{"id":1317,"date":"2010-10-13T17:40:51","date_gmt":"2010-10-13T17:40:51","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/?p=1317"},"modified":"2010-10-13T17:40:51","modified_gmt":"2010-10-13T17:40:51","slug":"entrevista-especial-com-bruno-lima-rocha-o-bombardeio-midiatico-foi-determinante-para-o-segundo-turno-afirma-cientista-politico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=1317","title":{"rendered":"Entrevista especial com Bruno Lima Rocha: \u201cO bombardeio midi\u00e1tico foi determinante para o segundo turno\u201d, afirma cientista pol\u00edtico."},"content":{"rendered":"<figure class=\"image-container image-post-defautl\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/roberto_marinho.jpg\" title=\"Roberto Marinho se engajou em v\u00e1rias campanhas pol\u00edticas, sendo a maior delas a vit\u00f3ria do golpe militar de 1\u00ba de abril de 2010. - Foto:fjsantacruz\" alt=\"Roberto Marinho se engajou em v\u00e1rias campanhas pol\u00edticas, sendo a maior delas a vit\u00f3ria do golpe militar de 1\u00ba de abril de 2010. - Foto:fjsantacruz\" class=\"image\"><figcaption class=\"fig-caption\">Roberto Marinho se engajou em v\u00e1rias campanhas pol\u00edticas, sendo a maior delas a vit\u00f3ria do golpe militar de 1\u00ba de abril de 2010.<\/figcaption><small itemprop=\"copyrightHolder\" class=\"copyright\"> Foto:fjsantacruz<\/small><\/figure>\n<p>13 de outubro de 2010 &ndash; Vila Setembrina dos Farrapos tra&iacute;dos em Ponche Verde e por latifundi&aacute;rios assassinos que entregaram os Lanceiros Negros. Entrevista com Bruno Lima Rocha para o IHU<\/p>\n<p>A m&iacute;dia como fator decisivo nas elei&ccedil;&otilde;es 2010. Entrevista especial com Bruno Lima Rocha &ldquo;O bombardeio midi&aacute;tico foi determinante para o segundo turno&rdquo;, afirmou o cientista pol&iacute;tico Bruno Lima Rocha em entrevista &agrave; IHU On-Line, por telefone. Segundo ele, o caso sobre a quebra de sigilo fiscal e banc&aacute;rio envolvendo Jos&eacute; Serra e sua filha foi uma not&iacute;cia requentada, al&eacute;m disso, existiu um acordo conceitual entre os quatro grandes grupos de m&iacute;dia durante as elei&ccedil;&otilde;es. &ldquo;A revista Veja lan&ccedil;ava, a Folha de S&atilde;o Paulo aprofundava e a Rede Globo replicava&rdquo;, ressalta. Bruno tamb&eacute;m fala sobre a decis&atilde;o do jornal O Estado de S&atilde;o Paulo em declarar apoio ao candidato tucano, o fator &ldquo;lulismo&rdquo; na campanha petista, entre outros assuntos. <\/p>\n<p><strong>Confira a entrevista. <br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p>IHU On-Line &ndash; O primeiro turno de 2006 foi considerado ap&aacute;tico, insosso. Como o senhor caracterizaria esse primeiro turno? <\/p>\n<p>Bruno Lima Rocha &ndash; &Eacute; bom lembrar que no primeiro turno de 2006 t&iacute;nhamos um candidato de parte do PSDB pouco conhecido, que era Geraldo Alckmin e existiam dois fatos pol&iacute;ticos que foram fornecidos pelo governo, os quais foram muito bem trabalhados pela m&iacute;dia, de modo a alimentar a oposi&ccedil;&atilde;o tucana. Estes fatos foram a opera&ccedil;&atilde;o do setor inteligente do PT, a quem o Lula apelidou de &ldquo;aloprados&rdquo; e de &ldquo;organiza&ccedil;&otilde;es tabajara&rdquo;, e o contraponto do acidente da TAM, no aeroporto de Congonhas, em 2006, onde havia uma responsabilidade direta do governo. Isto abriu margem para os desmandos causando a cria&ccedil;&atilde;o do movimento &ldquo;Cansei&rdquo;. Foi isso que agitou o primeiro turno de 2006. <\/p>\n<p>Desta vez, a leitura que eu fa&ccedil;o &eacute; que todo o fator preponderante da pol&iacute;tica tem origem multicausal, qualquer um que chega e diz &ldquo;o que determina as condi&ccedil;&otilde;es da disputa do poder &eacute; isto e aquilo&rdquo; est&aacute; totalmente equivocado. Este ano, o que aconteceu foi que a campanha ficou ausente das ruas. Eu sempre falo que no Sul &eacute; diferente, mas nunca tinha visto tanta milit&acirc;ncia paga nas ruas e a tend&ecirc;ncia &eacute; que isso cres&ccedil;a cada vez mais. O diferencial houve nos grandes com&iacute;cios na unidade popular puxados por Tarso Genro, mas foi um pequeno diferencial. <\/p>\n<p>O que, de fato, agitou essa campanha foi a troca de linha de conduta na campanha do Jos&eacute; Serra, onde ele que apenas escutava o executivo de sua campanha, seu marqueteiro, parou de tentar criar uma imagem de &ldquo;Serra, paz e amor&rdquo; e &ldquo;Depois de Lula vem o Z&eacute;&rdquo;, passando a atacar, a subordinar, e a recriar os fantasmas supostamente ditos do autoritarismo, do ideologismo. Isso ocorre em qualquer partido, mas o PT tem essa brecha, ainda mais depois do mensal&atilde;o. <\/p>\n<p>Neste aspecto, temos um papel preponderante dos quatro maiores grupos de m&iacute;dia do Brasil. N&atilde;o foi por um milagre divino que a fam&iacute;lia Mesquita tomou uma posi&ccedil;&atilde;o publicamente, definindo em editorial do Estad&atilde;o o apoio ao candidato Serra, alegando debate de fundo moral, conservador, com a finalidade de evitar o mal maior. A revista Veja, por exemplo, que sempre tenta dar primeiro algum furo jornal&iacute;stico, tenta em cima de um dossi&ecirc; de espionagem pol&iacute;tica. Depois veio a hist&oacute;ria da quebra de sigilo fiscal e banc&aacute;rio de Serra e familiares. Esta foi uma not&iacute;cia requentada, porque o fato in&eacute;dito foi de abril de 2009, revisto em setembro do mesmo ano. Declara-se, ent&atilde;o, uma guerra midi&aacute;tica, isso porque a revista Carta Capital aponta na edi&ccedil;&atilde;o n&ordm; 613 um contraponto do caso, afirmando que Ver&ocirc;nica Serra, que teria sido v&iacute;tima de quebra de sigilo, teria sido operadora de quebra de sigilo junto com a irm&atilde; de Daniel Dantas. Essa capa foi solenemente ignorada. <\/p>\n<p>A partir disto, tanto a oposi&ccedil;&atilde;o tucana quanto os quatro maiores grupos de m&iacute;dia v&ecirc;m com tudo e a candidatura de Dilma flerta uma rea&ccedil;&atilde;o ao ganhar um pequeno espa&ccedil;o no Terra Magazine, onde foi realizada uma entrevista de uma hora e meia com o presidente Lula. J&aacute; no com&iacute;cio, Lula pregou a liberdade de imprensa misturando este valor com liberdade de empresa. A anima&ccedil;&atilde;o dessa campanha vem muito mais pela cria&ccedil;&atilde;o de fatos midi&aacute;ticos. Quanto mais forte for o crit&eacute;rio de noticiabilidade de uma mat&eacute;ria, mais surge como necess&aacute;rio existir uma op&ccedil;&atilde;o de gaveta, caso a mat&eacute;ria seja furada por algu&eacute;m. Entretanto, neste aspecto, existiu um acordo conceitual entre os quatro grandes grupos de m&iacute;dia durante as elei&ccedil;&otilde;es. Enquanto um furava a campanha inteira, outro batia e outro replicava, ou seja, a revista Veja lan&ccedil;ava, a Folha de S&atilde;o Paulo aprofundava e a Rede Globo replicava. <\/p>\n<p>Este per&iacute;odo tamb&eacute;m foi mais agitado devido &agrave; aus&ecirc;ncia de militantes, de um bloco de poder definido em fun&ccedil;&atilde;o das alian&ccedil;as duvidosas do governo Lula, n&atilde;o existindo uma real motiva&ccedil;&atilde;o de ir para rua, de defender o governo, de defender uma candidatura &ldquo;de esquerda&rdquo;. N&atilde;o houve nada disso, mas, sim, uma direita muito raivosa, comportando-se como a Uni&atilde;o Democr&aacute;tica Nacional (UDN) e a For&ccedil;a A&eacute;rea se portara durante o governo de Jucelino Kubitschek. Compara&ccedil;&otilde;es hist&oacute;rias s&atilde;o esdr&uacute;xulas, mas o problema era entre um governo melhorista, muito vinculado a um setor do capital nacional e ao setor banc&aacute;rio, contra uma dobradinha de um fragmento das elites que vieram desde a &eacute;poca da Ditadura Militar, os Democratas (DEM) e seus aliados hist&oacute;ricos, o racha peemedebista que cria o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) em 1988. <\/p>\n<p>IHU On-Line &ndash; O que foi determinante para o segundo turno? <\/p>\n<p>Bruno Lima Rocha &ndash; O bombardeio midi&aacute;tico foi determinante para o segundo turno, mas isso n&atilde;o significa que n&atilde;o houve fatos denunciados, o problema foi a abordagem. N&atilde;o vou ser c&iacute;nico para falar que todo mundo sai de Bras&iacute;lia desconhecendo termos como o acompanhamento do processo da chamada taxa de urg&ecirc;ncia e taxa de sucesso. A taxa de urg&ecirc;ncia &eacute; algo ilegal, &eacute; quando algu&eacute;m &ldquo;molha a m&atilde;o&rdquo; de algum burocrata para o processo avan&ccedil;ar, isso &eacute; crime. J&aacute; a taxa de sucesso &eacute; o seguinte: Vamos supor que eu tenho um escrit&oacute;rio de acompanhamento de processos de Bras&iacute;lia e eu sou contratado por um cliente para tentar ganhar uma licita&ccedil;&atilde;o. O que o cliente fala &eacute; que &ldquo;se voc&ecirc; conseguir o contrato, al&eacute;m dos teus honor&aacute;rios eu vou pagar 5% em cima do contrato&rdquo;. Foi exatamente isto que aconteceu, o problema &eacute; que isso se caracteriza no Brasil como tr&aacute;fico de influ&ecirc;ncia, enquanto em outros pa&iacute;ses isto &eacute; legal. Isso &eacute; um absurdo, mas s&oacute; ocorreu porque os governos federal, estadual e municipal est&atilde;o recheados de cargos de confian&ccedil;a, n&atilde;o havendo uma lei r&iacute;gida que impe&ccedil;a certas coisas. Se tiv&eacute;ssemos no Brasil uma lei de nepotismo, nada disso aconteceria. <\/p>\n<p>O que percebo &eacute; que a hist&oacute;ria da Casa Civil foi repercutida al&eacute;m do seu grau de ineditismo sendo que isso ocorre sistematicamente. Desta vez, os tucanos, a partir do comando de Jos&eacute; Serra, foram mais ousados que a m&eacute;dia e por isso eles conseguiram bagun&ccedil;ar as campanhas. Eles colocaram a bomba no colo da Dilma, assim como tentaram colocar no colo do Lula durante oito anos e n&atilde;o conseguiram. <\/p>\n<p>IHU On-Line &ndash; Podemos dizer que, no caso de Dilma, o &quot;lulismo&quot; substituiu os programas? <\/p>\n<p>Bruno Lima Rocha &ndash; Sim, o &ldquo;lulismo&rdquo; &eacute; uma rela&ccedil;&atilde;o de empatia, onde existe v&iacute;nculo direto entre o l&iacute;der carism&aacute;tico popular, que fala a l&iacute;ngua do povo, que tem origens humildes e conseguiu o &ldquo;equil&iacute;brio&rdquo; de distribuir um pouco de renda sem alterar nada da estrutura de poder. O Lula &eacute; um verdadeiro equilibrista, pois distribuiu renda pelo pa&iacute;s, criou uma pol&iacute;tica industrial, e ao mesmo tempo, os bancos e o agroneg&oacute;cio nunca faturaram tanto, o Brasil tem &iacute;ndices de crescimento absurdos, talvez tenha uma pol&iacute;tica que a gente possa chamar de melhorista na Ci&ecirc;ncia Pol&iacute;tica. Lulismo &eacute; isto e o Lula pegou uma carona nas id&eacute;ias de Get&uacute;lio Vargas, do pr&oacute;prio Josef St&aacute;lin, o pai dos pobres. Se o presidente Lula &eacute; o pai, associa-se Dilma Rousseff como a m&atilde;e do Programa de Acelera&ccedil;&atilde;o do Crescimento (PAC). O Bolsa Fam&iacute;lia tamb&eacute;m &eacute; um grande programa, mas ao mesmo tempo n&atilde;o traz nenhuma novidade. <\/p>\n<p>O governo Sueco de 1931, por exemplo, fez o Bolsa Fam&iacute;lia deles, quando a Su&eacute;cia era o pa&iacute;s recordista de lutas sindicais da Europa, quando distribu&iacute;ram uma renda m&iacute;nima e garantiram para os sociais democratas 30% de voto, mais ou menos. O problema &eacute; que os opin&oacute;logos brasileiros n&atilde;o estudam isto, ficam s&oacute; na &ldquo;chutometria&rdquo;, eles se preocupam a respeito das apar&ecirc;ncias, se a Dilma est&aacute; gorda, magra, se o cabelo dela est&aacute; quadrado ou n&atilde;o. N&atilde;o que a est&eacute;tica n&atilde;o seja importante, mas estes profissionais se perderam ao apostar tudo na est&eacute;tica, esvaziando os conte&uacute;dos. Ningu&eacute;m falou as palavras m&aacute;gicas: &ldquo;Se o Serra ganhar ele vai privatizar&rdquo;, ou seja, eles bateram muito pouco. Com isto, o PT chegou ao ponto de n&atilde;o agitar as elei&ccedil;&otilde;es como deveria, apostando que iriam ganhar as elei&ccedil;&otilde;es na empatia e agora est&atilde;o levando o segundo turno na cabe&ccedil;a. Como linha de campanha, eu digo: bem feito. Quem mandou o governo ficar oito anos sem distribuir o poder midi&aacute;tico no pa&iacute;s? Tanto o governo atual como o anterior t&ecirc;m profundos problemas de conduta, isto &eacute; sabido. A emenda da reelei&ccedil;&atilde;o, por exemplo, teve como operador o ex-ministro das Comunica&ccedil;&otilde;es, S&eacute;rgio Motta, compondo um esc&acirc;ndalo enorme. N&atilde;o sou eu que estou falando, &eacute; a Folha de S&atilde;o Paulo, ou agora quando a Folha fala contra o PSDB vale, mas quando fala contra o PT n&atilde;o? <\/p>\n<p>IHU On-Line &ndash; Como o senhor interpreta o papel da grande m&iacute;dia nessas elei&ccedil;&otilde;es at&eacute; o momento. Ela teve influ&ecirc;ncia nos resultados? <\/p>\n<p>Bruno Lima Rocha &ndash; Teve, a grande m&iacute;dia pautou a campanha. &Eacute; imposs&iacute;vel fazer pol&iacute;tica sem m&iacute;dia, imposs&iacute;vel. N&atilde;o existe essa hist&oacute;ria de fazer pol&iacute;tica atrav&eacute;s da popularidade, na rela&ccedil;&atilde;o do l&iacute;der com o seu povo ou com os aparelhos de Estado. Os postos de sa&uacute;de, as escolas, as reparti&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas podem reproduzir uma linha acima da m&iacute;dia, mas ser&aacute; uma influ&ecirc;ncia m&iacute;nima. Tanto Lula quanto Dilma, ou seja, o primeiro escal&atilde;o do PT, est&atilde;o apavorados com o poder midi&aacute;tico, eles t&ecirc;m medo de apanhar como apanharam em 1989. Enquanto n&atilde;o houver uma divis&atilde;o do poder midi&aacute;tico no Brasil em n&iacute;vel nacional, nos estados e nas microrregi&otilde;es, vai ser muito dif&iacute;cil governar sem uma base de alian&ccedil;a corrupta, olig&aacute;rquica, clientelista. Ser&aacute; dif&iacute;cil, sen&atilde;o imposs&iacute;vel. <\/p>\n<p>IHU On-Line &ndash; A chamada m&iacute;dia alternativa e as redes sociais constitu&iacute;ram-se de fato em um contraponto &agrave;s grandes corpora&ccedil;&otilde;es da m&iacute;dia? <\/p>\n<p>Bruno Lima Rocha &ndash; Aquele slogan que foi cunhado como conceito de Partido da Imprensa Golpista (PIG), foi produzido por quem hoje lidera a m&iacute;dia alternativa, que &eacute; justamente o Partido da Imprensa Governista (PIG2), que tem um poder muito menor. Desta forma, n&atilde;o temos o impacto pol&iacute;tico da chamada m&iacute;dia alternativa na produ&ccedil;&atilde;o de conte&uacute;do, oferecendo vis&otilde;es de mundo distintas e com independ&ecirc;ncia de classe. Para complicar mais, a internet no Brasil &eacute; uma internet de superficialidades. O Brasil, assim como a Am&eacute;rica Latina como um todo, tem sua juventude atravessada pela internet, sendo que no ano retrasado alcan&ccedil;amos a marca de que 85% dos usu&aacute;rios latino-americanos navegam atrav&eacute;s de sites de relacionamentos e redes sociais. <\/p>\n<p>Aqui na Unisinos, atrav&eacute;s de pesquisa do Grupo Cepos, fizemos uma medi&ccedil;&atilde;o entre os estudantes secundaristas da Feitoria, e bateu que 93% das pessoas que utilizam a internet todos os dias a usam basicamente para as redes sociais. Com esta realidade, como que se difunde e trafega a postura de um candidato? Estamos muito distantes de uma compreens&atilde;o e essa dist&acirc;ncia n&atilde;o vai aprofundar de jeito nenhum da forma que est&aacute;. N&oacute;s ter&iacute;amos que ter uma pol&iacute;tica p&uacute;blica, vinda do caixa da Uni&atilde;o para implantar no Brasil os tr&ecirc;s sistemas de comunica&ccedil;&atilde;o previstos na Constitui&ccedil;&atilde;o: o privado j&aacute; est&aacute; mais que desenvolvido e se alimenta das verbas de publicidade dos tr&ecirc;s n&iacute;veis de governo e n&atilde;o precisa de mais; j&aacute; o estatal com a voca&ccedil;&atilde;o educativa est&aacute; esvaziado e em crise de miss&atilde;o; e o sistema p&uacute;blico n&atilde;o-estatal, com voca&ccedil;&atilde;o de m&iacute;dia alternativa, necessita de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas para se desenvolver. <\/p>\n<p>Se continuarmos desta forma vai ser muito dif&iacute;cil brigarmos contra o ponto de vista que venha dos maiores produtores de conte&uacute;do, embora a internet seja, para as minorias organizadas, ainda uma boa alternativa. A m&iacute;dia corporativa quer bloquear certas id&eacute;ias de forma sistem&aacute;tica, negociada e proposital, como foi o caso aqui no Rio Grande do Sul com o empr&eacute;stimo junto ao Banco Mundial. Neste caso, as vers&otilde;es contr&aacute;rias n&atilde;o foram vinculadas. Se a m&iacute;dia quiser bloquear algo eles bloqueiam, como na Opera&ccedil;&atilde;o Castelo de Areia, que ficou dois meses virando nas gavetas das reda&ccedil;&otilde;es. <\/p>\n<p>IHU On-Line &ndash; O que significa a decis&atilde;o do jornal O Estado de S.Paulo em optar por uma candidatura? <\/p>\n<p>Bruno Lima Rocha &ndash; Vejo esta atitude como sendo de grande import&acirc;ncia, porque acaba com a premissa oculta. &Eacute; muito salutar todo grupo de m&iacute;dia, empresa jornal&iacute;stica ou grupos de comunica&ccedil;&atilde;o explicitar o seu condicionamento em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s candidaturas e tamb&eacute;m especificar a sua linha editorial. Se os conglomerados midi&aacute;ticos explicitarem essa oposi&ccedil;&atilde;o para o leitor; o receptor e os oponentes midi&aacute;ticos e pol&iacute;ticos n&atilde;o ficar&atilde;o adivinhando seu posicionamento, diminuindo, desta forma, a confus&atilde;o entre liberdade de imprensa e liberdade de empresa. O Estad&atilde;o pode sim fazer isso, chega uma hora que tem que se admitir o que se quer e a quem apoiar. <\/p>\n<p>IHU On-Line &ndash; Pela primeira vez, desde as elei&ccedil;&otilde;es diretas, o RS elegeu seu governador em primeiro turno. O que isso significa? <\/p>\n<p>Bruno Lima Rocha &ndash; O primeiro fator que aponto foi o elevado &iacute;ndice de rejei&ccedil;&atilde;o do governo Yeda Crusius. A maior parte do eleitorado optou por deixar existir nenhum risco de um prolongamento do governo Yeda. O segundo &eacute; o fato de que na interna do PT est&aacute; cada vez menos expl&iacute;cito o que havia de corrente de esquerda. Efetivamente n&atilde;o h&aacute; proposta de esquerda cl&aacute;ssica junto ao grupo pol&iacute;tico de Tarso Genro. Al&eacute;m de auto-escantear o que resta de &ldquo;esquerda&rdquo; dentro do PT ga&uacute;cho, eu me recordo que muito antes j&aacute; se cogitava pelos operadores pol&iacute;ticos do Tarso, algumas variantes ou um di&aacute;logo com o senador Paulo Paim e uma aproxima&ccedil;&atilde;o pacificada com o ex-governador Ol&iacute;vio Dutra. Isso tamb&eacute;m tem um qu&ecirc; de casu&iacute;smo, porque, antes da defini&ccedil;&atilde;o da Unidade Popular, que revigora a tese da Frente Popular aqui do Rio Grande do Sul, a tese de 1998, antes de isso tudo ocorrer, o PT estava flertando com o PTB. <\/p>\n<p>A confus&atilde;o era para ser maior. Em 2008, para concorrer &agrave; prefeitura de Porto Alegre, o Eliseu Padilha fez uma aproxima&ccedil;&atilde;o escancarada com a Manuela D&rsquo;&Aacute;vila. Nenhuma elei&ccedil;&atilde;o estadual no Brasil, nem no Rio Grande do Sul, &eacute; coesa. Tem prefeito que rompe com sua orienta&ccedil;&atilde;o partid&aacute;ria e apoiando outros, como foi o caso do ex-governador Alceu Collares, que vai contra a orienta&ccedil;&atilde;o do partido do PDT e ap&oacute;ia escancaradamente Tarso Genro. Isso esvazia a centro-direita e tamb&eacute;m gera uma composi&ccedil;&atilde;o de rejei&ccedil;&atilde;o ao governo Yeda. A situa&ccedil;&atilde;o indefinida foi o brete onde se metera o ex-prefeito de Porto Alegre pelo PPS, que tentou construir um discurso de terceira posi&ccedil;&atilde;o. Na verdade, Jos&eacute; Foga&ccedil;a, em dobradinha com Pompeo de Mattos do PDT, tentou criar uma terceira posi&ccedil;&atilde;o de tipo midi&aacute;tica, porque pragmaticamente as tr&ecirc;s propostas, em termos estruturais, n&atilde;o se diferenciam tanto. Estar na terceira posi&ccedil;&atilde;o com um discurso lavado &eacute; muito dif&iacute;cil e talvez a campanha do Tarso tenha acertado eleitoralmente, no sentido de ter mais voto, na hora de ter sido muito propositivo. Essa tese se encaixa muito bem no Rio Grande do Sul, que &eacute; um estado com &eacute;tica no trabalho, mas muito conservador. <\/p>\n<p>IHU On-Line &ndash; Dilma e Serra chegam ao segundo turno com propostas econ&ocirc;micas muito parecidas. Podemos consider&aacute;-los socialdemocratas? O que isso indica sobre eles? <\/p>\n<p>Bruno Lima Rocha &ndash; O PT, quando ganhou estabilidade, se exp&ocirc;s para fora do Brasil como um grande partido socialdemocrata. &Eacute; o mesmo universo onde existe partidos enormes como o PSOE, da Espanha, as legendas socialistas italianas It&aacute;lia, os PSs da Fran&ccedil;a e Portugal, e a social-democracia dos pa&iacute;ses escandinavos. Hoje o PT &eacute; isso, uma legenda socialdemocrata e muito distante do antagonismo de classe. J&aacute; o PSDB &eacute; um partido liberal com nome de socialdemocrata, e o DEM &eacute; o leg&iacute;timo herdeiro da Uni&atilde;o Democr&aacute;tica Nacional, &eacute; um partido neoliberal convicto e opera como dobradinha. Entra como o que mais ataca, mordendo, enquanto o PSDB assopra. Enfim, n&atilde;o vejo o PSDB como um partido socialdemocrata, embora o seu nome assim o diga. E, mesmo dentro do PT n&atilde;o &eacute; vigente uma socialdemocracia cl&aacute;ssica, onde existe alta carga impositiva visando distribui&ccedil;&atilde;o de renda que garanta o Estado de bem-estar. Aqui a f&oacute;rmula est&aacute; subordinada &agrave;s regras do jogo banc&aacute;rio. Na Europa ocidental isso ocorre tamb&eacute;m, mas l&aacute; o servi&ccedil;o p&uacute;blico funciona. Em pa&iacute;ses onde o Estado de bem-estar &eacute; governado pela socialdemocracia, as pessoas pagam imposto e tem retorno nos servi&ccedil;os p&uacute;blicos, com a sa&uacute;de de qualidade, o transporte p&uacute;blico de qualidade, as garantias dos direitos individuais e coletivos. Sendo esse o par&acirc;metro, n&atilde;o podemos afirmar que o PSDB seja socialdemocrata, seria um absurdo conceitual. Esta tradi&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica hoje &eacute; do PT. <\/p>\n<p>IHU On-Line &ndash; Que temas foram esquecidos nas elei&ccedil;&otilde;es 2010? <\/p>\n<p>Bruno Lima Rocha &ndash; Muitos temas foram esquecidos, como a democratiza&ccedil;&atilde;o da m&iacute;dia, a reforma agr&aacute;ria, a cr&iacute;tica do modelo agroexportador. A pauta que todo mundo fala, mas ningu&eacute;m quer entrar &eacute; a da reforma pol&iacute;tica. Porque sem uma legislatura exclusiva, fazer reforma da pol&iacute;tica profissional com um Congresso no meio de mandato &eacute; imposs&iacute;vel, isso &eacute; imposs&iacute;vel. Nenhum pol&iacute;tico de carreira &eacute; doido o bastante para limitar seu pr&oacute;prio poder e diminuir seus recursos no exerc&iacute;cio do mandato. Outro fator que destaco como ocultado ou esquecido na campanha &eacute; a o da privatiza&ccedil;&atilde;o. Embora a capacidade de interven&ccedil;&atilde;o do servi&ccedil;o p&uacute;blico no Brasil tenha aumentado, ainda existe muita terceiriza&ccedil;&atilde;o, contratos emergenciais ou de consultorias e essa vergonha das PPPs, as Parcerias P&uacute;blico Privadas, onde o Estado ainda diminui a margem de risco do capital atrav&eacute;s de um fundo garantidor. Existe ainda muita falta de responsabilidade do Estado para com os direitos do cidad&atilde;o e o modelo de se financiar a m&aacute;quina p&uacute;blica atrav&eacute;s de endividamento e financeiriza&ccedil;&atilde;o &eacute; um tema censurado, proibido tanto pelos candidatos favoritos como pela m&iacute;dia corporativa e comercial. <\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/index.php?option=com_noticias&amp;Itemid=18&amp;task=detalhe&amp;id=37005\">Esta entrevista foi originalmente publicada no portal do Instituto Humanitas Unisinos<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Roberto Marinho se engajou em v\u00e1rias campanhas pol\u00edticas, sendo a maior delas a vit\u00f3ria do golpe militar de 1\u00ba de abril de 2010. Foto:fjsantacruz 13 de outubro de 2010 &ndash; Vila Setembrina dos Farrapos tra&iacute;dos em Ponche Verde e por latifundi&aacute;rios assassinos que entregaram os Lanceiros Negros. 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