{"id":1284,"date":"2010-08-23T01:14:17","date_gmt":"2010-08-23T01:14:17","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/?p=1284"},"modified":"2010-08-23T01:14:17","modified_gmt":"2010-08-23T01:14:17","slug":"as-visoes-do-estado-como-regulador-social-e-na-definicao-macroeconomica-premissas-e-temporalidades-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=1284","title":{"rendered":"As vis\u00f5es do Estado como regulador social e na defini\u00e7\u00e3o macroecon\u00f4mica. Premissas e temporalidades &#8211; 2"},"content":{"rendered":"<figure class=\"image-container image-post-defautl\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/pablo_gonzalez_casanova.jpg\" title=\"Pablo Gonzalez Casanova, ex-reitor da UNAM e um intelectual mexicano que deveria ser leitura obrigat\u00f3ria para todos os cursos de ci\u00eancias humanas, sociais e sociais aplicadas da Am\u00e9rica Latina. Sua lucidez reproduzida em forma de texto possibilita de maneira simples e acess\u00edvel, a desconstru\u00e7\u00e3o dos mitos da implanta\u00e7\u00e3o de tipos ideais do centro do capitalismo em nosso Continente - Foto:Unam\" alt=\"Pablo Gonzalez Casanova, ex-reitor da UNAM e um intelectual mexicano que deveria ser leitura obrigat\u00f3ria para todos os cursos de ci\u00eancias humanas, sociais e sociais aplicadas da Am\u00e9rica Latina. Sua lucidez reproduzida em forma de texto possibilita de maneira simples e acess\u00edvel, a desconstru\u00e7\u00e3o dos mitos da implanta\u00e7\u00e3o de tipos ideais do centro do capitalismo em nosso Continente - Foto:Unam\" class=\"image\"><figcaption class=\"fig-caption\">Pablo Gonzalez Casanova, ex-reitor da UNAM e um intelectual mexicano que deveria ser leitura obrigat\u00f3ria para todos os cursos de ci\u00eancias humanas, sociais e sociais aplicadas da Am\u00e9rica Latina. Sua lucidez reproduzida em forma de texto possibilita de maneira simples e acess\u00edvel, a desconstru\u00e7\u00e3o dos mitos da implanta\u00e7\u00e3o de tipos ideais do centro do capitalismo em nosso Continente<\/figcaption><small itemprop=\"copyrightHolder\" class=\"copyright\"> Foto:Unam<\/small><\/figure>\n<p>23 de setembro de 2010, da Vila Setembrina de farrapos subordinados a latifundi&aacute;rios escravocratas, <em>Bruno Lima Rocha<\/em> <\/p>\n<p><strong>Introdu&ccedil;&atilde;o deste artigo na s&eacute;rie: <br \/>\n<\/strong><br \/>\nRetomamos esta s&eacute;rie no intuito de manter atualizada a cr&iacute;tica tanto da economia neocl&aacute;ssica, como para firmar posi&ccedil;&atilde;o de n&atilde;o alinhamento com as op&ccedil;&otilde;es keynesianas. Entendemos que ap&oacute;s a queda do Muro de Berlim, do massacre do Levante da Pra&ccedil;a da Paz Celestial (Tianamen) e do fato do Capitalismo de Estado ser derrotado em quase todo o planeta, a simples defesa do patrim&ocirc;nio p&uacute;blico, mesmo que em sua forma estatal, ganhou ares de resist&ecirc;ncia global. Hoje, &eacute; imposs&iacute;vel para algu&eacute;m minimamente preocupado com a distribui&ccedil;&atilde;o de riquezas e a soberania popular, tentar defender algumas posi&ccedil;&otilde;es de tipo privatista ou de economia mista ou mesmo de novo tipo legal &ndash; a saber &ndash; utilizando-se da farsa de pessoas jur&iacute;dicas criadas no p&oacute;s-Consenso de Washington. No caso brasileiro, isto se refere &agrave;s famigeradas figuras jur&iacute;dicas da PPPs &ndash; Parcerias P&uacute;blico Privadas, como tamb&eacute;m as Organiza&ccedil;&otilde;es da Sociedade Civil de Interesse P&uacute;blico (OSCIPs) e, por fim, &agrave; &uacute;ltima onda privatizante do Minist&eacute;rio da Sa&uacute;de, na cria&ccedil;&atilde;o de Funda&ccedil;&otilde;es Privadas de Interesse P&uacute;blico.<\/p>\n<p>N&atilde;o vemos estas novas pessoas jur&iacute;dicas como a publiciza&ccedil;&atilde;o de parcelas do Estado capitalista para a sociedade organizada, mas sim o emprego de novas modalidades de pessoas jur&iacute;dicas empresariais, desonerando o caixa do Estado e podendo repassar de forma direta ou indireta as receitas advindas com a sobrecarga de impostos direto para cofres de tipo privado ou semi-privado. Se h&aacute; alguma forma de tornar mais p&uacute;blico o Estado capitalista brasileiro, esta se encontra nos eixos de luta dentro das defesas dos direitos adquiridos, como a base legal do Sistema &Uacute;nico de Sa&uacute;de (SUS), na Autonomia Universit&aacute;ria, na Lei que rege o Conselho Comunidade Escola e outras do g&ecirc;nero. Nestes casos, o quesito de participa&ccedil;&atilde;o direta torna-se fundamental e cabe &agrave;s Fazendas dos tr&ecirc;s n&iacute;veis de governo implicados o repasse de divisas para a autogest&atilde;o constru&iacute;da a partir de uma parcela da popula&ccedil;&atilde;o organizada. <\/p>\n<p>Como se pode ver, desenvolvemos aqui os argumentos dentro das lutas imediatas e das aproxima&ccedil;&otilde;es te&oacute;ricas com este problema. Reconhecemos que o debate do Estado e da democracia aqui presente se situa por dentro dos par&acirc;metros das disputas dentro das concep&ccedil;&otilde;es da economia capitalista, em especial nos embates diretos entre a economia pol&iacute;tica n&atilde;o-cr&iacute;tica (desenvolvimentismo) X neocl&aacute;ssicos (neoliberais, neoinstitucionalistas e outras deriva&ccedil;&otilde;es). O aporte aqui ainda &eacute; quase que somente o de cr&iacute;tica, porque a contribui&ccedil;&atilde;o ao pensamento econ&ocirc;mico atual, de matriz distributivista e defendendo as liberdades pol&iacute;ticas, ainda n&atilde;o foi aqui devidamente desenvolvida. Isto acontecer&aacute;, mas antes precisamos afiar a cr&iacute;tica ao neoliberalismo, seus nefastos efeitos e a defesa imediata de postos de trabalho e luta contra toda forma de privatiza&ccedil;&atilde;o. Por dentro do servi&ccedil;o p&uacute;blico, &eacute; poss&iacute;vel aumentar o poder do povo organizado atrav&eacute;s de organiza&ccedil;&otilde;es sindicais e de usu&aacute;rios. Por dentro do sistema privatizado, a &uacute;nica forma &eacute; a coletiviza&ccedil;&atilde;o (no longo prazo) e a encampa&ccedil;&atilde;o no curto. Vamos &agrave;s cr&iacute;ticas. <\/p>\n<p><strong>As duas vit&oacute;rias pol&iacute;ticas do neoliberalismo no centro do sistema capitalista <br \/>\n<\/strong><br \/>\nNesta s&eacute;rie, n&atilde;o nos centramos nos estudos dos Estados do chamado Socialismo Real (ou de Capitalismo de Estado, regimes politicamente fechados, ditaduras de inspira&ccedil;&atilde;o marxista), embora tamb&eacute;m tenham sido contempor&acirc;neos do P&oacute;s-Guerra e da Bipolaridade. Para situar o leitor no tempo, o avan&ccedil;o do neoliberalismo se inicia na vit&oacute;ria eleitoral de Margaret Thatcher, do Partido Conservador Ingl&ecirc;s, no ano de 1979, e na seguinte vit&oacute;ria de Ronald Reagan, pelo Partido Republicano dos EUA, no ano de 1980. <\/p>\n<p>A relev&acirc;ncia destas duas vit&oacute;rias pol&iacute;ticas pode ser compreendida pelo momento vivido na d&eacute;cada de &rsquo;70 pelos operadores pol&iacute;ticos e acad&ecirc;micos dos pa&iacute;ses desenvolvidos do ocidente capitalista. A este respeito, &eacute; interessante notar uma passagem de tipo quase did&aacute;tico, produzida por pesquisadores da UFRGS, a saber, Cunha, Ferrari e Caldeira (2007), afirmando que: <\/p>\n<p><em>A partir dos anos 1970 o &ldquo;consenso keynesiano&rdquo; foi quebrado na academia e na pol&iacute;tica. Infla&ccedil;&atilde;o e desemprego em alta minaram a confian&ccedil;a em torno da alegada capacidade dos policymakers realizarem, atrav&eacute;s das pol&iacute;ticas fiscal e monet&aacute;ria (especialmente a primeira), a sintonia fina dos ajustes macroecon&ocirc;micos. Para as novas gera&ccedil;&otilde;es de acad&ecirc;micos n&atilde;o existia mais o fantasma do esfacelamento da sociedade pelas for&ccedil;as indom&aacute;veis dos mercados livres. <\/p>\n<p><\/em>Ainda segundo Cunha, Ferrari e Caldeira (2007), &ldquo;<em>as id&eacute;ias do mundo pr&eacute;-keynesiano haviam apenas hibernado<\/em>&rdquo;. A vit&oacute;ria do refluxo conservador assinalado por Ronald Reagan (EUA) e Margaret Thatcher (1979) assegurara dentro do Ocidente desenvolvido a vit&oacute;ria do sistema de id&eacute;ias marcado por um liberalismo que se reorganizara ap&oacute;s a 2&ordf; Guerra. Este novo consenso macroecon&ocirc;mico tinha base na teoria das expectativas racionais (a panac&eacute;ia de maximizar ganhos e minimizar perdas, individualizando todo objeto de an&aacute;lise) e &ldquo;<em>na id&eacute;ia de que a pol&iacute;tica macroecon&ocirc;mica ativa seria redundante, porque estava sujeita a antecipa&ccedil;&atilde;o por parte dos agentes econ&ocirc;micos<\/em>&rdquo;. (id) <\/p>\n<p>O marco de compara&ccedil;&atilde;o na formula&ccedil;&atilde;o de Estado, d&aacute;-se entre o Estado Neoliberal e o de Bem-estar, e no caso do subcontinente latino-americano, especificamente a sua vers&atilde;o Nacional-Desenvolvimentista. Diante desse enunciado, comparemos pois os desenhos e atribui&ccedil;&otilde;es que s&atilde;o fruto de fatores diversos (fora da rela&ccedil;&atilde;o causal). O per&iacute;odo de tempo do Estado Neoliberal latino-americano &eacute; o das d&eacute;cadas de 1990 e 2000, antes do advento dos novos governos nacionais e intervencionistas. &Eacute; interessante observar os efeitos pol&iacute;ticos e societ&aacute;rios, a partir do receitu&aacute;rio aplicado na d&eacute;cada de &rsquo;90 na Am&eacute;rica Latina, encontrados de forma generalizada no artigo do professor paraguaio Victor Barone (1998), segundo o autor: <\/p>\n<p><em>Os processos de fragmenta&ccedil;&atilde;o social avan&ccedil;am e consolida-se o desemprego estrutural, que converte aos trabalhadores em informais, auto-empregados e lumpen. As cidades e os campos povoam-se de favelas de emerg&ecirc;ncia, e as sociedades se polarizam entre muito ricos e muito pobres, liquidando paulatinamente a classe m&eacute;dia. Os efeitos do neoliberalismo s&atilde;o similares aos vividos pelos agricultores e a pequena manufatura domicili&aacute;ria nos albores do capitalismo tempor&atilde;o, que viram como o emergente mercado capitalista, exigia a interven&ccedil;&atilde;o do Estado Vitoriano, para converter aos camponeses deslocados de suas terras e aos trabalhadores deslocados, em criminosos gra&ccedil;as &agrave; &quot;lei de vag&acirc;ncia&quot; que os enviava &agrave;s &quot;Casas de Trabalho (&ldquo;WorkHouse&quot;) a produzir gratuitamente o fundo de reprodu&ccedil;&atilde;o para o nascente capital.&rdquo; <br \/>\n<\/em><br \/>\nO in&iacute;cio de uma contra-hegemonia na Am&eacute;rica Latina em rela&ccedil;&atilde;o ao dom&iacute;nio neoliberal teria como marco o governo de Hugo Ch&aacute;vez (1998) &ndash; marcado por duas etapas e disputas entre oficialistas e bolivarianos mais &agrave; esquerda &#8211; acentuando este perfil anti-neoliberal ap&oacute;s a derrota do intento de Golpe de abril de 2002. O avan&ccedil;o das propostas de regula&ccedil;&atilde;o social atrav&eacute;s de interven&ccedil;&atilde;o estatal macro-econ&ocirc;mica tamb&eacute;m &eacute; parte do advento das elei&ccedil;&otilde;es de esquerdas na Am&eacute;rica Latina. Os debates a respeito do populismo, neopopulismo e populismo econ&ocirc;mico a seguir se discutem. <\/p>\n<p><strong>Premissas de An&aacute;lise na rela&ccedil;&atilde;o entre os limites democr&aacute;ticos e o desenho de Estado <br \/>\n<\/strong><br \/>\nComo j&aacute; vem sendo afirmado em trabalhos anteriores, a posi&ccedil;&atilde;o do pesquisador-autor &eacute; vista por n&oacute;s como elemento central na produ&ccedil;&atilde;o do conhecimento. Seguindo uma tradi&ccedil;&atilde;o de an&aacute;lise multicausal, aprofunda o tema e assume uma perspectiva renovada a forma de an&aacute;lise proposta pelo professor mexicano Pablo Gonz&aacute;lez Casanova (1967) em sua obra &ldquo;A Democracia no M&eacute;xico&rdquo;. O autor parte de um ponto de vista que recusa a compara&ccedil;&atilde;o entre tipos ideais de desenvolvimento econ&ocirc;mico nos pa&iacute;ses centrais e as supostas &ldquo;anomalias&rdquo; ocorridas nos pa&iacute;ses latino-americanos. <\/p>\n<p>Casanova afirma que estas compara&ccedil;&otilde;es t&ecirc;m &ldquo;fun&ccedil;&atilde;o program&aacute;tica, ut&oacute;pica e ritual&rdquo; (1967, p.9) e prev&ecirc; a tarefa urgente de confrontar os modelos jur&iacute;dicos ortodoxos e oficiais com a realidade (p.9). Assim, com base nas observa&ccedil;&otilde;es formulamos expomos o seguinte modelo de an&aacute;lise (Casanova p.8): <\/p>\n<p><em>I &ndash; a rela&ccedil;&atilde;o da estrutura pol&iacute;tica formal &ndash; os modelos te&oacute;ricos e jur&iacute;dicos de governo &ndash; com a estrutura real de poder; <\/p>\n<p>II &ndash; a rela&ccedil;&atilde;o do poder nacional &ndash; a Na&ccedil;&atilde;o-Estado &ndash; com a estrutura internacional; <\/p>\n<p>III &ndash; a rela&ccedil;&atilde;o da estrutura do poder com a estrutura social, com os grupos macrossociol&oacute;gicos com os estratos, com as classes. <br \/>\n<\/em><br \/>\nRefor&ccedil;amos a id&eacute;ia de que os modelos de Estado e as formas de desenvolvimento econ&ocirc;mico e democr&aacute;tico aplicados na Am&eacute;rica Latina n&atilde;o s&atilde;o &ldquo;an&ocirc;malos&rdquo; perante as democracias do ocidente central. Assim, a utiliza&ccedil;&atilde;o dos modelos de Estado aplicado no debate sobre as democracias realmente existentes, encontra no cen&aacute;rio latino-americano sempre uma reinven&ccedil;&atilde;o e readequa&ccedil;&atilde;o dos modelos de tipos-ideais. <\/p>\n<p>Para entrar na origem do debate, vale observar a compara&ccedil;&atilde;o de propostas e funcionamento do Estado capitalista segundo as cr&iacute;ticas de Adam Przeworski (1995) para a vis&atilde;o keynesiana e liberal. Vale ressaltar o que Przeworski afirma que &ldquo;<em>o que h&aacute; de novo na ideologia (neo)liberal &eacute; o papel dominante desempenhado pela teoria econ&ocirc;mica de cunho t&eacute;cnico<\/em>&rdquo; (p.241). Assim, podemos afirmar a dificuldade de analisar o Estado se partirmos dos conceitos hegem&ocirc;nicos influenciados pela &ldquo;ci&ecirc;ncia econ&ocirc;mica de cunho liberal&rdquo;. &Eacute; comum afirmar a coloniza&ccedil;&atilde;o do saber econ&ocirc;mico sobre os demais. Fruto desta coloniza&ccedil;&atilde;o, segundo o pr&oacute;prio Przeworski, se aplica de forma generalizada a partir do final da d&eacute;cada de 1970. Isto adv&eacute;m com a &ldquo;teoria das expectativas racionais&rdquo; (tamb&eacute;m conhecida como das escolhas &ldquo;racionais&rdquo; somada ao individualismo metodol&oacute;gico) isolando o agente e dando-lhe um grau de autonomia superior &agrave;s conting&ecirc;ncias e cen&aacute;rio onde este se encontra. Przeworski ressalta a capacidade de universaliza&ccedil;&atilde;o da economia e sua forma de &ldquo;colonizar&rdquo; e subordinar outros saberes: <\/p>\n<p>Para o autor: &ldquo;<em>As teorias econ&ocirc;micas s&atilde;o racionaliza&ccedil;&otilde;es de interesses pol&iacute;ticos de classes e grupos conflitantes, e como tal devem ser tratadas. Por tr&aacute;s de alternativas econ&ocirc;micas espreitam vis&otilde;es da sociedade, modelos de cultura e investidas em dire&ccedil;&atilde;o ao poder. Projetos econ&ocirc;micos implicam projetos pol&iacute;ticos e sociais<\/em>.&rdquo; (Pzeworski, 1995, p. 243). Dito isso, expomos os seguintes modelos, de acordo com o autor citado acima. <\/p>\n<p><u>Estado Keynesiano (Bem estar Social) <br \/>\n<\/u><br \/>\nEste modelo surge como uma sa&iacute;da da crise dos anos 1920, como medida de solu&ccedil;&atilde;o para o momento posterior ao Crack de 1929 e &eacute; aplicado em larga escala no P&oacute;s-Guerra. Tem uma de suas bases num acordo pactuado no compromisso entre classes (obs. nossa: advindo da&iacute; o peso do trabalhismo, do socialismo outrora reformista e dos PCs de linha Moscou, com &ecirc;nfase no eurocomunismo). Nos pa&iacute;ses centrais este modelo de Estado funcionara sob regime de democracia concorrencial. O compromisso entre classes e o poder de barganha vinda da mobiliza&ccedil;&atilde;o e do poderio eleitoral da classe trabalhadora formal permitira a alta taxa impositiva como forma de funcionamento de redes de assist&ecirc;ncia e previd&ecirc;ncia social. Houve assim uma concilia&ccedil;&atilde;o da propriedade privada com a gest&atilde;o democr&aacute;tica da economia (obs nossa: podemos afirmar, uma gest&atilde;o de pre&ccedil;os solid&aacute;rios e sal&aacute;rio social, mas sem democratizar, ou horizontalizar as rela&ccedil;&otilde;es de trabalho). E, neste contexto o funcionalismo estatal (altamente sindicalizado) tem forte papel de executora de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas. O mesmo se d&aacute; com a interven&ccedil;&atilde;o de empresas estatais gerando bens de produ&ccedil;&atilde;o e infra-estrutura b&aacute;sica do pa&iacute;s. Para este modelo de sociedade era fundamental a busca do pleno emprego e a presen&ccedil;a de fortes partidos social-democratas representando a for&ccedil;a de trabalho (podemos incluir, neste bojo, a partidos reformistas, como os PCs franc&ecirc;s, italiano, ou mesmo os de democratiza&ccedil;&atilde;o tardia, como os partidos comunistas outrora de linha moscovita, como o portugu&ecirc;s, espanhol e o grego). <\/p>\n<p><u>Estado NeoLiberal <br \/>\n<\/u><br \/>\nA aplica&ccedil;&atilde;o desse modelo tem como justificativa e for&ccedil;a motriz a sa&iacute;da para a crise fiscal do final dos anos 1970 (obs nossa: vale observar que este &eacute; o termo consagrado pela direita para a quebra do Estado de Bem-Estar; compreendemos que a crise fiscal tamb&eacute;m &eacute; fruto da press&atilde;o do capital no intuito de liberar suas for&ccedil;as, descomprometendo-se dos pesados encargos sociais e da carga impositiva). Sua implanta&ccedil;&atilde;o significa a quebra do compromisso do pacto de classes nos pa&iacute;ses centrais. O modelo neoliberal, al&eacute;m de quebrar o pacto entre classes, subordina as decis&otilde;es estatais aos par&acirc;metros t&eacute;cnicos (ideol&oacute;gicos; obs. nossa: na verdade axiomas doutrin&aacute;rios prim&aacute;rios, quase em sentido de ideologia pura, mas devidamente matematizados, criando jarg&atilde;o e linguagem pr&oacute;pria), reconvertendo a tecnocracia de Estado em operadores de pol&iacute;ticas dos grandes capitais. Uma das medidas padr&otilde;es dessa tecnocracia em controle de postos-chave para as economias dos pa&iacute;ses centrais que adotaram este modelo foi baixar a taxa impositiva e liberar maior circula&ccedil;&atilde;o de capitais flutuantes (obs. nossa: agindo em conformidade com seus pr&oacute;prios paradigmas incorporados na academia e nas escolas de governo. Este movimento tamb&eacute;m incidiu na tend&ecirc;ncia &agrave; fus&atilde;o de empresas, gerando maior concentra&ccedil;&atilde;o, criando ou refor&ccedil;ando os oligop&oacute;lios, por vezes at&eacute; assegurando postos de monop&oacute;lios e aumentando a financeiriza&ccedil;&atilde;o da economia. O aumento do peso gravitacional dos agentes financeiros e concentradores na economia, al&eacute;m de uma tecnocracia econ&ocirc;mica de confian&ccedil;a desses capitais, leva ao constrangimento dos programas partid&aacute;rios, cedendo &agrave;s press&otilde;es do contingenciamento global. Esta posi&ccedil;&atilde;o garante a tend&ecirc;ncia de particularizar os interesses gerais e generalizar as metas &ldquo;inexor&aacute;veis&rdquo;, criando assim uma id&eacute;ia de &ldquo;inevitabilidade&rdquo; de execu&ccedil;&atilde;o de determinadas pol&iacute;ticas econ&ocirc;micas padronizadas (obs. nossa: criando uma linha de pensamento como destino manifesto, atingindo o que cr&iacute;ticos latino-americanos chamam de hiper-estruturalismo neoliberal). Assim, a balan&ccedil;a pende para que as rela&ccedil;&otilde;es sejam mais dependentes das institui&ccedil;&otilde;es privadas ao inv&eacute;s das institui&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas. <\/p>\n<p><strong>Linhas conclusivas <br \/>\n<\/strong><br \/>\nPodemos concluir, desde um ponto de vista de defesa da democracia direta e do poder do povo (anti-estatista), que ambas as formas de Estado narradas s&atilde;o vistas hoje como uma rela&ccedil;&atilde;o bin&aacute;ria de fatos consumados. &Eacute; &oacute;bvio que a forma do Estado capitalista que n&atilde;o privatize, garantidora de servi&ccedil;os p&uacute;blicos e sem uma base normativa clientelista, de prebendas, patrimonialista e fisiol&oacute;gica, &eacute; muito mais salutar e prov&ecirc; uma melhor forma de vida para a popula&ccedil;&atilde;o do que a selvageria anti-societ&aacute;ria do neoliberalismo. Ao mesmo tempo, quando os movimentos populares abandonam projetos de poder para aderir a governos de turno ou abrem m&atilde;o da estrat&eacute;gia finalista para uma t&aacute;tica &ldquo;salvadora&rdquo; de momento, terminamos por nos contentar com o mal menor e as reivindica&ccedil;&otilde;es n&atilde;o chegam sequer a ser reformistas. Na atualidade deste texto, tal tipo de pensamento-a&ccedil;&atilde;o vem operando como &ldquo;melhorismo&rdquo; dentro dos mesmos moldes, a exemplo do Brasil atual. A regula&ccedil;&atilde;o social &eacute; uma necessidade e a luta contra a amplia&ccedil;&atilde;o de espa&ccedil;os de mercado no fazer da coisa p&uacute;blica &eacute; uma pauta de urg&ecirc;ncia. Mas, n&atilde;o se pode confundir uma bandeira de luta imediata com os projetos de longo prazo. Estes s&atilde;o somente e t&atilde;o somente consolid&aacute;veis da democracia pol&iacute;tica e de massas (direta), a exemplo das conquistas da APPO e da Outra Campanha, ambos no M&eacute;xico contempor&acirc;neo. <\/p>\n<p>\n<strong>Bibligrafia Referenciada: <br \/>\n<\/strong><br \/>\nBARONE, V&iacute;ctor. Globalizaci&oacute;n y Neoliberalismo. Elementos de una cr&iacute;tica. En publicaci&oacute;n: Globalizaci&oacute;n y Neoliberalismo. Elementos de una cr&iacute;tica. BASE-IS, BASE Investigaciones Sociales, Asunci&oacute;n, Central, Paraguay 1998. Documento eletr&ocirc;nico em http:\/\/sala.clacso.org.ar\/gsdl\/cgi-bin\/library?e; arquivo consultado em 08 de junho de 2008. <\/p>\n<p>CASANOVA, Pablo Gonz&aacute;lez. A Democracia no M&eacute;xico. Rio de Janeiro, Civiliza&ccedil;&atilde;o Brasileira, 1967. <\/p>\n<p>\nCUNHA, Andr&eacute; Moreira, FERRARI, Andr&eacute;s, CALDEIRA, Mirelli Malaguti. A Argentina e o novo desenvolvimentismo. www.anpec.org.br\/encontro2007\/artigos\/A07A036.pdf . Arquivo consultado em 08 de agosto de 2008. <\/p>\n<p>PRZEWORSKI, Adam. Capitalismo e Social-Democracia. S&atilde;o Paulo, Cia. das Letras, 1995. <\/p>\n<p>\n<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/index.php?option=com_noticias&amp;Itemid=18&amp;task=detalhe&amp;id=35573\">Este artigo foi originalmente publicado no portal do Instituto Humanitas Unisinos (IHU) <br \/>\n<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pablo Gonzalez Casanova, ex-reitor da UNAM e um intelectual mexicano que deveria ser leitura obrigat\u00f3ria para todos os cursos de ci\u00eancias humanas, sociais e sociais aplicadas da Am\u00e9rica Latina. 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