{"id":1328,"date":"2010-10-29T21:48:24","date_gmt":"2010-10-29T21:48:24","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/?p=1328"},"modified":"2010-10-29T21:48:24","modified_gmt":"2010-10-29T21:48:24","slug":"29-de-outubro-de-2010-coluna-semanal-de-amy-goodman","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=1328","title":{"rendered":"29 de outubro de 2010 \u2013 coluna semanal de Amy Goodman"},"content":{"rendered":"<figure class=\"image-container image-post-defautl\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/imagesCAPQO6N4.jpg\" title=\"Helic\u00f3pteros Apache e soldados treinados para a guerra no deserto s\u00e3o instrumentos da morte desenfreada onde nada nem ningu\u00e9m tenta distinguir um civil de um insurgente organizado. A \u201cmiss\u00e3o cumprida\u201d no Iraque foi mergulhar o pa\u00eds no caos, na guerra fratricida e sect\u00e1ria e um banho de sangue sem fim, jorrando em conjunto com os lucros astron\u00f4micos das empresas favorecidas com a guerra privatizada.  - Foto:iraqwarnewsnet \" alt=\"Helic\u00f3pteros Apache e soldados treinados para a guerra no deserto s\u00e3o instrumentos da morte desenfreada onde nada nem ningu\u00e9m tenta distinguir um civil de um insurgente organizado. A \u201cmiss\u00e3o cumprida\u201d no Iraque foi mergulhar o pa\u00eds no caos, na guerra fratricida e sect\u00e1ria e um banho de sangue sem fim, jorrando em conjunto com os lucros astron\u00f4micos das empresas favorecidas com a guerra privatizada.  - Foto:iraqwarnewsnet \" class=\"image\"><figcaption class=\"fig-caption\">Helic\u00f3pteros Apache e soldados treinados para a guerra no deserto s\u00e3o instrumentos da morte desenfreada onde nada nem ningu\u00e9m tenta distinguir um civil de um insurgente organizado. A \u201cmiss\u00e3o cumprida\u201d no Iraque foi mergulhar o pa\u00eds no caos, na guerra fratricida e sect\u00e1ria e um banho de sangue sem fim, jorrando em conjunto com os lucros astron\u00f4micos das empresas favorecidas com a guerra privatizada. <\/figcaption><small itemprop=\"copyrightHolder\" class=\"copyright\"> Foto:iraqwarnewsnet <\/small><\/figure>\n<p><strong>A guerra deveria ser tema destas elei&ccedil;&otilde;es (nos EUA) <\/p>\n<p><\/strong>Faltando poucos dias das cruciais elei&ccedil;&otilde;es legislativas de metade de mandato, WikiLeaks, o portal da internet onde se denuncia pr&aacute;ticas ilegais, revelou o maior vazamento de informa&ccedil;&atilde;o classificada do ex&eacute;rcito estadunidense da hist&oacute;ria. Quase 400.000 documentos secretos do Pent&aacute;gono relacionados &agrave; invas&atilde;o e ocupa&ccedil;&atilde;o dos EUA no Iraque foram publicados no site. Os documentos, terrivelmente detalhados, d&atilde;o mostra da elevada escala do cotidiano de constante viol&ecirc;ncia, assassinatos, viola&ccedil;&otilde;es e torturas ao que t&ecirc;m sido submetidos os iraquianos desde que George W. Bush declarou &ldquo;Miss&atilde;o cumprida&rdquo;. Os documentos publicados por WikiLeaks, conhecidos como &ldquo;Registros da Guerra do Iraque&rdquo; t&ecirc;m ocupado os primeiros lugares nos titulares da m&iacute;dia na Europa, mas nos Estados Unidos, mal mereceu men&ccedil;&atilde;o nos programas de entrevistas dos domingos.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, est&atilde;o os documentos em si. Falei com Julian Assange, fundador e editor em chefe de WikiLeaks.org e ele me explicou: &ldquo;Estes documentos cobrem desde o ano 2004 at&eacute; come&ccedil;os de 2010. &Eacute; a descri&ccedil;&atilde;o mais precisa de uma guerra, nada assim jamais foi publicado antes. Dos documentos foi extra&iacute;da a informa&ccedil;&atilde;o de que houve 285.000 v&iacute;timas, v&iacute;timas essas que v&atilde;o se somando relat&oacute;rio ap&oacute;s relat&oacute;rio. Pode-se ver a cada v&iacute;tima, onde e quando a a&ccedil;&atilde;o ocorreu, e quem esteve envolvido segundo os relat&oacute;rios internos das For&ccedil;as Armadas dos Estados Unidos.&rdquo; <\/p>\n<p>David Leigh, editor de investiga&ccedil;&otilde;es do jornal The Guardian de Londres, me comentou algo referindo-se a informa&ccedil;&atilde;o vazada: &ldquo;Representa mat&eacute;ria prima para a hist&oacute;ria. Possuir esta informa&ccedil;&atilde;o &eacute; algo de imenso valor j&aacute; que, como todos sabemos, durante os &uacute;ltimos seis ou sete anos de invas&atilde;o e ocupa&ccedil;&atilde;o do Iraque, esta tem ido acompanhada, como ocorre com freq&uuml;&ecirc;ncia, de propaganda, interpreta&ccedil;&otilde;es, vers&otilde;es lavadas. Esta &eacute; a vers&atilde;o lisa e plana (direta e reta) dos fatos e &eacute; claro que esta vers&atilde;o, sem adornos, confirma o que muitos de n&oacute;s tem&iacute;amos e o que muitos jornalistas t&ecirc;m tentado informar ao longo destes anos: que o Iraque se converteu em um banho de sangue, com assassinatos desnecess&aacute;rios, matan&ccedil;as de civis, torturas e pessoas golpeadas at&eacute; morrer.&rdquo; <\/p>\n<p>Os relat&oacute;rios, redigidos com a inexpressiva linguagem burocr&aacute;tica e recheados de jarg&atilde;o militar, brindam detalhes horripilantes. Se vamos ao portal de Wikileaks e buscamos em centenass de milhares de registros, veremos que palavras tais como &ldquo;viola&ccedil;&atilde;o ou estupro&rdquo;, &ldquo;assassinato&rdquo;, &ldquo;execu&ccedil;&atilde;o&rdquo;, &ldquo;seq&uuml;estro&rdquo; e &ldquo;decapita&ccedil;&atilde;o&rdquo; aparecem de vez em quando nos quase 400 mil relat&oacute;rios, documentando assim, n&atilde;o s&oacute; a escala e regularidade da viol&ecirc;ncia, sen&atilde;o em definitiva, uma nova cifra total de v&iacute;timas civis no Iraque. <\/p>\n<p>A organiza&ccedil;&atilde;o Iraq Body Count, com sede na Inglaterra e que possui uma base de dados sobre as mortes no Iraque a partir de uma cuidadosa investiga&ccedil;&atilde;o que contabiliza unicamente as mortes documentadas, estima que os &ldquo;Registros da Guerra do Iraque&rdquo; (do Wikileaks) documentam 15.000 mortes de civis que n&atilde;o tinham sido registradas at&eacute; agora, o que leva a uma cifra total a mais de 150.000 mortes desde o in&iacute;cio da invas&atilde;o, onde 80 por cento das quais s&atilde;o v&iacute;timas civis. <\/p>\n<p>Em um incidente em fevereiro de 2007, dois homens iraquianos tentavam render-se ante o ataque de um helic&oacute;ptero de combate estadunidense. Os relat&oacute;rios revelam que se ordenou &agrave; tripula&ccedil;&atilde;o regressar a sua base e lhes foi dito: &ldquo;Os homens n&atilde;o podem se render ante uma aeronave, portanto eles s&atilde;o um alvo v&aacute;lido&rdquo;. Ambos os homens foram assassinados. Tratava-se da mesma unidade e o mesmo helic&oacute;ptero que, uns meses depois atacou um grupo de civis em Bagd&aacute;, assassinou a todos os homens que faziam parte do mesmo, entre eles a dois empregados da ag&ecirc;ncia de not&iacute;cias Reuters, e feriu a dois meninos. Este incidente que tamb&eacute;m se encontra documentado nos Registros da Guerra do Iraque deu origem a outra destacada publica&ccedil;&atilde;o de WikiLeaks chamada &ldquo;Assassinato Colateral.&rdquo; <\/p>\n<p>No pr&oacute;prio v&iacute;deo gravado de dentro do helic&oacute;ptero apache, cuja tripula&ccedil;&atilde;o foi autora da agress&atilde;o violenta, acompanhado das grava&ccedil;&otilde;es de &aacute;udio vindas das conversas atrav&eacute;s do r&aacute;dio militar, os soldados ficaram expostos ao mundo, rindo e amaldi&ccedil;oando as v&iacute;timas, comentando como eles mataram os civis. Estes registros produziram manchetes em todo o planeta. Eis um trecho do &aacute;udio em ingl&ecirc;s (em tradu&ccedil;&atilde;o n&atilde;o literal para o portugu&ecirc;s): <\/p>\n<p>US SOLDIER: &ldquo;Light &lsquo;em all up. Come, on, fire!&rdquo; (Fogo neles, vamos l&aacute;, fogo!) <br \/>\n&ldquo;(gunshots &ndash; sons de tiros)&rdquo; <\/p>\n<p>US SOLDIER: &ldquo;Keep shooting&rdquo; &#8211; mostra soldados que riem e insultam enquanto assassinam a civis e fazem not&iacute;cias em todo mundo. <\/p>\n<p>US SOLDIER : &ldquo;One small child wounded. Over.&rdquo; (uma crian&ccedil;a pequena ferida, c&acirc;mbio) <\/p>\n<p>US SOLDIER : &ldquo;Roger. Ah, damn. Oh, well.&rdquo; (copiado, ah, que se dane, ok, tudo bem) <\/p>\n<p>Imaginemos se as opera&ccedil;&otilde;es militares n&atilde;o fossem assim t&atilde;o secretas, se o assassinato de fevereiro dos dois homens com os bra&ccedil;os levantados (em posi&ccedil;&atilde;o m&atilde;os ao alto) tentando se render tivesse sido tornado um fato p&uacute;blico. Se tivesse tido uma investiga&ccedil;&atilde;o e fosse aplicada uma a&ccedil;&atilde;o punitiva apropriada. Talvez o c&acirc;mera da ag&ecirc;ncia Reuters, Namir Noor-Eldeen, de 22 anos de idade, e seu motorista, Saeed Chmagh, pai de quatro filhos, hoje estariam vivos, e talvez tamb&eacute;m, estariam vivos os civis que tiveram a m&aacute; sorte de caminhar aquele fat&iacute;dico dia de julho. Aqui &eacute; um exemplo da import&acirc;ncia da transpar&ecirc;ncia nas informa&ccedil;&otilde;es e revela&ccedil;&otilde;es dos fatos. <\/p>\n<p>Nas grandes cadeias de televis&atilde;o, os programas pol&iacute;ticos do domingo &uacute;ltimo mal tocaram o tema do maior vazamento de informa&ccedil;&atilde;o classificada (confidencial) na hist&oacute;ria dos Estados Unidos. Quando lhes foi perguntado (&acirc;ncoras, produtores, diretores de programa&ccedil;&atilde;o e outros m&iacute;dias reconhecidos), ou por que n&atilde;o trataram esse tema, afirmaram que as elei&ccedil;&otilde;es de metade de mandato eram sua prioridade. Est&aacute; bem&hellip; mas a guerra &eacute; um tema das elei&ccedil;&otilde;es e deveria surgir em cada debate, se discutir em cada programa de entrevistas, de an&aacute;lise pol&iacute;tico. <\/p>\n<p>Imagino os meios de comunica&ccedil;&atilde;o de massa como uma enorme mesa de cozinha que se estende por todo o planeta e ao redor da qual podemos nos sentar todos, e debater e discutir os temas mais importantes do dia: a guerra e a paz, a vida e a morte. Fazer menos que isso prejudica aos homens e mulheres em servi&ccedil;o, soldados deste pa&iacute;s (EUA) que n&atilde;o podem desenvolver estes debates nas bases militares e confiam em n&oacute;s, prejudica a sociedade civil, para discutir e determinar se v&atilde;o viver ou a morrer, se ser&atilde;o enviados a assassinar e a ser assassinados. Fazer menos que isso menoscaba a qualquer sociedade democr&aacute;tica. <br \/>\n&mdash;&mdash;&mdash;&mdash;&mdash;&mdash;&mdash;&mdash;&ndash; <br \/>\nDenis Moynihan colaborou na produ&ccedil;&atilde;o jornal&iacute;stica desta coluna. <br \/>\n&copy; 2010 Amy Goodman <\/p>\n<p>Texto traduzido da vers&atilde;o em castelhano e revisado do original em ingl&ecirc;s por <a href=\"mailto:bruno.estrategiaeanalise@gmail.com\">Bruno Lima Rocha<\/a>; originalmente publicado em portugu&ecirc;s em <a href=\"http:\/\/www.estrategiaeanalise.com.br\">Estrat&eacute;gia &amp; An&aacute;lise<\/a>. &Eacute; livre a reprodu&ccedil;&atilde;o de conte&uacute;do desde que citando a fonte. <\/p>\n<p>Amy Goodman &eacute; a &acirc;ncora de <a href=\"http:\/\/www.democracynow.org\">Democracy Now!,<\/a> um notici&aacute;rio internacional transmitido diariamente em mais de 550 emissoras de r&aacute;dio e televis&atilde;o em ingl&ecirc;s e em mais de 250 em espanhol. &Eacute; co-autora do livro &quot;Os que lutam contra o sistema: Her&oacute;is ordin&aacute;rios em tempos extraordin&aacute;rios nos Estados Unidos&quot;, editado por Le Monde Diplomatique Cono Sur.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Helic\u00f3pteros Apache e soldados treinados para a guerra no deserto s\u00e3o instrumentos da morte desenfreada onde nada nem ningu\u00e9m tenta distinguir um civil de um insurgente organizado. 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