{"id":1708,"date":"2013-01-11T15:51:18","date_gmt":"2013-01-11T15:51:18","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/?p=1708"},"modified":"2013-01-11T15:51:18","modified_gmt":"2013-01-11T15:51:18","slug":"os-revolucionarios-ineficazes-de-hobsbawm-reflexoes-criticas-de-sua-abordagem-do-anarquismo-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=1708","title":{"rendered":"Os revolucion\u00e1rios ineficazes de Hobsbawm: reflex\u00f5es cr\u00edticas de sua abordagem do anarquismo"},"content":{"rendered":"<figure class=\"image-container image-post-defautl\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/exercito-negro (1).JPG\" title=\"Fen\u00f4menos como os do Ex\u00e9rcito Insurrecional dos Camponeses da Ucr\u00e2nia, foram mal interpretados pelo mundialmente reconhecido historiador ingl\u00eas de forma\u00e7\u00e3o marxiana e renome mundial.  - Foto:dasfloresdamargem \" alt=\"Fen\u00f4menos como os do Ex\u00e9rcito Insurrecional dos Camponeses da Ucr\u00e2nia, foram mal interpretados pelo mundialmente reconhecido historiador ingl\u00eas de forma\u00e7\u00e3o marxiana e renome mundial.  - Foto:dasfloresdamargem \" class=\"image\"><figcaption class=\"fig-caption\">Fen\u00f4menos como os do Ex\u00e9rcito Insurrecional dos Camponeses da Ucr\u00e2nia, foram mal interpretados pelo mundialmente reconhecido historiador ingl\u00eas de forma\u00e7\u00e3o marxiana e renome mundial. <\/figcaption><small itemprop=\"copyrightHolder\" class=\"copyright\"> Foto:dasfloresdamargem <\/small><\/figure>\n<p><em>Rafael Viana da Silva<\/em> &#8211; parte 2 de 5<\/p>\n<p><strong>O anarquismo segundo Hobsbawm<\/strong><\/p>\n<p>&ldquo;Por exemplo, um ex-te&oacute;logo que se fez soci&oacute;logo pode, quando come&ccedil;ar a estudar os te&oacute;logos, proceder a uma esp&eacute;cie de regress&atilde;o e p&ocirc;r-se a falar como te&oacute;logo ou, pior, servir-se da sociologia para acertar as suas contas de te&oacute;logo.[1]  Pierre Bourdieu&rdquo;<\/p>\n<p>No in&iacute;cio de seu artigo, Hobsbawm sustenta que o anarquismo &ldquo;parecia pertencer ao per&iacute;odo pr&eacute;-industrial e, em todo caso, &agrave; era anterior &agrave; Primeira Guerra Mundial e &agrave; Revolu&ccedil;&atilde;o de Outubro, exceto na Espanha&rdquo;.[2] A an&aacute;lise de Hobsbawm, no artigo em quest&atilde;o, considera o anarquismo &ldquo;um cap&iacute;tulo definitivamente encerrado no desenvolvimento dos movimentos revolucion&aacute;rios e oper&aacute;rios modernos&rdquo;.[3] Essa vis&atilde;o de Hobsbawm sobre o anarquismo n&atilde;o se limita ao artigo em quest&atilde;o.<\/p>\n<p>O cerne de sua cr&iacute;tica caminha no sentido de relacionar o fen&ocirc;meno pol&iacute;tico anarquista a um determinado est&aacute;gio de desenvolvimento das for&ccedil;as produtivas, considerando-o um fen&ocirc;meno pr&eacute;-pol&iacute;tico ou pr&oacute;prio de um mundo pr&eacute;-industrial. Sustentando essa tese, Hobsbawm nos diz que &eacute; um &ldquo;dado muito caracter&iacute;stico que esta rom&acirc;ntica escola de revolucion&aacute;rios tenha sido mais leal do que ningu&eacute;m, incluindo os cr&iacute;ticos liter&aacute;rios de seu pr&oacute;prio pa&iacute;s, ao mais revolucion&aacute;rio entre os poetas rom&acirc;nticos ingleses&rdquo;.[4] O historiador marxista afirma que, quando tentou contato com os militantes dos c&iacute;rculos anarquistas espanh&oacute;is em Paris, na d&eacute;cada de 50, foi-lhe indicado &ldquo;como lugar de encontro um caf&eacute; em Montmartre&rdquo;.[5] Segundo Hobsbawm, uma &ldquo;reminisc&ecirc;ncia de um passado j&aacute; distante de bo&ecirc;mios[6], rebeldes e vanguardistas parecia por demais caracter&iacute;stico&rdquo;.[7] Ele refor&ccedil;a a vis&atilde;o do anarquismo como um fen&ocirc;meno pr&eacute;-pol&iacute;tico e antimoderno, ao dizer que &eacute; &ldquo;poss&iacute;vel construir um modelo te&oacute;rico de anarquismo libert&aacute;rio compat&iacute;vel com a moderna tecnologia cient&iacute;fica, mas infelizmente n&atilde;o ser&aacute; socialista&rdquo;.[8]<\/p>\n<p>Hobsbawm prossegue dizendo que, como ideologia, &ldquo;o anarquismo n&atilde;o declinou de uma forma muito espetacular, porque nunca teve demasiado &ecirc;xito, pelo menos entre os intelectuais&rdquo;.[9] Para ele, &ldquo;o principal atrativo do anarquismo era emocional e n&atilde;o intelectual&rdquo;.[10] Essa caricatura rom&acirc;ntica e individualista sobre o anarquismo &eacute; refor&ccedil;ada pelo autor, quando ele afirma que &ldquo;as vers&otilde;es extremadas do liberalismo individualista[11] s&atilde;o, logicamente, t&atilde;o anarquistas quanto Bakunin&rdquo;.[12]<\/p>\n<p>O historiador brit&acirc;nico prossegue em sua sabatina, afirmando que foi a &ldquo;monumental inefici&ecirc;ncia do anarquismo que, para a maioria das pessoas da minha gera&ccedil;&atilde;o [&#8230;], determinou a nossa rejei&ccedil;&atilde;o a ele&rdquo;.[13] Hobsbawm acredita que &ldquo;nenhuma dose de simpatia pode alterar o fato de que ele [o anarquismo] como movimento revolucion&aacute;rio, tenha sido ideado quase para o fracasso&rdquo;.[14] Para ele, &ldquo;uma &uacute;nica greve dos mineiros (socialistas) nas Ast&uacute;rias afetava mais o governo espanhol do que setenta anos de atividade revolucion&aacute;ria anarquista, que n&atilde;o representava mais que um problema policial rotineiro&rdquo;.[15]<\/p>\n<p>Resumindo sua posi&ccedil;&atilde;o sobre as li&ccedil;&otilde;es te&oacute;ricas do anarquismo, Hobsbawm encerra fazendo uma pergunta que ele pr&oacute;prio responde: &ldquo;Qual &eacute; o valor da tradi&ccedil;&atilde;o anarquista hoje?&rdquo;.[16] &ldquo;Em termos de ideologia, teoria e programas, o anarquismo permanece marginal. [&#8230;] Se todos os anarquistas tivessem desaparecido da face da terra[17], a discuss&atilde;o sobre tais problemas [o autoritarismo e a burocracia de Estado] n&atilde;o seria muito diferente.&rdquo;[18]<\/p>\n<p>Ele reafirma que &ldquo;o anarquismo n&atilde;o tem qualquer contribui&ccedil;&atilde;o significativa a fazer &agrave; teoria socialista, embora seja um elemento cr&iacute;tico &uacute;til&rdquo;.[19] Ainda que descarte o anarquismo como uma teoria revolucion&aacute;ria, o marxista brit&acirc;nico afirma que ele &ldquo;tem sido &ndash; na pr&aacute;tica, mais do que na teoria &ndash; excepcionalmente sens&iacute;vel aos elementos espont&acirc;neos nos movimentos de massa&rdquo;.[20] Apesar disso, Hobsbawm alerta que o ressurgimento do Maio de 68, e mesmo a influ&ecirc;ncia libert&aacute;ria na Nova Esquerda, <\/p>\n<p>&ldquo;&eacute; admir&aacute;vel, mas em muitos aspectos n&atilde;o somente n&atilde;o &eacute; nova, como tamb&eacute;m &eacute; uma regress&atilde;o a uma forma anterior mais d&eacute;bil e menos desenvolvida de movimento socialista relutante ou sem capacidade de se beneficiar dos grandes empreendimentos da classe oper&aacute;ria internacional e dos movimentos revolucion&aacute;rios do s&eacute;culo compreendido entre o Manifesto Comunista e a Guerra Fria.&rdquo; HOBSBAWM, Eric. Reflex&otilde;es sobre o Anarquismo In Revolucion&aacute;rios. 2&ordf; edi&ccedil;&atilde;o. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985, p. 98. <\/p>\n<p>Podemos sintetizar a tese de Hobsbawm sobre o anarquismo em duas &ldquo;grandes&rdquo; quest&otilde;es, ainda que elementos perif&eacute;ricos possam surgir no debate: 1) O anarquismo &eacute; uma vers&atilde;o extremada de liberalismo e est&aacute; assentado sobre ra&iacute;zes individualistas ou &ldquo;pequeno-burguesas&rdquo;. 2) O anarquismo &eacute; um fen&ocirc;meno pol&iacute;tico ligado a um contexto pr&eacute;-industrial ou de pa&iacute;ses subdesenvolvidos. Com o desenvolvimento das for&ccedil;as produtivas, essa ideologia pol&iacute;tica desaparece junto com as estruturas atrasadas que o gestaram. Em suma, o anarquismo &eacute; uma forma de a&ccedil;&atilde;o pr&eacute;-pol&iacute;tica ligada a um contexto espec&iacute;fico de est&aacute;gio de desenvolvimento das for&ccedil;as produtivas[21] e s&oacute; floresceu em pa&iacute;ses perif&eacute;ricos e pouco desenvolvidos industrialmente, onde as condi&ccedil;&otilde;es de &ldquo;atraso&rdquo; estavam dadas e, portanto, facilitavam sua atividade. A segunda quest&atilde;o nos leva a outro argumento, de que a &ldquo;excepcionalidade do anarquismo espanhol&rdquo; confirmaria a singularidade de sua atividade pol&iacute;tica, que somente se enraizara, justamente no pa&iacute;s mais atrasado da Europa: a Espanha.<\/p>\n<p>&Eacute; preciso alertar que essa posi&ccedil;&atilde;o sobre o anarquismo n&atilde;o &eacute;, de maneira alguma, recente, e tampouco inovadora. Ela pode ser encontrada nas vers&otilde;es cl&aacute;ssicas do marxismo[22], que compreendem o anarquismo como uma forma &ldquo;primitiva&rdquo;[23] ou &ldquo;pequeno-burguesa&rdquo; da pol&iacute;tica, ligada a setores do operariado &ldquo;artesanal&rdquo; e pr&eacute;-industrial. S&atilde;o suficientemente conhecidas as posi&ccedil;&otilde;es de Marx sobre o &ldquo;pequeno-burgu&ecirc;s&rdquo; Proudhon[24], relacionando as id&eacute;ias pol&iacute;ticas do socialista franc&ecirc;s &agrave; sua suposta posi&ccedil;&atilde;o de classe que, por sua vez, seria resultante de determinado est&aacute;gio de desenvolvimento das for&ccedil;as produtivas. Prosseguindo nesta an&aacute;lise, V. I. L&ecirc;nin, em dois de seus trabalhos com maiores refer&ecirc;ncias ao anarquismo, consagrar&aacute;[25] a tese que o anarquismo &eacute; uma forma de &ldquo;revolucionarismo pequeno-burgu&ecirc;s&rdquo;.[26] Para L&ecirc;nin, o &ldquo;pequeno-burgu&ecirc;s &lsquo;enfurecido&rsquo; pelos horrores do capitalismo &eacute;, como o anarquismo, um fen&ocirc;meno social comum a todos os pa&iacute;ses capitalistas&rdquo;.[27] Prossegue refor&ccedil;ando o estere&oacute;tipo individualista do anarquismo, quando diz que este &ldquo;[&#8230;] foi, muitas vezes, uma esp&eacute;cie de expia&ccedil;&atilde;o dos pecados oportunistas do movimento oper&aacute;rio. Essas duas anomalias completavam-se reciprocamente&rdquo;.[28] A presen&ccedil;a da pequena-burguesia em territ&oacute;rio russo parece comprovar a difus&atilde;o do anarquismo e a rela&ccedil;&atilde;o entre as duas coisas parece estar assegurada, quando afirma que:<\/p>\n<p>&ldquo;Se o anarquismo exerceu na R&uacute;ssia uma influ&ecirc;ncia relativamente insignificante nas duas revolu&ccedil;&otilde;es (1905 e 1917) e durante a sua prepara&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o obstante a popula&ccedil;&atilde;o pequeno-burguesa ser aqui mais numerosa que nos pa&iacute;ses europeus, isso se deve, em parte, sem d&uacute;vida, ao bolchevismo, que sempre lutou impiedosamente e inconciliavelmente contra o oportunismo.&rdquo; L&Ecirc;NIN, V.I. Esquerdismo, doen&ccedil;a infantil do comunismo. Editora S&iacute;mbolo: S&atilde;o Paulo, 1978, grifos nossos.<\/p>\n<p>Ainda que com menor sofistica&ccedil;&atilde;o intelectual, Tr&oacute;tsky[29] considera o anarquismo na Ucr&acirc;nia como um fen&ocirc;meno derivado de &ldquo;convuls&otilde;es da pequena-burguesia camponesa&rdquo; e &ldquo;que n&atilde;o aceitava de forma alguma submeter-se &agrave; ditadura do proletariado&rdquo;.[30] Referindo-se &agrave; makhnovischina &ndash; fen&ocirc;meno social de massas ucraniano com grande influ&ecirc;ncia anarquista e que se desenvolveu, principalmente, nos primeiros anos da Revolu&ccedil;&atilde;o Russa &ndash;, Tr&oacute;tsky  convenientemente omite a participa&ccedil;&atilde;o de amplas massas camponesas e em menor grau oper&aacute;rias no movimento ucraniano durante a revolu&ccedil;&atilde;o, as quais evidenciariam a dimens&atilde;o classista do anarquismo. N&atilde;o obstante, n&atilde;o surpreende que essa posi&ccedil;&atilde;o n&atilde;o se altere sob a &eacute;gide do stalinismo durante a Guerra Fria e mantenha as premissas fundamentais[31] da cr&iacute;tica marxista ao anarquismo anteriormente fundamentadas, considerando o anarquismo e a makhnovischina movimentos de criminosos, desertores e diretamente apoiados pelos kulaks.<\/p>\n<p>Fen&ocirc;meno essencialmente popular, a makhnovischina, longe de aglutinar criminosos e desertores, teve sua import&acirc;ncia para al&eacute;m de suas fronteiras, incidindo na sobreviv&ecirc;ncia[32] da pr&oacute;pria Revolu&ccedil;&atilde;o Russa, durante o per&iacute;odo da guerra civil. Ainda assim, a vis&atilde;o predominante sobre a participa&ccedil;&atilde;o dos anarquistas nos processos revolucion&aacute;rios e sociais em geral, engessada por certa vis&atilde;o historiogr&aacute;fica, permanece presa a um &ldquo;senso comum&rdquo; douto[33], mas ainda senso comum, cujas bases, convenientemente, propomos analisar.<\/p>\n<p>\nNotas da Parte 2<\/p>\n<p>1. BOURDIEU, Pierre. &ldquo;Introdu&ccedil;&atilde;o a uma sociologia reflexiva&rdquo; In O Poder Simb&oacute;lico; tradu&ccedil;&atilde;o Fernando Tomaz (portugu&ecirc;s de Portugal) &ndash; 2.ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998. <\/p>\n<p>2. HOBSBAWM, 1985, p. 90. <\/p>\n<p>3. Ibidem. <\/p>\n<p>4. Ibid, p. 90. <\/p>\n<p>5. Idem. <\/p>\n<p>6. &Eacute; dif&iacute;cil sustentar a tese de que os exilados espanh&oacute;is residentes na Fran&ccedil;a durante as d&eacute;cadas de 1940 e 1950 fossem bo&ecirc;mios e vanguardistas, no sentido &ldquo;art&iacute;stico&rdquo; do termo utilizado por Hobsbawm. Na Espanha, o anarquismo difundiu-se essencialmente no movimento oper&aacute;rio e campon&ecirc;s. A Confederaci&oacute;n Nacional del Trabajo (C.N.T.), inst&acirc;ncia sindical influenciada majoritariamente pelos anarquistas, possu&iacute;a a cifra de 1,5 milh&atilde;o de aderentes nos seus momentos mais &aacute;ureos. Os exilados espanh&oacute;is na Fran&ccedil;a foram basicamente oper&aacute;rios que lutaram de armas na m&atilde;o contra os franquistas e setores conservadores, perfil muito distante da caricatura rom&acirc;ntica que lhes parece imputar Hobsbawm. Sobre a composi&ccedil;&atilde;o oper&aacute;ria do anarquismo espanhol e a a&ccedil;&atilde;o coletiva dos anarquistas na Espanha, Cf. LEVAL, Gast&oacute;n. Colectividades Libertarias en Espa&ntilde;a. Buenos Aires: Editorial Proyecci&oacute;n, 1972.<\/p>\n<p>7. HOBSBAWM, 1985, p. 90. <\/p>\n<p>8. Ibid, p. 96. Sobre a rela&ccedil;&atilde;o compat&iacute;vel do anarquismo e a tecnologia, Cf. DOLGOFF, Sam. A Relev&acirc;ncia do Anarquismo para a Sociedade Moderna. S&atilde;o Paulo: Editora Fa&iacute;sca, 2005. Neste t&iacute;tulo.<\/p>\n<p>9. HOBSBAWM, 1985, p. 91.<\/p>\n<p>10. Ibidem.<\/p>\n<p>11. Esta posi&ccedil;&atilde;o do anarquismo como uma s&iacute;ntese do socialismo e do liberalismo &eacute; reiterada equivocadamente em algumas bibliografias. Cf. WALTER, Nicolas. Do Anarquismo. Rio de Janeiro: Editora Achiam&eacute;, s\/d. A vis&atilde;o do anarquismo como um liberalismo extremado &eacute; completamente problem&aacute;tica, pois ignora a dimens&atilde;o central presente em longo prazo nas pr&aacute;ticas anarquistas desde a Primeira Internacional: sua atua&ccedil;&atilde;o\/estrat&eacute;gia de massas e, principalmente, sua posi&ccedil;&atilde;o socialista e anticapitalista. Uma vis&atilde;o de longo prazo, que tem como foco suas pr&aacute;ticas, e n&atilde;o apenas suas obras, redimensiona esta no&ccedil;&atilde;o e torna incompat&iacute;vel, ou pelo menos bastante problem&aacute;tica, essa aproxima&ccedil;&atilde;o entre liberalismo e anarquismo. Foram, provavelmente, as obras de Rocker que buscaram estabelecer, de maneira mais sistem&aacute;tica, essa aproxima&ccedil;&atilde;o. Cf. ROCKER, Rudolph. A Ideologia do Anarquismo. S&atilde;o Paulo: Editora Fa&iacute;sca, 2005.<\/p>\n<p>12. HOBSBAWM, 1985, p. 96.<\/p>\n<p>13. Ibid, pp.91-92. <\/p>\n<p>14. Ibidem.<\/p>\n<p>15. Ibid, p. 92.<\/p>\n<p>16. HOBSBAWM, Ibid, p. 96.<\/p>\n<p>17. Na R&uacute;ssia, na Cor&eacute;ia e na Bulg&aacute;ria, a atua&ccedil;&atilde;o dos comunistas (stalinistas) foi fundamental para a dissolu&ccedil;&atilde;o do anarquismo. A repress&atilde;o, o ex&iacute;lio, o fuzilamento e a deporta&ccedil;&atilde;o foram instrumentos correntes nesses pa&iacute;ses para dissolver a articula&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica anarquista. Apesar disso, os anarquistas, contrariando o leitmotiv hegeliano, n&atilde;o desapareceram da face da terra e rearticularam-se, principalmente nos grandes centros Europeus e, em certa medida, na Am&eacute;rica Latina.<\/p>\n<p>18. HOBSBAWM, 1985, p. 96.<\/p>\n<p>19. Idem.<\/p>\n<p>20. Ibid, p. 97.<\/p>\n<p>21. Ainda que haja uma discuss&atilde;o no interior do marxismo &ndash; que pode ser dividida entre uma interpreta&ccedil;&atilde;o mais ortodoxa, que prioriza o desenvolvimento das for&ccedil;as produtivas e as interpreta em refer&ecirc;ncia &agrave; produ&ccedil;&atilde;o e n&atilde;o &agrave; complexidade da vida social, e outra, mais heterodoxa, que n&atilde;o incorre no mecanicismo consagrado na f&oacute;rmula do materialismo dial&eacute;tico: infra-estrutura e superestrutura &ndash;, reconhecemos que, a despeito das discuss&otilde;es sobre a &ldquo;exegese&rdquo; dos textos de Marx, a pr&aacute;tica pol&iacute;tica dos marxistas ao longo do s&eacute;culo XX caminhou no sentido de consagrar decisivamente a interpreta&ccedil;&atilde;o ortodoxa. Se pud&eacute;ssemos aplicar a m&aacute;xima marxista de que &ldquo;o crit&eacute;rio da verdade &eacute; a pr&aacute;tica&rdquo;, concluir&iacute;amos, a partir da an&aacute;lise hist&oacute;rica, que o marxismo heterodoxo restringiu-se a pequenos grupos de oposi&ccedil;&atilde;o, a c&iacute;rculos universit&aacute;rios e fen&ocirc;menos perif&eacute;ricos e que a pr&aacute;tica stalinista, em grande medida ortodoxa, foi predominante na maior parte dos pa&iacute;ses. Sobre isso, Cf. CASTORIADIS, Cornelius. &ldquo;Marxismo e Teoria Revolucion&aacute;ria&rdquo; In. A Institui&ccedil;&atilde;o Imagin&aacute;ria da Sociedade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986.<\/p>\n<p>22. Sobre a posi&ccedil;&atilde;o dos marxistas em geral sobre esta quest&atilde;o, Cf. ANSART, Pierre apud RUGAI, Ricardo Ramos. O Socialismo como cr&iacute;tica da Economia Pol&iacute;tica: as quest&otilde;es econ&ocirc;micas na obra de Proudhon (1838-1847). Orientador Osvaldo Luis Angel Coggiola. S&atilde;o Paulo, 2011. Tese (Doutorado). Faculdade de Filosofia, Letras e Ci&ecirc;ncias Humanas da Universidade de S&atilde;o Paulo. Departamento de Hist&oacute;ria. &Aacute;rea de Concentra&ccedil;&atilde;o: Hist&oacute;ria Econ&ocirc;mica. As posi&ccedil;&otilde;es de Marx, Engels e L&ecirc;nin acerca do anarquismo podem ser encontradas em: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich; L&Ecirc;NIN, Vladimir. Acerca del Anarquismo y el Anarcosindicalismo. Moscou: Progresso, 1976.<\/p>\n<p>23. Para Hobsbawm, os anarquistas &ldquo;pertencem a uma esp&eacute;cie primitiva de movimento e suas fraquezas s&atilde;o evidentes: falta de teoria, de perspectivas estrat&eacute;gicas estabelecidas em comum e de capacidade de r&aacute;pida rea&ccedil;&atilde;o t&aacute;tica em escala nacional&rdquo;. HOBSBAWM, 1985, p. 98.<\/p>\n<p>24. Numa carta enviada a J. B. Von Schweitzer, Marx relaciona as proposi&ccedil;&otilde;es te&oacute;ricas de Proudhon com as da &ldquo;pequena-burguesia&rdquo;. O termo pequeno-burgu&ecirc;s (em franc&ecirc;s petit-bourgois) aparece no documento, que &eacute; relativamente curto, associado ao socialista franc&ecirc;s cerca de nove vezes. Cf. MARX, Karl. Sobre Proudhon (Carta a J. B. Von Schweitzer), 24\/01\/1865. Dispon&iacute;vel em &lt;http:\/\/www.marxists.org\/portugues\/marx\/1865\/01\/24.htm&gt; Acessado em 05\/07\/2012.<\/p>\n<p>25. Esta ser&aacute; a posi&ccedil;&atilde;o adotada pelos diversos partidos comunistas ao redor do mundo.<\/p>\n<p>26. L&Ecirc;NIN, V.I. Esquerdismo, doen&ccedil;a infantil do comunismo. S&atilde;o Paulo: Editora S&iacute;mbolo, 1978.<\/p>\n<p>27. Ibidem, p. 25.<\/p>\n<p>28. L&Ecirc;NIN, 1978, p. 25.<\/p>\n<p>29. Tr&oacute;tsky comenta sobre a makhnovichina: &ldquo;Somente um homem de esp&iacute;rito completamente vazio pode ver nos bandos de Makhno ou na insurrei&ccedil;&atilde;o de Kronstadt uma luta entre os princ&iacute;pios abstratos do anarquismo e do socialismo de Estado. Em realidade, esses movimentos eram convuls&otilde;es da pequena-burguesia camponesa, a qual, seguramente, queria livrar-se do capital, mas, ao mesmo tempo, n&atilde;o aceitava de forma alguma submeter-se &agrave; ditadura do proletariado. Ela mesma n&atilde;o sabia exatamente o que queria e, devido a sua situa&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o podia mesmo sab&ecirc;-lo. Eis porque cobria t&atilde;o facilmente a confus&atilde;o de suas reivindica&ccedil;&otilde;es e de suas esperan&ccedil;as, ora com a bandeira anarquista, ora com a bandeira populista, ora com uma bandeira simplesmente &lsquo;verde&rsquo;.&rdquo; &Eacute; importante mencionar que o termo kulaks n&atilde;o aparece nos comunicados e reflex&otilde;es que mencionam o anarquismo emitidos por Tr&oacute;tsky no ex&iacute;lio. Ao contr&aacute;rio, j&aacute; em seus comunicados emitidos durante a makhnovischina, o termo kulaks (propriet&aacute;rios de terra com uma condi&ccedil;&atilde;o financeira superior aos camponeses pobres) &eacute; costumeiramente associado ao movimento campon&ecirc;s da Ucr&acirc;nia, indicando que o anarquismo estaria ligado a um setor de classe &ldquo;pequeno-burgu&ecirc;s&rdquo;. E prosseguindo em sua reflex&atilde;o imbu&iacute;da do materialismo hist&oacute;rico-dial&eacute;tico marxista, dir&aacute; que: &ldquo;Opondo-se ao proletariado, tentava, sob todas essas bandeiras, fazer voltar atr&aacute;s a roda da revolu&ccedil;&atilde;o&rdquo;. BLOCH, G&eacute;rard; TR&Oacute;TSKY, Leon. Marxismo e Anarquismo. S&atilde;o Paulo: Editora Kair&oacute;s, 1981, p. 32.<\/p>\n<p>30. Idem. O termo utilizado na imprensa bolchevique do per&iacute;odo &eacute; um pouco mais expl&iacute;cito: os &ldquo;anarco-bandidos&rdquo; ou contra-revolucion&aacute;rios eram aqueles que integravam o movimento popular da makhnovischina.<\/p>\n<p>31. Sobre Makhno e o movimento makhnovista, a Enciclop&eacute;dia Sovi&eacute;tica diz: &ldquo;MOVIMENTO DE MAKHNO (em Russo, Makhnovshchina). Um movimento campon&ecirc;s kulak an&aacute;rquico e anti-sovi&eacute;tico da Ucr&acirc;nia, de 1918 a 1921, liderado por N. I. Makhno; uma das v&aacute;rias formas tomadas pela contra-revolu&ccedil;&atilde;o pequeno-burguesa. A base social do movimento de Makhno era composta de camponeses abastados da margem esquerda da Ucr&acirc;nia, especialmente das prov&iacute;ncias de Ekaterinoslav e Kharkov, onde uma estratifica&ccedil;&atilde;o consider&aacute;vel dos camponeses podia ser observada j&aacute; nos fins do s&eacute;culo 19 e onde a propor&ccedil;&atilde;o de kulaks era substancial. Foi dessa regi&atilde;o que o movimento de Makhno retirou suas for&ccedil;as, recursos materiais e a maior parte de seus l&iacute;deres. No entanto, a Makhnovshchina n&atilde;o foi um movimento local (diferentemente da revolta Antonov, por exemplo); ela cobriu um territ&oacute;rio extenso, do Dnestr ao Don. Os bandos de Makhno inclu&iacute;am v&aacute;rias nacionalidades. A pequena cidade de Guliai Pole, na prov&iacute;ncia de Ekaterinoslav, se tornou sua &lsquo;capital&rsquo;. Os pr&oacute;speros estratos do campesinato da margem esquerda ucraniana que, ap&oacute;s a revolu&ccedil;&atilde;o, haviam conquistado as propriedades de muitos latifundi&aacute;rios daquela &aacute;rea, tiveram influ&ecirc;ncia decisiva na orienta&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica do movimento de Makhno. Em alguns momentos, quando houve amea&ccedil;as da restaura&ccedil;&atilde;o dos grandes propriet&aacute;rios de terra (sob a ocupa&ccedil;&atilde;o alem&atilde; e sob os Guardas Brancos), estratos relativamente amplos das massas camponesas se juntaram ao movimento de Makhno; na luta contra o poder sovi&eacute;tico, os seguidores de Makhno conseguiram apoio das pessoas abastadas do campo. A partir de 1921, o movimento foi apoiado apenas pelos kulaks. Elementos desclassificados reuniram-se sob a bandeira de Makhno durante toda a exist&ecirc;ncia de seu movimento &ndash; desertores, antigos soldados da Guarda Branca e criminosos; no per&iacute;odo final, esses elementos terminaram predominando.&rdquo; Grande Enciclop&eacute;dia Sovi&eacute;tica. MOVIMENTO DE MAKHNO. &lt;http:\/\/www.nestormakhno.info\/english\/gse-makhno.htm&gt;, Acessado em 06\/05\/11, tradu&ccedil;&atilde;o nossa.<\/p>\n<p>32. Segundo Berkman, &ldquo;quando Denikin conseguiu alcan&ccedil;ar Orel, amea&ccedil;ou Moscou e a pr&oacute;pria exist&ecirc;ncia do governo sovi&eacute;tico, Makhno e seu ex&eacute;rcito de camponeses atacaram o general czarista, derrotaram-no em diversos confrontos decisivos, separaram o ex&eacute;rcito dos Brancos e suas bases de aprovisionamento e for&ccedil;aram Denikin a bater em retirada.&rdquo; BERKMAN, Alexandre. &ldquo;Nestor Makhno, o homem que salvou os bolcheviques&rdquo; In SKIRDA, Alexandre et al. Nestor Makhno e a Revolu&ccedil;&atilde;o Social na Ucr&acirc;nia. S&atilde;o Paulo: Imagin&aacute;rio, 2001, p. 60.<\/p>\n<p>33. Segundo Bourdieu, &ldquo;estes instrumentos fazem que ele corra um perigo permanente de erro, pois se arrisca a substituir a doxa ing&eacute;nua do senso comum pela doxa do senso comum douto, que atribui o nome de ci&ecirc;ncia a uma simples transcri&ccedil;&atilde;o do discurso de senso comum.&rdquo; BOURDIEU, Pierre. &ldquo;Introdu&ccedil;&atilde;o a uma sociologia reflexiva&rdquo; In O Poder Simb&oacute;lico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998, p. 44.<\/p>\n<p>\nbibliografia ao final da quinta parte<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fen\u00f4menos como os do Ex\u00e9rcito Insurrecional dos Camponeses da Ucr\u00e2nia, foram mal interpretados pelo mundialmente reconhecido historiador ingl\u00eas de forma\u00e7\u00e3o marxiana e renome mundial. Foto:dasfloresdamargem Rafael Viana da Silva &#8211; parte 2 de 5 O anarquismo segundo Hobsbawm &ldquo;Por exemplo, um ex-te&oacute;logo que se fez soci&oacute;logo pode, quando come&ccedil;ar a estudar os te&oacute;logos, proceder a [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-1708","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"jetpack_publicize_connections":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1708","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1708"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1708\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1708"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1708"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1708"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}