{"id":1292,"date":"2010-09-04T00:00:11","date_gmt":"2010-09-04T00:00:11","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/?p=1292"},"modified":"2010-09-04T00:00:11","modified_gmt":"2010-09-04T00:00:11","slug":"04-de-setembro-de-2010-coluna-semanal-de-amy-goodman","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=1292","title":{"rendered":"04 de setembro de 2010, coluna semanal de Amy Goodman"},"content":{"rendered":"<figure class=\"image-container image-post-defautl\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/VDaylogo1.gif\" title=\"V Day \u00e9 uma bela iniciativa, ajudando a reconstruir a hist\u00f3ria e o protagonismo das mulheres em lugares onde existam opress\u00f5es permanentes - Foto:V Day\" alt=\"V Day \u00e9 uma bela iniciativa, ajudando a reconstruir a hist\u00f3ria e o protagonismo das mulheres em lugares onde existam opress\u00f5es permanentes - Foto:V Day\" class=\"image\"><figcaption class=\"fig-caption\">V Day \u00e9 uma bela iniciativa, ajudando a reconstruir a hist\u00f3ria e o protagonismo das mulheres em lugares onde existam opress\u00f5es permanentes<\/figcaption><small itemprop=\"copyrightHolder\" class=\"copyright\"> Foto:V Day<\/small><\/figure>\n<p><strong>Eve Ensler: calva, valente e bela <br \/>\n<\/strong><br \/>\nCalva, valente e formosa: palavras que mal d&atilde;o para come&ccedil;ar a captar a extraordin&aacute;ria Eve Ensler, a mulher que se sentou ao meu lado na semana passada, no meio de sua batalha contra o c&acirc;ncer de &uacute;tero, para falar de Nova Orleans (no estado da Louisiana, EUA) e da Rep&uacute;blica Democr&aacute;tica do Congo. Ela &eacute; autora da conhecida obra de teatro &ldquo;Mon&oacute;logos da Vagina&rdquo; e criadora de Dia V, um movimento ativista mundial para deter a viol&ecirc;ncia contra mulheres e meninas. Eve me contou como &ldquo;o c&acirc;ncer tem sido um enorme presente&rdquo;.<\/p>\n<p>O emotivo ensaio de Eve &ldquo;Congo C&acirc;ncer&rdquo;, publicado no jornal londrino The Guardian come&ccedil;a dizendo: &ldquo;Algumas pessoas podem pensar que &eacute; poss&iacute;vel que uma mulher se deprima quando tem diagnosticado c&acirc;ncer de &uacute;tero, depois sofre uma importante cirurgia que a leva a sofrer um m&ecirc;s de infec&ccedil;&otilde;es debilitantes para ser seguida depois com meses de quimioterapia; mas a verdade &eacute; esse n&atilde;o foi meu veneno. N&atilde;o &eacute; esta a sensa&ccedil;&atilde;o que vem batendo dentro de mim noite adentro e me mant&eacute;m acordada e disposta. N&atilde;o &eacute; esta a raz&atilde;o que me empurra a momentos de insuport&aacute;vel escurid&atilde;o e depress&atilde;o.&rdquo; Seu veneno, afirma Ensler no ensaio, foi a epidemia de abusos sexuais, torturas e viol&ecirc;ncia contra mulheres e meninas na regi&atilde;o oriental da Rep&uacute;blica Democr&aacute;tica do Congo. <\/p>\n<p>Eve, que escreveu &ldquo;Mon&oacute;logos da Vagina&rdquo; em 1996 como uma forma de celebrar o corpo da mulher e o empoderamento feminino, conta: &ldquo;Durante os primeiros tempos da obra e em todos os lugares do planeta aos que ia, as mulheres literalmente faziam fila ap&oacute;s a pe&ccedil;a. No come&ccedil;o pensei: que bom, elas v&ecirc;m me contar a respeito de seus maravilhosos orgasmos e suas excelentes vidas sexuais, vou poder agregar esses relatos na obra. Mas, de fato, 90 ou 95 por cento das mulheres faziam fila para contar-me que tinham sido v&iacute;timas de viola&ccedil;&atilde;o, maus tratos, incesto ou abuso. Claro que antes eu j&aacute; sabia que existe viol&ecirc;ncia contra a mulher, eu mesma sou sobrevivente de viola&ccedil;&atilde;o e maus tratos, mas n&atilde;o tinha id&eacute;ia de que essas viol&ecirc;ncias tivessem as propor&ccedil;&otilde;es de uma epidemia. N&atilde;o tinha id&eacute;ia de que, e estas s&atilde;o cifras estat&iacute;sticas da ONU, uma de cada tr&ecirc;s mulheres no planeta &eacute; violada e espancadas, como sofreram de abuso ou incesto durante sua vida. De repente, essa porta abriu-se para mim.&rdquo; <\/p>\n<p>Foi ent&atilde;o que Ensler come&ccedil;ou a produzir a obra com o objetivo de arrecadar fundos para a cria&ccedil;&atilde;o de linhas telef&ocirc;nicas de emerg&ecirc;ncia no apoio a mulheres em situa&ccedil;&otilde;es de risco a situa&ccedil;&otilde;es de crise por viola&ccedil;&atilde;o e para diversas organiza&ccedil;&otilde;es de mulheres nos Estados Unidos. &ldquo;Ocorreu-nos a id&eacute;ia de fundar o Dia V que pode ter dois significados. Tanto pode significar &lsquo;Dia para terminar com a Viol&ecirc;ncia&rsquo;, como tamb&eacute;m &eacute; o &lsquo;Dia da Vagina&rsquo; e que reivindica que o Dia de S&atilde;o Valentim (obs. do tradutor: esta data &eacute; conhecida no Brasil como o Dia dos namorados) seja uma data de amabilidade e boa vontade para com as mulheres. Come&ccedil;amos com uma produ&ccedil;&atilde;o da pe&ccedil;a de &lsquo;Mon&oacute;logos da Vagina&rsquo; em Nova York, quando participaram atrizes consagradas como Whoopi Goldberg, Susan Sarandon e Glenn Close. Essa noite foi como um catalisador, simplesmente deu impulso a este movimento, e isso j&aacute; faz treze anos. Agora estamos presentes em 130 pa&iacute;ses. No ano passado tivemos 5000 eventos em 1500 ou 1600 lugares. Arrecadaram-se cerca de USd. 80 milh&otilde;es de d&oacute;lares, que foram totalmente destinados a iniciativas de car&aacute;ter local e comunit&aacute;rio.&rdquo; <\/p>\n<p>O movimento Dia V levou Eve a alguns dos lugares com situa&ccedil;&otilde;es mais graves na Terra: Haiti, a Rep&uacute;blica Democr&aacute;tica do Congo e a Nova Orleans ap&oacute;s a passagem do Furac&atilde;o Katrina. Eve passou um ano com mulheres de Nova Orleans, recopilando, em uma s&eacute;rie de mon&oacute;logos, as descri&ccedil;&otilde;es que as mulheres davam de suas vidas e do impacto do Furac&atilde;o Katrina. Esta recopila&ccedil;&atilde;o chama-se &ldquo;Nadando contra a corrente&rdquo;. Incrivelmente, em plena quimioterapia, Eve vai dirigir duas se&ccedil;&otilde;es especiais em meados de setembro, na pr&oacute;pria cidade de Nova Orleans e no Teatro Apollo do bairro do Harlem em Nova York. <\/p>\n<p>O Congo Oriental, uma regi&atilde;o devastada pela guerra no pa&iacute;s mais empobrecido do mundo, &eacute; onde Eve Ensler e Dia V t&ecirc;m dedicado a maior parte de seus esfor&ccedil;os mais recentes. Desde 1996, centenas de milhares de mulheres e meninas t&ecirc;m sido violadas na regi&atilde;o oriental da Rep&uacute;blica Democr&aacute;tica do Congo, v&iacute;timas do que Dia V chama de &ldquo;feminic&iacute;dio.&rdquo; No m&ecirc;s passado, rebeldes de Ruanda e do Congo tomaram popula&ccedil;&otilde;es desta regi&atilde;o do pa&iacute;s e violentaram um grupo de quase duzentas mulheres e cinco meninos. As viola&ccedil;&otilde;es m&uacute;ltiplas ocorreram entre o dia 30 de julho e 3 de agosto, a poucos quil&ocirc;metros de uma miss&atilde;o de paz da ONU e foram denunciadas passadas tr&ecirc;s semanas desta viol&ecirc;ncia em massa. <\/p>\n<p>Estas viola&ccedil;&otilde;es s&atilde;o brutais, deixam as v&iacute;timas com feridas profundas e feridas internas (f&iacute;stulas) que requerem cirurgia. O Movimento Dia V tem trabalhado conjuntamente com o Hospital Panzi de Bukavu, a &uacute;nica institui&ccedil;&atilde;o m&eacute;dica da regi&atilde;o onde as mulheres podem receber tratamento m&eacute;dico adequado. Ao lado deste hospital, o Dia V est&aacute; construindo uma zona segura controlada por mulheres chamada &ldquo;A Cidade da Alegria&rdquo;. <\/p>\n<p>Eve afirma que foram as pr&oacute;prias mulheres quem desenvolveram o planejamento da Cidade da Alegria: &ldquo;Passamos meses e meses com mulheres do Congo, fazendo entrevistas, falando com elas a respeito de quais eram seus maiores anseios, o que mais precisavam e, todas falavam de um lugar onde pudessem se curar, um lugar sadio, para treinar, se converter em l&iacute;deres, onde pudessem desfrutar de tempo e poder respirar para reconstru&iacute;rem-se a elas mesmas e reorientar as energias para suas comunidades.&rdquo; Se tudo ocorrer bem com seu pr&oacute;prio tratamento, Eve vai se unir a elas, em fevereiro pr&oacute;ximo, para a abertura da Cidade da Alegria. <\/p>\n<p>O trabalho do Movimento Dia V, segundo me disse Eve, define o que ela chama &ldquo;um tipo de V de tr&ecirc;s vias entre Haiti, Congo e Nova Orleans&rdquo; e, vai al&eacute;m na explica&ccedil;&atilde;o: &ldquo;As pessoas fazem coisas de maneira inconsciente e somos levadas a certos lugares inconscientemente, &eacute; ent&atilde;o quando nos damos conta de que existem todas estas interconex&otilde;es assombrosas. Quando estava em Nova Orleans e trabalh&aacute;vamos no &lsquo;Dia V a todo vapor&rsquo; fal&aacute;vamos a respeito de onde &iacute;r&iacute;amos p&ocirc;r em cena essa enorme mostra e me disseram que eu tinha de ir ver a Pra&ccedil;a Congo, um pouco surpreendida lhes perguntei se em verdade existia um lugar chamado Pra&ccedil;a Congo em Nova Orleans; e de fato a Pra&ccedil;a Congo era o lugar a onde os escravos iam nos fins de semana para reivindicar sua heran&ccedil;a origin&aacute;ria. A maioria dos escravos que chegaram a Nova Orleans proviam do Congo. Isto foi, e &eacute;, uma espantosa conex&atilde;o. Claro que tamb&eacute;m estamos agora trabalhando no Haiti e vemos este tipo de V de tr&ecirc;s vias entre Haiti, Congo e Nova Orleans. Foi ent&atilde;o, uma vez que t&iacute;nhamos feito tudo isso, que t&iacute;nhamos trazido ativistas a Nova Orle&aacute;ns no ano passado, ao doutor Mukwege do Hospital Panza, a quem rendemos homenagem nesse grande evento, e a Christine Schuler Deschryver. Ao estar ao lado do doutor Mukwege, que &eacute; um dos grandes m&eacute;dicos e l&iacute;deres do Congo, e tamb&eacute;m realizar a marcha, acompanhados de Mukwege, desde a Pra&ccedil;a Congo at&eacute; o est&aacute;dio Superdome, compreendi de que maneira o mundo se encontra t&atilde;o profundamente interconectado. Nossa hist&oacute;ria vai criando um futuro que, se n&atilde;o pesquisamos a hist&oacute;ria, faz que continuemos com o mesmo tipo de opress&atilde;o e colonialismo, de viola&ccedil;&atilde;o e destrui&ccedil;&atilde;o que continuam hoje no Congo, em Haiti e em Nova Orleans.&rdquo; <\/p>\n<p>Com um len&ccedil;o na cabe&ccedil;a depois de ter perdido seu cabelo durante os tratamentos contra o c&acirc;ncer, Eve Ensler est&aacute; a dias de come&ccedil;ar sua quarta sess&atilde;o de quimioterapia. Perguntei como ela faz tudo isso: <\/p>\n<p>&ldquo;As mulheres do Congo me salvaram a vida. Todos os dias me levanto e penso comigo mesma: posso seguir em frente. Se uma mulher no Congo se levantou esta manh&atilde; ap&oacute;s ter uma parte de seus &oacute;rg&atilde;os internos extirpados, penso: diante da vida das mulheres congolesas, quais s&atilde;o os reais problemas que tenho? E depois penso como estas mulheres dan&ccedil;am. A cada vez que vou ao Congo, dan&ccedil;am e cantam e seguem adiante apesar de ter sido esquecidas e abandonadas pelo mundo. E penso que tenho que melhorar a mim mesma, que tenho que viver para ver o dia em que as mulheres do Congo sejam livres, porque se essas mulheres s&atilde;o livres, as mulheres de todo mundo seremos livres e seguiremos adiante.&rdquo; <\/p>\n<p>&mdash;&mdash;&mdash;&mdash;&mdash;&mdash;&mdash;&mdash;&ndash; <\/p>\n<p>Denis Moynihan colaborou na produ&ccedil;&atilde;o jornal&iacute;stica desta coluna. <\/p>\n<p>&copy; 2010 Amy Goodman <\/p>\n<p>Texto traduzido do castelhano e revisado do original em ingl&ecirc;s por Bruno Lima Rocha, blimarocha@gmail.com ; originalmente publicado em portugu&ecirc;s em Estrat&eacute;gia &amp; An&aacute;lise <\/p>\n<p>Amy Goodman &eacute; a &acirc;ncora de Democracy Now!, um notici&aacute;rio internacional transmitido diariamente em mais de 550 emissoras de r&aacute;dio e televis&atilde;o em ingl&ecirc;s e em mais de 250 em espanhol. &Eacute; co-autora do livro &quot;Os que lutam contra o sistema: Her&oacute;is ordin&aacute;rios em tempos extraordin&aacute;rios nos Estados Unidos&quot;, editado por Le Monde Diplomatique Cono Sur.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>V Day \u00e9 uma bela iniciativa, ajudando a reconstruir a hist\u00f3ria e o protagonismo das mulheres em lugares onde existam opress\u00f5es permanentes Foto:V Day Eve Ensler: calva, valente e bela Calva, valente e formosa: palavras que mal d&atilde;o para come&ccedil;ar a captar a extraordin&aacute;ria Eve Ensler, a mulher que se sentou ao meu lado na [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-1292","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"jetpack_publicize_connections":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1292","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1292"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1292\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1292"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1292"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1292"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}