5es de refugiados s\u00edrios e com os territ\u00f3rios do Curdist\u00e3o, algo que tamb\u00e9m \u00e9 pouco cr\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o cabe uma an\u00e1lise acr\u00edtica e menos ainda subestimada. Hoje a Turquia e Erdogan est\u00e3o no centro da pol\u00edtica eurasi\u00e1tica e por consequ\u00eancia, de todo o Sistema Internacional. Negar esse fato seria como trocar a realidade por disputa \u201cnarrativa\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 2019, a soma dos votos da esquerda, da juventude urbana e das elites civis seculares levou \u00e0 vit\u00f3ria do CHP nas maiores metr\u00f3poles (Istambul, Ankara e Izmir) e todo o Curdist\u00e3o. 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