{"id":12143,"date":"2024-03-25T13:33:03","date_gmt":"2024-03-25T16:33:03","guid":{"rendered":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=12143"},"modified":"2024-03-25T13:33:08","modified_gmt":"2024-03-25T16:33:08","slug":"a-uniao-africana-e-as-potencialidades-na-cooperacao-com-o-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=12143","title":{"rendered":"A Uni\u00e3o Africana e as potencialidades na coopera\u00e7\u00e3o com o Brasil"},"content":{"rendered":"\n<p>Bruno Beaklini (blimarocha@gmail.com e @blimarocha) \u2013 mar\u00e7o 2024 \/ <a href=\"https:\/\/www.monitordooriente.com\/20240315-a-uniao-africana-e-as-potencialidades-na-cooperacao-com-o-brasil\/\">artigo originalmente publicado no Monitor do Oriente M\u00e9dio <\/a><\/p>\n\n\n\n<p>A viagem do mandat\u00e1rio brasileiro Luiz In\u00e1cio Lula da Silva ao Egito e Eti\u00f3pia, marcou um momento importante da chamada \u201cvirada rumo ao Sul Global\u201d. Infelizmente os meios de comunica\u00e7\u00e3o majorit\u00e1rios nacionais ressaltaram apenas a correta declara\u00e7\u00e3o em defesa do povo palestino diante do genoc\u00eddio promovido pelo Estado Sionista. O potencial de crescimento deste <a href=\"https:\/\/au.int\/en\/summit\/37\">movimento de pa\u00edses independentes<\/a> \u00e9 incomensur\u00e1vel. Cabe ressaltar trechos do <a href=\"https:\/\/www.gov.br\/planalto\/pt-br\/acompanhe-o-planalto\/discursos-e-pronunciamentos\/2024\/discurso-do-presidente-lula-durante-abertura-da-37a-cupula-da-uniao-africana\">discurso do presidente Lula durante abertura da 37\u00aa C\u00fapula de Chefes de Estado e Governo da Uni\u00e3o Africana<\/a> (UA), em Adis Abeba, Eti\u00f3pia, no dia 17 de fevereiro de 2024.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A presen\u00e7a brasileira e a heran\u00e7a africana no Brasil<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u00c9 com grande alegria que volto pela vig\u00e9sima primeira vez \u00e0 \u00c1frica, agora novamente como presidente do Brasil, para me dirigir aos l\u00edderes da Uni\u00e3o Africana. Venho para reafirmar a parceria e o v\u00ednculo do nosso pa\u00eds e do nosso povo com este continente irm\u00e3o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>A luta africana tem muito em comum com os desafios do Brasil. Mais da metade dos 200 milh\u00f5es de brasileiros se reconhecem como afrodescendentes. N\u00f3s, africanos e brasileiros, precisamos tra\u00e7ar nossos pr\u00f3prios caminhos na ordem internacional que surge.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>A mudan\u00e7a no &#8220;equil\u00edbrio&#8221; do Sistema Internacional<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>Tentativas de restituir um sistema internacional baseado em blocos ideol\u00f3gicos n\u00e3o possuem lastro na realidade. A multipolaridade \u00e9 um componente inexor\u00e1vel e bem-vindo do s\u00e9culo XXI. A consolida\u00e7\u00e3o do BRICS como principal espa\u00e7o de articula\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses emergentes \u00e9 um avan\u00e7o ineg\u00e1vel. Sem os pa\u00edses em desenvolvimento n\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel a abertura de novo ciclo de expans\u00e3o mundial, que combine crescimento, redu\u00e7\u00e3o das desigualdades e preserva\u00e7\u00e3o ambiental, com amplia\u00e7\u00e3o das liberdades. O Sul Global est\u00e1 se constituindo em parte incontorn\u00e1vel da solu\u00e7\u00e3o para as principais crises que afligem o planeta.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>A necess\u00e1ria mudan\u00e7a na ONU e o papel do continente africano<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>De uma ONU fortalecida e que tenha um Conselho de Seguran\u00e7a mais representativo, sem pa\u00edses com poder de veto, e com membros permanentes da \u00c1frica e da Am\u00e9rica Latina. H\u00e1 dois anos a guerra na Ucr\u00e2nia escancara a paralisia do Conselho. Al\u00e9m da tr\u00e1gica perda de vidas, suas consequ\u00eancias s\u00e3o sentidas em todo o mundo, no pre\u00e7o dos alimentos e fertilizantes.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>N\u00e3o haver\u00e1 solu\u00e7\u00e3o militar para esse conflito. \u00c9 chegada a hora da pol\u00edtica e da diplomacia. Senhoras e senhores, com seus 1 bilh\u00e3o e 500 milh\u00f5es de habitantes, e seu imenso e rico territ\u00f3rio, a \u00c1frica tem enormes possibilidades para o futuro. O Brasil quer crescer junto com a \u00c1frica, mas sem ditar caminhos a ningu\u00e9m.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>O perfil e o potencial da Uni\u00e3o Africana<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A Uni\u00e3o Africana tem como membros todos os 55 pa\u00edses do continente. Dada a dimens\u00e3o territorial, a \u00c1frica se divide em subregi\u00f5es com elevado grau de autonomia e interdepend\u00eancia. Observemos as regionalidades e seus Estados.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c1frica Central<\/p>\n\n\n\n<p>Burundi, Camar\u00f5es, Rep\u00fablica Centro-Africana, Chade, Rep\u00fablica do Congo, Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo, Guin\u00e9 Equatorial, Gab\u00e3o, S\u00e3o Tom\u00e9 e Pr\u00edncipe.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c1frica Oriental<\/p>\n\n\n\n<p>Comores, Djibuti, Eritreia, Eti\u00f3pia, Qu\u00eania, Madagascar, Maur\u00edcias, Ruanda, Seicheles, Som\u00e1lia, Sud\u00e3o do Sul Rep\u00fablica do Sud\u00e3o, Tanz\u00e2nia e Uganda.<\/p>\n\n\n\n<p>Norte da \u00c1frica<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c1rg\u00e9lia, Egito, L\u00edbia, Maurit\u00e2nia, Marrocos, Rep\u00fablica Saaraui e Tun\u00edsia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c1frica Austral<\/p>\n\n\n\n<p>Angola, Botsuana, Essuat\u00edni, Lesoto, Malawi, Mo\u00e7ambique, Nam\u00edbia, \u00c1frica do Sul, Z\u00e2mbia e Zimb\u00e1bue.<\/p>\n\n\n\n<p>Oeste da \u00c1frica<\/p>\n\n\n\n<p>B\u00eanin, Burkina Faso, Cabo Verde, Costa do Marfim, G\u00e2mbia, Gana, Guin\u00e9, Guin\u00e9 Bissau, Lib\u00e9ria, Mali, N\u00edger, Nig\u00e9ria, Senegal, Serra Leoa e Togo.<\/p>\n\n\n\n<p>Se formos elencar os problemas determinantes que atravessam todos (ou quase todos) os pa\u00edses da UA podemos listar a car\u00eancia de infraestrutura, a necessidade de investimentos de longo prazo, a busca permanente por soberania alimentar, a inser\u00e7\u00e3o produtiva da enorme popula\u00e7\u00e3o jovem e os riscos de instabilidade na pol\u00edtica dom\u00e9stica (neste caso, com redes salafistas, manipula\u00e7\u00e3o de disputas \u00e9tnicas e poss\u00edvel separatismo). A influ\u00eancia das pot\u00eancias ocidentais segue sendo um problema, pois atrav\u00e9s de suas Transnacionais (TNCs) aprofundam a primariza\u00e7\u00e3o de suas economias.<\/p>\n\n\n\n<p>Um exemplo completo \u00e9 a regi\u00e3o leste da Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo que <a href=\"https:\/\/www.dw.com\/pt-002\/rdc-enfrenta-crise-humanit\u00e1ria-sem-precedentes\/a-68518753#:~:text=A escalada de viol\u00eancia no,uma crise humanit\u00e1ria sem precedentes.\">h\u00e1 muito \u00e9 palco de a\u00e7\u00f5es armadas de mais de 120 grupos armados<\/a> que lutam por uma parte do ouro e de outros recursos naturais da regi\u00e3o, ao mesmo tempo que efetuam assass\u00ednios em massa. De acordo com a ONU, h\u00e1 uma crise humanit\u00e1ria sem precedentes que provocou o deslocamento de 250 mil pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>A explora\u00e7\u00e3o de minerais estrat\u00e9gicos com pre\u00e7os rebaixados e a porosidade do aparelho de Estado (com for\u00e7as armadas pass\u00edveis de influ\u00eancia ocidental) favorecem o chamado nexo econ\u00f4mico-criminal, com agentes locais e regionais a servi\u00e7o do capital estrangeiro e especulativo. Assim, algumas demandas securit\u00e1rias s\u00e3o sempre emergenciais e levam \u00e0s elites dirigentes a tomarem decis\u00f5es no plano das rela\u00e7\u00f5es exteriores, orientando suas alian\u00e7as a partir da presen\u00e7a do capital e miss\u00f5es de coopera\u00e7\u00e3o n\u00e3o ocidentais.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante da desinforma\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica dos meios de comunica\u00e7\u00e3o ocidentais, terminamos por associar aos pa\u00edses africanos apenas a crises sist\u00eamicas, passando longe da dimens\u00e3o virtuosa do chamado Renascimento Africano (Renascen\u00e7a no termo original em ingl\u00eas). Segundo o <a href=\"https:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/artigo\/7233-o-seculo-xxi-como-o-seculo-africano-o-african-renaissance\">professor da UNIFESP Anselmo Ot\u00e1vio, especialista em \u00c1frica<\/a>:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<em>O African Renaissance no \u00e2mbito regional considera que a maior articula\u00e7\u00e3o entre todos os povos africanos \u00e9 fundamental para romper com os flagelos existentes no continente. J\u00e1 na intera\u00e7\u00e3o entre o continente africano e o mundo, o African Renaissance deseja uma forma diferenciada de pacto, este n\u00e3o mais marcado pelo assistencialismo, mas sim pela coopera\u00e7\u00e3o.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>A Comunidade Econ\u00f4mica dos Estados da \u00c1frica Ocidental (CEDEAO) e a sa\u00edda de pa\u00edses-chave<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em 28 de janeiro deste ano, <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/01\/29\/niger-mali-e-burkina-faso-saem-da-cedeao-apos-retaliacao-de-levantes-militares-anticoloniais\">Burkina Faso, N\u00edger e Mali deixaram a CEDEAO<\/a> denunciando as &#8220;san\u00e7\u00f5es ilegais, ileg\u00edtimas, desumanas e irrespons\u00e1veis&#8221; aplicadas pelo bloco aos seus governos (levando a morte de mais de 125 mil pessoas, na maior parte composta por mulheres e crian\u00e7as). Os tr\u00eas pa\u00edses ex-col\u00f4nias francesas, diante de graves problemas de seguran\u00e7a interna, p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es de troca de minerais (com as empresas da Fran\u00e7a pagando pre\u00e7os \u00ednfimos e sem nenhum sinal de industrializa\u00e7\u00e3o) e dirigentes mais vinculados \u00e0s decis\u00f5es estrat\u00e9gicas do minist\u00e9rio de rela\u00e7\u00f5es exteriores da Fran\u00e7a do que de seus pr\u00f3prios pa\u00edses.<\/p>\n\n\n\n<p>Infelizmente, a forma de tomada do poder e nacionaliza\u00e7\u00e3o de interesses de Estado se deu atrav\u00e9s de golpes e insurg\u00eancias dos militares profissionais. De todos modos, entre elites civis corruptas e neoloconiais e a oferta de coopera\u00e7\u00e3o e seguran\u00e7a vindas da R\u00fassia, combinando com a sempre permanente possibilidade de investimento chin\u00eas de m\u00e9dio e longo prazo, N\u00edger, Mali e Burkina Faso criaram a Alian\u00e7a dos Estados do Sahel, reorientando sua pol\u00edtica externa.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O caminho da multipolaridade nas alian\u00e7as, investimentos e coopera\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Apesar da ignor\u00e2ncia e triste papel desinformativo a respeito das potencialidades brasileiras e a Uni\u00e3o Africana, h\u00e1 um caminho tra\u00e7ado pela diplomacia profissional de nosso pa\u00eds e vai ao encontro do Renascimento Africano. O Brasil tem uma presen\u00e7a j\u00e1 consolidade na \u00e1rea da coopera\u00e7\u00e3o internacional, com \u00eanfase na produ\u00e7\u00e3o de alimentos nos pa\u00edses parceiros. A partir deste caminho, outras vias podem se abrir.<\/p>\n\n\n\n<p>A escala de investimentos chineses em projetos de infraestrutura de m\u00e9dio e longo prazos opera como catalisadora para que mais pa\u00edses do continente busquem rela\u00e7\u00f5es e parcerias semelhantes. A China abriu uma nova trajet\u00f3ria sendo secundada por R\u00fassia, Turquia e Ir\u00e3. A tend\u00eancia \u00e9 que a \u00cdndia amplie ainda mais sua presen\u00e7a atrav\u00e9s da costa do Oceano \u00cdndico e projetos de investimentos triangulares (entre dois pa\u00edses investidores e o receptor de capitais) aumentem em escala consider\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Com solu\u00e7\u00f5es de problemas de seguran\u00e7a e defesa regional, a Uni\u00e3o Africana pode ser o motor de multilateralismo necess\u00e1ria para o desenvolvimento continental. O Brasil tem um papel fundamental nesta etapa, apesar da desinforma\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica promovida contra a pol\u00edtica externa altiva e soberana da diplomacia profissional brasileira em busca das parcerias africanas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Uni\u00e3o Africana tem como membros todos os 55 pa\u00edses do continente. Dada a dimens\u00e3o territorial, a \u00c1frica se divide em subregi\u00f5es com elevado grau de autonomia e interdepend\u00eancia. 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