{"id":1393,"date":"2011-03-01T15:19:51","date_gmt":"2011-03-01T15:19:51","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/?p=1393"},"modified":"2011-03-01T15:19:51","modified_gmt":"2011-03-01T15:19:51","slug":"a-operacao-guilhotina-e-a-corrupcao-estrutural-das-policias-do-rio-de-janeiro-tropa-de-elite-e-real","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=1393","title":{"rendered":"A Opera\u00e7\u00e3o Guilhotina e a corrup\u00e7\u00e3o estrutural das pol\u00edcias do Rio de Janeiro. Tropa de Elite \u00e9 real."},"content":{"rendered":"<figure class=\"image-container image-post-defautl\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/Allan-Turnowski.jpg\" title=\"O homem que j\u00e1 foi da confian\u00e7a de \u00c1lvaro Lins foi piv\u00f4 da crise que levou ao seu pr\u00f3prio afastamento. Mas, Turnowski escapou de ser indiciado pela suspeita de vazamento de investiga\u00e7\u00e3o federal. Alegou-se falta de provas materiais.  - Foto:R\u00e1dio Itaperuna FM \" alt=\"O homem que j\u00e1 foi da confian\u00e7a de \u00c1lvaro Lins foi piv\u00f4 da crise que levou ao seu pr\u00f3prio afastamento. Mas, Turnowski escapou de ser indiciado pela suspeita de vazamento de investiga\u00e7\u00e3o federal. Alegou-se falta de provas materiais.  - Foto:R\u00e1dio Itaperuna FM \" class=\"image\"><figcaption class=\"fig-caption\">O homem que j\u00e1 foi da confian\u00e7a de \u00c1lvaro Lins foi piv\u00f4 da crise que levou ao seu pr\u00f3prio afastamento. Mas, Turnowski escapou de ser indiciado pela suspeita de vazamento de investiga\u00e7\u00e3o federal. Alegou-se falta de provas materiais. <\/figcaption><small itemprop=\"copyrightHolder\" class=\"copyright\"> Foto:R\u00e1dio Itaperuna FM <\/small><\/figure>\n<p>1&ordm; de mar&ccedil;o de 2011 &#8211; Da Vila Setembrina, <em>Bruno Lima Rocha<\/em> e das Alagoas, <em>Rafael Cavalcanti <br \/>\n<\/em><br \/>\n<u>Aviso aos leitores:<\/u> este texto, como aporta um gr&atilde;o de arei na cr&iacute;tica estrutural da seguran&ccedil;a p&uacute;blica no Rio (e em grande parte do Brasil), cremos est&aacute; para al&eacute;m das manchetes de jornais e portais de informa&ccedil;&atilde;o e supera a gritaria sazonal de escaladas de telejornais. <\/p>\n<p>Tem situa&ccedil;&otilde;es estruturais que se compreendidas tal como s&atilde;o, mudam a no&ccedil;&atilde;o de verdade, norma e consenso entre os cidad&atilde;os. A seguran&ccedil;a p&uacute;blica no estado do Rio de Janeiro caracteriza uma situa&ccedil;&atilde;o limite, t&iacute;picas da caracteriza&ccedil;&atilde;o de Estado falido. &Eacute; certo, outros poderes e institui&ccedil;&otilde;es desse n&iacute;vel de governo sub-nacional n&atilde;o t&ecirc;m tamanho grau de corrup&ccedil;&atilde;o. Mas, em uma regi&atilde;o metropolitana onde existe mais de mil espa&ccedil;os geogr&aacute;ficos cujo controle do Estado &eacute; parcial ou nulo, a banda podre na ponta (o varejo do tr&aacute;fico, as apostas ilegais, os transportes clandestinos, servi&ccedil;os de consumo por fora da fiscaliza&ccedil;&atilde;o, dentre outras variantes de tipo capitalismo informal com ares de selvageria) corrompe ou afeta o conjunto de poderes e agentes com capacidade de veto.<\/p>\n<p>De uma hora para outra, diante dos helic&oacute;pteros das emissoras de televis&atilde;o Globo e Record (as duas redes de maior audi&ecirc;ncia no Brasil), a realidade fruto da experi&ecirc;ncia vivida por mais de dois milh&otilde;es de cariocas e fluminenses (respectivamente, que moram na capital e no estado do Rio), supera a hiper-realidade midi&aacute;tica e for&ccedil;a a a&ccedil;&atilde;o do Estado para conter a rebeli&atilde;o do Comando Vermelho. O pa&iacute;s precisava de uma guerra tipo miss&atilde;o humanit&aacute;ria e atividade-fim civilizat&oacute;ria. As c&acirc;maras registram ent&atilde;o um jovem delegado com trajet&oacute;ria mete&oacute;rica que surge para o p&uacute;blico receptor como uma fonte confi&aacute;vel e respeit&aacute;vel. Ap&oacute;s a tomada e invas&atilde;o do Complexo do Alem&atilde;o (conjunto de 13 favelas da Zona Norte do Rio de Janeiro onde moram mais de 65 mil pessoas) em novembro, o castelo de cartas come&ccedil;a a cair, porque como est&aacute; na moda, esta tamb&eacute;m era uma no&ccedil;&atilde;o constru&iacute;da em cima do nada. <\/p>\n<p>Em maio de 2009, o ent&atilde;o rec&eacute;m empossado chefe da Pol&iacute;cia Civil do Rio de Janeiro, Allan Turnowski, declarou para o jornal O Globo: &ldquo;Estou mais preparado para combater mil&iacute;cia do que qualquer um que n&atilde;o esteve na ponta. Porque eu sei exatamente o que vai acontecer se nada for feito: meus policiais, pol&iacute;ticos e jornalistas v&atilde;o morrer em emboscada&rdquo;. Nada mais prof&eacute;tico. O delegado de carreira acertaria em cheio o progn&oacute;stico, caso ele mesmo n&atilde;o estivesse sendo acusado de envolvimento nos esc&acirc;ndalos de abuso de poder. A emboscada fora montada com ordem judicial e demonstra um racha profundo e gangrenoso por dentro do aparelho repressivo estadual. <\/p>\n<p>Bastaram dois anos e uma investiga&ccedil;&atilde;o da Pol&iacute;cia Federal (No Brasil, existem quatro pol&iacute;cias: Federal, Rodovi&aacute;ria Federal, Militar e Civil. As duas primeiras atuam em crimes de interesses da Uni&atilde;o ou que afetam o pa&iacute;s, como o tr&aacute;fico de drogas e de armas, enquanto as duas &uacute;ltimas atuam na esfera estadual. A PF corresponde a uma esp&eacute;cie de FBI tupiniquim) para derrubar a estrela midi&aacute;tica das invas&otilde;es aos morros do Alem&atilde;o e &agrave; favela Vila Cruzeiro. A a&ccedil;&atilde;o coordenada dos federais, chamada de Opera&ccedil;&atilde;o Guilhotina prendeu dezenas de policiais sob a acusa&ccedil;&atilde;o de participa&ccedil;&atilde;o em mil&iacute;cias, desvio de armas e liga&ccedil;&otilde;es com bicheiros e narcotraficantes. O ex-subchefe operacional da Pol&iacute;cia Civil e principal colaborador de Turnowski na corpora&ccedil;&atilde;o, Carlos Oliveira, est&aacute; entre os acusados. Turnowski pediu exonera&ccedil;&atilde;o do cargo, que foi aceita pela Secretaria de Seguran&ccedil;a P&uacute;blica do Rio sob o pretexto de ser o mais adequado para preservar &ldquo;o bom funcionamento das institui&ccedil;&otilde;es&rdquo;. <\/p>\n<p>Nunca &eacute; demais lembrar que Turnowski tem por advers&aacute;rio Cl&aacute;udio Ferraz, outro delegado estrela da Delegacia de Repress&atilde;o &agrave;s A&ccedil;&otilde;es Criminosas Organizadas (DRACO, da Pol&iacute;cia Civil), que colaborou com a Opera&ccedil;&atilde;o Guilhotina. Ferraz tamb&eacute;m &eacute; um dos co-autores do livro Elite da Tropa 2, texto que originou o roteiro do ultra-realista filme de Jos&eacute; Padilha: Tropa de Elite 2, a continuidade do filme que ganhara o Urso de Ouro de Melhor Filme no Festival de Berlim em 2008. Logo depois da deflagra&ccedil;&atilde;o da Opera&ccedil;&atilde;o Guilhotina, as portas da DRACO foram lacradas devido a uma a&ccedil;&atilde;o da Corregedoria da Pol&iacute;cia Civil, no tempo recorde de dois dias para abertura e arquivamento de inqu&eacute;rito, que tomara por base den&uacute;ncias de irregularidades relatadas em uma carta an&ocirc;nima. <\/p>\n<p>V&aacute;rias acusa&ccedil;&otilde;es pesam contra o delegado Turnowski. Uma testemunha, que atuou durante 15 anos como informante do grupo de Oliveira, denunciou para a Pol&iacute;cia Federal (ap&oacute;s ter o irm&atilde;o assassinado, segundo o pr&oacute;prio depoente, pela quadrilha) que Turnowski recebia R$ 500 mil por m&ecirc;s de propina de uma mil&iacute;cia no bairro Jacarepagu&aacute;, na capital do Rio, e mais R$ 100 mil para permitir a venda de produtos falsificados no camel&oacute;dromo Uruguaiana. O diretor da DRACO tamb&eacute;m acusa o ex-chefe da Pol&iacute;cia Civil de envolvimento em crimes na favela da Cor&eacute;ia e desvio de armas apreendidas durante opera&ccedil;&otilde;es. H&aacute; ainda a suspeita de vazamento de informa&ccedil;&otilde;es para &ldquo;irm&atilde;ozinhos&rdquo; (termo usado pelos policiais cariocas acusados de pertencer ao Esquadr&atilde;o da Morte criado na segunda metade dos anos &rsquo;60 e que auxiliou os militares na repress&atilde;o pol&iacute;tica) alvos da investiga&ccedil;&atilde;o da PF, policiais estes que resultaram presos da Opera&ccedil;&atilde;o Guilhotina. <\/p>\n<p>Embora faltem provas conclusivas contra o delegado, &eacute; ineg&aacute;vel a corrup&ccedil;&atilde;o do grupo que lhe acompanha h&aacute; tanto tempo. Para piorar, um dos seus antecessores no mais alto posto da Pol&iacute;cia Civil, o ex-oficial do Batalh&atilde;o de Opera&ccedil;&otilde;es Policiais Especiais (BOPE) e ex-deputado estadual &Aacute;lvaro Lins (pelo Partido do Movimento Democr&aacute;tico Brasileiro &ndash; PMDB, vale lembrar, da base aliada do Governo Dilma e legenda do ex-presidente Jos&eacute; Sarney e do atual vice-presidente Michel Temer), que o p&ocirc;s como diretor geral das delegacias especializadas, foi condenado a 28 anos de pris&atilde;o por forma&ccedil;&atilde;o de quadrilha armada, corrup&ccedil;&atilde;o passiva e lavagem de bens. <\/p>\n<p>Lins foi preso no exerc&iacute;cio do mandato de parlamentar em maio de 2008, durante a Opera&ccedil;&atilde;o Seguran&ccedil;a P&uacute;blica S\/A, da Pol&iacute;cia Federal. O delegado da Federal, Jos&eacute; Mariano Beltrame, badalado secret&aacute;rio estadual de Seguran&ccedil;a P&uacute;blica do RJ, o indicara para o cargo e, seguramente, ficou com uma batata quente nas m&atilde;os, sendo fritas em azeite pelando. Curiosamente, o ex-oficial do BOPE passara num concurso para magistratura, mas optou pela carreira policial. Como diria o personagem do filme de Jos&eacute; Padilha, o Capit&atilde;o Nascimento, interpretado pelo ator Wagner Moura, &ldquo;o sistema n&atilde;o tem limite, parceiro. N&atilde;o tem fronteira. Ele j&aacute; faz parte da cultura da pol&iacute;cia&rdquo;. <\/p>\n<p>Trata-se de uma cultura de extors&atilde;o e morte e estas barbaridades n&atilde;o vem de agora. O Esquadr&atilde;o Especial da antiga Pol&iacute;cia Civil da Guanabara (estado brasileiro extinto em 1975, corresponde hoje &agrave; cidade do Rio de Janeiro), ainda no governo do jornalista Carlos Lacerda (1960-1965), inaugura uma nova tradi&ccedil;&atilde;o de &ldquo;bandido bom &eacute; bandido morto&rdquo;, desde que n&atilde;o sejam pistoleiros a servi&ccedil;o de pol&iacute;ticos ou capangas do Jogo do Bicho, tipo de bolsa ilegal de apostas em n&uacute;meros que representam animais &ndash; os respons&aacute;veis pelo jogo de azar s&atilde;o conhecidos por bicheiros. A nova modalidade de crime no Rio enquadra-se no conceito de Estado ampliado em sua forma falimentar, quando se forma um poder n&atilde;o paralelo, mas complementar e alimentado por dentro do aparelho de seguran&ccedil;a e repress&atilde;o. Esta realidade brutal, magistralmente narrada nas obras j&aacute; citadas, torna-se alvo da elite da pol&iacute;cia brasileira. A partir de investiga&ccedil;&otilde;es, a Opera&ccedil;&atilde;o Guilhotina tentar&aacute; desvendar crimes de grande repercuss&atilde;o no Rio de Janeiro. <\/p>\n<p>J&aacute; existem evid&ecirc;ncias da participa&ccedil;&atilde;o de policiais civis e militares, que gozavam do livre acesso &agrave; c&uacute;pula da Pol&iacute;cia Civil, em mais de 15 homic&iacute;dios. Entre os principais casos, est&aacute; o do bicheiro. Rog&eacute;rio Andrade em 2010. Rog&eacute;rio &eacute; filho de Castor de Andrade, padrinho da Escola de Samba Mocidade Independente de Padre Miguel e do clube de futebol Bangu Atl&eacute;tico Clube (time da primeira divis&atilde;o do estado do Rio e vice-campe&atilde;o brasileiro e carioca de 1985). O atentado foi &agrave; moda da antiga direita explosiva do Brasil, os mesmos que no per&iacute;odo da Abertura pol&iacute;tica e da transi&ccedil;&atilde;o dos governos Geisel (1974-1979) para Figueiredo (1979-1981) explodiam bancas de jornal, institui&ccedil;&otilde;es de tipo republicanas (como Ordem dos Advogados do Brasil e Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Imprensa) e que tiveram seu r&eacute;quiem no epis&oacute;dio do Riocentro, quando uma bomba a explodiu no colo de dois militares antes de chegar atividade do Dia do Trabalhador com o intuito de incriminar setores da esquerda. <\/p>\n<p>No caso de Rog&eacute;rio de Andrade, foi posto uma bomba caseira em seu carro; Andrade sobreviveu, mas seu filho acabou morrendo no atentado, que contou at&eacute; com um mercen&aacute;rio israelense. Outros epis&oacute;dios famosos foram o sumi&ccedil;o da chinesa Ye Goue ap&oacute;s trocar R$ 220 mil numa casa de c&acirc;mbio em 2008, e os assassinatos do ex-deputado tucano (PSDB entre 1995 e 1998, durante o governo Marcelo Alencar) e &agrave; &eacute;poca assessor da Secretaria Estadual de Governo Ary Ribeiro Brum (j&aacute; no mandato do ex-tucano e atual peemedebista S&eacute;rgio Cabral Filho), e tamb&eacute;m do presidente da associa&ccedil;&atilde;o de ambulantes Alexandre Pereira, ambos em 2007. Al&eacute;m, claro, de v&aacute;rios epis&oacute;dios de queima de arquivo. <\/p>\n<p><strong>Direitos Humanos? <\/p>\n<p><\/strong>Em outubro de 2010, estreou em todo o Brasil a continua&ccedil;&atilde;o de um dos mais bem-sucedidos filmes nacionais. Tropa de Elite 2, do diretor Jos&eacute; Padilha, baseia-se no livro de &ldquo;fic&ccedil;&atilde;o&rdquo; Elite da Tropa 2, escrito pelo antrop&oacute;logo Luiz Eduardo Soares, pelos policiais do BOPE (a tropa de elite original da pol&iacute;cia militar, surgida como comando operacional ainda em 1978) Andr&eacute; Batista e Rodrigo Pimentel, e pelo diretor da DRACO Cl&aacute;udio Ferraz. Ao contr&aacute;rio do primeiro filme, a nova vers&atilde;o de Tropa de Elite mostra um estado onde os traficantes foram expulsos de comunidades e estas foram tomadas por mil&iacute;cias. <\/p>\n<p>Na produ&ccedil;&atilde;o, os policiais que antes extorquiam os traficantes por meio do chamado arrego (tipo de propina), passaram a lucrar muito mais ao extorquir toda a comunidade em diversos servi&ccedil;os indispens&aacute;veis, como a venda de g&aacute;s, acesso a internet e &ldquo;prote&ccedil;&atilde;o&rdquo; ao pequeno com&eacute;rcio. Pela tradi&ccedil;&atilde;o da Baixada Fluminense e da Zona Oeste do Rio, &eacute; a sofistica&ccedil;&atilde;o da chamada pol&iacute;cia mineira, agora em uma escala organizacional superior, incluindo a venda de porteira fechada para pol&iacute;ticos locais. <\/p>\n<p>Dominar favelas gerava muito mais do que aumento nos ganhos. Gerava votos. E logo deputados, o secret&aacute;rio de Seguran&ccedil;a P&uacute;blica e at&eacute; o governador do Rio &ndash; no caso ficcional da obra &#8211; passaram a se beneficiar com as mil&iacute;cias, consideradas a essa altura como for&ccedil;as de seguran&ccedil;a do Estado em zonas de alta criminalidade. Qualquer semelhan&ccedil;a com o nascimento das Autodefesas Unidas da Col&ocirc;mbia (AUC) n&atilde;o s&atilde;o nenhuma coincid&ecirc;ncia. A vida e a arte se encontram na vala comum da sarjeta do aparato de seguran&ccedil;a. <\/p>\n<p>No mesmo dia em que Tropa de Elite 2 passara a ser o filme nacional de maior bilheteria da hist&oacute;ria do cinema brasileiro, com quase 11 milh&otilde;es de espectadores, for&ccedil;as militares e da pol&iacute;cia fluminense ainda recebiam elogios pelas opera&ccedil;&otilde;es na Vila Cruzeiro e Complexo do Alem&atilde;o. Supostamente, o tr&aacute;fico teria perdido para o Estado sob os aplausos da m&iacute;dia corporativa e da opini&atilde;o p&uacute;blica. Contudo, a euforia escondia diversos desrespeitos aos direitos humanos, quase todos contra moradores das favelas que passaram a ser bandidos, sem diferencia&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>Assim, se manteve o mesmo padr&atilde;o operacional de toda uma vida, e especificamente aprimorado nos &uacute;ltimos 25 a 27 anos. A diferen&ccedil;a era a cobertura multim&iacute;dia, louvando as pol&iacute;cias de forma n&atilde;o cr&iacute;tica, negando-se (as m&iacute;dias) inclusive de p&ocirc;r contra a parede o governador do estado, que estava no balne&aacute;rio de Angra dos Reis, bem distante dos tiros e da press&atilde;o. Nos dias da invas&atilde;o, os telespectadores do Brasil viram a a&ccedil;&atilde;o republicana e os moradores da regi&atilde;o sentiram o p&acirc;nico do avan&ccedil;o das guarni&ccedil;&otilde;es contra o botim do narcotr&aacute;fico. <\/p>\n<p>Mais uma vez a realidade supera a fic&ccedil;&atilde;o. A Organiza&ccedil;&atilde;o N&atilde;o-Governamental Justi&ccedil;a Global, que atua em defesa dos direitos humanos, tornou p&uacute;blico, por meio de um manifesto em 21 de dezembro, uma verdadeira ca&ccedil;a pela heran&ccedil;a do tr&aacute;fico. De acordo com a ONG, &ldquo;equipes policiais de diferentes corpora&ccedil;&otilde;es, de diferentes batalh&otilde;es, se revezam em busca do dinheiro, das j&oacute;ias, das drogas e das armas que criminosos teriam deixado para tr&aacute;s na fuga; em lugar de encaminhar para a delegacia tudo o que foi apreendido, as equipes est&atilde;o partilhando entre elas partes valiosas do &ldquo;tesouro&rdquo;. <\/p>\n<p>Aproveitando-se do clima de &ldquo;pente fino&rdquo;, agentes invadem repetidamente as casas e usam amea&ccedil;as e t&eacute;cnicas de tortura como forma de arrancar de moradores a dela&ccedil;&atilde;o dos esconderijos do tr&aacute;fico. N&atilde;o bastasse isso, praticam a extors&atilde;o e o roubo de pequenas quantias e de telefones celulares, c&acirc;meras digitais e outros objetos de algum valor&rdquo;. Por atacado ou no varejo, o arrego tem que continuar! E, na aus&ecirc;ncia do arrego, passa-se a domina&ccedil;&atilde;o territorial do tipo &ldquo;mil&iacute;cias&rdquo; para-militares e para-policiais. <\/p>\n<p>Das den&uacute;ncias, a ONG passa a ser propositiva, desejando algum tipo de utopia republicana, algo mais distante de ser execut&aacute;vel do que uma profunda e radical transforma&ccedil;&atilde;o social. Em nova nota expedida na semana de 07 de fevereiro, a Justi&ccedil;a Global mostra que o resultado da Opera&ccedil;&atilde;o Guilhotina refor&ccedil;a a necessidade de se debater uma reforma das pol&iacute;cias. Reforma esta de car&aacute;ter estrutural que vise transpar&ecirc;ncia, fiscaliza&ccedil;&atilde;o e o controle externo e independente da atividade policial, diminuindo assim o poder das investiga&ccedil;&otilde;es internas que costumam se contaminar pelo corporativismo ou por disputas internas. <\/p>\n<p>Apesar de errarem na proposta (pela utopia legalista), entendemos que acertam ao propor cortar na carne. A ONG tamb&eacute;m entende que &ldquo;o governo do estado do Rio de Janeiro deve ser responsabilizado pelos roubos e pelas invas&otilde;es de domic&iacute;lio praticadas por policiais nas favelas do Complexo do Alem&atilde;o e da Vila Cruzeiro. Vamos lembrar que, logo ap&oacute;s a ocupa&ccedil;&atilde;o, o coronel Mario Sergio Duarte, comandante da Pol&iacute;cia Militar do Estado do Rio de Janeiro, foi &agrave; imprensa e deu carta branca aos abusos e &agrave;s viola&ccedil;&otilde;es de direitos na regi&atilde;o ao afirmar: &lsquo;A ordem &eacute; vasculhar casa por casa&rsquo;&rdquo;. Como diziam os antigos, &ldquo;liberou geral e a samangada n&atilde;o perdeu a chance de faturar!&rdquo;. <\/p>\n<p>Vale frisar que o governador S&eacute;rgio Cabral administra o Rio de Janeiro h&aacute; quatro anos e que o seu partido, o PMDB, foi gestor do estado por outros oito, nas figuras do casal Anthony e Rosinha Garotinho. O governador teria inclusive vetado a lei que garantia o monitoramento das viaturas. Foi no mandato de Cabral que dois chefes da Pol&iacute;cia Civil ca&iacute;ram. Tudo isso leva a crer que h&aacute; duas possibilidades n&atilde;o excludentes relacionadas &agrave; seguran&ccedil;a p&uacute;blica do Rio de Janeiro: ou o governador sofre de uma terr&iacute;vel falta de sorte nas escolhas, beirando &agrave; incompet&ecirc;ncia administrativa, ou o mesmo sabe que, em certos momentos, &eacute; imposs&iacute;vel manter-se no poder sem o conv&iacute;vio do que est&aacute; posto. <\/p>\n<p><strong>Apontando conclus&otilde;es: a tropa de elite &eacute; real <\/p>\n<p><\/strong>Nas antigas regras do mar era assim. Um navio tomado era uma embarca&ccedil;&atilde;o saqueada. Muitos imp&eacute;rios, dentre eles o brit&acirc;nico no reinado de Elizabeth I, sangraram os oceanos municiando seus capit&atilde;es com cartas de corso. O mais famoso, Francis Drake (1540-1596), ganhou t&iacute;tulo de Sir e ajudou a Inglaterra a derrotar a &ldquo;invenc&iacute;vel&rdquo; armada espanhola, como vice-almirante em 1588. N&atilde;o &eacute; de hoje que os Estados liberam seus agentes de ordem e for&ccedil;a para apropriar-se das presas em nome do bem comum. <\/p>\n<p>No Brasil do in&iacute;cio do s&eacute;culo XXI, n&atilde;o precisa ser especialista operador da &aacute;rea e nem estudioso acad&ecirc;mico do tema para distinguir entre a a&ccedil;&atilde;o coordenada de for&ccedil;as federais e estaduais com aquilo que mais pareceu uma contra manobra. Turnowski caiu porque acusou o golpe da Opera&ccedil;&atilde;o Guilhotina, dando ordem e libera&ccedil;&atilde;o para uma a&ccedil;&atilde;o de repres&aacute;lia da hierarquia superior da pol&iacute;cia judici&aacute;ria fluminense para com uma de suas unidades mais jacobinas, a DRACO. &Eacute; quase surreal, se n&atilde;o fosse cotidiano. A chefia da Pol&iacute;cia do Rio pune uma de suas unidades por esta operar como pol&iacute;cia de Estado. <\/p>\n<p>E, para completar, a Associa&ccedil;&atilde;o de Delegados de Pol&iacute;cia Civil do estado do Rio de Janeiro (Adepol-RJ), no entender destes que escrevem, passa recibo e protesta veementemente contra o secret&aacute;rio Beltrame pelo &ldquo;ato espetaculoso&rdquo; da PF com o devido aux&iacute;lio da Sub-secretaria de Intelig&ecirc;ncia subordinada diretamente a c&uacute;pula da seguran&ccedil;a p&uacute;blica fluminense. A Associa&ccedil;&atilde;o de Delegados torna-se, na pr&aacute;tica, leal e fiel ao ex-chefe de Pol&iacute;cia Allan Turnowski posiciona-se criticando a infiltra&ccedil;&atilde;o policial dentro da pr&oacute;pria pol&iacute;cia. Assim, ainda na &eacute;tica de defender &ldquo;irm&atilde;ozinhos&rdquo;, a Adepol-RJ recorda a velha m&aacute;xima do 10 por 1 (&ldquo;Para cada um policial morto, mataremos dez bandidos!&rdquo; Era um dos lemas do Esquadr&atilde;o da Morte), querendo seguir o baile como toda uma vida. <\/p>\n<p>N&atilde;o h&aacute; nada de novo no front, a n&atilde;o ser o fato de que por vezes, as disputas intra-policiais escancaram o modus vivendi de corpora&ccedil;&otilde;es estruturalmente marcadas pela corrup&ccedil;&atilde;o e a viol&ecirc;ncia ilegal. Percebam que n&atilde;o afirmamos serem todos os policiais fluminenses corruptos, mas sim que o aparelho est&aacute; todo atravessado por pr&aacute;ticas de il&iacute;citos. Um jornalista &ldquo;das antigas&rdquo;, ele mesmo ex-diretor de escola de samba, nos narra a sedu&ccedil;&atilde;o do conv&iacute;vio com a bandidagem com ou sem distintivo. Segundo suas contas, n&atilde;o deveriam ser 35 policiais os punidos pela Opera&ccedil;&atilde;o Guilhotina, mas um n&uacute;mero na ordem dos milhares! <\/p>\n<p>A dureza destas sociedades e territ&oacute;rios cravados no Rio e Grande Rio (regi&atilde;o metropolitana) &eacute; t&atilde;o gritante que at&eacute; uma telenovela da TV Globo (Duas Caras, de Aguinaldo Silva, exibida de outubro de 2007 a maio de 2008, com a inesquec&iacute;vel analogia da comunidade de Rio das Pedras, chamada de Portelinha) romantizou a situa&ccedil;&atilde;o, atenuando a exist&ecirc;ncia de mil&iacute;cias para-policiais, como que naturalizando um &ldquo;estado de natureza&rdquo; entre os pobres da metr&oacute;pole. J&aacute; se nos ativermos ao ambiente interno das institui&ccedil;&otilde;es coercitivas fluminenses (e cuja trag&eacute;dia &eacute; pass&iacute;vel de ser nacionalizada), a estrutura da banda podre salta aos gritos! Levando em conta o relat&oacute;rio final da Comiss&atilde;o Parlamentar de Inqu&eacute;rito (CPI) das Mil&iacute;cias conclu&iacute;do na Assembl&eacute;ia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro em novembro de 2008 e a opini&atilde;o p&uacute;blica influenciadas pelas obras j&aacute; citadas, esta guilhotina j&aacute; deveria estar cortando h&aacute; mais tempo e em volume maior. <\/p>\n<p>A retomada do controle do Estado no Alem&atilde;o e na Vila Cruzeiro teve como mola propulsora um esquema de propaganda para subtrair marcas de um passado que n&atilde;o passou. O teatro de m&aacute;scaras caiu estrondosamente. Mais uma vez a Cidade Maravilhosa surpreende o mundo, e para pior. <\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/index.php?option=com_noticias&amp;Itemid=18&amp;task=detalhe&amp;id=40966\">Este artigo foi originalmente publicado no portal do Instituto Humanitas Unisinos (IHU) <\/p>\n<p><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O homem que j\u00e1 foi da confian\u00e7a de \u00c1lvaro Lins foi piv\u00f4 da crise que levou ao seu pr\u00f3prio afastamento. Mas, Turnowski escapou de ser indiciado pela suspeita de vazamento de investiga\u00e7\u00e3o federal. Alegou-se falta de provas materiais. 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