{"id":1353,"date":"2010-12-04T20:42:05","date_gmt":"2010-12-04T20:42:05","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/?p=1353"},"modified":"2010-12-04T20:42:05","modified_gmt":"2010-12-04T20:42:05","slug":"a-historia-na-visao-de-anarquistas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=1353","title":{"rendered":"A HIST\u00d3RIA NA VIS\u00c3O DE ANARQUISTAS"},"content":{"rendered":"<figure class=\"image-container image-post-defautl\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/capa_historia_pelos_anarquistas[1].jpg\" title=\"Capa do livro Hist\u00f3ria por Anarquistas - Foto:Ed. DERIVA\" alt=\"Capa do livro Hist\u00f3ria por Anarquistas - Foto:Ed. DERIVA\" class=\"image\"><figcaption class=\"fig-caption\">Capa do livro Hist\u00f3ria por Anarquistas<\/figcaption><small itemprop=\"copyrightHolder\" class=\"copyright\"> Foto:Ed. DERIVA<\/small><\/figure>\n<p style=\"text-justify: inter-ideograph; text-align: justify; line-height: 150%\"><font size=\"3\" face=\"Times New Roman\">Durante as programa&ccedil;&otilde;es da I Feira do Livro Anarquista de Porto Alegre, foi lan&ccedil;ado o livro &ldquo;A Hist&oacute;ria por Anarquistas&rdquo;. O livro possui uma apresenta&ccedil;&atilde;o e dois cap&iacute;tulos. A apresenta&ccedil;&atilde;o por Felipe Corr&ecirc;a, que escreveu sobre o anarquismo contempor&acirc;neo\/ a hist&oacute;ria para os anarquista\/ teoria e m&eacute;todo de an&aacute;lise; O primeiro capitulo foi escrito por Bruno Lima Rocha, com o texto &ldquo;Organiza&ccedil;&atilde;o Pol&iacute;tica Anarquista e Democracia de Base Libert&aacute;ria. Bruno desenvolve seus argumentos &ldquo;com exemplos e debates de fundo hist&oacute;rico e sob a perspectiva do anarquismo de matriz especifista.&rdquo; O segundo cap&iacute;tulo, de Anderson Rom&aacute;rio Pereira Corr&ecirc;a, A Hist&oacute;ria na Vis&atilde;o de Anarquistas, publica-se no &quot;Estrat&eacute;gia e An&aacute;lise&quot;.<\/font><\/p>\n<p>Por Anderson Rom&aacute;rio Pereira Corr&ecirc;a<\/p>\n<p>Membro do Instituto Hist&oacute;rico e Geogr&aacute;fico de Alegrete.<\/p>\n<p>Alegrete, 04 de dezem bro de 2010.<\/p>\n<p>Objetiva-se analisar como foi abordada a Hist&oacute;ria por alguns pensadores e &ldquo;te&oacute;ricos&rdquo; do anarquismo. Para atingir este objetivo, foi feita uma revis&atilde;o de alguns textos de anarquistas &ldquo;cl&aacute;ssicos&rdquo;, que se destacaram como pensadores e fil&oacute;sofos do movimento anarquista internacional: Proudhon, Bakunin, Krop&oacute;tkine e o historiador Rudolf Rocker. Parte-se do princ&iacute;pio de que uma das fun&ccedil;&otilde;es da Hist&oacute;ria &eacute; servir de instrumento para a transforma&ccedil;&atilde;o da sociedade, e que &eacute; utilizada pelos mais variados &ldquo;agentes sociais&rdquo; como &ldquo;guia para a&ccedil;&atilde;o&rdquo;. O trabalho inicia com uma defini&ccedil;&atilde;o de passado ontol&oacute;gico e epistemologia do passado. Logo se apresentam as discuss&otilde;es atualizadas sobre a produ&ccedil;&atilde;o do conhecimento hist&oacute;rico, sua &ldquo;evolu&ccedil;&atilde;o&rdquo;. Em seguida, constr&oacute;i-se o cen&aacute;rio, como os historiadores vinham pensando e discutiam sobre seu oficio, ou seja, o cen&aacute;rio em que se inserem os escritos anarquistas sobre a hist&oacute;ria. Faz-se uma &ldquo;analise de conte&uacute;do&rdquo; destacando trechos em que os autores citados acima dedicaram algumas linhas para escrever sobre a Hist&oacute;ria. Para concluir, compara-se a analise com o contexto hist&oacute;rico e as discuss&otilde;es atualizadas. <\/p>\n<p><strong>1. Introdu&ccedil;&atilde;o. <br \/>\n<\/strong><br \/>\n&Eacute; dif&iacute;cil saber se este trabalho &eacute; uma hist&oacute;ria da Hist&oacute;ria a partir do pensamento anarquista ou se &eacute; uma hist&oacute;ria do pensamento anarquista e suas concep&ccedil;&otilde;es de Hist&oacute;ria. Talvez seja um pouco de cada. O que se pretende saber &eacute; como os anarquistas entendiam a Hist&oacute;ria, tanto no sentido ontol&oacute;gico quanto no epistemol&oacute;gico. &Eacute; importante destacar como e por que se faz o estudo da Hist&oacute;ria no pensamento anarquista. <br \/>\nA hist&oacute;ria ontol&oacute;gica &eacute; o passado real e concreto, a Hist&oacute;ria epistemol&oacute;gica significa a constru&ccedil;&atilde;o de um saber, uma disciplina, uma ci&ecirc;ncia (teoria e m&eacute;todo) compreendendo tamb&eacute;m seu discurso (historiografia). Os procedimentos da analise seguir&atilde;o a t&eacute;cnica da &ldquo;compara&ccedil;&atilde;o&rdquo; dos modelos, e a rela&ccedil;&atilde;o ao contexto da produ&ccedil;&atilde;o liter&aacute;ria. <br \/>\nRodrigo Quesada Monge diz que, com o fim do projeto do Capitalismo de Estado (monopoliza), ocorre, principalmente ap&oacute;s 1989, um crescente descr&eacute;dito na teoria marxista para interpreta&ccedil;&atilde;o da hist&oacute;ria. Muitos historiadores utopistas e sonhadores ficam, assim, &oacute;rf&atilde;os de um projeto te&oacute;rico de uma filosofia da hist&oacute;ria. O historiador afirma que, se forem revisados os trabalhos investigativos dos grandes historiadores anarquistas como Nettlau, Paul Avrich, Rudolf Rocker, Murria Bookchin y Howard Zinn, somente para recordar alguns exemplos, aparece um exaustivo levantamento documental unido a um desmedido compromisso pol&iacute;tico e social com as implica&ccedil;&otilde;es morais e pol&iacute;ticas do seu of&iacute;cio. (MONGE, 2006) Para saber no aspecto te&oacute;rico e metodol&oacute;gico a pr&aacute;tica historiogr&aacute;fica dos anarquistas, correto seria analisar as produ&ccedil;&otilde;es historiogr&aacute;ficas destes. Escolher um per&iacute;odo e conjuntura e estudar esta produ&ccedil;&atilde;o. Por&eacute;m esta tarefa n&atilde;o &eacute; obra para nenhum pesquisador solit&aacute;rio. A inten&ccedil;&atilde;o deste artigo &eacute; bem mais modesta e limitada ao discurso, ao que se afirma sobre &ldquo;como deve ser&rdquo; e n&atilde;o necessariamente ao que realmente &eacute;. <br \/>\nJos&eacute; Carlos Reis escreve que a hist&oacute;ria, assim como toda cultura ocidental, passou por uma transi&ccedil;&atilde;o entre o s&eacute;culo XVIII e o s&eacute;culo XX. Esta transi&ccedil;&atilde;o caracteriza-se pelo iluminismo (racionalista, globalizante e moderno), o estruturalismo e o p&oacute;s-estruturalismo. <br \/>\nO projeto iluminista v&ecirc; a hist&oacute;ria como &ldquo;esp&iacute;rito universal&rdquo;, que progressivamente vai &ldquo;tomando consci&ecirc;ncia de si&rdquo;. O projeto moderno e iluminista &eacute; extremamente otimista, cr&ecirc; no poder da raz&atilde;o. A hip&oacute;tese iluminista &eacute; hegeliana, n&atilde;o pode n&atilde;o ter sentido. A hist&oacute;ria seria ent&atilde;o governada pela raz&atilde;o. A hist&oacute;ria, segundo Carlos Reis, &eacute; a busca de sentido e n&atilde;o vontade de pot&ecirc;ncia. O projeto iluminista legitima toda viol&ecirc;ncia contra o passado-presente, que &eacute; considerado um entrave para o progresso e evolu&ccedil;&atilde;o. (REIS, 2000:178s) <br \/>\nNo s&eacute;culo XX, o movimento estruturalista veio desconfiar deste sujeito consciente em busca da liberdade. A convic&ccedil;&atilde;o de que a raz&atilde;o governa o mundo foi posta sob suspeita. Passou-se a duvidar do progresso, do evolucionismo, do eurocentrismo, da raz&atilde;o racionalista. O homem n&atilde;o &eacute; totalmente sujeito e livre, e a sociedade n&atilde;o &eacute; guiada por uma teleologia. De acordo com Jos&eacute; Carlos Reis, a hist&oacute;ria deveria dedicar-se mais ao repetitivo, c&iacute;clico, resistente, inerte e estrutural. Deveria dedicar-se &agrave; realidade emp&iacute;rica, produzindo um saber objetivo e conceitual. O estruturalismo ainda se diz racionalista, por&eacute;m procura a raz&atilde;o a contrapelo, onde ela se esconde, acaba adotando um determinismo inconsciente. Os estruturalistas s&atilde;o contr&aacute;rios &agrave;s utopias, pois discordam do fato de misturar a filosofia com a ci&ecirc;ncia. A utopia s&oacute; faz sentido dentro de um racioc&iacute;nio t&iacute;pico-ideal, uma abstra&ccedil;&atilde;o que permite conhecer a realidade. (Ibidem:182) <br \/>\nA segunda fase do estruturalismo, o p&oacute;s-estruturalismo, n&atilde;o duvida da raz&atilde;o, isto &eacute;, n&atilde;o acredita na pr&oacute;pria exist&ecirc;ncia da raz&atilde;o. N&atilde;o procuram mais verdades hist&oacute;ricas, nem essenciais, nem aparentes, nem manifestas e nem ocultas. O universal n&atilde;o &eacute; pens&aacute;vel, a unifica&ccedil;&atilde;o &eacute; imposs&iacute;vel. O conhecimento hist&oacute;rico p&oacute;s-estrutural &eacute; antiestrutural, parcial, limitado, individual, em migalhas. N&atilde;o se quer neutralidade, passividade, serenidade e universalidade. N&atilde;o existe uma raz&atilde;o, moral, verdade universal. A partir dos anos 80, o homem n&atilde;o &eacute; mais o horizonte do historiador, a hist&oacute;ria deixou de ser an&aacute;lise do passado para produzir mudan&ccedil;as no presente etc.(Ibidem:183) <br \/>\nAcima foi transcrito como Carlos Reis descreve a rela&ccedil;&atilde;o e influencia da cultura ocidental na concep&ccedil;&atilde;o de hist&oacute;ria e na pr&aacute;tica historiogr&aacute;fica. Esta trajet&oacute;ria que ocorreu aproximadamente entre os anos 30 e 80 do s&eacute;culo XX. Carlos Reis diz que uma bandeira que vem ganhando adeptos entre os historiadores &eacute; a proposta defendida pelo historiador franc&ecirc;s F. Dosse. Este autor defende um retorno ao projeto inicial da Escola dos Annales, que se pode destacar: a mesma rela&ccedil;&atilde;o interdisciplinar com as ci&ecirc;ncias sociais, a mesma referencia &agrave; hist&oacute;ria problema, a mesma resist&ecirc;ncia e substitui&ccedil;&atilde;o do marxismo. (Ibidem: 187) A compreens&atilde;o e o aprimoramento do saber hist&oacute;rico, absorvendo todo o avan&ccedil;o poss&iacute;vel das ci&ecirc;ncias humanas e sociais, esta em gesta&ccedil;&atilde;o. Para Dosse: <br \/>\nA l&oacute;gica mesma da a&ccedil;&atilde;o mant&eacute;m aberto o campo dos poss&iacute;veis, em uma reabertura das potencialidades do presente alimentada pelos poss&iacute;veis n&atilde;o averiguados do passado. A fun&ccedil;&atilde;o da hist&oacute;ria continua, portanto, viva, e o luto das vis&otilde;es teleol&oacute;gicas pode se tornar uma chance para se repensar o mundo do amanh&atilde;. (DOSSE, 2003:16) <\/p>\n<p>Enfim, procura-se entender como os anarquistas viam a hist&oacute;ria, enquanto o que ficou para tr&aacute;s, em que medida e como esta hist&oacute;ria influencia o presente e o futuro dos indiv&iacute;duos e da sociedade. Tamb&eacute;m se procura saber em que medida a Hist&oacute;ria, enquanto saber, se constitui em ci&ecirc;ncia e, se para os anarquistas, &eacute; poss&iacute;vel uma previsibilidade e o estabelecimento de leis hist&oacute;ricas. <\/p>\n<p>\n<strong>2. Historia e historiografia (de 1840 a 1940). <br \/>\n<\/strong><br \/>\nA delimita&ccedil;&atilde;o temporal para trabalhar deveu-se ao fato de ser o per&iacute;odo que abrange a produ&ccedil;&atilde;o dos &ldquo;te&oacute;ricos&rdquo; que ser&atilde;o analisados. As produ&ccedil;&otilde;es de Proudhon que iniciam por volta de 1840 e a de Rudolf Rocker, em 1937. As discuss&otilde;es sobre filosofia e teoria da hist&oacute;ria da segunda metade do s&eacute;culo XIX e da primeira metade do s&eacute;culo XX, ser&atilde;o o contraponto para an&aacute;lise e compara&ccedil;&atilde;o da produ&ccedil;&atilde;o dos te&oacute;ricos anarquistas. Cen&aacute;rio habitado por discuss&otilde;es de historiadores historicistas e a Escola Met&oacute;dica como Leopold von Ranke, Taine e Fustel de Coulanges, Gabriel Monod, Charles Seignobos, Charles Langlois. Aparece a concep&ccedil;&atilde;o de hist&oacute;ria enquanto ci&ecirc;ncia social com a transi&ccedil;&atilde;o entre Henri Berr e o movimento dos Annales com Lucien Febvre e Bloch. <br \/>\nOs principais historiadores antes de 1840 eram conhecidos como rom&acirc;nticos. Produziam uma hist&oacute;ria com comprometimento pol&iacute;tico, como Michelet e Tocqueville. S&atilde;o eles que est&atilde;o publicando suas hist&oacute;rias neste per&iacute;odo, em defesa das experi&ecirc;ncias republicanas e democr&aacute;ticas liberais. At&eacute; aproximadamente 1860 vai a hegemonia dos historiadores rom&acirc;nticos com forte liga&ccedil;&atilde;o com a filosofia. O historicismo, ou a &ldquo;Escola Met&oacute;dica&rdquo; e positiva, pretende elevar a hist&oacute;ria &agrave; categoria de ci&ecirc;ncia. Leopold von Rank defende a separa&ccedil;&atilde;o da filosofia da hist&oacute;ria, ele critica a metaf&iacute;sica hegeliana e acredita que a hist&oacute;ria constitui um saber cientifico na medida em que se det&eacute;m no emp&iacute;rico, nos fatos e na individualidade hist&oacute;rica.(COLLIOT-TH&Eacute;LENE, 1995:20) Emana um esp&iacute;rito positivo que abrange a hist&oacute;ria, e passa a predominar entre os historiadores, inicia-se uma luta contra a influ&ecirc;ncia da filosofia da hist&oacute;ria na ci&ecirc;ncia da hist&oacute;ria. A ci&ecirc;ncia hist&oacute;rica quer ser objetiva, quer formular enunciados adequados ao seu objeto e que sejam v&aacute;lidos para todo tempo e lugar, como estimavam que faziam as ci&ecirc;ncias naturais. (REIS, 1996:07) A hist&oacute;ria procura encontrar fatos e descobrir verdades, a hist&oacute;ria &eacute; a ci&ecirc;ncia da observa&ccedil;&atilde;o. No final da d&eacute;cada de 70 do s&eacute;culo XIX, Gabriel Monod inicia uma produ&ccedil;&atilde;o voltada para o m&eacute;todo hist&oacute;rico, empreitada levada adiante tamb&eacute;m por Charles Langlois e Seignobos. No final do s&eacute;culo XIX, este esfor&ccedil;o de criar uma hist&oacute;ria cientifica, dividiu-se em tr&ecirc;s proposi&ccedil;&otilde;es: A proposi&ccedil;&atilde;o rankiana, que aproxima a hist&oacute;ria das ci&ecirc;ncias naturais; a orienta&ccedil;&atilde;o de Dithey, que quer descobrir o que h&aacute; de especifico no conhecimento hist&oacute;rico e cria a concep&ccedil;&atilde;o de ci&ecirc;ncia social, lugar onde se destaca a hist&oacute;ria; e o marxismo. <br \/>\nAo iniciar o s&eacute;culo XX, ocorre um per&iacute;odo transit&oacute;rio entre a &ldquo;Escola Met&oacute;dica&rdquo; e a &ldquo;Escola dos Annales&rdquo;, onde Charles P&eacute;guy, F. Simiand, Dithey e Henrii Berr constroem uma concep&ccedil;&atilde;o de hist&oacute;ria relacionada &agrave;s ci&ecirc;ncias sociais. A hist&oacute;ria esta, ent&atilde;o, entre as ci&ecirc;ncias sociais e n&atilde;o entre as ci&ecirc;ncias naturais. O objeto de estudo do historiador &eacute; o pr&oacute;prio homem, a sociedade humana. Dosse escreve que o projeto da Escola dos Annales &eacute; um projeto de esp&iacute;rito de &ldquo;Frente Popular&rdquo;, e para demonstrar isto ele tra&ccedil;a o itiner&aacute;rio de alguns membros fundadores da Escola. No inicio da vida intelectual, Lucien Febvre era socialista fervoroso; segundo Dosse, ele escreve, entre 1907 e 1909, no L&ecirc; Socialiste Comtois, &oacute;rg&atilde;o semanal da federa&ccedil;&atilde;o do Doubs da SFIO (Se&ccedil;&atilde;o Francesa da Internacional Oper&aacute;ria). No dia 21 de mar&ccedil;o de 1909, redige mais da metade da primeira p&aacute;gina do jornal com quatro artigos: &ldquo;Viva a vida! Abaixo a autoridade&rdquo;. Em 1909, ele escreve em um artigo: &ldquo;Ah querido velho Proudhon&sup1; E h&aacute; pessoas que dizem que voc&ecirc; est&aacute; morto! Vai, esteja tranquilo: a personalidade humana se empertigar&aacute;, enfim, ela que h&aacute; tantos s&eacute;culos vinha se corrompendo, imut&aacute;vel nessa degrada&ccedil;&atilde;o. Ela solta com uma voz ainda fraca, mas que n&atilde;o &eacute; mais t&iacute;mida, o grito libertador que voc&ecirc; mesmo soltava: nenhuma autoridade!&rdquo; (DOSSE, 2003:92) Fran&ccedil;ois Dosse diz que Lucien Febvre v&ecirc; no discurso marxista ao mesmo tempo uma concep&ccedil;&atilde;o t&atilde;o voluntarista e factual quanto &agrave; da hist&oacute;ria tradicional e tamb&eacute;m sua forma de espiritualismo econ&ocirc;mico. (Ibidem:98) Portanto, a Escola dos Annales procura se constituir, por seus fundadores em 1929, numa alternativa &agrave; hist&oacute;ria tradicional e &agrave; hist&oacute;ria marxista, com a emerg&ecirc;ncia do econ&ocirc;mico e do social na Hist&oacute;ria. Lucien Febvre e Marc Bloch veem na teoria das probabilidades, na teoria da relatividade da medida temporal e espacial, a possibilidade de a hist&oacute;ria aspirar, ao estatuto de ci&ecirc;ncia, contanto que critique os testemunhos do passado, elabore fichas de leitura, teste as hip&oacute;teses, passe do dado ao criado. Segundo Dosse, eles acreditam que a pesquisa hist&oacute;rica pode tomar emprestada a via das pesquisas causais a partir da cr&iacute;tica dos documentos, mesmo se aos olhos dos promotores dos Annales ela deva se precaver contra toda metaf&iacute;sica, contra todo monismo de causalidade. (Ibidem:55) Dosse escreve que o projeto dos Annales &eacute; indissoci&aacute;vel de sua dimens&atilde;o estrat&eacute;gica: Todo projeto cientifico &eacute; insepar&aacute;vel de um projeto de poder \/&#8230;\/. Vontade de convencer e vontade de poder est&atilde;o unidas como a luz e a sombra. (Ibidem: 71) <\/p>\n<p>\n<strong>3. Anarquismo. <br \/>\n<\/strong><br \/>\nO anarquismo pode ser entendido como uma ideologia, matriz de pensamento e teoria revolucion&aacute;ria. Como movimento pol&iacute;tico e social, com prop&oacute;sitos revolucion&aacute;rios aparece entre os oper&aacute;rios na Associa&ccedil;&atilde;o Internacional dos Trabalhadores (A.I.T), tamb&eacute;m conhecida como &ldquo;Primeira Internancional&rdquo; (1864) e nos grupos de conspiradores revolucion&aacute;rios organizados por Bakunin, que seguiam as ideias federalistas e mutualistas de Proudhon. <\/p>\n<p>Os anarquistas s&atilde;o tamb&eacute;m conhecidos como socialistas libert&aacute;rios, para distinguir-se dos marxistas, que s&atilde;o denominados de socialistas autorit&aacute;rios. Durante a Primeira Internacional, as teses anarquistas revolucion&aacute;rias defendiam a proposta de uma revolu&ccedil;&atilde;o social, com a constru&ccedil;&atilde;o do socialismo a partir de bases federalistas, e com autogest&atilde;o socioecon&ocirc;mica. Acreditavam que o socialismo s&oacute; &eacute; poss&iacute;vel com liberdade, e por isso defendiam a aboli&ccedil;&atilde;o do &ldquo;Estado Moderno&rdquo;. Os socialistas autorit&aacute;rios (marxistas) eram reformistas, defendiam a conquista do Estado para, atrav&eacute;s de reformas, irem transformando a sociedade. Enfim, os anarquistas defendem a ideia de uma sociedade sem classes, sem dom&iacute;nio, opress&atilde;o e explora&ccedil;&atilde;o. &Eacute; importante destacar que as concep&ccedil;&otilde;es de hist&oacute;ria dos anarquistas, carregam tamb&eacute;m este componente de disputa, tanto com as concep&ccedil;&otilde;es conservadoras, quanto com as ideias marxistas. (WOODCOCK, 2002) <\/p>\n<p>\n<strong>3.1. Proudhon: &ldquo;O movimento da hist&oacute;ria&rdquo;. <br \/>\n<\/strong><br \/>\nPierre-Joseph Proudhon, franc&ecirc;s, nascido em 1809 e falecido em 1865, foi um dos grandes mestres do pensamento socialista do s&eacute;culo XIX. Filho de camponeses, tornou-se gr&aacute;fico e &ldquo;livre pensador&rdquo;; em 1837, conquista uma bolsa na Academia de Besan&ccedil;on para cursar letras ou ci&ecirc;ncia. O conjunto de sua obra se encontra num horizonte de afirma&ccedil;&atilde;o da sociedade como realidade plural, dotada de for&ccedil;as coletivas, resultantes da uni&atilde;o, da harmonia e da converg&ecirc;ncia de esfor&ccedil;os. Este racioc&iacute;nio &eacute; a arma que esgrime contra o capital e o Estado. (RESENDE, 1986) Para abordar aspectos do pensamento de Proudhon sobre a Hist&oacute;ria, ser&atilde;o utilizados como fontes dois livros: &ldquo;Proudhon&rdquo;, de Paulo-Edgar Resende e &ldquo;Proudhon e Marx&rdquo;, de Georges Guvitch. Proudhon foi tamb&eacute;m como o &ldquo;homem dos paradoxos&rdquo;, e suas proposi&ccedil;&otilde;es, realmente, muitas vezes eram contradit&oacute;rias. Para compreender melhor seu pensamento, seria interessante analis&aacute;-lo &agrave; luz do contexto de produ&ccedil;&atilde;o e encar&aacute;-los como constru&ccedil;&atilde;o, o que n&atilde;o seria poss&iacute;vel nas pretens&otilde;es deste modesto trabalho. <br \/>\nNa sele&ccedil;&atilde;o de textos organizada por Paulo Resende e Edson Passeti, a principal refer&ecirc;ncia feita &agrave; Hist&oacute;ria, na obra de Proudhon, foi quando Resende e Passeti escrevem: Proudhon afirma n&atilde;o ter um projeto de sociedade, postulando antes um m&eacute;todo de an&aacute;lise que possibilite detectar o movimento da hist&oacute;ria. (Ibidem: 21) N&atilde;o ficou claro, onde, quando e em que obra Proudhon teria feito esta afirma&ccedil;&atilde;o, por&eacute;m se buscou identificar nos textos publicados este &ldquo;m&eacute;todo que detecta o movimento da hist&oacute;ria&rdquo;. Segundo os organizadores da obra, o &ldquo;movimento da hist&oacute;ria&rdquo; aponta na seguinte dire&ccedil;&atilde;o: anarquia industrial, feudalismo industrial (refer&ecirc;ncia ao jacobinismo estatizante), imp&eacute;rio industrial e, finalmente, a rep&uacute;blica industrial (referente ao mutualismo). (Ibidem: 18) O &ldquo;movimento da hist&oacute;ria&rsquo; vai na dire&ccedil;&atilde;o da afirma&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica da autonomia do trabalho, da nega&ccedil;&atilde;o da apropria&ccedil;&atilde;o do Capital e da &ldquo;democracia oper&aacute;ria&rdquo;.(Ibidem: 21) <br \/>\nProudhon escreve que, diante da complexidade do real, o pensamento humano, no in&iacute;cio, apela para um principio de unidade transcendente. A&iacute;, surge o dogma, que &eacute; a afirma&ccedil;&atilde;o est&aacute;tica, por cima da diversidade hist&oacute;rica, em que a f&eacute; religiosa transparece como passividade. (Ibidem: 14) Segundo o pensamento de Proudhon, a metaf&iacute;sica significa a mesma coisa que Deus para as religi&otilde;es e a procura por um &ldquo;motor da hist&oacute;ria&rdquo; em certas concep&ccedil;&otilde;es &ldquo;cient&iacute;ficas&rdquo;. Ao fazer a cr&iacute;tica a toda tentativa totalizadora, e de unidade dogm&aacute;tica, Proudhon opta por chamar sua busca por uma explica&ccedil;&atilde;o do &ldquo;movimento da hist&oacute;ria&rdquo; de m&eacute;todo e n&atilde;o de teoria (para fugir das Leis da metaf&iacute;sica cient&iacute;fica). Ele faz quest&atilde;o de afirmar que sua proposta n&atilde;o &eacute; exterior, n&atilde;o &eacute; transcendente &agrave; pratica social, e que a &ldquo;teoria da lei serial&rdquo; &eacute; um m&eacute;todo de conhecimento assentado no terreno movedi&ccedil;o da realidade plural. Segundo o filosofo, este m&eacute;todo estabelece-se na rela&ccedil;&atilde;o de revezamento com a pr&aacute;tica. <br \/>\nSegundo Proudhon, este m&eacute;todo &eacute; um processo bem-determinado de conhecimento, que acompanha o movimento da pr&aacute;tica. No pensamento dele, quem diz movimento diz s&eacute;rie, unidade diversificada. A s&eacute;rie &eacute; a condi&ccedil;&atilde;o fundamental da ci&ecirc;ncia, na medida em que a divis&atilde;o, e n&atilde;o a unidade, &eacute; a primeira condi&ccedil;&atilde;o do que existe. (Ibidem:15s) Para o anarquista, o conhecimento serial &eacute; um tipo de saber que se processa em decorr&ecirc;ncia de uma rela&ccedil;&atilde;o pr&aacute;tica dos homens com o mundo e suas cria&ccedil;&otilde;es, ensejando o desenvolvimento integrado entre teoria e pr&aacute;tica.&rdquo; (RESENDE, 1986:16) Proudhon escreve que, na teoria serial, n&atilde;o existe continuidade, pois continuidade &eacute; sin&ocirc;nimo de identidade absoluta e &eacute; an&aacute;loga &agrave; ideia de subst&acirc;ncia e de causa. Quem diz subst&acirc;ncia, fala de algo particular, limitado; portanto, n&atilde;o cont&iacute;nuo nem absoluto. Tamb&eacute;m ocorre que, se &eacute; cont&iacute;nuo, n&atilde;o tem in&iacute;cio. Se n&atilde;o inicia, n&atilde;o tem causa. Proudhon diz que a continuidade apresenta-se de fato para n&oacute;s, mas ela &eacute; uma ideia verdadeira somente no momento em que ela apresenta-se anterior &agrave; diferencia&ccedil;&atilde;o dos seres e anterior a n&oacute;s. A ideia de continuidade &eacute; legitima porque a hip&oacute;tese que ela exprime &eacute; em virtude das leis de nosso entendimento, que &eacute; obtida da pr&oacute;pria observa&ccedil;&atilde;o da s&eacute;rie, que &eacute; sua contradit&oacute;ria. Assim, a coes&atilde;o dos corpos e a sucess&atilde;o dos fen&ocirc;menos nos d&atilde;o a ideia de continuidade, mas na verdade esta continuidade n&atilde;o existe em parte alguma.(Ibidem:43) <br \/>\nPierre-Joseph Proudhon escreve que a natureza n&atilde;o faz nada bruscamente e nem procede por saltos, mas opera de maneira sucessiva e progressiva. Essa ideia de continuidade &eacute;, na verdade, &ldquo;progresso seriado&rdquo;. <br \/>\nAs ideias de continuidade e de progress&atilde;o parecem realmente se excluir: quem diz progresso diz necessariamente sucess&atilde;o, transporte, crescimento, passagem, adi&ccedil;&atilde;o, multiplica&ccedil;&atilde;o, diferen&ccedil;a, s&eacute;rie, enfim; de maneira que a express&atilde;o movimento continuo n&atilde;o &eacute; mais que uma met&aacute;fora. (Idem) <\/p>\n<p>O autor diz que cada s&eacute;rie encerra em si mesmo seu princ&iacute;pio, sua lei, sua certeza. Cada uma das s&eacute;ries &eacute; independente, e o conhecimento de uma n&atilde;o sup&otilde;e nem engloba o conhecimento da outra. (RESENDE, 1986:45) O que produz nas ci&ecirc;ncias a diversidade da s&eacute;rie &eacute; a diversidade do objeto. Ainda que se possa, por abstra&ccedil;&atilde;o de todo objeto, construir uma teoria geral da seria&ccedil;&atilde;o, as diversas formas de s&eacute;ries n&atilde;o se explicam umas pelas outras. N&atilde;o existe ci&ecirc;ncia universal, porque n&atilde;o h&aacute; objeto universal. (Idem) <br \/>\nDe todas essas considera&ccedil;&otilde;es, resulta que a metaf&iacute;sica, ou teoria da lei serial, n&atilde;o &eacute; ci&ecirc;ncia, mas m&eacute;todo; n&atilde;o &eacute; um m&eacute;todo especial e objetivo, mas um m&eacute;todo sum&aacute;rio e ideal; que ela n&atilde;o prejulga e n&atilde;o exclui nada, acolhe todos os fatos e os nomeia sem temor de ser desmentida por nenhum; que ela n&atilde;o pretende de modo algum produzir por si mesma o conhecimento e n&atilde;o se antecipa &agrave; observa&ccedil;&atilde;o: bem diferente dos pretensos sistemas universais, constru&iacute;dos com base na atra&ccedil;&atilde;o, expans&atilde;o, causa&ccedil;&atilde;o, deifica&ccedil;&atilde;o e outros sistemas ontol&oacute;gicos, monumentos da pregui&ccedil;a e da impot&ecirc;ncia. (Idem) <\/p>\n<p>Proudhon diz que a s&eacute;rie &eacute; a ant&iacute;tese da unidade, que se forma pela repeti&ccedil;&atilde;o das combina&ccedil;&otilde;es diversas da unidade. (Ibidem: 46) A unidade, por sua vez, &eacute; considerada elemento da s&eacute;rie, se reveste de todas as formas poss&iacute;veis: (&#8230;) Numa roda de engrenagem, a unidade de s&eacute;rie &eacute; o dente; num tabuleiro de xadrez, essa unidade &eacute; a casa; num poliedro, ela &eacute; a pir&acirc;mide, tendo seu cume no centro do s&oacute;lido e sua base na superf&iacute;cie. (Idem) Proudhon defende a ideia do &ldquo;sistema&rdquo;, que configura o conjunto. O sistema &eacute; a roda de engrenagem, o tabuleiro etc. Este sistema deve ser compreendido de maneira progressiva, nos termos que o pr&oacute;prio Proudhon define: Sem unidade, nada de verdade, nada de beleza, nem mesmo de moralidade. Um sistema sem unidade &eacute; uma contradi&ccedil;&atilde;o; uma dupla justi&ccedil;a &eacute; a pr&oacute;pria iniquidade. (Ibidem: 83) <br \/>\nPara Proudhon : (&#8230;) a hist&oacute;ria nos apresenta, numa sucess&atilde;o l&oacute;gica e cronol&oacute;gica, os dois princ&iacute;pios &ndash; Autoridade e Liberdade &ndash;, os mesmos de onde procede todo mal&rdquo;(Ibidem:70) Ele escreve que, durante todos os tempos e em todas as sociedades, quanto mais um organismo ganha em unidade perde em massa. E que, em toda coletividade, a pot&ecirc;ncia org&acirc;nica perde em intensidade o que ganha em extens&atilde;o e reciprocamente. (Ibidem:83) Acrescenta ele: Essa lei &eacute; universal, rege o mundo do esp&iacute;rito tanto quanto o dos corpos; ela se encontra na filosofia, na ci&ecirc;ncia, no direito, na literatura, na arte, na poesia, na hist&oacute;ria etc. (Idem) O escritor op&otilde;e-se a toda filosofia da hist&oacute;ria, seja a de Bossuet, de Condercet, de Saint-Simon, de Hegel ou de Herder. Para ele, a filosofia da hist&oacute;ria nega a responsabilidade do homem coletivo ou individual, na orienta&ccedil;&atilde;o do esfor&ccedil;o volunt&aacute;rio, seja no sentido do progresso ou do regresso. (GURVITCH:89) <br \/>\nPara Georges Gurvitch, na obra de Proudhon est&aacute; presente a concep&ccedil;&atilde;o de saber instrumental. No livro &ldquo;La C&eacute;lebration du Dimache&rdquo;, ele escreve que deve existir uma ci&ecirc;ncia social (sociologia) que guie a revolu&ccedil;&atilde;o social. (Ibidem:25) Para o anarquista, a ci&ecirc;ncia deve ser um instrumento para a transforma&ccedil;&atilde;o da sociedade. No livro La Cr&eacute;ation de l&rsquo;Ordre, Proudhon escreve: As leis da economia pol&iacute;tica s&atilde;o as leis da hist&oacute;ria. (Ibidem:44) Nesta passagem, Proudhon acredita na exist&ecirc;ncia de Leis na &ldquo;ci&ecirc;ncia social&rdquo;, e que, no caso da hist&oacute;ria, as leis seriam encontradas na economia pol&iacute;tica. Para Proudhon, a Hist&oacute;ria n&atilde;o &eacute; uma ci&ecirc;ncia, mas mat&eacute;ria de uma ci&ecirc;ncia. (Idem) Ele recusa confiar na ci&ecirc;ncia hist&oacute;rica do seu presente, que, segundo ele, &eacute; uma reconstru&ccedil;&atilde;o guiada por ideologias da sociedade existente. (Idem) Em poucas palavras, pode-se perceber que Proudhon acreditava ser poss&iacute;vel um ci&ecirc;ncia social, e que a Hist&oacute;ria n&atilde;o &eacute; uma ci&ecirc;ncia, mas se utiliza das ci&ecirc;ncias auxiliares e que, na metade do s&eacute;culo XIX, a Hist&oacute;ria era utilizada para fins pol&iacute;ticos e ideol&oacute;gicos. <br \/>\nPara Proudhon, o progresso &eacute; esfor&ccedil;o criador e revolu&ccedil;&atilde;o sempre renovada, &eacute; visto como a negativa do absoluto. O progresso &eacute; a permanente mudan&ccedil;a, transforma&ccedil;&atilde;o. (Ibidem:87) Ele defende uma dial&eacute;tica realista e emp&iacute;rica por um lado, e da liberdade coletiva criadora por outro. Os resultados n&atilde;o s&atilde;o previs&iacute;veis, no sentido de n&atilde;o serem determinados. (Ibidem:43) A dial&eacute;tica proudhoniana prova que, na realidade social, a liberdade e o determinismo social se interpenetram, se completam, se implicam e se polarizam de diversas maneiras. (Ibidem:142) <br \/>\nA an&aacute;lise sobre a ideia de Hist&oacute;ria no discurso de Proudhon ficou prejudicada na medida em que n&atilde;o se teve acesso &agrave;s obras de Proudhon, mas a interpreta&ccedil;&otilde;es das mesmas. Boa parte das informa&ccedil;&otilde;es apresentadas aqui s&atilde;o frutos de leituras indiretas. N&atilde;o &eacute; necessariamente o que ele disse, mas o que se disse sobre ele. Pelo exposto no texto, &eacute; poss&iacute;vel afirmar que Joseph Proudhon n&atilde;o quer construir uma teoria absoluta que explique &ldquo;toda&rdquo; a hist&oacute;ria, mas procura compreender a &ldquo;Conjuntura&rdquo; capitalista, a partir da &ldquo;Revolu&ccedil;&atilde;o Industrial&rdquo; onde ele fala em quatro tipos de per&iacute;odos ou est&aacute;gios da sociedade industrial. Ele procura construir um &ldquo;m&eacute;todo que detecta o movimento da hist&oacute;ria&rdquo;. Sua concep&ccedil;&atilde;o &eacute; &ldquo;progressista&rdquo; e parte da economia pol&iacute;tica. O progresso para ele representa a continuidade da ruptura. Os fen&ocirc;menos desenvolvem-se em unidades arranjadas de forma sist&ecirc;mica, onde cada parte mant&eacute;m relativa ou total autonomia em rela&ccedil;&atilde;o ao todo. A base da sociedade, para ele, &eacute; a &ldquo;oficina&rdquo;, por isso ele defende a economia pol&iacute;tica. Defende as particularidades na hist&oacute;ria, o emp&iacute;rico, e que n&atilde;o h&aacute; determinismo na hist&oacute;ria. Do que foi escrito acima, fica n&iacute;tido que Proudhon n&atilde;o reconhecia, na Hist&oacute;ria, uma ci&ecirc;ncia, que a explica&ccedil;&atilde;o s&oacute; &eacute; poss&iacute;vel a partir da economia pol&iacute;tica (ci&ecirc;ncia auxiliar). Para ele, a hist&oacute;ria &eacute; uma narrativa l&oacute;gica, cronol&oacute;gica e que &eacute; utilizada de forma pol&iacute;tico-ideol&oacute;gica. <\/p>\n<p>\n<strong>3.2. Bakunin: a hist&oacute;ria &eacute; a nega&ccedil;&atilde;o do passado. <br \/>\n<\/strong><br \/>\nMichael Alexandtovich Bakunin nasceu em 1814 e faleceu em 1876. Pertenceu a uma rica fam&iacute;lia propriet&aacute;ria de terras na R&uacute;ssia. Foi na Europa que se converteu ao radicalismo pol&iacute;tico. Participou das rebeli&otilde;es que ocorreram em Paris em 1848 e 1849. Era um conspirador nato, viveu a maior parte do tempo de sua vida organizando insurrei&ccedil;&otilde;es, rebeli&otilde;es, organiza&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas revolucion&aacute;rias e preso. Nos curtos espa&ccedil;os de tempo que possu&iacute;a, quando n&atilde;o estava em &ldquo;barricadas&rdquo; e organizando revoltas, escrevia principalmente artigos para a imprensa revolucion&aacute;ria e oper&aacute;ria. (BAKUNIN, 1999:05s) <br \/>\nDos v&aacute;rios escritos de Bakunin, neste manuscrito, que, mais tarde, torna-se conhecido como Deus e o Estado, ele dedica algumas linhas ao estudo da Hist&oacute;ria. A primeira edi&ccedil;&atilde;o de Deus e o Estado foi, em 1882, publicada em Genebra, o titulo da obra n&atilde;o &eacute; de autoria de Bakunin, mas dos organizadores dos textos: Carlo Cafiero e Elise&eacute; Reclus. O texto original foi recolhido de trechos do manuscrito denominado &ldquo;Imp&eacute;rio Knouto-germ&acirc;nico&rdquo; de 1871. Bakunin inicia seus escritos afirmando que tr&ecirc;s elementos constituem na hist&oacute;ria, as condi&ccedil;&otilde;es essenciais de todo desenvolvimento humano: 1&ordm;) a animalidade humana; 2&ordm;) o pensamento; 3&ordm;) a revolta. &Agrave; primeira corresponde propriamente a economia social e privada; &agrave; segunda, a ci&ecirc;ncia; &agrave; terceira, a liberdade. (Ibidem: 03) <br \/>\nBakunin escreve que o homem, com toda sua intelig&ecirc;ncia, ideias sublimes e aspira&ccedil;&otilde;es infinitas &ldquo;&eacute; produto da vil mat&eacute;ria&rdquo;. (Idem) O revolucion&aacute;rio russo define-se materialista e escreve: Sim, os fatos t&ecirc;m primazia sobre as ideias; sim, o ideal, como disse Proudhon, nada mais &eacute; do que uma flor, cujas condi&ccedil;&otilde;es materiais de exist&ecirc;ncia constituem a raiz. Sim, toda a hist&oacute;ria intelectual e moral, pol&iacute;tica e social da humanidade &eacute; um reflexo da sua hist&oacute;ria econ&ocirc;mica. (Ibidem: 04) Para Bakunin, a condi&ccedil;&atilde;o animal no homem &eacute; nata, o pensamento &eacute; uma faculdade e capacidade, a revolta uma necessidade. (Idem) A a&ccedil;&atilde;o progressiva da hist&oacute;ria se constituiu em combinar a faculdade de pensar e de se revoltar. &Eacute; a pot&ecirc;ncia negativa no desenvolvimento positivo da animalidade humana e que constitui tudo o que h&aacute; de humanidade nos homens. (Idem) Para Bakunin, a humanidade &eacute; um ato de revolta; assim escreve: O homem se emancipou, separou-se da animalidade e se constituiu homem; ele come&ccedil;ou sua hist&oacute;ria e seu desenvolvimento especificamente humano por um ato de desobedi&ecirc;ncia e de ci&ecirc;ncia, isto &eacute;, pela revolta e pelo pensamento. (BAKUNIN, 2008:06) <br \/>\nPara exemplificar a animalidade humana, Bakunin cita como exemplo a invas&atilde;o da Fran&ccedil;a pela Alemanha. No momento em que se aceita esta origem animal do homem, tudo se explica. A hist&oacute;ria consiste na nega&ccedil;&atilde;o progressiva da animalidade primitiva do homem pelo desenvolvimento de sua humanidade. Progredir &eacute; negar o passado. O autor acredita na &ldquo;evolu&ccedil;&atilde;o&rdquo; humana, ele &eacute; um evolucionista: <br \/>\nO homem, animal feroz, primo do gorila, partiu da noite profunda do instinto para chegar &agrave; luz do esp&iacute;rito, o que explica de uma maneira completamente natural todas as suas divaga&ccedil;&otilde;es passadas e nos consola em parte de seus erros presentes. Ele partiu da escravid&atilde;o animal, e atravessou a escravid&atilde;o divina, termo transit&oacute;rio entre sua animalidade e humanidade, caminha hoje rumo &agrave; conquista e a realiza&ccedil;&atilde;o da liberdade humana. (Ibidem:10) <\/p>\n<p>A antiguidade de uma cren&ccedil;a ou ideia, longe de provar alguma coisa, deve, pelo contr&aacute;rio, torn&aacute;-la suspeita entre n&oacute;s. Justo porque, atr&aacute;s de n&oacute;s, est&aacute; nossa animalidade, e, diante de n&oacute;s, nossa humanidade; a luz humana, a &uacute;nica que pode nos aquecer e nos iluminar, a &uacute;nica que pode nos emancipar, tornar-nos dignos, livres, felizes, e realizar a fraternidade entre n&oacute;s, jamais esta no princ&iacute;pio, mas, relativamente, na &eacute;poca em que se vive, e sempre no fim da hist&oacute;ria.(Idem) <br \/>\nDepois de afirmar que jamais devemos olhar para tr&aacute;s, que &eacute; necess&aacute;rio olhar sempre pra frente, onde o autor chega falar em &ldquo;salva&ccedil;&atilde;o&rdquo;, ele assim se refere ao estudo do passado: <br \/>\n(&#8230;) se nos &eacute; permitido, se &eacute; mesmo &uacute;til, necess&aacute;rio, nos viramos para o estudo de nosso passado, &eacute; apenas para constatar o que fomos e o que n&atilde;o devemos mais ser, o que acreditamos e pensamos, e o que n&atilde;o devemos mais acreditar nem pensar, o que fizemos e o que nunca mais devemos fazer. (Idem) <\/p>\n<p>A Hist&oacute;ria, tamb&eacute;m pode servir como &ldquo;li&ccedil;&atilde;o&rdquo;, e como testemunho e recurso argumentativo, como nestes exemplos: (&#8230;) n&atilde;o faltam as provas da hist&oacute;ria (Ibidem:23); ou Numa palavra, n&atilde;o &eacute; dif&iacute;cil provar, com a hist&oacute;ria na m&atilde;o (&#8230;) (Ibidem:25) <br \/>\nA contradi&ccedil;&atilde;o de Bakunin est&aacute; no fato de que ele quer combater a &ldquo;metaf&iacute;sica&rdquo;, com outra &ldquo;metaf&iacute;sica&rdquo;, fazendo crer que existe um destino hist&oacute;rico. Esta contradi&ccedil;&atilde;o &eacute; expressa na passagem a seguir: <br \/>\nEla sabe, enfim, quando n&atilde;o est&aacute; viciada pelo doutrinarismo teol&oacute;gico ou metaf&iacute;sico, pol&iacute;tico ou jur&iacute;dico, ou mesmo por um estrito orgulho, quando ela n&atilde;o &eacute; surda aos institutos e &agrave;s aspira&ccedil;&otilde;es da vida, e que o grande, o verdadeiro objetivo da hist&oacute;ria, o &uacute;nico leg&iacute;timo, &eacute; a humaniza&ccedil;&atilde;o e a emancipa&ccedil;&atilde;o, &eacute; a liberdade real, a prosperidade de cada indiv&iacute;duo vivo na sociedade. (Ibidem:31) <\/p>\n<p>Para tratar do estudo cient&iacute;fico dos fen&ocirc;menos sociais, Bakunin escreve que n&atilde;o s&atilde;o individualidades abstratas, mas indiv&iacute;duos, agindo e vivendo, que fazem a hist&oacute;ria. Segundo ele, as abstra&ccedil;&otilde;es s&oacute; existem quando conduzidas por homens reais, e acrescenta: Para esses seres formados, n&atilde;o somente em ideias, mas em realidade, de carne e de sangue, a ci&ecirc;ncia n&atilde;o tem cora&ccedil;&atilde;o. (Ibidem: 32) <br \/>\nBakunin escreve que a ci&ecirc;ncia jamais abdicaria de suas teorias eternas; para ele, isso &eacute; a &ldquo;ci&ecirc;ncia&rdquo;. Para ele, a ci&ecirc;ncia n&atilde;o se ocupa do concreto, ela s&oacute; pode mover-se em abstra&ccedil;&otilde;es: <br \/>\nSua miss&atilde;o &eacute; ocupar-se da situa&ccedil;&atilde;o e das condi&ccedil;&otilde;es gerais da exist&ecirc;ncia e do desenvolvimento, seja da esp&eacute;cie humana em geral, seja de tal ra&ccedil;a, de tal povo, de tal classe ou categorias de indiv&iacute;duos, das causas gerais de sua prosperidade, de sua decad&ecirc;ncia e dos meios gerais bons, para faz&ecirc;-los progredir de todas as maneiras. Desde que ela realize ampla e racionalmente esta tarefa, ela ter&aacute; feito todo seu dever e seria realmente injusto pedir-lhe mais. (Idem) <\/p>\n<p>A cr&iacute;tica de Bakunin &eacute; posta no momento em que ele afirma que, at&eacute; o presente momento, toda a hist&oacute;ria humana foi uma imola&ccedil;&atilde;o perp&eacute;tua e sangrenta de milh&otilde;es de pobres seres humanos em nome de uma abstra&ccedil;&atilde;o impiedosa qualquer: Deus, P&aacute;tria, poder do Estado, honra Nacional, direitos hist&oacute;ricos, liberdade pol&iacute;tica, bem-p&uacute;blico. (Idem) <br \/>\nBakunin discute a possibilidade da constitui&ccedil;&atilde;o de uma ci&ecirc;ncia hist&oacute;rica, e faz alguns questionamentos no sentido de saber o seu alcance: A verdadeira ci&ecirc;ncia da hist&oacute;ria ainda n&atilde;o existe; quando muito, come&ccedil;am-se a entrever, hoje, as condi&ccedil;&otilde;es extremamente complicadas. Mas suponhamo-la definitivamente feita, o que ela poder&aacute; nos dar?(Ibidem: 33) Ele escreve que esta Hist&oacute;ria cient&iacute;fica estabelecer&aacute; o quadro fiel do desenvolvimento das sociedades que tiveram hist&oacute;ria. Se ele diz: das sociedades que tiveram hist&oacute;ria, deixa impl&iacute;cito que em sua concep&ccedil;&atilde;o existiram sociedades sem hist&oacute;ria. O ide&oacute;logo anarquista escreve: Mas este quadro universal da civiliza&ccedil;&atilde;o humana, por mais detalhado que seja, jamais poder&aacute; conter, sen&atilde;o, aprecia&ccedil;&otilde;es gerais e, por consequ&ecirc;ncia, abstratas. (Idem) <br \/>\nSobre os bilh&otilde;es de indiv&iacute;duos que forneceram a mat&eacute;ria-prima viva e sofredora desta hist&oacute;ria, Bakunin diz que eles n&atilde;o encontrar&atilde;o sequer o m&iacute;nimo lugar nos anais. Desta forma, eles viveram e foram sacrificados pelo bem da humanidade abstrata, eis tudo! (Idem) Ele pergunta: Ser&aacute; preciso censurar a ci&ecirc;ncia da hist&oacute;ria? E responde: Seria injusto e rid&iacute;culo. (Idem) A ci&ecirc;ncia &eacute; incapaz de abordar os indiv&iacute;duos, pois estes s&atilde;o inapreens&iacute;veis pelo pensamento, pela reflex&atilde;o, at&eacute; mesmo pela palavra, que s&oacute; &eacute; capaz de exprimir abstra&ccedil;&otilde;es. Esta incapacidade, diz Bakunin, ocorre tanto no presente, quanto no passado. A ci&ecirc;ncia social, a ci&ecirc;ncia do futuro, continuar&aacute; for&ccedil;osamente a ignor&aacute;-los. No que podem contribuir as ci&ecirc;ncias sociais e a Hist&oacute;ria: <br \/>\nTudo o que temos direito de exigir dela &eacute; que nos indique, com m&atilde;o fiel e segura, as causas gerais dos sofrimentos individuais, e, entre estas causas, ela sem d&uacute;vida n&atilde;o esquecer&aacute; a imola&ccedil;&atilde;o e a subordina&ccedil;&atilde;o ainda muito frequente, infelizmente, dos indiv&iacute;duos vivos &agrave;s generalidades abstratas; e, ao mesmo tempo, nos mostrar&aacute; &agrave;s condi&ccedil;&otilde;es gerais necess&aacute;rias &agrave; emancipa&ccedil;&atilde;o real dos indiv&iacute;duos vivendo na sociedade. Eis sua miss&atilde;o, eis tamb&eacute;m seus limites (&#8230;)&rdquo; (Ibidem:33s) <\/p>\n<p>Fica evidente que Bakunin &eacute; adepto da metaf&iacute;sica, chegando a afirmar: Todos os sistemas de metaf&iacute;sica nada mais s&atilde;o do que a psicologia humana se desenvolvendo na hist&oacute;ria. (Ibidem: 39) Ele escreve que a hist&oacute;ria &eacute; feita pelos homens, condicionados pelas condi&ccedil;&otilde;es hist&oacute;ricas. Para fecundar os elementos hist&oacute;ricos, para faz&ecirc;-los percorrer uma s&eacute;rie de transforma&ccedil;&otilde;es, &eacute; necess&aacute;rio um fato vivo, espont&acirc;neo, sem o qual podem permanecer muitos s&eacute;culos ainda em estado de elementos improdutivos. (Ibidem: 40) <br \/>\nNeste texto de Bakunin, datado de 1871, Deus e o Estado &eacute; uma produ&ccedil;&atilde;o que possui como fundo o processo hist&oacute;rico. O autor inicia a exposi&ccedil;&atilde;o escrevendo sobre &ldquo;est&aacute;gios&rdquo; ou &ldquo;etapas&rdquo; da hist&oacute;ria da humanidade. Bakunin proclama-se materialista, e escreve sobre as cren&ccedil;as e concep&ccedil;&otilde;es ideol&oacute;gicas e filos&oacute;ficas dos seres humanos na hist&oacute;ria. Trabalha com a ideia de progresso e evolu&ccedil;&atilde;o. Possui uma concep&ccedil;&atilde;o metaf&iacute;sica da hist&oacute;ria, deixando transparecer que existe um &ldquo;objetivo&rdquo; na hist&oacute;ria, uma lei suprema etc. Para ele, o &uacute;ltimo est&aacute;gio da evolu&ccedil;&atilde;o humana &eacute; a necessidade de revolta, que potencializa para a constru&ccedil;&atilde;o da sociedade mais humana. Michael Bakunin diz que n&atilde;o devemos estudar o passado, a Hist&oacute;ria, para procurar exemplos positivos, mas sim exemplos negativos, de como n&atilde;o fazer. Justifica dizendo que atr&aacute;s est&aacute; nossa animalidade e &eacute; na frente que encontramos nossa humanidade. Fica evidente que, para ele, a humanidade n&atilde;o regride, que s&oacute; existe progresso. Ele acredita que seria poss&iacute;vel uma Hist&oacute;ria ci&ecirc;ncia com suas leis correspondentes. Esta Hist&oacute;ria cient&iacute;fica n&atilde;o estudaria os indiv&iacute;duos, pois somente trataria de generalidades. Teria como tarefa iluminar o caminho para liberta&ccedil;&atilde;o da sociedade e dos seres humanos. Para este anarquista, os indiv&iacute;duos n&atilde;o apareceriam na Hist&oacute;ria, somente os grandes conjuntos, grupos e classes. Bakunin afirma que existe algo exterior aos homens que condiciona o rumo da hist&oacute;ria, por&eacute;m ele acrescenta que a hist&oacute;ria &eacute; feita pelos homens, condicionados, que fecundam os elementos latentes do devir hist&oacute;rico. Assim, percebe-se que Bakunin concorda com a cria&ccedil;&atilde;o de teorias cient&iacute;ficas que expliquem o desenvolvimento da hist&oacute;ria. Ele possui uma concep&ccedil;&atilde;o metaf&iacute;sica, hipot&eacute;tico-dedutiva e te&oacute;rica para o estabelecimento da &ldquo;ci&ecirc;ncia social&rdquo; e da Hist&oacute;ria. <\/p>\n<p>\n<strong>3.3. Peter Krop&oacute;tkine: A hist&oacute;ria no comportamento do homem. <br \/>\n<\/strong><br \/>\nPedro Alekesyvich Kropotkine nasceu em 1842, na R&uacute;ssia, e faleceu em 1921, no mesmo pa&iacute;s. Era de fam&iacute;lia rica, descendia de nobres russos. Filho de um oficial de alta patente, Krop&oacute;tkine n&atilde;o quis seguir a carreira militar e preferiu os estudos cient&iacute;ficos. Tornou-se ge&oacute;grafo, publicando v&aacute;rias obras important&iacute;ssimas, &eacute; ainda lembrado pelos ge&oacute;grafos como o cientista que muito contribuiu para o conhecimento da hist&oacute;ria da terra. Vai para a Europa, onde se dedica ao estudo e produ&ccedil;&atilde;o intelectual, do que ele chama de &ldquo;idealismo social&rdquo;. A ci&ecirc;ncia passou a ser a serva de seus objetivos revolucion&aacute;rios. Na Su&iacute;&ccedil;a, participa ativamente de grupos de revolucion&aacute;rios e conspiradores, identificando-se com os anarquistas. Passou a produzir e publicar estudos de sociologia, procurando dar ao anarquismo o car&aacute;ter de ci&ecirc;ncia. Para ele, a sociedade evolui no sentido da concretiza&ccedil;&atilde;o da sociedade sem classes e sem o Estado. (WOODCOCK, 2002:212s) A obra escolhida para analisar-se, aqui, foi &ldquo;A Quest&atilde;o Social&rdquo;. No pref&aacute;cio da edi&ccedil;&atilde;o francesa, de fevereiro de 1913, Peter Krop&oacute;tkine agradece ao historiador (anarquista) &ldquo;Dr. Max Nettlau&rdquo;, pela ajuda na elabora&ccedil;&atilde;o das Notas com o grande conhecimento deste &uacute;ltimo sobre a literatura socialista. (KROP&Oacute;TKINE, s\/d:09) <br \/>\nAo referir-se aos avan&ccedil;os da ci&ecirc;ncia, e a contribui&ccedil;&atilde;o desta para a melhoria, reforma ou revolu&ccedil;&atilde;o da sociedade, Krop&oacute;tkine cita, entre esses avan&ccedil;os, a &ldquo;interpreta&ccedil;&atilde;o antropol&oacute;gica da hist&oacute;ria&rdquo;. (Ibidem: 26) Depois de fazer uma avalia&ccedil;&atilde;o da contribui&ccedil;&atilde;o de Darwin para a interpreta&ccedil;&atilde;o dos fen&ocirc;menos, Krop&oacute;tkine escreve que a ideia de um cont&iacute;nuo desenvolvimento, da progressiva evolu&ccedil;&atilde;o e gradual adapta&ccedil;&atilde;o dos indiv&iacute;duos e sociedades &agrave;s novas condi&ccedil;&otilde;es, a partir do momento em que estas se modificam, encontrou aplica&ccedil;&atilde;o muito mais larga que a que, at&eacute; ent&atilde;o, pretendia explicar a origem das esp&eacute;cies. Assim escreve que, se fundamentando nesse principio, t&atilde;o rico de consequ&ecirc;ncia, foi poss&iacute;vel reconstituir, n&atilde;o somente a hist&oacute;ria dos organismos, mas a pr&oacute;pria das institui&ccedil;&otilde;es humanas. (Ibidem: 40s) <br \/>\nKrop&oacute;tkine afirma que os estudos de Darwin s&atilde;o os primeiros fundamentos s&oacute;lidos e cient&iacute;ficos da Hist&oacute;ria. O evolucionismo fundamenta a hist&oacute;ria dos h&aacute;bitos, dos costumes, das cren&ccedil;as e das institui&ccedil;&otilde;es humanas. Essa fundamenta&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica faltava para os cientistas sociais do s&eacute;culo XVIII, e que, para ele, &eacute; um golpe contra a metaf&iacute;sica do s&eacute;culo XIX: <br \/>\nEssa hist&oacute;ria &ndash; a das sociedades humanas, das v&aacute;rias institui&ccedil;&otilde;es sociais e das religi&otilde;es &ndash; podemos agora escrev&ecirc;-la, norteando-nos pelo fecundo princ&iacute;pio da evolu&ccedil;&atilde;o, sem necessidade de recorrermos &agrave;s formulas metaf&iacute;sicas de Hegel, sem ser preciso apelar para ideias inatas, para uma revela&ccedil;&atilde;o exterior e superior ou ainda para a subst&acirc;ncia de Kant. (Ibidem:41) <\/p>\n<p>Pedro Krop&oacute;tkine diz que, gra&ccedil;as aos trabalhos de naturalistas, que souberam aplicar o mesmo m&eacute;todo cient&iacute;fico aos estudos das institui&ccedil;&otilde;es primitivas e das leis que delas derivam a sua origem, foi poss&iacute;vel estabelecer a hist&oacute;ria do desenvolvimento das institui&ccedil;&otilde;es humanas em bases t&atilde;o firmes como hoje est&aacute; a hist&oacute;ria do desenvolvimento de qualquer esp&eacute;cie vegetal ou animal. (Idem) S&oacute; foi poss&iacute;vel obter resultados exatos, cient&iacute;ficos, depois que os homens de ci&ecirc;ncia come&ccedil;aram a considerar os fatos hist&oacute;ricos do mesmo modo por que um naturalista considera o desenvolvimento gradual dos &oacute;rg&atilde;os de uma planta ou de uma nova esp&eacute;cie. (Ibidem: 42) <br \/>\nO cientista anarquista defende o m&eacute;todo emp&iacute;rico para o estudo da hist&oacute;ria, relacionando a Hist&oacute;ria &agrave; antropologia e n&atilde;o &agrave; economia pol&iacute;tica. Para ele, o estudo da antropologia, que o &eacute; o estudo da evolu&ccedil;&atilde;o fisiol&oacute;gica do homem e do desenvolvimento das suas institui&ccedil;&otilde;es sociais e religiosas, auxilia e possibilita a compreens&atilde;o da Hist&oacute;ria. S&oacute; assim foi, enfim, poss&iacute;vel tra&ccedil;ar as linhas essenciais da hist&oacute;ria da humanidade, abandonando para sempre a metaf&iacute;sica, que, at&eacute; ent&atilde;o, s&oacute; havia obstru&iacute;do o estudo da Hist&oacute;ria tal como a tradi&ccedil;&atilde;o b&iacute;blica obstru&iacute;ra outrora o estudo cient&iacute;fico e o progresso da geologia. (Ibidem:43) <br \/>\nApresenta cr&iacute;ticas aos marxistas, escrevendo: Em consequ&ecirc;ncia da sua predile&ccedil;&atilde;o pelo m&eacute;todo dial&eacute;tico e pela metaf&iacute;sica econ&ocirc;mica, em vez de se aplicarem aos estudos dos fatos concretos da vida econ&ocirc;mica dos povos, bastaria referir os numerosos e crassos erros econ&ocirc;micos em que os marxistas incidiram. (Ibidem:43) Kop&oacute;tkine diz que a metaf&iacute;sica s&oacute; obstruiu o desenvolvimento e o estudo cient&iacute;fico da hist&oacute;ria. Ap&oacute;s criticar a metodologia dos economistas pol&iacute;ticos, em rela&ccedil;&atilde;o ao que ele chama de metaf&iacute;sica (dedu&ccedil;&otilde;es) e elucubra&ccedil;&otilde;es te&oacute;ricas, Peter Krop&oacute;tkine escreve: A quest&atilde;o unicamente pode ser resolvida estudando os fatos econ&ocirc;micos pelo mesmo m&eacute;todo por que se estudam as ci&ecirc;ncias naturais. (Ibidem:152) Neste caso, o m&eacute;todo emp&iacute;rico. <br \/>\nO cientista escreve que a estrutura da sociedade humana &eacute; algo que nunca est&aacute; definitivamente constitu&iacute;do. As estruturas est&atilde;o sempre transbordando de vida e vivem em continua muta&ccedil;&atilde;o conforme as necessidades e aspira&ccedil;&otilde;es de cada momento hist&oacute;rico. (Ibidem: 162) A hist&oacute;ria &eacute; feita pelos indiv&iacute;duos, e acrescenta: (&#8230;) a nossa concep&ccedil;&atilde;o de progresso est&aacute; em uma ininterrupta aproxima&ccedil;&atilde;o do princ&iacute;pio do desenvolvimento da livre iniciativa individual e coletiva.(Idem) <br \/>\nApresenta o papel pol&iacute;tico e ideol&oacute;gico do cientista e historiador, que, para ele, apresenta-se tamb&eacute;m na escolha dos temas de pesquisa: Pois que partido revolucion&aacute;rio somos, procuremos averiguar exatamente a g&ecirc;nese e a evolu&ccedil;&atilde;o das revolu&ccedil;&otilde;es passadas, desembara&ccedil;ando a sua hist&oacute;ria das falsas interpreta&ccedil;&otilde;es estatistas que os historiadores lhe t&ecirc;m atribu&iacute;do at&eacute; hoje. (Ibidem:163) <br \/>\nKrop&oacute;tkine diz que, nas Hist&oacute;rias escritas at&eacute; aquele tempo, das v&aacute;rias revolu&ccedil;&otilde;es ocorridas, o que menos vemos nelas &eacute; a a&ccedil;&atilde;o do povo. Afirma que, nestas Hist&oacute;rias, nada ficamos sabendo acerca de sua g&ecirc;nese. Ele afirma que as frases que se habituou ler na introdu&ccedil;&atilde;o dessas Hist&oacute;rias sobre o estado de desespero do povo, nas v&eacute;speras das subleva&ccedil;&otilde;es, n&atilde;o nos elucidam em coisa alguma. N&atilde;o sabemos como, no meio desse desespero, surgiu no esp&iacute;rito popular, e como se elaborou e desenvolveu a esperan&ccedil;a de uma melhoria poss&iacute;vel de situa&ccedil;&atilde;o, de uma aurora nova, que o redimisse da condi&ccedil;&atilde;o sofredora em que se achava. (Idem) O escritor incentiva a pesquisa hist&oacute;ria, ao escrever: <br \/>\nE assim &eacute; que, depois de havermos lido essas hist&oacute;rias, que nada esclarecem, se, porventura, quisermos encontrar alguma informa&ccedil;&atilde;o &uacute;til sobre a marcha das ideias e do seu despertar no seio do povo, a parte efetiva que este tomou nos acontecimentos, temos de recorrer &agrave;s fontes hist&oacute;ricas de primeira m&atilde;o, sem o que ficaremos na mesma, como antes. (Idem) <\/p>\n<p>Na conclus&atilde;o do livro, Krop&oacute;tkine afirma que os anarquistas optam pelo m&eacute;todo indutivo-dedutivo para a aprecia&ccedil;&atilde;o das institui&ccedil;&otilde;es humanas. (Ibidem: 170) Para ele, os anarquistas, usando do m&eacute;todo indutivo-dedutivo da ci&ecirc;ncia, para reconstruir as institui&ccedil;&otilde;es sociais e culturais, baseando-se nas modernas investiga&ccedil;&otilde;es etnol&oacute;gicas e antropol&oacute;gicas e utilizando-se dos documentos hist&oacute;ricos que a ci&ecirc;ncia moderna tem vindo arquivando, oferece-se um caminho para uma interpreta&ccedil;&atilde;o da hist&oacute;ria. (Ibidem:171) A escolha pelo m&eacute;todo indutivo-dedutivo &eacute; justificada por Krop&oacute;tkine na medida em que previne e possibilita ao investigador corrigir poss&iacute;veis erros nas descobertas e nos pr&oacute;prios m&eacute;todos. Ele n&atilde;o concorda com a &ldquo;metaf&iacute;sica alem&atilde;&rdquo; e as &ldquo;leis cient&iacute;ficas&rdquo;, pois, para ele, estas leis s&atilde;o tomadas como &ldquo;verdades absolutas&rdquo;; conforme Krop&oacute;tkine, em primeiro lugar v&ecirc;m os fatos, as realidades e a constitui&ccedil;&atilde;o de verdades provis&oacute;rias, sempre cr&iacute;ticas. (Ibidem:172) <br \/>\nKrop&oacute;tkine diz que, entre os avan&ccedil;os da ci&ecirc;ncia, est&aacute; a interpreta&ccedil;&atilde;o antropol&oacute;gica da hist&oacute;ria. Ele acredita que o evolucionismo confere cientificidade &agrave; Hist&oacute;ria. Defende a utiliza&ccedil;&atilde;o do m&eacute;todo indutivo-dedutivo, que, para ele, &eacute; o verdadeiro m&eacute;todo cient&iacute;fico, partindo do emp&iacute;rico e confrontando com as teorias e generaliza&ccedil;&otilde;es. Defende que os fatos econ&ocirc;micos devem ser estudados com os mesmos m&eacute;todos das ci&ecirc;ncias naturais, ou seja, caso a caso. Segundo Krop&oacute;tkine, o historiador deve ser um agente pol&iacute;tico. Conforme o &ldquo;cientista&rdquo;, nas Hist&oacute;rias das revolu&ccedil;&otilde;es escritas at&eacute; aquele tempo, o que menos se v&ecirc; &eacute; a participa&ccedil;&atilde;o do povo. Se por algum motivo, queira-se saber da participa&ccedil;&atilde;o do povo, seus projetos, suas a&ccedil;&otilde;es, suas formas de organiza&ccedil;&atilde;o e suas ideias, &eacute; necess&aacute;rio procurar nos documentos hist&oacute;ricos. <\/p>\n<p>\n<strong>3.4. Rudolf Rocker: a hist&oacute;ria como &ldquo;vontade de pot&ecirc;ncia&rdquo;. <br \/>\n<\/strong><br \/>\nRudolf Rocker nasceu em 1873 na Alemanha, e faleceu em 1958 nos E.U.A.; &eacute; reconhecido como historiador e ativista anarquista. Contribuiu muito para o pensamento anarquista do s&eacute;culo XX, publicando mais de 30 obras. Sua principal obra &eacute;, sem d&uacute;vida, &ldquo;Nacionalismo e Cultura&rdquo;, obra em que assinala que o nacionalismo moderno &eacute; uma ruptura no processo geral da cultural. O primeiro cap&iacute;tulo desta obra, que ser&aacute; analisada a seguir, chama-se &ldquo;La insufici&ecirc;ncia del materialismo econ&ocirc;mico&rdquo; ou &ldquo;A insufici&ecirc;ncia de todas as interpreta&ccedil;&otilde;es hist&oacute;ricas&rdquo;, em algumas tradu&ccedil;&otilde;es. Rudolf Rocker acredita que seja imposs&iacute;vel analisar a hist&oacute;ria com m&eacute;todos cient&iacute;ficos. (ROCKER, 2007) <br \/>\nRocker escreve que o reconhecimento da significa&ccedil;&atilde;o das condi&ccedil;&otilde;es econ&ocirc;micas na conforma&ccedil;&atilde;o da sociedade &eacute; a ess&ecirc;ncia do socialismo. (Idem) Para abordar as interpreta&ccedil;&otilde;es Hist&oacute;ricas do marxismo, Rudolff Rocker diz que o erro fundamental da teoria marxista &eacute; equiparar as causas dos fen&ocirc;menos sociais &agrave;s causas dos fen&ocirc;menos f&iacute;sicos. (Ibidem:02) Para ele, quanto mais profundamente se examina as influ&ecirc;ncias pol&iacute;ticas na hist&oacute;ria, mais se chega &agrave; convic&ccedil;&atilde;o de que a &ldquo;vontade de poder&rdquo; tem sido, at&eacute; agora, um dos est&iacute;mulos no desenvolvimento das formas de sociedade humana. (Ibidem:01) <br \/>\nO historiador anarquista escreve que a ci&ecirc;ncia se ocupa exclusivamente dos fen&ocirc;menos naturais, que est&aacute; ligada ao tempo e espa&ccedil;o, sendo acess&iacute;veis aos c&aacute;lculos do intelecto humano. (Ibidem: 02) Ele diz que grande parte das interpreta&ccedil;&otilde;es hist&oacute;ricas se baseiam nesta no&ccedil;&atilde;o errada das leis da exist&ecirc;ncia e que est&atilde;o na base de todo acontecimento social. Em outras palavras: porque confundieron las necesidades mec&aacute;nicas del desarrollo natural con las intenciones y los prop&oacute;sitos de los hombres, que han de valorarse simplemente como resultados de sus pensamientos y de su voluntad. (Idem) <br \/>\nO historiador afirma que n&atilde;o nega a exist&ecirc;ncia na Hist&oacute;ria de rela&ccedil;&otilde;es internas que se pode atribuir &agrave; no&ccedil;&atilde;o de causa e efeito, mas se trata de processos sociais, sempre de uma causalidade de fins humanos. As causalidades de natureza f&iacute;sicas se desenvolvem independentes do nosso consentimento; as causalidades hist&oacute;ricas s&atilde;o manifesta&ccedil;&otilde;es de nossa vontade. (ROCKER, 2007) Toda finalidade humana preestabelecida &eacute; uma quest&atilde;o de f&eacute;, e escapa ao calculo cientifico. Assim, Rudolf Rocker diz que: En el reino de los hechos f&iacute;sicos s&oacute;lo rige el debe ocurrir, en el reino de la fe, de la creencia, existe s&oacute;lo la probabilidad: puede ser, pero no es forzoso que ocurra. (Idem) <br \/>\nPara ele, toda tentativa de previs&atilde;o humana, de uma finalidade, &eacute; para a exist&ecirc;ncia social de grande import&acirc;ncia, por&eacute;m deve deixar de considerar os acontecimentos sociais como manifesta&ccedil;&otilde;es for&ccedil;osas de uma evolu&ccedil;&atilde;o naturalmente necess&aacute;ria. Semelhante interpreta&ccedil;&atilde;o tem levado aos piores sofismas e levado &agrave; perda total de todo verdadeiro entendimento da hist&oacute;ria. (Idem) Rudolf Rocker escreve sobre a incapacidade de prever os acontecimentos na hist&oacute;ria, a partir dos motivos e das causas: <br \/>\nPara el c&aacute;lculo de motivos y prop&oacute;sitos humanos no hay ninguna medida exacta, porque no son accesibles, de ninguna manera al c&aacute;lculo. Es imposible calcular y predecir el destino de pueblos, razas, naciones y otras agrupaciones sociales; ni siquiera nos es dado encontrar una explicaci&oacute;n completa de todo lo acontecido. (Ibidem:04) <\/p>\n<p>A defini&ccedil;&atilde;o de hist&oacute;ria, pelo historiador anarquista Rudolff Rocker, &eacute; a seguinte: La historia no es otra cosa que el gran dominio de los prop&oacute;sitos humanos; por eso toda interpretaci&oacute;n hist&oacute;rica es s&oacute;lo una cuesti&oacute;n de creencia, lo que, en el mejor de los casos, puede basarse en probabilidades, pero nunca tiene de su parte la seguridad inconmovible. (Idem) O escritor diz que toda interpreta&ccedil;&atilde;o da Hist&oacute;ria pode conter ideias importantes para a explica&ccedil;&atilde;o dos fatos hist&oacute;ricos, isto &eacute; inquestion&aacute;vel, por&eacute;m afirma que s&oacute; n&atilde;o concorda com a afirma&ccedil;&atilde;o de que a &ldquo;marcha&rdquo; da hist&oacute;ria esteja sujeita &agrave;s mesmas e id&ecirc;nticas leis dos conhecimentos mec&acirc;nicos e f&iacute;sicos da natureza. (Idem) Para ele, n&atilde;o existem leis na Hist&oacute;ria, esta &eacute; sua afirma&ccedil;&atilde;o categ&oacute;rica: No hay ninguna ley en la Historia que muestre el camino de cualquier actuaci&oacute;n social del hombre. (Idem) As causas que originam os processos da vida social n&atilde;o t&ecirc;m nada de comum com as leis do devir natural f&iacute;sico e mec&acirc;nico, pois estas causas s&atilde;o resultado das tend&ecirc;ncias finalistas dos homens, e que n&atilde;o se deixam explicar de modo puramente cient&iacute;fico. (ROCKER, 2007) <br \/>\nQualquer pessoa que pense de forma mediana sabe que &eacute; imposs&iacute;vel conhecer um per&iacute;odo hist&oacute;rico sem levar em considera&ccedil;&atilde;o suas condi&ccedil;&otilde;es econ&ocirc;micas. Por&eacute;m, &eacute; completamente equivocado querer que toda a hist&oacute;ria seja unicamente resultado das condi&ccedil;&otilde;es econ&ocirc;micas. (Idem) Sendo contr&aacute;rio ao monocausalismo econ&ocirc;mico, Rudolf Rocker defende uma concep&ccedil;&atilde;o pluricausal, ou multicausal: <br \/>\nTodos os fen&oacute;menos sociales se producen por una serie de motivos diversos que, en la mayor&iacute;a de los casos, est&aacute;n entrelazados de tal modo, que no es posible delimitarlos concretamente. Se trata siempre de efectos de m&uacute;ltiples causas, que pueden reconocerse claramente, pero que no se pueden calcular de acuerdo con m&eacute;todos cient&iacute;ficos. (Ibidem:06) <\/p>\n<p>O historiador anarquista destaca que a &ldquo;vontade de poder&rdquo;, que parte sempre de indiv&iacute;duos ou de pequenas minorias da sociedade, &eacute; uma das for&ccedil;as motriz mais importante da hist&oacute;ria, por&eacute;m que tem import&acirc;ncia decisiva na forma&ccedil;&atilde;o da vida econ&ocirc;mica e social inteira. (Idem) &Eacute; um erro muito grave para os historiadores, quando os diversos estratos sociais de uma determinada &eacute;poca, s&atilde;o reduzidos a uma rela&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica, e completa: Una interpretaci&oacute;n tal no s&oacute;lo empeque&ntilde;ece el campo general de visi&oacute;n del investigador, sino que hace de la Historia entera una caricatura que ha de conducir siempre a nuevos sofismas. (Ibidem: 09) <br \/>\nRudolf Rocker diz que as condi&ccedil;&otilde;es econ&ocirc;micas, por si s&oacute;, n&atilde;o podem modificar toda uma estrutura social, se n&atilde;o existirem nos homens as condi&ccedil;&otilde;es psicol&oacute;gicas e espirituais que deem sentido e agrupem as for&ccedil;as sociais dispersas para uma obra comum. (Ibidem: 10) Segundo ele, todos sabem que as quest&otilde;es econ&ocirc;micas t&ecirc;m muita influ&ecirc;ncia na transforma&ccedil;&atilde;o das condi&ccedil;&otilde;es sociais, mas &eacute; muito mais importante saber o modo como os seres humanos reagem, em seu pensamento e a&ccedil;&atilde;o, sobre a influ&ecirc;ncia e os passos que d&atilde;o no sentido de implantar uma transforma&ccedil;&atilde;o na vida social considerada necess&aacute;ria. (Ibidem: 13) Para destacar o estudo dos fatores subjetivos na hist&oacute;ria, ele escreve: El valor y la cobard&iacute;a no son determinados por las formas eventuales de la producci&oacute;n, sino que arraigan en los estratos ps&iacute;quicos del hombre. (ROCKER, 2007) <br \/>\nAo estudar as rela&ccedil;&otilde;es de poder, Rudolf Rocker destaca que &eacute; necess&aacute;rio analisar a &ldquo;pol&iacute;tica de dom&iacute;nio&rdquo;, sem se importar por quem esta seja movida e nem a que finalidade imediata sirva. (Ibidem: 16) Para o historiador, que escreveu este texto em 1937, o estudo da &ldquo;vontade de poder&rdquo; ou &ldquo;pol&iacute;tica de dom&iacute;nio&rdquo;, pode ser um instrumento para a interpreta&ccedil;&atilde;o da hist&oacute;ria, e assim completa: El triunfo o el fracaso de los planes de dominio capitalista-monopolistas determinar&aacute; la nueva estructuraci&oacute;n de la vida social en el pr&oacute;ximo futuro. (Ibidem: 18) <br \/>\nPortanto, para Rudolf Rocker, o reconhecimento da import&acirc;ncia do fator econ&ocirc;mico &eacute; a ess&ecirc;ncia do socialismo, por&eacute;m n&atilde;o justifica o reducionismo e o determinismo econ&ocirc;mico. Diz que n&atilde;o existe possibilidade do uso do m&eacute;todo cient&iacute;fico das ci&ecirc;ncias naturais para a interpreta&ccedil;&atilde;o da hist&oacute;ria. Para ele, n&atilde;o existem leis hist&oacute;ricas, mas acredita no regime de causalidade. As causas em hist&oacute;ria s&atilde;o manifesta&ccedil;&otilde;es das vontades humanas. Acredita que seja interessante a busca por &ldquo;previs&atilde;o&rdquo; na hist&oacute;ria. Escreve que, no m&aacute;ximo, pode-se falar em probabilidades em Hist&oacute;ria, nunca em certezas. Defende a ideia de que, em hist&oacute;ria, n&atilde;o existe um mecanismo monocausal, mas sim pluricausal. O historiador acredita que a &ldquo;vontade de poder&rdquo; &eacute; um grande estimulador do desenvolvimento das forma&ccedil;&otilde;es sociais. Para ele, minorias, muitas vezes organizadas, possuem import&acirc;ncia decisiva na forma&ccedil;&atilde;o da vida econ&ocirc;mica e social de dadas sociedades. A &ldquo;vontade de poder&rdquo; ou a &ldquo;pol&iacute;tica do dom&iacute;nio&rdquo; deveriam ser mais bem estudadas na Hist&oacute;ria, pois estas for&ccedil;as &eacute; que disputam e s&atilde;o deveras respons&aacute;veis pelas representa&ccedil;&otilde;es e constru&ccedil;&otilde;es sociais que existem. Rudolf Rocker, fazendo alus&atilde;o &agrave;s atividades pol&iacute;ticas revolucion&aacute;rias, diz que n&atilde;o s&atilde;o as condi&ccedil;&otilde;es econ&ocirc;micas que produzem o covarde. <\/p>\n<p>\n<strong>4. Conclus&atilde;o: <br \/>\n<\/strong><br \/>\nAs discuss&otilde;es propostas por Proudhon em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; hist&oacute;ria est&atilde;o de acordo com o historicismo e o empirismo positivista e da Escola Met&oacute;dica, na medida em que ele n&atilde;o pretende criar uma teoria que explique toda a hist&oacute;ria, mas um &ldquo;m&eacute;todo que detecta o movimento da hist&oacute;ria&rdquo;. Pretende deixar de lado toda metaf&iacute;sica, a filosofia da hist&oacute;ria, por&eacute;m o que mais vemos em suas obras s&atilde;o cita&ccedil;&otilde;es de historiadores rom&acirc;nticos, como Michelet. As contradi&ccedil;&otilde;es aparecem, e o autor n&atilde;o as nega, uma vez que ele afirma o movimento teleol&oacute;gico da hist&oacute;ria, representado na continuidade da ruptura. Para ele, os fen&ocirc;menos desenvolvem-se em unidades arranjadas de forma sist&ecirc;mica, onde cada parte mant&eacute;m relativa ou total autonomia em rela&ccedil;&atilde;o ao todo. Defende as particularidades na hist&oacute;ria, o emp&iacute;rico, e que n&atilde;o h&aacute; determinismo na hist&oacute;ria. Para Proudhon, a Hist&oacute;ria &eacute; uma narrativa l&oacute;gica, cronol&oacute;gica e que &eacute; utilizada de forma pol&iacute;tico-ideol&oacute;gica, funcionando com o aux&iacute;lio de &ldquo;ci&ecirc;ncias auxiliares&rdquo;, que, para ele, seria a economia pol&iacute;tica. O modelo de ci&ecirc;ncia, segundo ele, era a ci&ecirc;ncia natural; por isso, Proudhon n&atilde;o admitia que a Hist&oacute;ria produzisse leis, portanto a Hist&oacute;ria n&atilde;o seria ci&ecirc;ncia. Proudhon discutia com Marx a quest&atilde;o da constitui&ccedil;&atilde;o de &ldquo;Ci&ecirc;ncias Sociais&rdquo;. Marx buscava a constru&ccedil;&atilde;o de uma teoria, n&atilde;o pelo m&eacute;todo emp&iacute;rico, mas pelo dedutivo. Proudhon acreditava que a constitui&ccedil;&atilde;o de teorias, principalmente se n&atilde;o fossem fundamentadas em experi&ecirc;ncias, seria a intromiss&atilde;o da filosofia e da ideologia na ci&ecirc;ncia. Em uma carta em resposta a Marx, Proudhon escreve: (&#8230;) fa&ccedil;o profiss&atilde;o p&uacute;blica de um antidogmatismo econ&ocirc;mico quase absoluto. Se o senhor quiser, investiguemos juntos as leis da sociedade. (&#8230;) Mas, por Deus! Depois de demolir todos os dogmatismos a priori, n&atilde;o sonhemos, de nossa parte, com a doutrina&ccedil;&atilde;o do povo. (RESENDE, 1986: 20) Proudhon dizia que n&atilde;o &eacute; o econ&ocirc;mico que determina a sociedade, mas a sociedade (conjunto de v&aacute;rios fatores) que produz a economia. Ele morreu dois anos antes da publica&ccedil;&atilde;o de O Capital. <br \/>\nBakunin tenta &ldquo;desvendar&rdquo; o processo hist&oacute;rico, descrevendo sobre &ldquo;est&aacute;gios&rdquo; ou &ldquo;etapas&rdquo; da hist&oacute;ria da humanidade. Proclama-se materialista, e escreve sobre as cren&ccedil;as, as concep&ccedil;&otilde;es ideol&oacute;gicas e filos&oacute;ficas dos seres humanos na hist&oacute;ria. &Eacute; um iluminista, acreditando na raz&atilde;o e na ideia de progresso e evolu&ccedil;&atilde;o. Possui uma concep&ccedil;&atilde;o metaf&iacute;sica da hist&oacute;ria, deixando transparecer que existe um &ldquo;objetivo&rdquo;, um destino j&aacute; tra&ccedil;ado na hist&oacute;ria. Michael Bakunin desconfia do passado e possui f&eacute; no futuro. Defende uma ruptura com o passado, que o devir hist&oacute;rico &eacute; contra a hist&oacute;ria. Ele acredita que seria poss&iacute;vel uma Hist&oacute;ria ci&ecirc;ncia com suas leis correspondentes. A Hist&oacute;ria cient&iacute;fica, para Bakunin, n&atilde;o estudaria os indiv&iacute;duos, mas somente os grandes grupos e classes. Teria como tarefa iluminar o caminho para liberta&ccedil;&atilde;o da sociedade e dos seres humanos. Bakunin afirma que existe algo exterior aos homens que condiciona o rumo da hist&oacute;ria; por&eacute;m, ele acrescenta que a hist&oacute;ria &eacute; feita pelos homens, condicionados, que fecundam os elementos latentes do devir hist&oacute;rico. Ele possui uma concep&ccedil;&atilde;o metaf&iacute;sica, hipot&eacute;tico-dedutiva e te&oacute;rica para o estabelecimento da Hist&oacute;ria ci&ecirc;ncia. N&atilde;o se pode deixar de considerar que o texto de Bakunin &eacute; incompleto, foi interrompido. Sua an&aacute;lise hist&oacute;rica &eacute; muito fraca, metaf&iacute;sica, filos&oacute;fica e muito idealista. Destaca-se que, no per&iacute;odo em que ele escreveu seu texto, alguns historiadores j&aacute; estavam procurando a constitui&ccedil;&atilde;o da hist&oacute;ria como ci&ecirc;ncia social, com suas teorias pr&oacute;prias e independentes. Ele procurou fazer o contraponto ideol&oacute;gico &agrave; produ&ccedil;&atilde;o de Marx, que escreveu sua tese fundamentando-se na economia pol&iacute;tica, enquanto Bakunin, embora se afirmando materialista, produziu o que hoje se chama &ldquo;hist&oacute;ria das mentalidades&rdquo;. <br \/>\nNo inicio do s&eacute;culo XX, antes da Primeira Guerra e da Revolu&ccedil;&atilde;o Russa, Krop&oacute;tkine, tamb&eacute;m em oposi&ccedil;&atilde;o ao marxismo, diz que, entre os avan&ccedil;os da ci&ecirc;ncia, est&aacute; a interpreta&ccedil;&atilde;o antropol&oacute;gica da hist&oacute;ria. Ele acredita que o evolucionismo confere cientificidade &agrave; Hist&oacute;ria. Defende a utiliza&ccedil;&atilde;o do m&eacute;todo indutivo-dedutivo no estudo da Hist&oacute;ria, que, para ele, &eacute; o verdadeiro m&eacute;todo cient&iacute;fico, partindo do emp&iacute;rico e confrontando com as teorias e generaliza&ccedil;&otilde;es antropol&oacute;gicas. Defende que os fatos econ&ocirc;micos devem ser estudados com os mesmos m&eacute;todos das ci&ecirc;ncias naturais, ou seja, caso a caso. Defende tamb&eacute;m que o historiador deve ter compromisso pol&iacute;tico. Na historiografia das revolu&ccedil;&otilde;es escritas, at&eacute; aquele momento o que menos se v&ecirc; &eacute; a participa&ccedil;&atilde;o do povo. Para saber da participa&ccedil;&atilde;o do povo na hist&oacute;ria, seus projetos, suas a&ccedil;&otilde;es, suas formas de organiza&ccedil;&atilde;o, lutas e ideias, &eacute; necess&aacute;rio procurar nos documentos hist&oacute;ricos. Krop&oacute;tkine pensava de acordo com os historiadores de seu tempo &ndash; procuravam uma hist&oacute;ria social, onde aparecesse a participa&ccedil;&atilde;o do povo. Defende uma concep&ccedil;&atilde;o de hist&oacute;ria cient&iacute;fica aliada &agrave;s ci&ecirc;ncias sociais, principalmente a antropologia. Buscava provar que a &ldquo;ajuda m&uacute;tua&rdquo; era o fator determinante no processo hist&oacute;rico, que conduzia a sociedade para o &ldquo;reino&rdquo; da igualdade e da liberdade. Apesar disso, no caso da Hist&oacute;ria especificamente, foi bem coerente em termos te&oacute;ricos e metodol&oacute;gicos. <br \/>\nO historiador Rudolf Rocker afirma que reconhecer a import&acirc;ncia do fator econ&ocirc;mico &eacute; a ess&ecirc;ncia do socialismo, mas isso n&atilde;o justifica o reducionismo nem o determinismo econ&ocirc;mico. Para ele, n&atilde;o existe possibilidade do uso do m&eacute;todo cient&iacute;fico das ci&ecirc;ncias naturais para a interpreta&ccedil;&atilde;o da hist&oacute;ria. Ele escreve que n&atilde;o existem leis hist&oacute;ricas, todavia acredita no regime de causalidade. As causas em hist&oacute;ria s&atilde;o manifesta&ccedil;&otilde;es das vontades humanas. N&atilde;o acredita em leis hist&oacute;ricas, embora considere que, no m&aacute;ximo, seja poss&iacute;vel falar em probabilidades em Hist&oacute;ria, nunca em certezas. &Eacute; contra a tese de um mecanismo monocausal, defendendo, sim, o pluricausal. Para Rudolf Rocker, a &ldquo;vontade de poder&rdquo; &eacute; um grande estimulador do desenvolvimento das forma&ccedil;&otilde;es sociais. As minorias, muitas vezes organizadas, possuem import&acirc;ncia decisiva na forma&ccedil;&atilde;o da vida econ&ocirc;mica e social de dadas sociedades. Os historiadores deveriam estudar mais a &ldquo;vontade de poder&rdquo; ou a &ldquo;pol&iacute;tica do dom&iacute;nio&rdquo;. Rudolf Rocker parece n&atilde;o estar acompanhando as transforma&ccedil;&otilde;es historiogr&aacute;ficas que passam a surgir a partir da Escola dos Annales. O modelo de ci&ecirc;ncia que os historiadores v&ecirc;m tomando desde o in&iacute;cio do s&eacute;culo n&atilde;o &eacute; o das ci&ecirc;ncias naturais e nomot&eacute;ticas, mas as ci&ecirc;ncias sociais que v&ecirc;m se desenvolvendo. Sua cr&iacute;tica ao determinismo econ&ocirc;mico prop&otilde;e uma historiografia contraria ao marxismo-leninismo. Em sua principal obra, denominada &ldquo;Nacionalismo e Cultural&rdquo;, aborda quest&otilde;es caras ao socialismo, como o Estado e o nacionalismo. O estudo de sua pr&aacute;tica historiogr&aacute;fica merece mais dedica&ccedil;&atilde;o nos termos da metodologia e da historiografia. A princ&iacute;pio, o que p&ocirc;de ser observado &eacute; que, neste cap&iacute;tulo sobre metodologia da hist&oacute;ria escrito por ele, n&atilde;o exclui o pol&iacute;tico da hist&oacute;ria como faz a Escola dos Annales. <br \/>\nResumindo: o &uacute;nico que apresenta um pensamento destoante &eacute; Bakunin. Ele se difere dos outros anarquistas por acreditar em um &ldquo;destino na hist&oacute;ria&rdquo;, na raz&atilde;o iluminista e na ci&ecirc;ncia. Defende que o principal fator determinante na hist&oacute;ria &eacute; o fator econ&ocirc;mico, aposta na constitui&ccedil;&atilde;o da &ldquo;Ci&ecirc;ncia hist&oacute;rica&rdquo; e que sejam criadas leis hist&oacute;ricas. O m&eacute;todo de Bakunin &eacute; hipot&eacute;tico-dedutivo (metaf&iacute;sico). Proudhon, querendo criar um m&eacute;todo e defendendo o empirismo, criou uma teoria. Krop&oacute;tine misturou &ldquo;ci&ecirc;ncia&rdquo; e ideologia (filosofia), contudo foi capaz de formular orienta&ccedil;&atilde;o mais coerente para a pr&aacute;tica historiogr&aacute;fica, para a constru&ccedil;&atilde;o do saber hist&oacute;rico ao relacionar a hist&oacute;ria com a antropologia. O &uacute;nico problema nas discuss&otilde;es de Rudolf Rocker &eacute; o fato de ele considerar somente o modelo das ci&ecirc;ncias naturais como sendo o verdadeiro m&eacute;todo cient&iacute;fico. <br \/>\nConsiderando as observa&ccedil;&otilde;es acima, o pensamento anarquista em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; hist&oacute;ria apresenta algumas caracter&iacute;sticas: a aposta na concep&ccedil;&atilde;o de que os homens possuem autonomia relativa perante o devir; que a hist&oacute;ria &eacute; uma constru&ccedil;&atilde;o a partir da disputa de v&aacute;rios projetos e de diversos agentes sociais; que n&atilde;o existe determinismo; que existe uma continuidade de rupturas; que as causas em hist&oacute;ria s&atilde;o de car&aacute;ter humano e social; que n&atilde;o existe um mecanismo monocausal, mas sim pluricausal e que n&atilde;o existem leis, em hist&oacute;ria. A hist&oacute;ria existe em di&aacute;logo com as ci&ecirc;ncias sociais. Os anarquistas defendem em primeiro lugar o estudo do emp&iacute;rico, as particularidades, individualidades e especificidades, articulando, estas, ao global e geral, &agrave; unidade e &agrave; teoria. No campo tem&aacute;tico, os anarquistas em estudo apostam na hist&oacute;ria das ideias e mentalidades, uma hist&oacute;ria social da cultural. <br \/>\nA quest&atilde;o fundamental, para os tempos atuais, &eacute; que os projetos sociais de igualdade e liberdade n&atilde;o dependem da vontade da ci&ecirc;ncia. A ci&ecirc;ncia n&atilde;o tem vontade. As ideologias sim, estas podem construir, de acordo com as condi&ccedil;&otilde;es reais, seus projetos de socialismo e liberdade. A Hist&oacute;ria pode contribuir, na constru&ccedil;&atilde;o dos discursos de identidade, nas mem&oacute;rias de lutas, no estudo dos processos reais, para a constru&ccedil;&atilde;o dos programas revolucion&aacute;rios. A busca do sentido que defende Dosse pode estar na possibilidade de trabalhar com a pluralidade serial, respeitando as particularidades e articulando de forma federativa e libert&aacute;ria os saberes e poderes em &ldquo;combates pela hist&oacute;ria&rdquo;. <\/p>\n<p><strong>5. Bibliografia. <br \/>\n<\/strong><br \/>\nBAKUNIN, Michael Alexandrovich. 1814 &ndash; 1876. Textos Anarquistas. Sele&ccedil;&atilde;o e notas de Daniel Gu&eacute;rin. Porto Alegre: L&amp;PM, 1999. <\/p>\n<p>BAKUNIN, Mikhail. Deus e o Estado. http:\/\/www.culturabrasil.org\/deuseoestado.html.26\/06\/2008.10:25 <\/p>\n<p>COLLIOT-TH&Eacute;L&Egrave;NE, Catherine. Max Weber e a hist&oacute;ria. S&atilde;o Paulo: Brasiliense, 1995. <\/p>\n<p>DOSSE, Fran&ccedil;ois. A Hist&oacute;ria em migalhas: dos Annales &agrave; Nova Hist&oacute;ria. Tradu&ccedil;&atilde;o Dulce Oliveira Amarante dos Santos; revis&atilde;o t&eacute;cnica Jos&eacute; Leonardo do Nascimento. Bauru, SP: EDUSC, 2003. <br \/>\nGURVITCH, Georges. Proudhon e Marx. Biblioteca de textos universit&aacute;rios. 2&ordf; Edi&ccedil;&atilde;o. Editorial Presen&ccedil;a\/Martins Fontes.s.d. <br \/>\nKROP&Oacute;TKINE, Peter. A Quest&atilde;o Social: O humanismo libert&aacute;rio em face da ci&ecirc;ncia. Rio de Janeiro, Ed. Mundo Livre. s\/d. <br \/>\nMONGE, Rodrigo Quesada. Utopia y anarquia em el discurso historiogr&aacute;fico contempor&acirc;neo. Escaner Cultural. Santiago de Chile. Revista Virtual. Ano 8. N&uacute;mero 82, Abril de 2006. http:\/\/www.escaner.cl\/escaner82\/perfiles.html. 25\/06\/2008. 11:05. <\/p>\n<p>REIS, Jos&eacute; Carlos. Da &ldquo;hist&oacute;ria global&rdquo; &agrave; &ldquo;hist&oacute;ria em migalhas&rdquo;: o que se ganha, o que se perde? In: Quest&otilde;es de teoria e metodologia da hist&oacute;ria. Porto Alegre: Ed.Universidade\/UFRGS, 2000. <br \/>\nREIS, Jos&eacute; Carlos. A hist&oacute;ria entre a filosofia e a ci&ecirc;ncia. S&atilde;o Paulo. &Aacute;tica, 1996 <br \/>\nRESENDE, Paulo-Edgar e Edson Passeti. Pierre-Joseph Proudhon:Pol&iacute;tica. S&atilde;o Paulo. Ed. &Aacute;tica, 1986. <br \/>\nROCKER, Rudolff. La insufici&ecirc;ncia de todas las interpretaciones hist&oacute;ricas. In: Nacionalismo e Cultara.1&ordf;Ed.Londres, 1937. 1&ordf; Ed. Cibern&eacute;tica, mar&ccedil;o de 2007. http:\/\/es.wikipedia.org\/wiki\/Rudolf_Rocker <br \/>\nWOODCOCK, George. Hist&oacute;ria das id&eacute;ias e movimentos anarquistas &ndash;v.2, O movimento. Porto Alegre, L&amp;PM, 2002.<\/p>\n<p>Obs.:Artigo integrante dos instrumentos avaliativos utilizados pelo Prof. Dr. Arno Alvarez Kern durante o Semin&aacute;rio: &ldquo;Debates te&oacute;ricos do tempo presente sobre a epistemologia do passado: teorias da hist&oacute;ria e da arqueologia.&rdquo;. Mestrado em Hist&oacute;ria&nbsp; &#8211; PUCRS.2008.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Capa do livro Hist\u00f3ria por Anarquistas Foto:Ed. DERIVA Durante as programa&ccedil;&otilde;es da I Feira do Livro Anarquista de Porto Alegre, foi lan&ccedil;ado o livro &ldquo;A Hist&oacute;ria por Anarquistas&rdquo;. O livro possui uma apresenta&ccedil;&atilde;o e dois cap&iacute;tulos. 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