{"id":1306,"date":"2010-09-24T22:17:21","date_gmt":"2010-09-24T22:17:21","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/?p=1306"},"modified":"2010-09-24T22:17:21","modified_gmt":"2010-09-24T22:17:21","slug":"24-de-setembro-de-2010-coluna-semanal-de-amy-goodman","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=1306","title":{"rendered":"24 de setembro de 2010 \u2013 coluna semanal de Amy Goodman"},"content":{"rendered":"<figure class=\"image-container image-post-defautl\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/Abu Ghraib 3.jpg\" title=\"Nas pris\u00f5es iraquianas, o Imp\u00e9rio demonstra a sua face mais cruel, promovendo a tirania das corpora\u00e7\u00f5es transnacionais atrav\u00e9s da ocupa\u00e7\u00e3o militar e do emprego da barb\u00e1rie e tortura como forma de domina\u00e7\u00e3o.  - Foto:Images &#038; Visions\" alt=\"Nas pris\u00f5es iraquianas, o Imp\u00e9rio demonstra a sua face mais cruel, promovendo a tirania das corpora\u00e7\u00f5es transnacionais atrav\u00e9s da ocupa\u00e7\u00e3o militar e do emprego da barb\u00e1rie e tortura como forma de domina\u00e7\u00e3o.  - Foto:Images &#038; Visions\" class=\"image\"><figcaption class=\"fig-caption\">Nas pris\u00f5es iraquianas, o Imp\u00e9rio demonstra a sua face mais cruel, promovendo a tirania das corpora\u00e7\u00f5es transnacionais atrav\u00e9s da ocupa\u00e7\u00e3o militar e do emprego da barb\u00e1rie e tortura como forma de domina\u00e7\u00e3o. <\/figcaption><small itemprop=\"copyrightHolder\" class=\"copyright\"> Foto:Images &#038; Visions<\/small><\/figure>\n<p><strong>A tortura no Iraque n&atilde;o diminui <br \/>\n<\/strong><br \/>\nSe algu&eacute;m chegasse a acreditar no discurso do Presidente Barack Obama deveria pensar que as opera&ccedil;&otilde;es de combate no Iraque terminaram. No entanto, ap&oacute;s a tortura haver sido exposta publicamente pela primeira vez com o esc&acirc;ndalo de Abu Ghraib, a barb&aacute;rie nas cadeias iraquianas cresce e cresce, ficando cada vez mais distante de qualquer tipo de escrut&iacute;nio ou responsabilidade. Depois de prender a dezenas de milhares de iraquianos (em muitos casos sem nenhuma acusa&ccedil;&atilde;o formal) e de manter a muitos deles prisioneiros durante anos sem os julgar, os Estados Unidos entregaram o controle das pris&otilde;es do Iraque, com seus 10.000 prisioneiros, ao governo iraquiano. Conhe&ccedil;am ao novo chefe, &eacute; igual que o anterior.<\/p>\n<p>Tarde na noite de s&aacute;bado, depois de aterrissar em Londres, fomos &agrave; pequena zona residencial de Kilburn para falar com Rabiha al-Qassab, uma refugiada iraquiana que recebeu o direito de asilo em territ&oacute;rio brit&acirc;nico depois do irm&atilde;o haver sido executado por Saddam Hussein. Seu marido, de 68 anos de idade, Ramze Shihab Ahmed, foi general do ex&eacute;rcito iraquiano durante o regime de Saddam, lutou na guerra entre Ir&atilde; e Iraque e fez parte de uma frustrada tentativa de derrubar ao ditador iraquiano. O casal viveu confortavelmente em Londres por v&aacute;rios anos at&eacute; setembro do ano 2009. <\/p>\n<p>Nessa data, Ramze Ahmed se informou de que seu filho Omar tinha sido preso em Mosul, Iraque. Ahmed regressou ao Iraque para encontrar ao filho, mas foi preso tamb&eacute;m. <\/p>\n<p>Durante meses, Rabiha n&atilde;o soube nada a respeito do paradeiro de seu marido. Mas em 28 de mar&ccedil;o de 2010 toca seu celular. Rabiha conta o sucedido: &ldquo;Meu celular soou e respondi. Parecia outra pessoa, n&atilde;o reconheci sua voz e perguntei: &lsquo;Quem &eacute;?&rsquo; Disse que estava muito doente e depois disse: &lsquo;Sou eu, Ramze, Ramze. Ligue para a embaixada.&rsquo; Logo ap&oacute;s lhe retiram o telefone e terminou a conversa.&rdquo; <\/p>\n<p>Ramze Ahmed estava preso num c&aacute;rcere secreto localizado no velho aeroporto de Muthanna em Bagd&aacute;. Em um relat&oacute;rio recente da Anistia Internacional intitulado &ldquo;Nova ordem, os mesmos abusos&rdquo; descreve a pris&atilde;o de Muthanna como &ldquo;uma das mais duras&rdquo; cadeias do Iraque, palco de m&uacute;ltiplas torturas, sob controle direto do Premi&ecirc; Iraquiano Nouri a o-Maliki. <\/p>\n<p>Enquanto Rabiha me mostrava fotos de sua fam&iacute;lia, caiu um peda&ccedil;o de papel com palavras em ingl&ecirc;s e em &aacute;rabe. Ela me explicou que para poder dizer em ingl&ecirc;s o que acontecia com seu marido teve de buscar no dicion&aacute;rio algumas palavras, j&aacute; que nunca antes tinha utilizado naquele idioma palavras como: &ldquo;viola&ccedil;&atilde;o&rdquo;, &ldquo;pau&rdquo;, &ldquo;tortura&rdquo;. Ca&iacute;am l&aacute;grimas de seus olhos enquanto transmitia o que seu marido lhe tinha relatado: &quot;eles o sodomizaram com um peda&ccedil;o de pau, foi afogado repetidas vezes com sacos pl&aacute;sticos ao redor de sua cabe&ccedil;a, lhe deram v&aacute;rios choques el&eacute;tricos.&rdquo; <\/p>\n<p>&ldquo;A primeira tortura cometida era p&ocirc;r sacos em sua cabe&ccedil;a, umas cinq&uuml;enta vezes por dia, at&eacute; perder a consci&ecirc;ncia e n&atilde;o sentir nada, ent&atilde;o lhe dava cargas el&eacute;tricas deixando-o em estado de choque. Quando acordava, colocavam de novo a sacola de pl&aacute;stico e, outra vez mais faziam o mesmo, repetindo a tortura o tempo todo. Tamb&eacute;m botavam um peda&ccedil;o de pau dentro de um pl&aacute;stico ou enrolavam a extremidade de uma arma longa, uma pequena parte do cano, n&atilde;o se tratava de um rev&oacute;lver ou de uma pistola, n&atilde;o era nenhuma arma curta, era como um rifle ou fuzil. Enrolavam sua ponta no pl&aacute;stico e a fechavam. Depois traziam a seu filho e lhe ordenavam que violentasse ao seu pai e vice-versa. Diziam-lhe: `Agora voc&ecirc; ter&aacute; de violentar a teu filho&acute;.&rdquo; <\/p>\n<p>N&atilde;o surpreende ent&atilde;o, que segundo est&aacute; detalhado no relat&oacute;rio de Anistia Internacional, o governo do Iraque afirme que Ramze Shihab Ahmed tenha confessado v&iacute;nculos com a Al-Qaeda no Iraque. Em janeiro de 2010, durante uma confer&ecirc;ncia de imprensa organizada pelo Ministro de Defesa iraquiano, projetaram v&iacute;deos que mostravam a outros nove prisioneiros confessando crimes, entre eles o filho de Ahmed, Omar, que apresentava sinais de haver sofrido espancamento. No v&iacute;deo, Omar confessa &ldquo;ter assassinado a v&aacute;rios crist&atilde;os em Mosul e ter detonado uma bomba em uma localidade pr&oacute;xima &agrave;quela cidade.&rdquo; <\/p>\n<p>Malcolm Smart, diretor do programa da Anistia Internacional para o Oriente M&eacute;dio e o Norte da &Aacute;frica me disse em Londres: &ldquo;[No Iraque] h&aacute; uma cultura do abuso que tem ficado ra&iacute;zes. &Eacute; verdade que esta cultura j&aacute; estava presente durante o tempo de Saddam Hussein, mas o que pretend&iacute;amos a partir do ano 2003 era virar a p&aacute;gina dessa hist&oacute;ria, e isto n&atilde;o vem acontecendo. O que sim acontece &eacute; a exist&ecirc;ncia de pris&otilde;es secretas, gente torturada e maltratada que se v&ecirc; for&ccedil;ada a realizar confiss&otilde;es. Apesar de que nos tribunais s&atilde;o muitos os presos que dizem terem obrigados a assinar falsas confiss&otilde;es, a Justi&ccedil;a n&atilde;o investiga estes fatos e nem luta para erradic&aacute;-los. Quem comete tais crimes n&atilde;o sofre conseq&uuml;&ecirc;ncia alguma e os torturadores n&atilde;o s&atilde;o identificados.&rdquo; <\/p>\n<p>Depois daquela breve e interrompida liga&ccedil;&atilde;o telef&ocirc;nica que recebeu de seu marido, Rabiha p&ocirc;s-se em contato com o governo brit&acirc;nico e sua embaixada no Iraque seguiu o rastro de Ahmed at&eacute; a pris&atilde;o de o-Rusafa em Bagd&aacute;. Habitualmente Ahmed utilizava bengala, mas agora estava em uma cadeira de rodas. Rabiha tem uma foto dele tirada pelo representante do governo brit&acirc;nico. <\/p>\n<p>A Anistia Internacional estima haverem cerca de 30.000 prisioneiros no Iraque, 200 dos quais continuam sob cust&oacute;dia estadunidense. Perguntei a Malcolm Smart da Anistia Internacional a respeito destes &uacute;ltimos prisioneiros e ele me respondeu: &ldquo;Me disse o ex&eacute;rcito estadunidense considerar este tema como um assunto iraquiano e que tem entregado aos &uacute;ltimos prisioneiros, a exce&ccedil;&atilde;o das duas centenas ainda sob sua guarda.&rdquo; No entanto, enquanto os Estados Unidos continuarem destinando bilh&otilde;es de d&oacute;lares para manter sua presen&ccedil;a militar no Iraque e a financiar ao governo iraquiano, &eacute; claro que o tratamento recebido pelos prisioneiros tamb&eacute;m &eacute; um assunto dos EUA. A Anistia lan&ccedil;ou uma campanha de base para promover mais a&ccedil;&otilde;es e assim assegurar a liberta&ccedil;&atilde;o de Ahmed. <\/p>\n<p>Enquanto isso, Rabiha a o-Qassab, que est&aacute; isolada e sozinha no norte de Londres, passa o tempo alimentando patos em um parque pr&oacute;ximo. Era isso o que seu marido costumava fazer. <\/p>\n<p>Rabiha me disse: &ldquo;Vou ao parque e dou de comer aos patos. Falo com os patos e lhes digo: &lsquo;Lembram-se do homem que lhes dava de comer? Est&aacute; preso. Pe&ccedil;am a Deus que o ajude.&rsquo; &rdquo; <\/p>\n<p>______________________________________ <\/p>\n<p>Denis Moynihan colaborou na produ&ccedil;&atilde;o jornal&iacute;stica desta coluna. <\/p>\n<p>&copy; 2010 Amy Goodman <\/p>\n<p>\nTexto traduzido da vers&atilde;o em castelhano e revisado do original em ingl&ecirc;s por Bruno Lima Rocha; originalmente publicado em portugu&ecirc;s em Estrat&eacute;gia &amp; An&aacute;lise. &Eacute; livre a reprodu&ccedil;&atilde;o de conte&uacute;do desde que citando a fonte. <\/p>\n<p>Amy Goodman &eacute; a &acirc;ncora de Democracy Now!, um notici&aacute;rio internacional transmitido diariamente em mais de 550 emissoras de r&aacute;dio e televis&atilde;o em ingl&ecirc;s e em mais de 250 em espanhol. &Eacute; co-autora do livro &quot;Os que lutam contra o sistema: Her&oacute;is ordin&aacute;rios em tempos extraordin&aacute;rios nos Estados Unidos&quot;, editado por Le Monde Diplomatique Cono Sur.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nas pris\u00f5es iraquianas, o Imp\u00e9rio demonstra a sua face mais cruel, promovendo a tirania das corpora\u00e7\u00f5es transnacionais atrav\u00e9s da ocupa\u00e7\u00e3o militar e do emprego da barb\u00e1rie e tortura como forma de domina\u00e7\u00e3o. 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