{"id":1236,"date":"2010-05-28T19:19:33","date_gmt":"2010-05-28T19:19:33","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/?p=1236"},"modified":"2010-05-28T19:19:33","modified_gmt":"2010-05-28T19:19:33","slug":"uma-breve-avaliacao-do-acordo-nuclear-intermediado-pelo-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=1236","title":{"rendered":"Uma breve avalia\u00e7\u00e3o do acordo nuclear intermediado pelo Brasil"},"content":{"rendered":"<figure class=\"image-container image-post-defautl\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/erdogan_iran_b.jpg\" title=\"A aproxima\u00e7\u00e3o entre Ir\u00e3 e Turquia, dois Estados representantes de matrizes civilizat\u00f3rias pan-isl\u00e2micas e n\u00e3o-\u00e1rabes pode vir a criar um novo eixo de for\u00e7a no Oriente M\u00e9dio e na \u00c1sia Central; freando tanto o integrismo sunita\/wahabita como as pretens\u00f5es do Imp\u00e9rio e de Israel.  - Foto:blog.foreignpolicy\" alt=\"A aproxima\u00e7\u00e3o entre Ir\u00e3 e Turquia, dois Estados representantes de matrizes civilizat\u00f3rias pan-isl\u00e2micas e n\u00e3o-\u00e1rabes pode vir a criar um novo eixo de for\u00e7a no Oriente M\u00e9dio e na \u00c1sia Central; freando tanto o integrismo sunita\/wahabita como as pretens\u00f5es do Imp\u00e9rio e de Israel.  - Foto:blog.foreignpolicy\" class=\"image\"><figcaption class=\"fig-caption\">A aproxima\u00e7\u00e3o entre Ir\u00e3 e Turquia, dois Estados representantes de matrizes civilizat\u00f3rias pan-isl\u00e2micas e n\u00e3o-\u00e1rabes pode vir a criar um novo eixo de for\u00e7a no Oriente M\u00e9dio e na \u00c1sia Central; freando tanto o integrismo sunita\/wahabita como as pretens\u00f5es do Imp\u00e9rio e de Israel. <\/figcaption><small itemprop=\"copyrightHolder\" class=\"copyright\"> Foto:blog.foreignpolicy<\/small><\/figure>\n<p>28 de maio de 2010, da Vila Setembrina dos Farrapos tra&iacute;dos por latifundi&aacute;rios que se recusaram a ganhar uma guerra, Bruno Lima Rocha <\/p>\n<p>&Eacute; comum escutarmos apelos midi&aacute;ticos afirmando que o desenvolvimento nuclear do Ir&atilde; justifica uma preocupa&ccedil;&atilde;o da assim chamada &ldquo;comunidade&rdquo; internacional. Mesmo discordando dessa id&eacute;ia de multilateralismo nunca verificado, eu diria que a resposta certa &eacute; ambivalente. <\/p>\n<p>Sim, justifica uma preocupa&ccedil;&atilde;o porque o Ir&atilde; de fato pode e deve vir a gerar capacidade de desenvolvimento de armas nucleares. O momento atual, de negocia&ccedil;&atilde;o com a Ag&ecirc;ncia Internacional de Energia At&ocirc;mica (IAEA, ver: www.iaea.org) tamb&eacute;m pode dar o tempo necess&aacute;rio para, em segredo absoluto, simultaneamente desenvolver a tecnologia necess&aacute;ria. Mas, este caso nem de longe se parece com os do conflito no Golfo. O Iraque n&atilde;o tinha condi&ccedil;&otilde;es de desenvolvimento de armas de destrui&ccedil;&atilde;o em massa, ainda mais depois da derrota-empate do Imp&eacute;rio (sob governo de Bush pai) na 1&ordf; guerra do Golfo. Agora o caso &eacute; outro. O Ir&atilde; &eacute; um pa&iacute;s com alto desenvolvimento tecnol&oacute;gico, bom padr&atilde;o educacional e um aparelho de Estado mais forte e menos corrupto do que o ex-Estado criado pelos ingleses e dominado pelo cl&atilde; Hussein como chefe pol&iacute;tico dos cl&atilde;s sunitas afiliados ao &ldquo;partido&rdquo; Baath. Ou seja, o Ir&atilde; pode vir a construir a bomba sim. <\/p>\n<p>E a preocupa&ccedil;&atilde;o N&Atilde;O &eacute; significativa porque o Ir&atilde; ter a capacidade beligerante nuclear n&atilde;o significa uma perda ou perigo para a comunidade internacional. Digo n&atilde;o necessariamente. Israel tem a bomba, &Iacute;ndia e Paquist&atilde;o tamb&eacute;m e n&atilde;o passamos por uma guerra nuclear na &Aacute;sia Central, no Oriente M&eacute;dio ou no Subcontinente Indiano. O que muda &eacute; a perda de capacidade dissuas&oacute;ria israelense sem ter um advers&aacute;rio &agrave; altura. Isso se vier a acontecer, ser&aacute; uma novidade.<\/p>\n<p>Como somos permanentemente bombardeados por informa&ccedil;&otilde;es e releases sa&iacute;dos de think tanks de Washington, &eacute; muito dif&iacute;cil separar as posi&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas da desinforma&ccedil;&atilde;o em escala industrial, fabricada para que n&atilde;o tenhamos opini&atilde;o cr&iacute;tica. &Eacute; comum ouvir de forma retumbante que o Estado persa n&atilde;o tolera a subordina&ccedil;&atilde;o &ldquo;natural&rdquo; de um pa&iacute;s perif&eacute;rico (ainda que desenvolvido), para o &ldquo;equil&iacute;brio da Paz e Seguran&ccedil;a internacional&rdquo;. Bem, se levarmos em conta que este &ldquo;equil&iacute;brio&rdquo; fez-se sentir em seu pa&iacute;s com um golpe de Estado sucedido de uma monarquia corrupta como a do Sh&aacute; Rehza Pahlevi, ent&atilde;o &eacute; coerente que o presidente do Ir&atilde; tenha uma postura contundente e n&atilde;o subserviente para com os pa&iacute;ses centrais. Parte-se de um princ&iacute;pio de equival&ecirc;ncia e vejo isso como positivo. Se Israel tem a bomba, e &eacute; um Estado belicista, porque outro Estado rival, atrav&eacute;s de seu governo n&atilde;o pode desenvolv&ecirc;-la? O acordo n&atilde;o &eacute; vi&aacute;vel para a atual estrat&eacute;gia do Imp&eacute;rio para o mundo isl&acirc;mico porque entraria em desalinho com o vetor israelense. Dada a sua inferioridade num&eacute;rica, o pa&iacute;s de Menahem Begin necessita ter superioridade militar tecnol&oacute;gica, de material humano, um aporte infind&aacute;vel dos EUA e a capacidade terminativa nuclear. Caso venha a perder estas capacidades, ou uma destas, muda o jogo de for&ccedil;as em todas as regi&otilde;es envolvidas (Oriente M&eacute;dio, Golfo P&eacute;rsico e &Aacute;sia Central). <\/p>\n<p>Neste cen&aacute;rio a posi&ccedil;&atilde;o da Administra&ccedil;&atilde;o Obama &eacute; no m&iacute;nimo desconfort&aacute;vel e a de Israel desesperadora. E, como &eacute; imposs&iacute;vel governar nos EUA sem levar em conta o lobby sionista (o maior do mundo, a AIPAC, com mais de 7.000 funcion&aacute;rios a tempo completo), possivelmente o presidente do Imp&eacute;rio operou nas entrelinhas, apostando na intensa busca por protagonismo brasileiro. &Eacute; sabido que o Brasil vem lan&ccedil;ando-se por todos os lados e formas como agente fundamental de uma poss&iacute;vel nova ordem, baseada no G-20 e n&atilde;o no G-8, que estaria por vir. Isso veio ao encontro do acionar diplom&aacute;tico iraniano, com especial aten&ccedil;&atilde;o para as possibilidades de parcerias comerciais na Am&eacute;rica Latina. No terreno sens&iacute;vel, esta a&ccedil;&atilde;o se fez sentir. <\/p>\n<p>Portanto, n&atilde;o &eacute; um absurdo imaginar que a a&ccedil;&atilde;o da diplomacia brasileira, indo al&eacute;m na execu&ccedil;&atilde;o recomendada pelo presidente dos EUA Barack Obama, endere&ccedil;ada para o presidente Lula e datada de 20 de abril (<a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mundo\/741132-leia-integra-traduzida-da-carta-de-barack-obama-a-lula-sobre-acordo-com-o-ira.shtml\">leia neste link a &iacute;ntegra da correspond&ecirc;ncia<\/a>). O Brasil operou no v&aacute;cuo entre a Casa Branca da administra&ccedil;&atilde;o Obama e a semi-autonomia do Departamento de Estado (equivale ao Minist&eacute;rio das Rela&ccedil;&otilde;es Exteriores) e o Pent&aacute;gono (Minist&eacute;rio da Defesa). Mesmo que o acordo n&atilde;o venha a dar em algo concreto &ndash; o que &eacute; poss&iacute;vel, mas n&atilde;o &eacute; prov&aacute;vel &ndash; o fato de por si j&aacute; projeta o Estado brasileiro para o centro das rela&ccedil;&otilde;es internacionais. Se isto vier a possibilitar a entrada do Brasil com cadeira permanente no Conselho de Seguran&ccedil;a da ONU, a&iacute; ent&atilde;o seria a consagra&ccedil;&atilde;o da atual pol&iacute;tica externa do pa&iacute;s. Para evitar o elo de for&ccedil;a de Hillary Clinton e a base conservadora da atual administra&ccedil;&atilde;o, optaram pela hip&oacute;tese de risco, que para azar do pr&oacute;prio Obama, est&aacute; dando certo. <\/p>\n<p>Ainda que as probabilidades de acerto na manobra fossem baixas, prevaleceu o senso de oportunidade e, nesse sentido, vejo como muito capacitado o pessoal do Itamaraty e da Secretaria Especial comandada pelo ga&uacute;cho Marco Aur&eacute;lio Garcia, operador de todas as etapas do processo. O Ir&atilde; delimitou as formas do jogo e reduziu o universo de pa&iacute;ses com quem estaria conversando. Ao excluir possibilidade de acordos pr&eacute;vios, e elencar um pa&iacute;s emergente como o Brasil e um da periferia da OTAN (como a Turquia, ber&ccedil;o civilizat&oacute;rio como os persas) e visto com muita desconfian&ccedil;a por Inglaterra, Alemanha e Fran&ccedil;a (l&iacute;deres europeus e da Zona Euro respectivamente), o Estado Teocr&aacute;tico declara aos demais de que forma ir&aacute; se comportar sob governo integrista. Isto porque tampouco h&aacute; muita margem de manobra para o presidente iraniano. Se tivesse recuado diante do Ocidente, o governo de Ahmadinejad poderia ter ca&iacute;do, seja por uma leva de manifesta&ccedil;&otilde;es populares de cunho nacionalista, seja por um golpe de Estado, branco ou teocr&aacute;tico-militar. <\/p>\n<p>O tabuleiro ainda n&atilde;o est&aacute; definido e a intera&ccedil;&atilde;o estrat&eacute;gica &eacute; que far&aacute; prevalecer, de acordo com os campos de for&ccedil;a e, caso, se d&ecirc; uma aproxima&ccedil;&atilde;o maior entre ber&ccedil;os civilizat&oacute;rios isl&acirc;micos n&atilde;o-&aacute;rabes, como Turquia e Ir&atilde;. Tenho de ressaltar que o envio da carta do Ir&atilde; para IAEA apenas adia a retomada do problema. O tema do combust&iacute;vel enriquecido e as armas de destrui&ccedil;&atilde;o em massa do Iraque ficaram indo e vindo por mais de uma d&eacute;cada, at&eacute; os EUA consumarem a 2&ordf; invas&atilde;o, sem apoio da ONU e nem de nenhum outro organismo internacional. Desde 2005 que me lembro de ver o tema do potencial nuclear do Ir&atilde; ser pautado e encontrar eco em agendas internacionais. O que pode alterar essa balan&ccedil;a &eacute; uma nova distribui&ccedil;&atilde;o de poder em escala global e tamb&eacute;m em regi&otilde;es tensas e de recursos estrat&eacute;gicos para o atual modelo de expans&atilde;o capitalista. Os acordos de momento paralisam a investida do Departamento de Estado, mas &eacute; uma quest&atilde;o de tempo para que se criem acidentes internacionais de modo que a vigil&acirc;ncia sobre o Ir&atilde; retorne. <\/p>\n<p><strong>Observa&ccedil;&atilde;o fundamental:<\/strong> &Eacute; preciso ressaltar dois aspectos. Um, trata de jamais pensar em alinhamento autom&aacute;tico entre a an&aacute;lise que fiz e o apoio, t&aacute;cito ou velado, ao governo Lula. Ao mesmo tempo, posiciono as cr&iacute;ticas a estes oito anos de ocupa&ccedil;&atilde;o do Poder Executivo do Brasil por esquerda e longe das urnas. Outro aspecto aborda o tema do anti-imperialismo e da tenta&ccedil;&atilde;o autorit&aacute;ria. Em nenhum momento estou afirmando ser positivo o regime integrista e tampouco o governo do atual presidente. Internamente a pol&iacute;tica iraniana &eacute; dura contra os dissidentes e mesmo os oposicionistas de dentro do regime n&atilde;o t&ecirc;m tranq&uuml;ilidade alguma para manifestar suas opini&otilde;es pol&iacute;ticas, est&eacute;ticas, societ&aacute;rias e religiosas. Igualmente considero um absurdo qualquer relativismo revisionista quanto ao tema do Holocausto judeu. Houve Holocausto, foi um crime de lesa-humanidade e &eacute; e sempre ser&aacute; imperdo&aacute;vel. T&atilde;o imperdo&aacute;vel como os massacres contra os palestinos, a exemplo de Sabra e Chatila, Deir Yassin e outros tantos; &eacute; t&atilde;o imperdo&aacute;vel quanto o n&atilde;o cumprimento das resolu&ccedil;&otilde;es de 1967, que implicariam na retirada de Israel dos Territ&oacute;rios Ocupados. Ressalto que para nenhum par&acirc;metro de sociedade igualit&aacute;ria com liberdades e direitos assegurados, o Ir&atilde; como regime n&atilde;o &eacute; defens&aacute;vel. O que est&aacute; em jogo &eacute; a sua autodetermina&ccedil;&atilde;o e esta, como tal, &eacute; inegoci&aacute;vel. <\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/index.php?option=com_noticias&amp;Itemid=18&amp;task=detalhe&amp;id=32868\">Este artigo foi originalmente publicado no portal do Instituto Humanitas da Unisinos (IHU) <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A aproxima\u00e7\u00e3o entre Ir\u00e3 e Turquia, dois Estados representantes de matrizes civilizat\u00f3rias pan-isl\u00e2micas e n\u00e3o-\u00e1rabes pode vir a criar um novo eixo de for\u00e7a no Oriente M\u00e9dio e na \u00c1sia Central; freando tanto o integrismo sunita\/wahabita como as pretens\u00f5es do Imp\u00e9rio e de Israel. Foto:blog.foreignpolicy 28 de maio de 2010, da Vila Setembrina dos Farrapos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-1236","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"jetpack_publicize_connections":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1236","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1236"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1236\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1236"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1236"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1236"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}