{"id":1287,"date":"2010-08-26T01:34:56","date_gmt":"2010-08-26T01:34:56","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/?p=1287"},"modified":"2010-08-26T01:34:56","modified_gmt":"2010-08-26T01:34:56","slug":"a-realidade-da-seguranca-no-rio-de-janeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=1287","title":{"rendered":"A \u201crealidade\u201d da seguran\u00e7a no Rio de Janeiro"},"content":{"rendered":"<figure class=\"image-container image-post-defautl\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/sangue azul_livro.jpg\" title=\"Sangue Azul, o livro de Leonardo Gudel e editado pela Gera\u00e7\u00e3o est\u00e1 bem longe de ser uma obra ficcional. Nele poderiam estar presentes personagens como Zacarias Gon\u00e7alves Rosa Neto, o Zaca, ex-PM, ex-l\u00edder do narcotr\u00e1fico no Morro Dona Marte e um emblem\u00e1tico exemplo da fus\u00e3o de parte do aparelho policial carioca e fluminense com os inimigos que eles supostamente deveriam combater  - Foto:Gera\u00e7\u00e3o Editorial\" alt=\"Sangue Azul, o livro de Leonardo Gudel e editado pela Gera\u00e7\u00e3o est\u00e1 bem longe de ser uma obra ficcional. Nele poderiam estar presentes personagens como Zacarias Gon\u00e7alves Rosa Neto, o Zaca, ex-PM, ex-l\u00edder do narcotr\u00e1fico no Morro Dona Marte e um emblem\u00e1tico exemplo da fus\u00e3o de parte do aparelho policial carioca e fluminense com os inimigos que eles supostamente deveriam combater  - Foto:Gera\u00e7\u00e3o Editorial\" class=\"image\"><figcaption class=\"fig-caption\">Sangue Azul, o livro de Leonardo Gudel e editado pela Gera\u00e7\u00e3o est\u00e1 bem longe de ser uma obra ficcional. Nele poderiam estar presentes personagens como Zacarias Gon\u00e7alves Rosa Neto, o Zaca, ex-PM, ex-l\u00edder do narcotr\u00e1fico no Morro Dona Marte e um emblem\u00e1tico exemplo da fus\u00e3o de parte do aparelho policial carioca e fluminense com os inimigos que eles supostamente deveriam combater <\/figcaption><small itemprop=\"copyrightHolder\" class=\"copyright\"> Foto:Gera\u00e7\u00e3o Editorial<\/small><\/figure>\n<p>26 de agosto de 2010, Bruno Lima Rocha <\/p>\n<p>A no&ccedil;&atilde;o de realidade tem rela&ccedil;&atilde;o com a experi&ecirc;ncia. A hiper-realidade &eacute; tribut&aacute;ria da fabrica&ccedil;&atilde;o de bens simb&oacute;licos e proje&ccedil;&otilde;es distintas do cotidiano vivido e das rela&ccedil;&otilde;es de for&ccedil;a que estruturam a vida das maiorias. Quando algo ocorre de forma sistem&aacute;tica e faz parte do cotidiano de um ter&ccedil;o dos moradores da segunda maior cidade do Brasil, isto n&atilde;o &eacute; inusitado, mas rotina. Assim, desde um ponto de vista de reconhecimento da plenitude dos direitos dos cidad&atilde;os residentes nas comunidades carentes chamadas de favelas, &eacute; di&aacute;ria a conviv&ecirc;ncia com pessoas armadas, substituindo ou rivalizando com o monop&oacute;lio da for&ccedil;a estatal. Segundo toda e qualquer no&ccedil;&atilde;o oficial de soberania, cabe ao Estado o uso de for&ccedil;a letal, preventiva ou reativa. Caberia aos tr&ecirc;s n&iacute;veis de governo prover o conjunto de direitos de toda a popula&ccedil;&atilde;o, dentre eles a seguran&ccedil;a f&iacute;sica e patrimonial. Ao mesmo tempo, sabe-se que o controle parcial ou total de territ&oacute;rios, por parte de quadrilhas medianamente estruturadas, implica em governar de forma paralela ou complementar.<\/p>\n<p>Tudo o que narrei acima n&atilde;o chega nem a 10% das caracteriza&ccedil;&otilde;es de direitos e deveres do Estado &ndash; e as lacunas &#8211; para com seus cidad&atilde;os. A solu&ccedil;&atilde;o empregada pela Secretaria de Seguran&ccedil;a P&uacute;blica do Estado do Rio foi tornar permanente a presen&ccedil;a f&iacute;sica de pol&iacute;cia ostensiva nas &aacute;reas de encostas com ocupa&ccedil;&atilde;o fundi&aacute;ria irregular (as favelas). O que at&eacute; bem pouco atr&aacute;s era denominado de &ldquo;invas&atilde;o ou ocupa&ccedil;&atilde;o permanente&rdquo;, hoje atende pela sigla de Unidades de Pol&iacute;cia Pacificadoras (UPPs). Ao mesmo tempo em que se reconhecem as UPPs como reais e n&atilde;o apenas epis&oacute;dicas, por outro, esta medida &eacute; recente e paliativa. Para aqueles que julgam ser exagero meu, basta compara&ccedil;&atilde;o com a intensidade de policiamento na pr&oacute;pria Zona Sul e &aacute;reas litor&acirc;neas valorizadas da Zona Oeste (como a Barra da Tijuca e Recreio). N&atilde;o estou aqui defendendo a amplia&ccedil;&atilde;o desta pol&iacute;tica, mas apenas constato que se fosse priorit&aacute;rio o policiamento ostensivo das &aacute;reas de favela, deveria haver um deslocamento de contingente do asfalto para o morro. E isso est&aacute; longe de acontecer. <\/p>\n<p>Estamos todos acostumados a naturalizar a aus&ecirc;ncia de um direito e fazer da falha virtude. Na manh&atilde; do &uacute;ltimo s&aacute;bado dia 21 de agosto, o bairro de S&atilde;o Conrado se deparara com uma situa&ccedil;&atilde;o de guerra urbana. Como &eacute; sabido, um comboio de ve&iacute;culos motorizados (vans e motos) totalizando cerca de 40 homens armados, foi interceptado por barreira policial de rotina. A rea&ccedil;&atilde;o imediata de uma parte do &ldquo;bonde&rdquo; foi invadir o conhecido Hotel Intercontinental, fazendo h&oacute;spedes e funcion&aacute;rios de ref&eacute;ns. A pronta resposta do Estado foi defender estas vidas, rendendo e ap&oacute;s executando a pris&atilde;o dos seq&uuml;estradores dentro da lei, de forma p&uacute;blica e sem execu&ccedil;&otilde;es sum&aacute;rias. Qualquer pessoa que tenha morado no Rio e transitado por comunidades de favelas sabe que o normal &eacute; justamente o oposto. At&eacute; nos acostumamos com as falas secas de &acirc;ncoras de telejornais, comentando, num p&eacute; de reportagem que &ldquo;fontes da pol&iacute;cia afirmam que os nove mortos na opera&ccedil;&atilde;o desta tarde no Morro X eram traficantes&rdquo;. <\/p>\n<p>O cinismo oficial e oficioso (atrav&eacute;s da m&iacute;dia grande) &eacute; aliado dos mecanismos de sobreviv&ecirc;ncia cotidiana. A circula&ccedil;&atilde;o de bondes &eacute; norma das guerras de redes de quadrilhas, apelidadas de &ldquo;comandos&rdquo;, e com difus&atilde;o p&uacute;blica desde o conflito pelo morro Dona Marta em 1987. Na ocasi&atilde;o, os bandos de Zaca e Cabeludo se enfrentaram a luz do dia, diante das c&acirc;meras de TV e, desde a parte debaixo do morro, distando poucos metros do 2&ordm; Batalh&atilde;o de Pol&iacute;cia Militar. Esta foi a grande estr&eacute;ia midi&aacute;tica da ent&atilde;o &ldquo;nova&rdquo; realidade. De l&aacute; para c&aacute; nada mudou, s&oacute; aumentou de intensidade. <\/p>\n<p>Os freq&uuml;entes tiroteios, tendo o fuzil como arma-base tanto por policiais como por traficantes, tamb&eacute;m s&atilde;o corriqueiros, co-existindo na Cidade Maravilhosa h&aacute; duas d&eacute;cadas e meia. Rigorosamente, desde a segunda metade dos anos &rsquo;80 do s&eacute;culo XX que o Rio &eacute; palco de um dom&iacute;nio territorial associado com o uso exclusivo das for&ccedil;as armadas para assegurar o controle da distribui&ccedil;&atilde;o de drogas no atacado e varejo. E, conforme a literatura especializada vem relatando, tal co-exist&ecirc;ncia seria imposs&iacute;vel sem a contamina&ccedil;&atilde;o de partes significativas do aparelho policial fluminense. <\/p>\n<p>Infelizmente, nada do que ocorrera no s&aacute;bado, 21 de agosto &eacute; &ldquo;novidade&rdquo;. O inusitado &eacute; que o drama se passou no asfalto e n&atilde;o no alto de morros, longe das c&acirc;maras de TV e da difus&atilde;o midi&aacute;tica posterior.<\/p>\n<p><strong>Para buscar alguma conclus&atilde;o e perspectiva <br \/>\n<\/strong><br \/>\nA constata&ccedil;&atilde;o de s&aacute;bado 21 de agosto &eacute; que a PM foi eficiente no combate. Se teve efici&ecirc;ncia na opera&ccedil;&atilde;o repressora, &eacute; porque todos foram ou s&atilde;o ineficientes ou negligentes ou associados com as organiza&ccedil;&otilde;es criminosas dominantes das rotas de abastecimento do Rio e Grande Rio. Ou seja, aplaude-se a a&ccedil;&atilde;o correta como virtude, quando a mesma &eacute; obriga&ccedil;&atilde;o do Estado e retrata a falha preventiva deste. A ponta do fuzil &eacute; a ponta do problema. <\/p>\n<p>Repito, em tese, nosso contrato social teria o conjunto do ente estatal na obriga&ccedil;&atilde;o de prover direitos e deveres iguais perante a sua pr&oacute;pria legalidade. Assim, seria obriga&ccedil;&atilde;o do Estado prover tudo o que consta na Carta Constitucional, sem distin&ccedil;&atilde;o de classe social, g&ecirc;nero, n&iacute;vel de escolaridade, credo religioso, posi&ccedil;&atilde;o a ocupar nas engrenagens de governo ou empresa, assim como nenhuma outra forma de discrimina&ccedil;&atilde;o. Bem, como se sabe, essas premissas do Estado democr&aacute;tico de direito est&atilde;o mais pr&oacute;ximas de um recurso discursivo para alimentar um sistema de cren&ccedil;as em alguma esp&eacute;cie de sociedade capitalista justa e sadia do que necessariamente como uma base de estatutos para a conviv&ecirc;ncia coletiva. <\/p>\n<p>&Eacute; preciso compreender a radicalidade destes discursos de legitima&ccedil;&atilde;o para um pa&iacute;s carente, com l&iacute;deres personalistas e carism&aacute;ticos e preparando-se para ser vitrine do mundo na Copa de 2014 e nas Olimp&iacute;adas de 2016. O Rio de Janeiro, cen&aacute;rio da atua&ccedil;&atilde;o das redes de quadrilhas a co-controlar uma parcela de territ&oacute;rio urbano e metropolitano, j&aacute; tem como de costume organizar e ser anfitri&atilde;o de grandes eventos, como a Eco 92 (Confer&ecirc;ncia Mundial sobre o Meio Ambiente, organizada pela ONU) e o Panamericano de 2007, verdadeiro bal&atilde;o de ensaio para os Jogos Ol&iacute;mpicos. O que costuma ocorrer no Rio &eacute; um aumento do &iacute;ndice repressivo, um zoneamento por cores (vari&aacute;vel de intensidade de controle e n&iacute;vel de risco f&iacute;sico para os visitantes) e o bom andamento dos eventos. Depois, tudo volta rotineiramente ao normal, a norma da guerra urbana, onde o Estado tem como complemento oficioso os para-militares que tristemente se alcunham de &ldquo;mil&iacute;cias&rdquo; (para desespero da tradi&ccedil;&atilde;o de esquerda insurgente) e o aparelho policial &eacute; endemicamente atravessado por suspeitas de corrup&ccedil;&atilde;o e uso privado dos recursos estatais para prover justamente, seguran&ccedil;a f&iacute;sica e defesa patrimonial. <\/p>\n<p>O s&aacute;bado 21 de agosto teve como marca a difus&atilde;o p&uacute;blica de algo que ocorre sistematicamente e n&atilde;o ganha divulga&ccedil;&atilde;o. &Eacute; dif&iacute;cil para um cidad&atilde;o comum e corrente, desambientado com a press&atilde;o das redes de quadrilhas e as &ldquo;invas&otilde;es&rdquo; policiais a constata&ccedil;&atilde;o de que o direito de todos n&atilde;o est&aacute; assegurado. E, indo al&eacute;m, que o aparato de seguran&ccedil;a &ldquo;p&uacute;blica&rdquo; n&atilde;o &eacute; da res publica e sim de alguns poucos. Pena mesmo &eacute; ver tanta energia que vem debaixo desperdi&ccedil;ada numa vers&atilde;o de capitalismo selvagem e sem sa&iacute;da. Acreditem, o tiroteio no asfalto &eacute; o efeito colateral da desgra&ccedil;a sistem&aacute;tica das &aacute;reas hoje ocupadas pelas UPPs. <\/p>\n<p>\n<a href=\"http:\/\/oglobo.globo.com\/pais\/noblat\/posts\/2010\/08\/25\/a-realidade-da-seguranca-no-rio-de-janeiro-318717.asp\">Este artigo teve foi originalmente publicado (em sua primeira parte) no blog de Ricardo Noblat <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sangue Azul, o livro de Leonardo Gudel e editado pela Gera\u00e7\u00e3o est\u00e1 bem longe de ser uma obra ficcional. 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