{"id":1343,"date":"2010-11-19T19:00:17","date_gmt":"2010-11-19T19:00:17","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/?p=1343"},"modified":"2010-11-19T19:00:17","modified_gmt":"2010-11-19T19:00:17","slug":"19-de-novembro-de-2010-coluna-semanal-de-amy-goodman","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=1343","title":{"rendered":"19 de novembro de 2010 &#8211; coluna semanal de Amy Goodman"},"content":{"rendered":"<figure class=\"image-container image-post-defautl\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/68ba26_2009_03_16_Esther_Careaga.jpg\" title=\"Esther Careaga, a primeira da esquerda para a direita, foi uma das doze pessoas seq\u00fcestradas \u2013 sendo cinco m\u00e3es do grupo inicial de Madres de Mayo - pela ditadura argentina em Maio de 1977, menos de um ano de consumado o golpe encabe\u00e7ado pela Junta Militar, sob o comando do general Jorge Rafael Videla e secundado por seu rival da Marinha, o almirante Emilio Eduardo Massera. Ontem foi a ESMA o centro de horror, hoje Guant\u00e1namo, e amanh\u00e3, onde ser\u00e1 o pr\u00f3ximo local a chorar nossos mortos at\u00e9 que estas masmorras sejam fechadas definitivamente.   - Foto:madresfundadoras.org.ar\" alt=\"Esther Careaga, a primeira da esquerda para a direita, foi uma das doze pessoas seq\u00fcestradas \u2013 sendo cinco m\u00e3es do grupo inicial de Madres de Mayo - pela ditadura argentina em Maio de 1977, menos de um ano de consumado o golpe encabe\u00e7ado pela Junta Militar, sob o comando do general Jorge Rafael Videla e secundado por seu rival da Marinha, o almirante Emilio Eduardo Massera. Ontem foi a ESMA o centro de horror, hoje Guant\u00e1namo, e amanh\u00e3, onde ser\u00e1 o pr\u00f3ximo local a chorar nossos mortos at\u00e9 que estas masmorras sejam fechadas definitivamente.   - Foto:madresfundadoras.org.ar\" class=\"image\"><figcaption class=\"fig-caption\">Esther Careaga, a primeira da esquerda para a direita, foi uma das doze pessoas seq\u00fcestradas \u2013 sendo cinco m\u00e3es do grupo inicial de Madres de Mayo &#8211; pela ditadura argentina em Maio de 1977, menos de um ano de consumado o golpe encabe\u00e7ado pela Junta Militar, sob o comando do general Jorge Rafael Videla e secundado por seu rival da Marinha, o almirante Emilio Eduardo Massera. Ontem foi a ESMA o centro de horror, hoje Guant\u00e1namo, e amanh\u00e3, onde ser\u00e1 o pr\u00f3ximo local a chorar nossos mortos at\u00e9 que estas masmorras sejam fechadas definitivamente.  <\/figcaption><small itemprop=\"copyrightHolder\" class=\"copyright\"> Foto:madresfundadoras.org.ar<\/small><\/figure>\n<p><strong>Um grito vindo da Argentina: &rsquo;Fechem Guant&aacute;namo&rsquo; <\/p>\n<p><\/strong>&ldquo;Guant&aacute;namo vai seguir aberto no curto prazo&rdquo;, disse esta semana (obs. do tradutor, a de 15\/11\/2010) ao jornal Washington Post, um servidor p&uacute;blico n&atilde;o identificado, e lotado na Casa Branca. Para ter um exemplo de como proceder com a tristemente c&eacute;lebre base naval estadunidense em Cuba, o Presidente Barack Obama deveria fixar sua aten&ccedil;&atilde;o em um velho edif&iacute;cio da armada argentina em Buenos Aires. <\/p>\n<p>Quando Ana Mar&iacute;a Careaga tinha 16 anos e estava gr&aacute;vida, operadores das For&ccedil;as Armadas argentinas a seq&uuml;estraram na rua, a levaram a um centro clandestino de deten&ccedil;&atilde;o e a torturaram durante quatro meses. Corria o ano 1977 e as For&ccedil;as Armadas acabavam de dar um golpe de Estado na Argentina. Trinta mil pessoas foram &ldquo;desaparecidas&rdquo; entre 1976 e 1983 pela brutal Junta Militar na Argentina. A Junta gozava do apoio entusiasta do ent&atilde;o Secret&aacute;rio de Estado dos Estados Unidos, Henry Kissinger, a quem se atribui haver dado autoriza&ccedil;&atilde;o para a cria&ccedil;&atilde;o de uma rede de terrorismo de Estado integrada por v&aacute;rios governos militares da regi&atilde;o e denominada Plano Condor. Esta rede do terror de Estado assassinou a 60.000 pessoas em toda a Am&eacute;rica do Sul.<\/p>\n<p>D&eacute;cadas mais tarde, a Argentina saiu da ditadura e da recente depress&atilde;o e colapso da economia, vindo a ser considerada como uma das novas democracias progressistas da Am&eacute;rica Latina. Ana Mar&iacute;a Careaga, que agora tem 50 anos, &eacute; a diretora do Instituto Espa&ccedil;o para a Mem&oacute;ria, localizado dentro da velha Escola de Mec&acirc;nica da Armada, em plena Buenos Aires, onde 5.000 pessoas foram detidas, torturadas e, em sua maioria, vindo a ser depois assassinadas. O objetivo do instituto &eacute; preservar a mem&oacute;ria deste cap&iacute;tulo nefasto da hist&oacute;ria argentina. <\/p>\n<p>Ana temia perder a seu beb&ecirc;. Entre os horrores que teve que suportar, contam-se repetidos choques el&eacute;tricos na vagina &ndash; atrav&eacute;s de um cabo de metal condutor de eletricidade. Enquanto estava detida, sua m&atilde;e, Esther Careaga, uniu-se a outras m&atilde;es de jovens que tinham sido desaparecidos. Reuniam-se na Pra&ccedil;a de Maio, levando as fotografias de seus filhos desaparecidos e marchavam em c&iacute;rculo para conscientizar, protestar e conseguir apoio internacional contra a viol&ecirc;ncia e o terrorismo de Estado argentino. <\/p>\n<p>Ap&oacute;s Ana haver sido libertada, recebendo asilo pol&iacute;tico na Su&iacute;&ccedil;a, Esther Careaga n&atilde;o deixou de marchar ao redor da Pra&ccedil;a de Maio. Estive em Buenos Aires nesta semana e perguntei-lhe a Ana por que: &ldquo;Quando eu sa&iacute; em liberdade, minha mam&atilde;e voltou &agrave; Pra&ccedil;a de Maio e as m&atilde;es lhe disseram o que voc&ecirc; est&aacute; fazendo aqui se recuperou a sua filha?&rsquo;, e ela disse &rsquo;eu vou seguir at&eacute; que apare&ccedil;am todos, porque todos os desaparecidos s&atilde;o meus filhos&rsquo;. Isso mostrava que o acionar n&atilde;o era uma busca individual, sen&atilde;o uma busca coletiva&rdquo;. <\/p>\n<p>Esther Careaga, outras duas M&atilde;es da Pra&ccedil;a de Maio e duas freiras francesas foram desaparecidas, torturadas e assassinadas entre os dias 8 e 10 de dezembro de 1977. Foram levadas &agrave; velha Escola de Mec&acirc;nica da Armada (ESMA), onde com macabra sofistica&ccedil;&atilde;o, o governo militar argentino levava adiante o que se conhece como &quot;v&ocirc;os da morte&quot;: depois de torturar suas v&iacute;timas, as drogavam e, enquanto estavam ainda com vida, empilhavam seus corpos em frangalhos em avi&otilde;es. Os avi&otilde;es sobrevoavam as &aacute;guas costeiras e lan&ccedil;avam os corpos das v&iacute;timas l&aacute; de cima, na altitude de v&ocirc;o da aeronave. Tempos depois, um regime de ventos e um c&acirc;mbio de mar&eacute; pouco freq&uuml;ente arrastaram o corpo de Esther Careaga e de outras pessoas &agrave; orla, vindo a ser finalmente identificados. <\/p>\n<p>Do lugar onde sua m&atilde;e foi vista com vida por &uacute;ltima vez no centro de tortura, Ana me mostrou um livro que cont&eacute;m um memorando diplom&aacute;tico dos Estados Unidos, obtido em virtude da Lei de Liberdade de Informa&ccedil;&atilde;o. O documento demonstra que a embaixada dos Estados Unidos na Argentina sabia que sua m&atilde;e tinha sido assassinada e que seu corpo tinha sido recuperado, coisa que Ana e seu pai n&atilde;o souberam durante d&eacute;cadas. <\/p>\n<p>Na atualidade, os sobreviventes dos campos de deten&ccedil;&atilde;o e o governo argentino est&atilde;o julgando, &ndash; e na maioria dos casos condenando &ndash; a muitos dos repressores e torturadores (Kissinger ainda n&atilde;o foi julgado, e se diz que toma muitas precau&ccedil;&otilde;es antes de viajar ao exterior para evitar ser preso). Ana assiste a dois julgamentos ao mesmo tempo: nas segundas-feiras, ter&ccedil;as-feiras e quartas-feiras assiste ao julgamento daqueles que torturaram e assassinaram a sua m&atilde;e. O resto da semana, na mesma sala de audi&ecirc;ncias, assiste ao julgamento de seus pr&oacute;prios torturadores. Ela &eacute; um depoimento vivo da busca paciente e disciplinada por justi&ccedil;a. <\/p>\n<p>O que nos leva de volta a Guant&aacute;namo. Enquanto os Estados Unidos passa serm&otilde;es em Cuba a respeito de sua falta de democracia e mant&eacute;m o bloqueio econ&ocirc;mico contra o pa&iacute;s h&aacute; d&eacute;cadas, seria certo algu&eacute;m pensar que os EUA deveriam dar um exemplo de democracia na parte da Ilha que est&aacute; baixo seu controle. No entanto, a maior pot&ecirc;ncia militar do planeta instalou ali um campo de concentra&ccedil;&atilde;o que tem recebido um en&eacute;rgico rep&uacute;dio em n&iacute;vel internacional, pois se considera esta pris&atilde;o como um territ&oacute;rio kafkeano acima do alcance de qualquer lei internacional e do seu pr&oacute;prio pa&iacute;s. <\/p>\n<p>O novo Relator Especial da ONU sobre a Tortura est&aacute; exortando aos Estados Unidos a investigar, pesquisar e condenar a tortura cometida durante o governo de George W. Bush. Na primeira entrevista que brindou desde que assumiu o cargo como novo Relator Especial da ONU sobre a Tortura, Juan Ernesto M&eacute;ndez disse: &ldquo;Os Estados Unidos tem o dever de pesquisar todos os atos de tortura. Lamentavelmente n&atilde;o temos visto muitos sinais de que assumam esta responsabilidade&rdquo;. M&eacute;ndez tem planos de visitar Guant&aacute;namo. Ele mesmo foi v&iacute;tima de tortura durante a ditadura argentina. <\/p>\n<p>H&aacute; ainda ao redor de 180 homens detidos na Ba&iacute;a de Guant&aacute;namo, com cada vez menos perspectivas de ser julgados em algum dia por um tribunal real. Durante anos foram submetidos a interrogat&oacute;rios e isolamento prolongado, o que se considera tortura tanto de fato, como em termos legais. O Presidente Obama havia prometido fechar a pris&atilde;o de Guant&aacute;namo. Por&eacute;m, &eacute; pouco prov&aacute;vel que o Congresso financie agora o fechamento de Guant&aacute;namo e o translado dos prisioneiros, o qual deixa ao presidente encadeado a Guant&aacute;namo, condenando tamb&eacute;m aos prisioneiros ali &agrave; deten&ccedil;&atilde;o e desespero por tempo indeterminado, e aprofundando a indigna&ccedil;&atilde;o com a que muitos no mundo olham a Estados Unidos. <\/p>\n<p>Ana Mar&iacute;a Careaga &eacute; uma sobrevivente da tortura que trabalha no mesmo lugar em que sua m&atilde;e foi torturada e onde passou suas &uacute;ltimas horas. Seu conselho ao Presidente Obama &eacute; simples: &ldquo;Fechem Guant&aacute;namo&rdquo;. <\/p>\n<p>&mdash;&mdash;&mdash;&mdash;&mdash;&mdash;&mdash;&mdash;&ndash; <br \/>\nDenis Moynihan colaborou na produ&ccedil;&atilde;o jornal&iacute;stica desta coluna. <br \/>\n&copy; 2010 Amy Goodman <br \/>\nTexto traduzido da vers&atilde;o em castelhano e revisado do original em ingl&ecirc;s por <a href=\"mailto:bruno.estrategiaeanalise@gmail.com\">Bruno Lima Rocha<\/a>; originalmente publicado em portugu&ecirc;s em <a href=\"http:\/\/www.estrategiaeanalise.com.br\">Estrat&eacute;gia &amp; An&aacute;lise<\/a>. &Eacute; livre a reprodu&ccedil;&atilde;o de conte&uacute;do desde que citando a fonte. <\/p>\n<p>Amy Goodman &eacute; a &acirc;ncora de Democracy Now!, um notici&aacute;rio internacional transmitido diariamente em mais de 550 emissoras de r&aacute;dio e televis&atilde;o em ingl&ecirc;s e em mais de 250 em espanhol. &Eacute; co-autora do livro &quot;Os que lutam contra o sistema: Her&oacute;is ordin&aacute;rios em tempos extraordin&aacute;rios nos Estados Unidos&quot;, editado por Le Monde Diplomatique Cono Sur.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esther Careaga, a primeira da esquerda para a direita, foi uma das doze pessoas seq\u00fcestradas \u2013 sendo cinco m\u00e3es do grupo inicial de Madres de Mayo &#8211; pela ditadura argentina em Maio de 1977, menos de um ano de consumado o golpe encabe\u00e7ado pela Junta Militar, sob o comando do general Jorge Rafael Videla e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-1343","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"jetpack_publicize_connections":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1343","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1343"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1343\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1343"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1343"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1343"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}