{"id":1348,"date":"2010-11-29T02:20:48","date_gmt":"2010-11-29T02:20:48","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/?p=1348"},"modified":"2010-11-29T02:20:48","modified_gmt":"2010-11-29T02:20:48","slug":"a-acao-belica-do-estado-no-rio-de-janeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=1348","title":{"rendered":"A a\u00e7\u00e3o b\u00e9lica do Estado no Rio de Janeiro"},"content":{"rendered":"<figure class=\"image-container image-post-defautl\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/8550470_ocupacao_no_complexo_do_alemao_326_520.jpg\" title=\"Com o apoio de tropas federais, compostas de fuzileiros navais p\u00e1ra-quedistas, as pol\u00edcias civil e militar tomam militarmente o Complexo do Alem\u00e3o, assim como ocuparam antes a Vila Cruzeiro. Simultaneamente ao avan\u00e7o das for\u00e7as estatais, pode ser dar a proje\u00e7\u00e3o ainda maior das for\u00e7as para-estatais, conhecidas como mil\u00edcias, se nada for feito para deter esta m\u00e1fia. No meio do espet\u00e1culo midi\u00e1tico, avan\u00e7a a criminaliza\u00e7\u00e3o do protesto social.  - Foto:efe\" alt=\"Com o apoio de tropas federais, compostas de fuzileiros navais p\u00e1ra-quedistas, as pol\u00edcias civil e militar tomam militarmente o Complexo do Alem\u00e3o, assim como ocuparam antes a Vila Cruzeiro. Simultaneamente ao avan\u00e7o das for\u00e7as estatais, pode ser dar a proje\u00e7\u00e3o ainda maior das for\u00e7as para-estatais, conhecidas como mil\u00edcias, se nada for feito para deter esta m\u00e1fia. No meio do espet\u00e1culo midi\u00e1tico, avan\u00e7a a criminaliza\u00e7\u00e3o do protesto social.  - Foto:efe\" class=\"image\"><figcaption class=\"fig-caption\">Com o apoio de tropas federais, compostas de fuzileiros navais p\u00e1ra-quedistas, as pol\u00edcias civil e militar tomam militarmente o Complexo do Alem\u00e3o, assim como ocuparam antes a Vila Cruzeiro. Simultaneamente ao avan\u00e7o das for\u00e7as estatais, pode ser dar a proje\u00e7\u00e3o ainda maior das for\u00e7as para-estatais, conhecidas como mil\u00edcias, se nada for feito para deter esta m\u00e1fia. No meio do espet\u00e1culo midi\u00e1tico, avan\u00e7a a criminaliza\u00e7\u00e3o do protesto social. <\/figcaption><small itemprop=\"copyrightHolder\" class=\"copyright\"> Foto:efe<\/small><\/figure>\n<p>29 de novembro de 2010, da Vila Setembrina, <em>Bruno Lima Rocha <\/p>\n<p><\/em>O texto que segue se divide em tr&ecirc;s partes. A primeira situa a escalada de beliger&acirc;ncia estatal na cidade do Rio de Janeiro e sua regi&atilde;o metropolitana. A segunda, refaz um mil vezes repetido percurso da hist&oacute;ria pol&iacute;tica recente na cidade e no estado, tentando compreender suas ra&iacute;zes estruturantes para o que hoje s&atilde;o chamados de &ldquo;comandos&rdquo; e erroneamente apelidados de crime organizado (sem entrar sequer na caracteriza&ccedil;&atilde;o proposta como texto legal para a maioria dos especialistas). J&aacute; a terceira, ultrapassa o fato da tomada da Vila Cruzeiro e do Complexo do Alem&atilde;o e antev&ecirc; problemas presentes como a criminaliza&ccedil;&atilde;o da pobreza, a repress&atilde;o ao protesto social e ascens&atilde;o dos paramilitares, desgra&ccedil;adamente apelidados pela alcunha de mil&iacute;cias.<\/p>\n<p><strong>Primeira parte, a escalada em si <\/p>\n<p><\/strong>O que provocou &ndash; ou teria provocado, ou seria a alega&ccedil;&atilde;o de haver provocado &#8211; o avan&ccedil;o das pol&iacute;cias estaduais e a chamada de aux&iacute;lio das for&ccedil;as armadas foi &agrave; ordem de ataque vinda da &ldquo;federa&ccedil;&atilde;o&rdquo; e com alian&ccedil;as impl&iacute;citas entre as demais redes de quadrilha. Se as informa&ccedil;&otilde;es que circulam pela m&iacute;dia empresarial forem corretas, a federa&ccedil;&atilde;o &ndash; c&uacute;pula do Comando Vermelho (CV, como r&oacute;tulo gen&eacute;rico, sem adentrar em suas sub-fac&ccedil;&otilde;es) &ndash; tomou a decis&atilde;o suicida pela terceira vez em sua hist&oacute;ria. Em tese, isso &ndash; o ataque direto &agrave; ordem p&uacute;blica no asfalto &#8211; acarretaria maior apoio das comunidades e sua popula&ccedil;&atilde;o em contra a viol&ecirc;ncia policial e tamb&eacute;m em contra o suporte &ndash; muitas vezes direto &ndash; do aparelho de seguran&ccedil;a de Estado e o para-militarismo, forma de exerc&iacute;cio do crime organizado oficial que &eacute; err&ocirc;nea e cretinamente apelidado de &ldquo;mil&iacute;cia&rdquo;. <\/p>\n<p>A escalada de eventos &eacute; conhecida, tendo sido iniciada no dia 23 e antes precedida de arrast&otilde;es de carros, aumentando a incid&ecirc;ncia de crime violento na cidade, atividade esta que sempre prejudicara o com&eacute;rcio varejista de drogas il&iacute;citas. No domingo dia 28 de novembro completou-se uma semana &uacute;til de ataques contra a &ldquo;ordem p&uacute;blica do asfalto&rdquo;, tomando a essas medidas como provoca&ccedil;&atilde;o por parte do Pal&aacute;cio Laranjeiras (sede do governo do estado). Isto implica em, da parte do tr&aacute;fico (varejo de drogas il&iacute;citas), queimar ve&iacute;culos coletivos (antiga tradi&ccedil;&atilde;o dos conflitos em arredores de favelas no Rio) e particulares. Como j&aacute; dissemos antes, j&aacute; houve a decis&atilde;o pelo p&acirc;nico na cidade, e isto ocorreu (por ironia da hist&oacute;ria), justo no momento de governo &ndash; mandato tamp&atilde;o &ndash; de Benedita da Silva (PT, em 2002, pois a ex-ministra era vice-governadora rompida com Garotinho). Naquele ano, entende-se que os ataques vindos do CV foram eficazes, levando a um acordo impl&iacute;cito com as lideran&ccedil;as presas e no comando (indireto) das redes de quadrilhas. <\/p>\n<p>Agora a situa&ccedil;&atilde;o &eacute; distinta de 2002, diferente dos oito anos da fam&iacute;lia Garotinho e tamb&eacute;m se distingue da matan&ccedil;a de 2007. A proposta de ocupa&ccedil;&atilde;o permanente, encarando o governo estadual como sendo as comunidades um territ&oacute;rio a ser retomado, vem a cabo na esteira de uma alian&ccedil;a in&eacute;dita com o governo central (ratificando a alian&ccedil;a PT e PMDB) e antevendo as a&ccedil;&otilde;es urbanas para a cidade que ser&aacute; sede dos Jogos Ol&iacute;mpicos de 2016. A pol&iacute;tica implantada no eixo das Unidades de Pol&iacute;cia Pacificadoras (UPPs) n&atilde;o apenas acompanha as &aacute;reas de maior valoriza&ccedil;&atilde;o imobili&aacute;ria ou de futuro uso de territ&oacute;rios para os aparelhos da Copa do Mundo e das Olimp&iacute;adas, e tamb&eacute;m prepara terreno para a &ldquo;flexibiliza&ccedil;&atilde;o&rdquo; de leis ambientais e aumento da especula&ccedil;&atilde;o imobili&aacute;ria em zonas da cidade que tendem a valorizar-se. Ao enfraquecer o narcotr&aacute;fico com a presen&ccedil;a policial ostensiva e permanente em morros-chave, for&ccedil;a esta parte da delinq&uuml;&ecirc;ncia a &ldquo;levar a press&atilde;o para o asfalto&rdquo;, amortecendo por tabela o perigo maior da sociedade fluminense. Assim, o estado do Rio, ao n&atilde;o combater com a mesma intensidade, aumenta a dist&acirc;ncia entre a capacidade de fogo e de poder das mil&iacute;cias e das redes de quadrilhas (equivocadamente chamadas de &ldquo;comandos&rdquo;, e assim rebatizadas as falanges). <\/p>\n<p>A outra ponta da hist&oacute;ria &eacute; a presen&ccedil;a de tropas federais, ou seja, militares profissionais das tr&ecirc;s for&ccedil;as e agentes da Pol&iacute;cia Federal. A Uni&atilde;o est&aacute; desenvolvendo o aprendizado de controle social, antes treinado nas cidades brasileiras (o Rio de Janeiro em especial, nas Opera&ccedil;&otilde;es Rio I e Rio II), e que ganha &ldquo;excel&ecirc;ncia&rdquo; operacional com a Minustah, a Miss&atilde;o da ONU para ocupar militarmente o Haiti, e cujo comando vergonhosamente cabe ao Brasil. Assim como tropas de combate dos EUA que lutaram na 1&ordf; guerra do Golfo (1991) foram chamadas a ocupar militarmente Los Angeles em 1992 (no caso do levantes dos guetos negros e latinos); do mesmo modo que os mercen&aacute;rios da Blackwater, veteranos da Guerra do Iraque (a 2&ordf;, iniciada em 2003) foram contratadas para ocupar militarmente Nova Orle&atilde;es (ap&oacute;s a passagem do Furac&atilde;o Katrina em 2005), agora cabe as tropas brasileiras ocupar (como apoio do cerco estrat&eacute;gico do Complexo do Alem&atilde;o) militarmente um eixo de concentra&ccedil;&atilde;o de favelas na zona norte do Rio, al&eacute;m de outros cen&aacute;rios por vir (como a Rocinha, por exemplo). <\/p>\n<p>Por fim, a justificativa para ganhar cora&ccedil;&otilde;es e mentes e o papel de promotor do consentimento das empresas de m&iacute;dia brasileiras, afirmam algo inexistente. &Eacute; balela alegar que a invas&atilde;o das pol&iacute;cias se d&aacute; tamb&eacute;m para a garantia dos direitos da popula&ccedil;&atilde;o favelada. Quem provoca a rea&ccedil;&atilde;o das for&ccedil;as da ordem &eacute; a decis&atilde;o supostamente tomada pela c&uacute;pula das redes de quadrilha &ndash; especificamente do CV &ndash; de causar p&acirc;nico sistem&aacute;tico e abrangente para a cidade do Rio. O governo do estado, de comum acordo com o governo central, n&atilde;o se mexe para defender os direitos de quase meio milh&atilde;o de pessoas (sob duplo governo, do Estado ausente e do narcotr&aacute;fico no varejo) e sim para assegurar aos investidores internacionais, os futuros s&oacute;cios das PPPs (Parcerias P&uacute;blico Privadas), a capacidade de imposi&ccedil;&atilde;o (moment&acirc;nea que seja) da ordem estatal na Regi&atilde;o Metropolitana do Rio de Janeiro. <\/p>\n<p>\n<strong>Segunda parte, trajet&oacute;ria pol&iacute;tica recente <\/p>\n<p><\/strong>Durante o per&iacute;odo de Garotinho (1998-2002) e Rosinha (2003-2006), o estado do Rio viu crescer e evoluir o modelo de &ldquo;mil&iacute;cias&rdquo;, quando a antiga &ldquo;pol&iacute;cia mineira&rdquo; torna-se estrutura permanente comandada pelos n&iacute;veis mais baixos das hierarquias do aparelho repressivo estadual (PMs, policiais civis, bombeiros e agentes penitenci&aacute;rios). A tomada do aparelho repressivo foi por dentro tamb&eacute;m, com a presen&ccedil;a f&iacute;sica de vereadores e deputados estaduais, incluindo supostas presen&ccedil;as de coron&eacute;is, delegados, diretores de departamentos e at&eacute; mesmo do Chefe de Pol&iacute;cia e n&iacute;veis de comand&acirc;ncia da Pol&iacute;cia Militar. <\/p>\n<p>Ap&oacute;s a vit&oacute;ria de S&eacute;rgio Cabral Filho (ex-tucano que se transferiu para o PMDB) em 2006 (sendo reeleito ainda neste ano) e na esteira dos preparos para os Jogos Pan-Americanos de 2007, aumentou consideravelmente o volume de assassinatos e execu&ccedil;&otilde;es ocorridas em batidas e invas&otilde;es policiais. Voltou-se assim a um padr&atilde;o c&iacute;clico, o mesmo se inicia no governo de Moreira Franco (PMDB, o mesmo que fora derrotado por Brizola em 1982, no epis&oacute;dio do caso e esc&acirc;ndalo da fraude da apura&ccedil;&atilde;o do Pro-consult), iniciado ainda em 1987 (seu primeiro ano de governo) e &eacute; contempor&acirc;neo da tomada da Rocinha pelo embri&atilde;o do BOPE, na &eacute;poca ainda chamado de Comando de Opera&ccedil;&otilde;es Especiais (COE). Este per&iacute;odo &eacute; simult&acirc;neo da Opera&ccedil;&atilde;o Mosaico I (1987, mesmo ano da guerra televisionada pelo controle do Morro Dona Marta em Botafogo, entre Zaca X Cabeludo, culminando com a vit&oacute;ria do primeiro, um ex-PM) e, cinco meses ap&oacute;s, seguida da Mosaico II (1988). Estas foram opera&ccedil;&otilde;es da PF sob comando do repressor pol&iacute;tico Romeu Tuma (delegado de carreira do DOPS e eleito &ldquo;xerife&rdquo; do Brasil pela proje&ccedil;&atilde;o midi&aacute;tica que obteve no governo Sarney, quando lhe foi dado o cargo de diretor-geral da Pol&iacute;cia Federal) que invadiram fisicamente &aacute;reas de favela. <\/p>\n<p>Os governos de Moreira Franco (1987-1990, PMDB, ex-PDS), Marcelo Alencar (1995-1998, PSDB, ex-PDT, que &eacute; quando se estabelece a chamada gratifica&ccedil;&atilde;o faroeste) e S&eacute;rgio Cabral Filho (2007-&#8230;, PMDB, ex-PSDB) seguem um padr&atilde;o de elevar a viol&ecirc;ncia sistem&aacute;tica e aumento da autonomia funcional do bra&ccedil;o repressivo do estado do Rio. Mas, o descontrole institucional se consagra no segundo governo Leonel Brizola (1991-1994 PDT), acentuando-se nos &uacute;ltimos dois anos, em especial nos &uacute;ltimos seis meses, quando o pol&iacute;tico ga&uacute;cho se licencia para concorrer &agrave; vice-presid&ecirc;ncia, fazendo dobradinha com Lula. Os anos de 1993 e 1994, em seguida da Eco-92 e da queda de Collor de Mello, foram marcantes para tornar p&uacute;blico ao mundo a institucionaliza&ccedil;&atilde;o de poderes paralelos na cidade e os &iacute;ndices absurdos de viol&ecirc;ncia e desrespeito aos direitos da cidadania por parte das for&ccedil;as de &ldquo;ordem&rdquo;. <\/p>\n<p>Vem deste per&iacute;odo Trata-se da terceira ocasi&atilde;o onde se d&aacute; a presen&ccedil;a ostensiva das For&ccedil;as Armadas no Rio de Janeiro. Antes fora nas Opera&ccedil;&otilde;es Rio I (em 1992, durante a Confer&ecirc;ncia Mundial do Meio Ambiente, Eco-92) e a Rio II (de dezembro de 1994 a mar&ccedil;o de 1995). A segunda opera&ccedil;&atilde;o veio na escalada da Chacina da Candel&aacute;ria (julho de 1993) e a de Vig&aacute;rio Geral (agosto de 1993). Ambos os crimes foram cometidos por for&ccedil;as da &ldquo;ordem&rdquo; fora do hor&aacute;rio de servi&ccedil;o. Na ocasi&atilde;o dos Jogos Pan-americanos de 2007 a cidade e sua Regi&atilde;o Metropolitana tamb&eacute;m foram devidamente &ldquo;pacificadas&rdquo;. <\/p>\n<p><strong>Terceira parte, ap&oacute;s a tomada do Complexo do Alem&atilde;o. E agora? <\/p>\n<p><\/strong>Ap&oacute;s o sucesso do cerco estrat&eacute;gico e tomada de pontos vitais do Complexo do Alem&atilde;o, aparentemente a situa&ccedil;&atilde;o do conflito entre a rede de quadrilhas conhecida por Comando Vermelho (CV, incluindo rachas como CV Jovem, CVJ, e CV Rog&eacute;rio Lengruber, CVRL) &#8211; em suposta alian&ccedil;a pontual com as fac&ccedil;&otilde;es rivais Amigos dos Amigos (ADA) e Terceiro Comando (TC) &ndash; e as for&ccedil;as de seguran&ccedil;a do estado do Rio com o apoio das for&ccedil;as federais (PF e For&ccedil;as Armadas) estaria atingindo uma escala de nova normalidade. Esta nova escala seria quando o estado do Rio faz uso de um planejamento minucioso e emprega uma ampla superioridade b&eacute;lica, adentrando os espa&ccedil;os f&iacute;sicos outrora co-dominados pelo varejo do narcotr&aacute;fico. <\/p>\n<p>Diante disso, o avan&ccedil;o das chamadas for&ccedil;as de ordem, partiria rumo aos grandes complexos ainda n&atilde;o totalmente ocupados, como o Jacarezinho e a Rocinha. Esta &uacute;ltima representa um grande faturamento do narcotr&aacute;fico varejista na cidade, justo por se situar entre S&atilde;o Conrado e G&aacute;vea, operando como fornecedora de drogas ilegais para consumo individual na zona sul do Rio de Janeiro. Tamb&eacute;m em n&iacute;vel de apar&ecirc;ncia midi&aacute;tica, a popula&ccedil;&atilde;o que ousa manifestar-se e &eacute; moradora destas comunidades estaria apoiando explicitamente a a&ccedil;&atilde;o das pol&iacute;cias, fato esse que, se confirmado (e &eacute; quase imposs&iacute;vel a sua confirma&ccedil;&atilde;o porque uma enquete n&atilde;o se realiza sob condi&ccedil;&otilde;es t&atilde;o adversas de seguran&ccedil;a dos poss&iacute;veis entrevistados), &ldquo;autoriza&rdquo; o exerc&iacute;cio da legitimidade do Estado para o ato de mando e governo. Na opini&atilde;o deste que escreve, apesar do anseio pela rotina e normalidade, o consentimento for&ccedil;ado vem sendo operado atrav&eacute;s da m&iacute;dia empresarial no sentido de evocar o sujeito coletivo, o n&oacute;s, sendo que este mesmo sujeito coletivo jamais &eacute; indagado a respeito de suas vontades. Ou seja, embora a TV fale e fale, ningu&eacute;m afirmou mediante referendo ou plebiscito desejar ver as for&ccedil;as federais participando de cercos no Rio de Janeiro. <\/p>\n<p>Do lado de c&aacute; tamb&eacute;m a situa&ccedil;&atilde;o &eacute; dif&iacute;cil. &Eacute; mais que complicada a posi&ccedil;&atilde;o das esquerdas sociais diante desse quadro. &Eacute; imposs&iacute;vel fazer qualquer tipo de defesa das redes de quadrilhas do com&eacute;rcio varejista do tr&aacute;fico, a n&atilde;o ser reconhecer que estas fac&ccedil;&otilde;es surgem com legitimidade na auto-organiza&ccedil;&atilde;o dos detentos da Ilha Grande &ndash; primeiramente &ndash; e depois se alastra pela massa carcer&aacute;ria do ent&atilde;o rec&eacute;m criado Estado do Rio (unificando sob o mesmo governo, fluminenses e cariocas em 1975). Por outro, n&atilde;o tem cabimento fazer o elogio das for&ccedil;as de seguran&ccedil;a se estas, at&eacute; pouqu&iacute;ssimo tempo atr&aacute;s e incluindo boa parte do seu efetivo ainda na ativa, convivia de forma c&iacute;nica e mancomunada com a guerra por controle de circula&ccedil;&atilde;o de bondes (comboios de homens armados), aluguel de armamentos, relaxamento de pris&otilde;es em flagrante, mesada ou semanada (conhecido como arrego), al&eacute;m de, quando no exerc&iacute;cio da autoridade policial, atuar muitas vezes como tropa invasora praticante de exterm&iacute;nio. Nada do que digo acima &eacute; chute ou generaliza&ccedil;&atilde;o inconsistente, sendo cada uma destas grav&iacute;ssimas acusa&ccedil;&otilde;es mais do que midiatizadas e provadas atrav&eacute;s de Comiss&atilde;o Parlamentar de Inqu&eacute;rito (CPI) levada a cabo na Assembl&eacute;ia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). <\/p>\n<p>Seguindo na crueza deste racioc&iacute;nio, resulta imposs&iacute;vel (por surreal), imaginar que houve mudan&ccedil;a de comportamento da tropa posta em prontid&atilde;o, tanto para n&atilde;o entrar em conluio (como seria o caso de boa parte das institui&ccedil;&otilde;es coercitivas), como para n&atilde;o agir de forma fascista, como foi narrado no filme campe&atilde;o de bilheteria, Tropa de Elite 1. Antevejo assim dois problemas graves para o exerc&iacute;cio da milit&acirc;ncia social e a luta leg&iacute;tima pela reivindica&ccedil;&atilde;o e conquista de, pelo menos, os direitos b&aacute;sicos de uma popula&ccedil;&atilde;o que se v&ecirc; no abandono da pr&oacute;pria sorte e recriando uma cultura atravessada pelo elogio da delinq&uuml;&ecirc;ncia sob a forma de capitalismo selvagem. Cultura essa que j&aacute; ultrapassa um quarto de s&eacute;culo (25 anos), e por tanto, estaria mais do que enraizada, levando (e desenvolvendo) um novo sentido de ordem e justi&ccedil;a paralela, por mais b&aacute;rbara que esta seja. <\/p>\n<p>O primeiro problema, n&atilde;o grave, mas grav&iacute;ssimo, &eacute; o peso da delinq&uuml;&ecirc;ncia administradora do capitalismo selvagem na Metr&oacute;pole Carioca-Fluminense em sua forma paramilitar. Traduzindo, estou afirmando que com a aus&ecirc;ncia das redes de quadrilhas ou seu enfraquecimento, aumenta a for&ccedil;a e o peso das mil&iacute;cias. Esse termo veio para desgra&ccedil;a da tradi&ccedil;&atilde;o do operariado carioca e da milit&acirc;ncia outrora fornecedora de m&aacute;rtires e militantes exemplares para as causas do povo brasileiro. Tais organiza&ccedil;&otilde;es paramilitares, surgidas de uma evolu&ccedil;&atilde;o da famigerada pol&iacute;cia mineira, j&aacute; uma vez chamada de &ldquo;autodefesas comunit&aacute;rias&rdquo; pelo ex-prefeito e ex-exilado (quando ainda era de esquerda) Cesar Maia, fazendo (espera-se que de forma involunt&aacute;ria), um triste paralelo com as AUC (Autodefesas Unidas de Col&ocirc;mbia, coliga&ccedil;&atilde;o de paramilitares e de onde provem politicamente o ex-presidente &Aacute;lvaro Uribe). Pois bem, se n&atilde;o houver combate sistem&aacute;tico e cient&iacute;fico ao poder paralelo que brota das entranhas das for&ccedil;as repressivas do estado do Rio, simplesmente estar&aacute; se atirando a mais de 2 milh&otilde;es de pessoas em uma nova (nem t&atilde;o nova assim) tirania. A tirania das redes de quadrilha, por vezes e com alguma sorte, ao menos tinha certo enraizamento nas comunidades locais (sem por isso ser cruel e b&aacute;rbara). J&aacute; a tirania das mil&iacute;cias &eacute; a evolu&ccedil;&atilde;o da pr&aacute;tica de &ldquo;mineirar a seguran&ccedil;a de comerciantes&rdquo;, soma-se com as tenebrosas tradi&ccedil;&otilde;es dos Esquadr&otilde;es da Morte (ber&ccedil;o da Scuderie Le Cocq) e atravessa-se com a fus&atilde;o de abuso de poder policial e conjun&ccedil;&atilde;o de interesses com os banqueiros de bicho. <\/p>\n<p>Assim como o primeiro problema, o segundo j&aacute; existe e pode vir a se acentuar. Trata-se da criminaliza&ccedil;&atilde;o pura e simples do protesto social. N&atilde;o &ldquo;apenas&rdquo; com a repress&atilde;o de tipo anti-dist&uacute;rbios, mas com o rigor de uma ocupa&ccedil;&atilde;o militar e o julgamento sum&aacute;rio e midi&aacute;tico que associa para a opini&atilde;o p&uacute;blica o fato, mentiroso, de que todo protesto em comunidades de favelas &eacute; promovido pelos interesses do varejo do tr&aacute;fico. Tal mentira &eacute; reproduzida h&aacute; quase tr&ecirc;s d&eacute;cadas e vem, num crescente, aumentando a penetra&ccedil;&atilde;o social. Infelizmente a efervesc&ecirc;ncia existente na transi&ccedil;&atilde;o da Abertura pol&iacute;tica da ditadura, foi acompanhada no Rio de Janeiro da institucionaliza&ccedil;&atilde;o da antiga Federa&ccedil;&atilde;o de Favelas do Rio de Janeiro (Faferj) e da territorializa&ccedil;&atilde;o da rede de quadrilhas outrora batizada at&eacute; em miniss&eacute;rie da Rede Globo, de Falange Vermelha (Bandidos da Falange, miniss&eacute;rie com 20 cap&iacute;tulos, exibida em janeiro e fevereiro de 1983, detalhe, a obra de Aguinaldo Silva &eacute; excelente, no entender deste que escreve. Ambos os movimentos se deram no primeiro governo Leonel Brizola (1983-1986), o que veio ao encontro de um intento de gerar maior respeito entre o aparelho policial e as comunidades de favelas. Apesar de ser uma pol&iacute;tica correta, tal fato acarreta uma institucionaliza&ccedil;&atilde;o da nova forma de organiza&ccedil;&atilde;o das redes de quadrilhas e a transfer&ecirc;ncia das disputas intramuros de pres&iacute;dios para dentro das comunidades. Em dois anos, muda completamente o cen&aacute;rio do crime exercido pela pobreza na cidade. No final da d&eacute;cada de &rsquo;80, j&aacute; n&atilde;o restava muito da aura dos fundadores da Falange da Seguran&ccedil;a Nacional na Ilha Grande e a&iacute; a hist&oacute;ria &eacute; mais que sabida. <\/p>\n<p>Faltaria analisar as discrep&acirc;ncias absurdas do emprego de efetivos e raz&atilde;o de Estado para combater a pobreza no exerc&iacute;cio do crime e, o inverso disso, a aus&ecirc;ncia de decis&atilde;o e as senten&ccedil;as mais que favor&aacute;veis para combater o crime organizado, a come&ccedil;ar pela vergonha do engavetamento dos resultados da Opera&ccedil;&atilde;o Satiagraha. Nas pr&oacute;ximas an&aacute;lises, faremos estas compara&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com o apoio de tropas federais, compostas de fuzileiros navais p\u00e1ra-quedistas, as pol\u00edcias civil e militar tomam militarmente o Complexo do Alem\u00e3o, assim como ocuparam antes a Vila Cruzeiro. 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