{"id":1700,"date":"2012-12-24T10:21:50","date_gmt":"2012-12-24T10:21:50","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/?p=1700"},"modified":"2012-12-24T10:21:50","modified_gmt":"2012-12-24T10:21:50","slug":"vanderlei-um-matador-quase-um-conto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=1700","title":{"rendered":"Vanderlei, um matador (quase um conto)"},"content":{"rendered":"<figure class=\"image-container image-post-defautl\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/black_dynamite_pb.jpg\" title=\"Vanderlei era o esp\u00edrito da blaxploitation encarnado nos sub\u00farbios do Rio no final dos anos \u201980. - Foto:sofa\" alt=\"Vanderlei era o esp\u00edrito da blaxploitation encarnado nos sub\u00farbios do Rio no final dos anos \u201980. - Foto:sofa\" class=\"image\"><figcaption class=\"fig-caption\">Vanderlei era o esp\u00edrito da blaxploitation encarnado nos sub\u00farbios do Rio no final dos anos \u201980.<\/figcaption><small itemprop=\"copyrightHolder\" class=\"copyright\"> Foto:sofa<\/small><\/figure>\n<p>dezembro de 2012,<em> Bruno Lima Rocha <\/em><\/p>\n<p>&ldquo;Vou morrer com essa cara feia que tu t&aacute; vendo, com os c&oacute;rneos que v&atilde;o vir puxar o teu p&eacute;!&rdquo;. Pou, pou, pou, tr&ecirc;s tiros no meio dos olhos levaram a vida de Vanderlei, um matador. Essa hist&oacute;ria &eacute; real, ou algo parecido com a realidade, meio como lenda urbana, ou melhor, lenda suburbana, herdeira do Rio e da Baixada dos anos &rsquo;80 tardios, porque dizem &ndash; e tamb&eacute;m digo &ndash; que a d&eacute;cada perdida foi sucedida de outra d&eacute;cada ainda mais perdida, mas que a primeira s&oacute; terminou em 1992 (ah, o ano da gera&ccedil;&atilde;o de 1988 e que tampouco terminou).<\/p>\n<p>Desculpem o transtorno, mas esta hist&oacute;ria, historieta que &eacute; quase um conto &ndash; seria f&aacute;bula, poderia ser fic&ccedil;&atilde;o caso n&atilde;o fosse real, ou meio real &ndash; pertence &agrave; lenda de Vanderlei. Quem o via se assustava. Malandro, o neg&atilde;o botava medo no cara. Devia ter quase 1,90m, 90 kg, seco, atl&eacute;tico e bem flex&iacute;vel. Para os padr&otilde;es atuais seria magro, mas a real &eacute; que ele parecia um lutador africano, desses que a gente v&ecirc; nos gin&aacute;sios de Durban ou Johannesbugo (l&aacute; mesmo, na &Aacute;frica do Sul, vi com os estes quatro olhos a queimar diante da tela do computador). Vanderlei, auto apelidado de Delei, era seco, n&atilde;o tinha nem 4% de gordura no corpo. Este seu apelido era para se fazer parecido com um antigo volante do Fluminense no tricampeonato carioca dos anos &rsquo;80. Delei, que jogava com Romerito (yo quiero mi dinero&#8230;), Washington, Assis, Jandir, Paulinho, Branco, Paulo V&iacute;tor (o malufista aquele) e outros boleiros. Como eu j&aacute; havia dito, o neg&atilde;o tinha classe &ndash; e n&atilde;o era a dele &ndash; tamb&eacute;m pudera, era tricolino, v&ecirc; se pode (brincadeira azeda). Al&eacute;m de andar cheio de eleg&acirc;ncia (swing no caminhar), era atleta nato, mas quis a pinda&iacute;ba da vida que terminasse sendo dubl&ecirc; de seguran&ccedil;a de clube da zona norte (clube este bem tradicional, de bairro residencial, mas que por for&ccedil;a legal n&atilde;o deve aqui ser citado), le&atilde;o de ch&aacute;cara de boate, &ldquo;apoio&rdquo; de baile (batedor, comandava os mamutes a retirar os arruaceiros por bem ou por mal, e quando por mal, com muita maldade), lutador de rua e atleta semi-profissional. Ufa, era tudo isso mesmo. <\/p>\n<p>Deveria ter um alter ego.  Se fosse um boxeador gringo (gringo negro, como a maioria dos boxers dos Estados Unidos), seria como um Sonny Liston com um toque de Archie Moore (o fil&oacute;sofo do boxe). Vanderlei parecia tamb&eacute;m um dan&ccedil;arino de charme, ou um gal&atilde; de filme B, daqueles de carat&ecirc; dos anos &rsquo;70, apelidados por Hollywood de black-exploitation. Fosse noutra &eacute;poca, como esta primeira d&eacute;cada do s&eacute;culo XXI, Vanderlei seria figurante certo em aberturas de novela quando o motivo da coreografia fossem os bailes de Charme. Na real, parecia com o Bruce L&uacute;cio, mas como esse a&iacute; perdeu feio no 2&ordm; Grande Desafio das Artes Marciais, no Maracanazinho, em 1984, &eacute; melhor nem comparar tanto (outra brincadeira azeda). O Delei era de outra estirpe, mas cantou para subir e n&atilde;o est&aacute; entre n&oacute;s.<br \/>\n&ldquo;Qual &eacute; a diferen&ccedil;a entre o charme e o funk? O funkeiro anda bonito e o charmeiro elegante!&rdquo;&#8230; qual &eacute; a diferen&ccedil;a entre o Vanderlei e a gente? &Eacute; que n&oacute;s estamos vivos, com diploma de doutor, enquanto o neg&atilde;o foi pr&aacute; debaixo, definhar entre o p&oacute; e o entulho.&rdquo; Nosso professor, o Marcello (nome real dessa vez, assim como Vanderlei), dizia que o neg&atilde;o era ruim, mas bom ao mesmo tempo. Ruim, porque cresceu sendo mal e aprendendo a sobreviver entre os piores (a bad mother fucker diria um gringo negro), e ao mesmo tempo bom, porque como homem da rua e da vida, sabia respeitar professor, mestre, preservava os colegas de treino e queria aprender. Aprendia r&aacute;pido, o Delei. Bem r&aacute;pido.<\/p>\n<p>Seu kung fu era estilo tal como o visual. O cabelo era meio Black Power, meio canny calon, e sem querer esculhambar a mem&oacute;ria do cara, ele lembrava o tipo do Black Dynamite &ndash; a diferen&ccedil;a &eacute; que o Delei n&atilde;o tinha coreografia ao bater e nem produto falsificado &#8211;  e tinha no antebra&ccedil;o um tijolo e nas m&atilde;os uma pedra. Quando ele bloqueava um tsop choy (soco de leopardo, ou m&atilde;o de gengibre, tradicional do Choy Li Fut, nosso primeiro estilo) ou soltava um Sow (cruzado com o osso do bra&ccedil;o, golpe desgra&ccedil;ado de duro do CLF) era um Deus (se &eacute; que esse cara existe, acho que n&atilde;o existe, nunca apareceu ao menos, n&atilde;o quando os meus amigos o chamaram) nos acuda e S&atilde;o Jorge Guerreiro que nos proteja. Ah, e &eacute; certo tamb&eacute;m, Delei era filho de Jorge, filho de Ogum, porque tinha uma seguran&ccedil;a no punho direito (maldito punho direito) e outra no p&eacute; esquerdo (tamb&eacute;m maldito p&eacute; esquerdo), de onde ele como ex-carateca, soltava uns mawashi geri desgra&ccedil;ados. <\/p>\n<p>Tamb&eacute;m poder&iacute;amos compar&aacute;-lo ao cobrador Z&eacute; Galinha, carateca que aprendeu a lutar quando servia ao Ex&eacute;rcito de Caxias (depois dos moleques sa&iacute;rem da Pqd, em geral iam &ndash; ou ser&aacute; que ainda v&atilde;o &ndash; entrar para o movimento, ou seja, a farm&aacute;cia, isto &eacute;, o tr&aacute;fico) e foi personagem central de Cidade de Deus, tanto no filme como no livro. Vanderlei era matador, mas justiceiro ao mesmo tempo. Vivia de lutar &ndash; e isso ele sabia, e sabia aprender, ali&aacute;s, virtude esta que j&aacute; dissemos &ndash; e por vezes, de mandar para o inferno algu&eacute;m ou alguns. Quem vive assim, sobrevive de sorte e anda devendo destino e milagres para uma s&eacute;rie de santos. Quando o anjo da guarda &ndash; ou alma protetora, n&atilde;o tem como saber &ndash; tirava folga, nem a guia de seguran&ccedil;a resultava. Cantaram para ele subir numa &aacute;rea da Baixada, isso foi em 1993, mas ele j&aacute; estava na garantia prolongada, e antes, ah, antes, em 1991 (inesquec&iacute;vel ano para o micro-clima do CLF e depois do Xing Yi Quan, ao menos a vers&atilde;o do Marcello dessas duas artes chinesas), Vanderlei, Ven&iacute;cio (nome ficcional, meio parecido) e Marcel (tamb&eacute;m nome de fic&ccedil;&atilde;o, igualmente perto do original) formaram uma equipe de seguran&ccedil;a de baile na porta do clube onde a gente treinava. Na &eacute;poca, cerca de quarenta praticavam e eles eram nossos si-hings, instrutores e n&oacute;s, valei-me Deus (ah, esse grand&atilde;o a&iacute; n&atilde;o existe mesmo), sparrings deles.<\/p>\n<p>O curioso era a origem dos si-hings. Zona sul do Rio, universit&aacute;rios de institui&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas (UFRJ, arquitetura e UERJ, direito, respectivamente) que, assim como o escriba aqui e outra s&eacute;rie de lutadores de artes de origens chinesas e aplicadas no tradicional, &eacute;ramos aquilo que na cadeia chamam no meio de &ldquo;intelectual bandido&rdquo;. Naquele tempo e nos anos anteriores, n&atilde;o tinha essa hist&oacute;ria de atleta, &eacute;ramos lutadores e a gente se defendia ou entrava em conflito pela honra do kwoon, da escola e de nosso mestre (mestre esse que jamais admitiu ser chamado de outro t&iacute;tulo a n&atilde;o ser seu pr&oacute;prio nome). E, como todo estudante que ganha pouco e dedica mais tempo ao que hoje chamamos de esporte, &eacute;ramos duros e qualquer faz-me rir dava e sobrava. O bico da noite, uma sexta &agrave; noite como tantas outras que alguns pulavam de reuni&atilde;o em reuni&atilde;o, e da aula pro treino e do treino pro bico e depois para reuni&atilde;o, assembleia e o escambau, os dois si-hings se embecaram, fantasiados de ping&uuml;im, mesclado com gar&ccedil;om e puseram um traje completo bem folgado. A roupa tinha de sobrar um pouco para poderem se mexer a gosto. Se a coisa encrespasse, deviam de estar preparados (e estavam, ali&aacute;s, em propor&ccedil;&otilde;es distintas, todos n&oacute;s est&aacute;vamos).     <\/p>\n<p>Completava o visual (ou uniforme de luta urbano, disfar&ccedil;ado, mas ainda assim uniforme) um sapato social de solado grosso e bico duro, refor&ccedil;ado. Para comprar cal&ccedil;a neste per&iacute;odo, era importante testar se dava para chutar, verificando se a abertura entre as pernas n&atilde;o trancava os movimentos. Cada vez que algu&eacute;m ia numa loja de roupa, o ritual era esse. Entra no provador, fecha bem a cortina, v&ecirc; se n&atilde;o tem ningu&eacute;m vendo e d&ecirc;-lhe chute no ar e joelhada. Do contr&aacute;rio, a cal&ccedil;a n&atilde;o prestava, porque se n&atilde;o dava para soltar a perna, tamb&eacute;m ficava complicado se tivesse de correr. E correr sempre fez parte da sobreviv&ecirc;ncia do carioca. <\/p>\n<p>Naquela sexta, com a beca correta, por sorte e pelo treinamento duro, al&eacute;m do exemplo do Vanderlei, a perna voou e a m&atilde;o n&atilde;o tremeu. Pobre dos dem&ocirc;nios baixados na porta do baile, criando tumulto de galera (ali&aacute;s, galera, na d&eacute;cada de &rsquo;80, era &ldquo;o coletivo de gente que n&atilde;o se garante sozinha&rdquo;) e na covardia de 3 contra um. N&atilde;o deu nem para a sa&iacute;da. Os caras que chegaram vinham com fama de maus &ndash; muito maus &ndash; e na combina&ccedil;&atilde;o ideal para a arrua&ccedil;a. Torcida organizada, ratos de academia, marombados e com contexto no morro da &aacute;rea. Boa parte sub-empregado e outra parte fazendo carreira na vadiagem. Tudo verdade, mais verdade ainda quando se sabe que dos nove encrenqueiros, dois eram professores e outros tr&ecirc;s competidores duros dos poucos torneios existentes &agrave; &eacute;poca. E que luta eles faziam? Sim, porque na &eacute;poca, era um estilo contra outro, uma escola advers&aacute;ria da outra, as academias se odiavam; e mesmo n&oacute;s, que nada t&iacute;nhamos contra ningu&eacute;m, &eacute;ramos os alvos do tal do kung-fu, porque o Marcello dizia a verdade e provava o que afirmava. &Eacute; duro conversar com o antebra&ccedil;o. Duro mesmo, o argumento &eacute; dif&iacute;cil de rebater. <\/p>\n<p>De volta para o tumulto, e qual luta mesmo era a deles? Era em p&eacute;, mas vejam bem, a modalidade praticada pelos Z&eacute; ruelas, assim como o nome dos malandros, isso n&atilde;o se pode escrever, s&oacute; ao vivo, e &eacute; dizer sem gravar, pois se escrito for, vai dar um processo lindo, com conseq&uuml;&ecirc;ncias bem piores do que uma luta real. O motivo da zona era simples; queriam porque queriam entrar sem pagar a mixaria da entrada. No sul isso se chama de chinelagem, e &eacute; mesmo. N&atilde;o pagar, arrumar tumulto l&aacute; dentro, perturbar geral e depois sair com alguma hist&oacute;ria para contar, ou em quem bateram ou qual rainha do funk voltou com eles para casa na garupa de uma CG 125 sendo paga em 50 presta&ccedil;&otilde;es. &Ocirc; vidinha, mas era a vida deles, a hist&oacute;ria da vida deles, e por azar da malandragem, naquela noite cruzaram os destinos com Vanderlei acompanhando sua equipe de seguran&ccedil;as novos.  Naquela noite, por sorte da civiliza&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o era o primeiro time do Delei (tudo sangue ruim e quebrador na viela, tal como ele), apenas dois universit&aacute;rios, atletas, mas futuros doutores (um hoje &eacute; juiz de direito e outro est&aacute; na pol&iacute;cia judici&aacute;ria da Uni&atilde;o e foi anos a fio da for&ccedil;a terrestre), gente de bem e enojados dos pit-boys (mais  para pit vira-lata, mas recalque &eacute;  isso a&iacute;, vagabundo que se tornar o que n&atilde;o nasceu, j&aacute; era). <\/p>\n<p>O tumulto come&ccedil;ou quando cercaram o Marcel. Vinha um grand&atilde;o e dois meio-m&eacute;dios, bem &aacute;geis por sinal. O gigante (professor e campe&atilde;o deles, era mesmo, vi umas tr&ecirc;s lutas dele, uma perdeu por pontos, mas tinha uma canela poderosa!) abriu a base para chutar na coxa enquanto falava com as m&atilde;os numa g&iacute;ria incompreens&iacute;vel para quem n&atilde;o &eacute; do Rio. &ldquo;P&ocirc; cale merm&atilde;o, vai liber&aacute; a parada ou vai rol&aacute; &agrave; vera aqui cumpadi?!&rdquo; &ldquo;Voc&ecirc; vai comprar ingresso e vai pagar para entrar como todos os outros!&rdquo; &ldquo;M&aacute; num v&ocirc; mermo, eu num s&ocirc; cuaqu&eacute; um, s&ocirc; o Fulano (o nome &eacute; de defunto j&aacute;, com direito a volta ol&iacute;mpica de comemora&ccedil;&atilde;o no Maracan&atilde; quando mandaram o man&eacute; para outro mundo; teve mesmo, eu tava l&aacute;, um &ldquo;Framengo&rdquo; x Botafogo&#8230;quem viveu j&aacute; lembra quem era)!&rdquo; &ldquo;N&atilde;o sei quem voc&ecirc; &eacute; e pode ir para a fila como todo mundo!&rdquo; Quando o gigante amea&ccedil;ou com a canela direita levou um frontal no joelho esquerdo. Com sapato social, o golpe reto afundou a patela (r&oacute;tula do joelho para os leigos como eu) e antes que esbo&ccedil;asse rea&ccedil;&atilde;o, no meio de um jab que j&aacute; saiu torto, caiu duro com um Beng Quan de contra-golpe (soco reto, no caso, um alongado) que lhe arrancou tr&ecirc;s dentes. Nosso si-hing recebeu um chute semi-circular nas costelas, mas  saiu de lado e revidou com um lateral baixo que quase quebrou a perna do meio-m&eacute;dio. O outro valente de 3 contra 1, at&eacute;  tentou entrar com um Tip para aproximar, visando aplicar joelho e cotovelo, mas o Marcel novamente saiu de lado, catou a perna com a esquerda e apagou-o com um Sow Choy de direita (cruzado de Choy Li Fut que golpeia com o antebra&ccedil;o). <\/p>\n<p>Falando em Sow Choy, foi o mesmo que fez o Ven&iacute;cio. Mas como o arruaceiro que o agrediu era menor, ele atacou com a m&atilde;o de atr&aacute;s saltando e pegou na nuca. Na hora da raiva ningu&eacute;m entendeu, mas o cara o caiu babando e com risco de n&atilde;o levantar. Tamb&eacute;m pudera, esse mesmo si-hing, quando foi lutar numa ilha que era da China continental &#8211; deixou de ser ap&oacute;s a 2&ordf; guerra e ainda se chama de China &#8211; quebrou um protetor de Kuo Shu (uma grade que parece &agrave;quela do h&oacute;quei sobre o gelo) com este mesmo sow choy. Que perigo! Evoluiu do sow para um frontal calcanhar e a bacia de outro pesado quebrou na hora; meio saltando, ca&ccedil;ou o terceiro com um tsop horizontal, que entrou entre a boca e a traqu&eacute;ia e por pouco n&atilde;o d&aacute; em &oacute;bito. <\/p>\n<p>J&aacute; o Vanderlei, fez o seu estilo mesclado e derrubou com cotoveladas e ataques de cabe&ccedil;a (vai ver o neg&atilde;o sabia batuque tamb&eacute;m, arte das cabe&ccedil;adas de Besouro e Pastinha) o primeiro e o segundo. O terceiro tentou dar de canela em sua cabe&ccedil;a, mas a defesa com antebra&ccedil;o veio junto com uma sa&iacute;da em diagonal e um chute de gar&ccedil;a que explodiu o peito do p&eacute; no saco do atacante. No meio do tumulto e gritaria, o gerente do Baile &ndash; que tamb&eacute;m era funcion&aacute;rio do clube e empregador de Delei &#8211; j&aacute; chamou a 4&ordf; Cia. do 5&ordm; BPM e metade dos meganhas que vieram a mil em tr&ecirc;s Veraneios (na &eacute;poca ainda tinha Veraneio e Opal&atilde;o, ai,ai, lembran&ccedil;a complicada) era colega de seguran&ccedil;a (dizem tamb&eacute;m que de pol&iacute;cia mineira) do neg&atilde;o e j&aacute; enquadraram todos os arruaceiros. Se os pita vira-latas n&atilde;o fossem pessoas conhecidas, de repente at&eacute; virava vala, sei l&aacute;, o per&iacute;odo era muito barra-pesada. <\/p>\n<p>Passado o conflito, na mesma noite, ligaram para o Marcello, passava da meia noite, e nosso professor sempre dormia cedo (muito cedo por sinal). Ele queria porque queria ir at&eacute; o clube, mas os tr&ecirc;s convenceram a sua esposa a for&ccedil;&aacute;-lo a ficar em casa com a mulher e os dois filhos. No dia seguinte, a&iacute; sim, conversaram na hora do almo&ccedil;o. Contando em detalhes todo o ocorrido, lance por lance, como se fosse em c&acirc;mara lenta (no per&iacute;odo ainda n&atilde;o existia a super slow motion como nos foi apresentado na Copa de 2010) e repetindo cada golpe com o corpo todo. Hong Kong era ali! Na zona norte do Rio, era ali, vivinho da Silva, para desespero de quem n&atilde;o gostava de problema (e logo, detestava as solu&ccedil;&otilde;es) e para maior desespero ainda dos charlat&atilde;es que n&atilde;o sabiam lutar com o conjunto de formas aprendidas pela chinesada. <\/p>\n<p>No s&aacute;bado, quem foi almo&ccedil;ar no apartamento do Marcello eram os dois instrutores. O Vanderlei tinha 50 bicos para arranjar e umas tr&ecirc;s &ldquo;namoradas&rdquo; para visitar. Era o descanso do guerreiro e o desenrolar do malandro (muita l&aacute;bia precisava), mesmo sabendo que com tanta atividade, &eacute; imposs&iacute;vel repousar. Chegou a 2&ordf; feira e o neg&atilde;o veio com sua &ldquo;id&eacute;ia brilhante&rdquo;. &ldquo;Professor, fiz um corre no fim de semana, conversei com um monte de parceiro e ta tudo em cima. Vamos passar os caras assim que o senhor autorizar. Servi&ccedil;o limpo, cerol profissa, ningu&eacute;m nem vai notar, a gente levanta os man&eacute;, passa e tem at&eacute; onde desovar. Tudo certo, com os Samanta no apoio e o contexto l&aacute; de cima a par da situa&ccedil;&atilde;o. Tu me autoriza?&rdquo;<br \/>\nCacilda, a coisa era s&eacute;ria. &ldquo;N&atilde;o, pelo amor de Deus, n&atilde;o, deixa que eu resolvo, do meu jeito e sozinho.&rdquo; &ldquo;Mas professor, isso n&atilde;o se faz, os meninos s&atilde;o legais, rapaz de faculdade, n&atilde;o pode ficar sendo amea&ccedil;ado por marginal, andar espiado antes e depois do treino. Se a gente resolve assim &eacute; melhor para todo mundo, faz um bem para a sociedade!&rdquo; &ldquo;N&atilde;o Vanderlei, eu n&atilde;o concordo, pode at&eacute; ser que seja pior ficar lutando, mas matar eu n&atilde;o concordo, e depois, mesmo sendo do mal, todo mundo tem m&atilde;e e pai para chorar na beira do caix&atilde;o!&rdquo; &ldquo;Mas num vai ter caix&atilde;o mestre, num vai t&ecirc; nem enterro, &eacute; cerol fininho, sacou?&rdquo;. &ldquo;Vanderlei, eu te agrade&ccedil;o querer ajudar, mas por favor, n&atilde;o faz  nada e nem deixa nenhum camarada teu fazer nada, ta certo?&rdquo; &ldquo;Ta mestre, o senhor &eacute; quem sabe, mas eu pe&ccedil;o ent&atilde;o que me avise se os caras perturbar de novo, certo?&rdquo; &ldquo;Certo meu amigo, certo.&rdquo;<\/p>\n<p>Ufa, menos nove &oacute;bitos para n&atilde;o serem investigados e terminarem seus inqu&eacute;ritos como n&atilde;o conclusivos nos distritos do Rio. A solu&ccedil;&atilde;o veio &agrave; moda antiga. O Marcello amarra a antiga corrente na cintura e vai academia adentro chamar a responsabilidade dos arruaceiros. Foi sozinho, e n&atilde;o deu em nada. Os caras pediram desculpas, e s&oacute; quem falou foi o professor deles (um para&iacute;ba ra&ccedil;udo, pouco t&eacute;cnico, mas que pegou fama como treinador  de MMA; se eu falo o nome arrumo confus&atilde;o e tomo processo, porque o cara morreu e &eacute; bem conhecido), e ficou tudo resolvido. Os detalhes, bem, os detalhes s&atilde;o para outro epis&oacute;dio real (ou mais ou menos real, porque a mem&oacute;ria trai a gente). Quando sair outro &ldquo;quase conto&rdquo; a gente conversa sobre o Marcello (a&iacute; dava um livro, quem sabe&#8230;). <\/p>\n<p>Para infelicidade das hist&oacute;rias de lutas e mitos urbanos, o contato com o Vanderlei ficou menor e menor, at&eacute; que sa&iacute;mos do clube esse e vez por outra o Marcello dizia que tinha ouvido falar de algum boato a seu respeito. Dois anos depois do conflito na porta do baile (&agrave; moda de Hong Kong) como cansamos de dizer, veio a vers&atilde;o da morte de Delei. Quem matou e porque nunca se sabe. O cara vivia metido em parada errada, ele mesmo era uma esp&eacute;cie de lado certo (ou quase certo) de uma vida muito errada, mas muito erra mesmo, errad&iacute;ssima como dizia o mestre Bezerra da Silva. S&oacute; se sabe que foi na Baixada, mas a Baixada &eacute; grande e o que n&atilde;o falta &eacute; lugar de desova. Passaram o bando dele, s&oacute; restou Vanderlei. Capturado, encostaram uma doze na nuca e um fuzil na barriga. O chefe da outra turma de sei l&aacute; o que (porque podem ser qualquer coisa, policiais, bandidos, seguran&ccedil;as, pol&iacute;cia mineira, bicho, movimento&#8230;) gritou: &ldquo;Fecha o olho p&aacute; morr&ecirc;!&rdquo;. &ldquo;Fecho porra nenhuma, vou morr&ecirc; olhando pros teus c&oacute;rneos. E num demora que eu venho aqui em cima pr&aacute; te levar l&aacute; pr&aacute; baixo comigo!&rdquo;. Pou Pou Pou, tr&ecirc;s tiros no meio dos olhos. Acabou.<\/p>\n<p>Permanece a lenda, Vanderlei, Delei, mescla de Black Dynamite com Seu Jorge e Z&eacute; Galinha, era ruim (mau, mau mesmo) e bom. N&atilde;o, n&atilde;o &eacute; filme do Tarantino, o neg&atilde;o existiu, para sorte de alguns e desgra&ccedil;a de muitos, a sua inclusive.  <\/p>\n<p>Porto Alegre, Viam&atilde;o, Canoas e S&atilde;o Leopoldo (locais de escrita), dezembro de 2012, recordando o Rio dos anos &rsquo;80 (e in&iacute;cio dos &rsquo;90) e o universo das lutas e adjac&ecirc;ncias<\/p>\n<p>Bruno Rocha (Bruno Lima Rocha), t&eacute;cnico de boxe ol&iacute;mpico pela FRGP, professor (low-shi) de arte marcial tradicional de origem chinesa (estilo Ma), faixa marrom de Sanda (boxe chin&ecirc;s), roxa de Luta Livre Esportiva e coordenador-t&eacute;cnico do Centro de Lutas Desportivas-Viam&atilde;o (projeto social para forjar lutadores de alto rendimento).<br \/>\nEmail: bruno.maxyq@gmail.com \/bruno.estrategiaeanalise@gmail.com <br \/>\nFacebook: Bruno Rocha (Viam&atilde;o) \/ Bruno Lima Rocha <br \/>\nFacebook: Centro de Lutas Desportivas Viam&atilde;o<br \/>\nCanal do Youtube: maxingyi<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vanderlei era o esp\u00edrito da blaxploitation encarnado nos sub\u00farbios do Rio no final dos anos \u201980. 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