{"id":1314,"date":"2010-10-08T22:15:03","date_gmt":"2010-10-08T22:15:03","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/?p=1314"},"modified":"2010-10-08T22:15:03","modified_gmt":"2010-10-08T22:15:03","slug":"08-de-outubro-de-2010-coluna-semanal-de-amy-goodman","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=1314","title":{"rendered":"08 de outubro de 2010  \u2013  Coluna semanal de Amy Goodman"},"content":{"rendered":"<figure class=\"image-container image-post-defautl\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/imagesCAFDTO88.jpg\" title=\"O horror das experi\u00eancias cient\u00edficas em seres humanos n\u00e3o foi obra apenas de m\u00e9dicos-monstros nazistas. Em busca do lucro e da vantagem cient\u00edfica a servi\u00e7o do Imp\u00e9rio, os EUA infectaram ou n\u00e3o trataram a homens negros no Alabama e a descendentes de maias na Guatemala.  - Foto:inetgiant.com\" alt=\"O horror das experi\u00eancias cient\u00edficas em seres humanos n\u00e3o foi obra apenas de m\u00e9dicos-monstros nazistas. Em busca do lucro e da vantagem cient\u00edfica a servi\u00e7o do Imp\u00e9rio, os EUA infectaram ou n\u00e3o trataram a homens negros no Alabama e a descendentes de maias na Guatemala.  - Foto:inetgiant.com\" class=\"image\"><figcaption class=\"fig-caption\">O horror das experi\u00eancias cient\u00edficas em seres humanos n\u00e3o foi obra apenas de m\u00e9dicos-monstros nazistas. Em busca do lucro e da vantagem cient\u00edfica a servi\u00e7o do Imp\u00e9rio, os EUA infectaram ou n\u00e3o trataram a homens negros no Alabama e a descendentes de maias na Guatemala. <\/figcaption><small itemprop=\"copyrightHolder\" class=\"copyright\"> Foto:inetgiant.com<\/small><\/figure>\n<p><strong>De Tuskegee &agrave; Guatemala passando por Nuremberg <\/p>\n<p><\/strong>Na semana passada foi publicamente revelado que o governo dos Estados Unidos infectou a s&iacute;filis em centenas de homens da Guatemala no marco de macabras experi&ecirc;ncias desenvolvidas durante a d&eacute;cada de 1940. Mal veio &agrave; tona a not&iacute;cia, o Presidente Barack Obama telefonou ao Presidente de Guatemala &Aacute;lvaro Colom para se desculpar. Colom qualificou as experi&ecirc;ncias de &ldquo;uma incr&iacute;vel viola&ccedil;&atilde;o dos direitos humanos&rdquo;: &ldquo;&Eacute; uma viola&ccedil;&atilde;o de direitos humanos incr&iacute;vel, mas a&iacute; est&aacute; e &eacute; preciso enfrent&aacute;-la&#8230; e vamos fazer todo o necess&aacute;rio para que possamos esclarecer o mais r&aacute;pido poss&iacute;vel que profundidade teve e da&iacute; efeitos humanos teve, porque a n&oacute;s nos interessam fundamentalmente os afetados e n&oacute;s como Estado, pois, obviamente&#8230; indignados&#8230; e se houver autoridades do passado envolvidas tamb&eacute;m ser&aacute; revelado.&rdquo; Colom afirmou ademais que seu pa&iacute;s avalia a possibilidade de levar o caso ante uma corte internacional.<\/p>\n<p>As revela&ccedil;&otilde;es surgiram &agrave; raiz de uma investiga&ccedil;&atilde;o levada a cabo pela historiadora m&eacute;dica Susan Reverby, do Wellesley College, a respeito dos tristemente c&eacute;lebres estudos de Tuskegee sobre a s&iacute;filis. Os dois antigos projetos de investiga&ccedil;&atilde;o do governo estadunidense em Tuskegee, (Alabama) e Guatemala (igualmente nocivos) s&atilde;o espelho um do outro. Ambos mostram a que extremo se pode ignorar a &eacute;tica a fim de obter conhecimentos m&eacute;dicos e ambos nos recordam que a investiga&ccedil;&atilde;o m&eacute;dica precisa constante de supervis&atilde;o e regula&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>Reverby &eacute; autora do livro recentemente publicado &ldquo;Examining Tuskegee,&rdquo; (Examinando Tuskegee), uma exaustiva hist&oacute;ria da investiga&ccedil;&atilde;o sobre a s&iacute;filis conhecida como &ldquo;Estudos de Tuskegee&rdquo;. <\/p>\n<p>Tuskegee, no estado de Alabama, encontra-se no cora&ccedil;&atilde;o do Sul Profundo (Deep South) estadunidense. Desde 1932, e at&eacute; ser revelado pela imprensa em 1972, o governo dos Estados Unidos levou a cabo estudos de longo prazo sobre os efeitos da s&iacute;filis quando n&atilde;o &eacute; tratada. O estudo consistiu em dizer a quatrocentos homens com s&iacute;filis que receberiam um &ldquo;tratamento especial&rdquo; para seu &ldquo;sangue ruim.&rdquo; Sem que estes homens soubessem, recebiam placebos in&uacute;teis, mas n&atilde;o a cura prometida. E, o enfraquecimento de seus corpos, causado pela s&iacute;filis n&atilde;o tratada, foi estudado durante d&eacute;cadas. Em suas fases avan&ccedil;adas, a s&iacute;filis pode ocasionar desfigura&ccedil;&atilde;o, dem&ecirc;ncia, cegueira e dor aguda cr&ocirc;nica. &Eacute; uma maneira horr&iacute;vel de morrer. Durante os anos em que se desenvolviam estas experi&ecirc;ncias, foi descoberto que a penicilina curava a s&iacute;filis. <\/p>\n<p>No entanto, n&atilde;o se informou a estes homens infectados da poss&iacute;vel cura e cada vez que algum deles pedia tratamento, lhe era negado. <\/p>\n<p>Em Tuskegee, os homens infectados n&atilde;o receberam tratamento. Na Guatemala ocorreu o contr&aacute;rio. <\/p>\n<p>Ali, os pesquisadores do governo dos Estados Unidos infectavam com s&iacute;filis aos prisioneiros e depois os tratavam com penicilina para medir os efeitos do antibi&oacute;tico imediatamente ap&oacute;s a exposi&ccedil;&atilde;o &agrave; doen&ccedil;a. A s&iacute;filis &eacute; uma doen&ccedil;a de transmiss&atilde;o sexual e era desta maneira como o m&eacute;dico que encabe&ccedil;ava as opera&ccedil;&otilde;es, o Dr. John Cutler do Servi&ccedil;o de Sa&uacute;de P&uacute;blica dos Estados Unidos, tentava infectar aos prisioneiros. A historiadora m&eacute;dica Susan Reverby descreveu as experi&ecirc;ncias da seguinte maneira: &ldquo;Foram a Guatemala porque a prostitui&ccedil;&atilde;o era legal nesse pa&iacute;s e era tamb&eacute;m era legal levar prostitutas aos c&aacute;rceres para servi&ccedil;os sexuais. Quando n&atilde;o puderam gerar a infec&ccedil;&atilde;o ao n&iacute;vel esperado com o ingresso de prostitutas nas cadeias, come&ccedil;aram as incuba&ccedil;&otilde;es e a maneira em que funcionaram foi&#8230; Em primeiro lugar a s&iacute;filis n&atilde;o &eacute; f&aacute;cil&#8230; H&aacute; uma raz&atilde;o pela que &eacute; uma doen&ccedil;a de transmiss&atilde;o sexual. N&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel simplesmente extrair sangue de uma pessoa com s&iacute;filis e injetar em outra pessoa. De fato, &eacute; necess&aacute;rio criar uma vacina. A bact&eacute;ria que causa a doen&ccedil;a pode morrer ao ter contato com o ar, &eacute; por isso que deve passar atrav&eacute;s de l&iacute;quidos e flu&iacute;dos corporais e &eacute; por isso que se transmite sexualmente. Criaram uma vacina utilizando as provas de campo com coelhos que j&aacute; tinham a doen&ccedil;a. Raspavam ou rasgavam os bra&ccedil;os de pessoas em c&aacute;rceres, asilos psiqui&aacute;tricos e instala&ccedil;&otilde;es do ex&eacute;rcito. Utilizaram seus bra&ccedil;os, suas bochechas, ademais buscaram homens, e francamente esta parte resulta-me completamente incr&iacute;vel e faz que tudo se pare&ccedil;a parte de um filme classe B. Encontraram homens com prep&uacute;cios longos, pegavam seus p&ecirc;nis, retiravam o prep&uacute;cio para tr&aacute;s, raspavam a glande e lhes aplicavam a vacina atrav&eacute;s de um pequeno chuma&ccedil;o de algod&atilde;o com gazes, um ap&oacute;sito. Eles faziam isto durante uma hora e meia ou duas horas com a esperan&ccedil;a de que a infec&ccedil;&atilde;o se transmitisse dessa maneira.&rdquo; <\/p>\n<p>Procedimentos similares foram utilizados com pacientes psiqui&aacute;tricos e soldados. <\/p>\n<p>Ironicamente, o estudo na Guatemala come&ccedil;ou a ser desenvolvido em 1946. Este foi o mesmo ano em que os tribunais de Nuremberg pela primeira vez julgaram a m&eacute;dicos nazistas, acusando-os de levar a cabo experi&ecirc;ncias horr&iacute;veis com prisioneiros em campos de concentra&ccedil;&atilde;o. A metade dos acusados foi condenada a morte. Durante o processo criou-se o C&oacute;digo Nuremberg, que estabelece padr&otilde;es &eacute;ticos para a experi&ecirc;ncia m&eacute;dica com humanos e a obligatoriedade do consentimento informado. Mas, ao que parece, aos pesquisadores estadunidenses n&atilde;o se importaram com Nuremberg. <\/p>\n<p>O Dr. Cutler, respons&aacute;vel pelo projeto na Guatemala, participou depois dos estudos de Tuskegee. Em um documental de PBS &ldquo;NOVA&rdquo; de 1993, chamado &ldquo;Engano mortal&rdquo;, ele afirmou: &ldquo;Era importante que n&atilde;o recebessem tratamento, e n&atilde;o teria sido desej&aacute;vel seguir adiante e lhes receitar grandes doses de penicilina para tratar a doen&ccedil;a j&aacute; que isto poderia haver interferido no estudo.&rdquo; O Dr. Cutler morreu no ano 2003. <\/p>\n<p>O governo dos Estados Unidos com freq&uuml;&ecirc;ncia tem levado a cabo experi&ecirc;ncias sem o consentimento informado dos sujeitos afetados. Nas mulheres de Porto Rico, foi injetado estr&oacute;geno em n&iacute;veis de risco enquanto estavam sendo testadas as p&iacute;lulas anticoncepcionais. <\/p>\n<p>Em outras investiga&ccedil;&otilde;es, se injetou plut&ocirc;nio a pacientes hospitalizados que n&atilde;o tinham se oferecido como volunt&aacute;rios para estudar os efeitos desse elemento no corpo humano. As corpora&ccedil;&otilde;es transnacionais da ind&uacute;stria farmac&ecirc;utica, Dow Chemical e Johnson &amp; Johnson, de comum acordo com as autoridades penitenci&aacute;rias da Pensilv&acirc;nia expuseram aos presos aos riscos de produtos qu&iacute;micos nocivos, dentre eles a dioxinas, e com a inten&ccedil;&atilde;o de testar seus efeitos. Muitas das pessoas submetidas a este tipo de experi&ecirc;ncia t&ecirc;m morrido ou v&ecirc;em suas vidas t&ecirc;m visto suas vidas lastimadas de forma permanente. Tudo isto em nome do progresso ou dos lucros. <\/p>\n<p>Os pesquisadores apressadamente declararam que estas pr&aacute;ticas s&atilde;o coisa do passado e que vem dando lugar a orienta&ccedil;&otilde;es estritas para assegurar o consentimento informado dos sujeitos. No entanto, s&atilde;o feitos esfor&ccedil;os para suavizar as restri&ccedil;&otilde;es em casos de experi&ecirc;ncia m&eacute;dica em pres&iacute;dios. Seria necess&aacute;rio perguntar o que significa &ldquo;consentimento informado&rdquo; dentro de uma cadeia, ou em uma comunidade pobre onde o dinheiro &eacute; utilizado como incentivo para &ldquo;se oferecer&rdquo; como volunt&aacute;rio para uma pesquisa. A investiga&ccedil;&atilde;o m&eacute;dica s&oacute; deveria acontecer unicamente quando padr&otilde;es &eacute;ticos humanit&aacute;rios s&atilde;o respeitados e conta com consentimento informado e supervis&atilde;o independente. Isto no caso das li&ccedil;&otilde;es de Nuremberg, Tuskegee e agora Guatemala tiverem algum significado. <\/p>\n<p>______________________________________ <\/p>\n<p>Denis Moynihan colaborou na produ&ccedil;&atilde;o jornal&iacute;stica desta coluna. <\/p>\n<p>&copy; 2010 Amy Goodman <\/p>\n<p>\nTexto traduzido da vers&atilde;o em castelhano e revisado do original em ingl&ecirc;s por <a href=\"mailto:bruno.estrategiaeanalise@gmail.com\">Bruno Lima Rocha<\/a>; originalmente publicado em portugu&ecirc;s em <a href=\"http:\/\/www.estrategiaeanalise.com.br\">Estrat&eacute;gia &amp; An&aacute;lise<\/a>. &Eacute; livre a reprodu&ccedil;&atilde;o de conte&uacute;do desde que citando a fonte. <\/p>\n<p>Amy Goodman &eacute; a &acirc;ncora de Democracy Now!, um notici&aacute;rio internacional transmitido diariamente em mais de 550 emissoras de r&aacute;dio e televis&atilde;o em ingl&ecirc;s e em mais de 250 em espanhol. &Eacute; co-autora do livro &quot;Os que lutam contra o sistema: Her&oacute;is ordin&aacute;rios em tempos extraordin&aacute;rios nos Estados Unidos&quot;, editado por Le Monde Diplomatique Cono Sur.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O horror das experi\u00eancias cient\u00edficas em seres humanos n\u00e3o foi obra apenas de m\u00e9dicos-monstros nazistas. 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