{"id":1716,"date":"2013-02-09T00:18:07","date_gmt":"2013-02-09T00:18:07","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/?p=1716"},"modified":"2013-02-09T00:18:07","modified_gmt":"2013-02-09T00:18:07","slug":"os-revolucionarios-ineficazes-de-hobsbawm-reflexoes-criticas-de-sua-abordagem-do-anarquismo-parte-3-de-5","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=1716","title":{"rendered":"OS REVOLUCION\u00c1RIOS INEFICAZES DE HOBSBAWM: REFLEX\u00d5ES CR\u00cdTICAS DE SUA ABORDAGEM DO ANARQUISMO &#8211; Parte 3 de 5"},"content":{"rendered":"<figure class=\"image-container image-post-defautl\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/Black Flame Cover small.jpg\" title=\"Este livro, Black Flame, dos sul-africanos Michael Schmidt e Lucien Van der Walt, nos ajuda a compreender a dimens\u00e3o mundial do anarquismo at\u00e9 o in\u00edcio da 2\u00aa Guerra Mundial e desconstr\u00f3i mitos baseados em falsas premissas como as criticadas neste artigo de f\u00f4lego.  - Foto:anarkismo.net\" alt=\"Este livro, Black Flame, dos sul-africanos Michael Schmidt e Lucien Van der Walt, nos ajuda a compreender a dimens\u00e3o mundial do anarquismo at\u00e9 o in\u00edcio da 2\u00aa Guerra Mundial e desconstr\u00f3i mitos baseados em falsas premissas como as criticadas neste artigo de f\u00f4lego.  - Foto:anarkismo.net\" class=\"image\"><figcaption class=\"fig-caption\">Este livro, Black Flame, dos sul-africanos Michael Schmidt e Lucien Van der Walt, nos ajuda a compreender a dimens\u00e3o mundial do anarquismo at\u00e9 o in\u00edcio da 2\u00aa Guerra Mundial e desconstr\u00f3i mitos baseados em falsas premissas como as criticadas neste artigo de f\u00f4lego. <\/figcaption><small itemprop=\"copyrightHolder\" class=\"copyright\"> Foto:anarkismo.net<\/small><\/figure>\n<p><em>Rafael Viana da Silva<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Anarquismo: um fen&ocirc;meno individualista?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>Hobsbawm, ao sublinhar um suposto &ldquo;car&aacute;ter primitivo&rdquo;[1] da teoria anarquista, chega a conclus&otilde;es muito curiosas. Diz-nos que o voluntarismo dos militantes anarquistas em sua pr&aacute;tica pol&iacute;tica amparava-se freq&uuml;entemente em bases filos&oacute;ficas irracionalistas (Nietzsche, Sorel, Stirner) e que, n&atilde;o acidentalmente, essas justificativas te&oacute;ricas foram &ldquo;logo adaptadas como justificativas te&oacute;ricas do fascismo&rdquo;.[2] Os elementos dessa tese incorrem em s&eacute;rios problemas metodol&oacute;gicos e te&oacute;ricos.<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>Primeiramente &eacute; correto afirmar que bases filos&oacute;ficas citadas por Hobsbawm realmente foram lidas por largos setores do anarquismo. Apesar dos tr&ecirc;s autores citados n&atilde;o serem anarquistas, as obras de Stirner, Nietzsche e Sorel circularam na imprensa oper&aacute;ria e anarquista das primeiras d&eacute;cadas do s&eacute;culo XX.[3] &Eacute; poss&iacute;vel, no entanto, relativizarmos o excessivo peso dado a eles por Hobsbawm, que os considera equivocadamente as &ldquo;bases filos&oacute;ficas&rdquo; do anarquismo, pois, como nos alertam os recentes estudos[4], &ldquo;a luta contra o individualismo extremo foi uma parte essencial do projeto anarquista&rdquo;[5] e, portanto, o individualismo &ndash; ou um liberalismo extremado, como deixa entender Hobsbawm &ndash; n&atilde;o constitui um dos fundamentos do anarquismo.<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>As generaliza&ccedil;&otilde;es em n&iacute;vel metodol&oacute;gico sempre se prestam ao empobrecimento hist&oacute;rico. Se os anarquistas leram Nietzsche e Stirner, leram muito mais Bakunin[6], Kropotkin e Malatesta; estes autores, contrariando a an&aacute;lise de Hobsbawm, propunham a atua&ccedil;&atilde;o dos anarquistas em suas entidades de classe, buscando fazer delas seu vetor social.[7] A an&aacute;lise das pr&aacute;ticas anarquistas ao longo de diferentes contextos hist&oacute;ricos revela um quadro completamente distinto do &ldquo;liberalismo extremado&rdquo; caricaturado por Hobwbawm.<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>Os anarquistas, em sua grande maioria, atuaram diretamente na constitui&ccedil;&atilde;o do que hoje compreendemos como sindicalismo de inten&ccedil;&atilde;o revolucion&aacute;ria. Isso nos leva a uma quest&atilde;o metodol&oacute;gica relevante no estudo hist&oacute;rico das pr&aacute;ticas pol&iacute;ticas anarquistas, que Hobsbawm n&atilde;o explora adequadamente e que comentaremos rapidamente. Primeiro &eacute; preciso dizer que julgamos precipitado dar um peso excessivo a autores que n&atilde;o tiveram tamanha import&acirc;ncia na pr&aacute;tica pol&iacute;tica dos militantes ao longo de sua trajet&oacute;ria hist&oacute;rica. N&atilde;o podemos compreender o anarquismo apenas pelas suas obras (os chamados cl&aacute;ssicos); &eacute; preciso analisar suas pr&aacute;ticas ao longo da hist&oacute;ria.<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>Segundo, outro erro oposto &ndash; o que chamamos de outro extremo da moeda &ndash; &eacute; o de ignorar completamente as obras lidas pelos anarquistas, procurando compreender apenas suas estrat&eacute;gias e pr&aacute;ticas, sem compreender que essas pr&aacute;ticas est&atilde;o profundamente conectadas com uma linguagem pol&iacute;tica normativa constru&iacute;das no contato com sua literatura militante.<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>Como o estudo de qualquer categoria pol&iacute;tica (tal como o anarquismo) remete necessariamente ao ambiente em que estas operam, &eacute; necess&aacute;rio superar a &ldquo;hist&oacute;ria do pensamento pol&iacute;tico abstrato desenvolvido sem rela&ccedil;&atilde;o com o contexto&rdquo;.[8] Uma maneira de compreendermos este contexto n&atilde;o &eacute; reduzir os textos, uma corrente pol&iacute;tica espec&iacute;fica ou suas obras[9] a &ldquo;simples produtos ideol&oacute;gicos, derivados das circunst&acirc;ncias e por ela determinadas&rdquo;[10], como o faz tradicionalmente a an&aacute;lise marxista sobre o anarquismo e por conseguinte Hobsbawm. Tampouco devemos proceder a uma an&aacute;lise baseada na &ldquo;ere&ccedil;&atilde;o do texto em objeto fechado e auto-suficiente&rdquo;[11], o outro extremo &ldquo;p&oacute;s-moderno&rdquo; de tratamento do anarquismo, em nossa opini&atilde;o, metodologicamente problem&aacute;tico. Como sa&iacute;da para essas oposi&ccedil;&otilde;es, optamos pela ado&ccedil;&atilde;o de uma an&aacute;lise &ecirc;mica.[12] Nessa an&aacute;lise, a biblioteca n&atilde;o &eacute; apenas um recurso que o historiador social emprega para o estudo pessoal &ndash; um recurso que fica fora do campo analisado. Ela se torna um elemento constitutivo da an&aacute;lise social, juntamente com estrat&eacute;gias, objetos, escolhas, etc. Essa an&aacute;lise possibilita que compreendamos as estrat&eacute;gias pol&iacute;ticas dos anarquistas e sua influ&ecirc;ncia na classe, assim como a rela&ccedil;&atilde;o dessas estrat&eacute;gias com seus te&oacute;ricos: as obras anarquistas. Infelizmente, Hobsbawm n&atilde;o toma satisfatoriamente nem um caminho nem outro.<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>Apesar de reconhecer a influ&ecirc;ncia anarquista em determinados movimentos de massa, Hobsbawm insiste na tese que reduz consideravelmente a pr&aacute;tica pol&iacute;tica anarquista &agrave;s estrat&eacute;gias individualistas. Esse equ&iacute;voco n&atilde;o reside apenas no sobrepeso dado pelo historiador brit&acirc;nico &agrave; import&acirc;ncia dos autores individualistas lidos pelos anarquistas, mas tamb&eacute;m na concep&ccedil;&atilde;o que ele pr&oacute;prio possui de anarquismo, amparada numa tradicional Hist&oacute;ria das Id&eacute;ias.[13]<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>Essa concep&ccedil;&atilde;o tende a reduzir a ideologia pol&iacute;tica anarquista ao denominador comum da nega&ccedil;&atilde;o do Estado. Este denominador, costumeiramente utilizado como um par&acirc;metro de delimita&ccedil;&atilde;o da ideologia anarquista[14], ignora outros elementos de sua tradi&ccedil;&atilde;o constitu&iacute;dos historicamente pela atua&ccedil;&atilde;o de seus militantes. Portanto, n&atilde;o &eacute; um crit&eacute;rio seguro[15] para compreendermos o anarquismo. Por isso, preferimos a posi&ccedil;&atilde;o que compreende que o termo anarquismo &ldquo;poderia ser utilizado para uma forma particular racional e revolucion&aacute;ria de socialismo libert&aacute;rio que emerge na segunda metade do s&eacute;culo XIX&rdquo;.[16] O anarquismo se levantou contra a &ldquo;hierarquia social e econ&ocirc;mica, assim como a iniq&uuml;idade &ndash; e especificamente, o capitalismo, o latif&uacute;ndio e o Estado &ndash; e em favor de uma luta de classes internacional e uma revolu&ccedil;&atilde;o de baixo para acima realizada por trabalhadores e camponeses auto-organizados com o objetivo de criar uma ordem social sem Estado, socialista e autogerida&rdquo;.[17] Nesse sentido, pode-se rejeitar a tese que cr&ecirc; que &ldquo;qualquer filosofia ou movimento que &eacute; hostil ao Estado, ou em favor da liberdade individual, possa ser caracterizado como anarquista&rdquo;[18], assim como, compreender que a simples autoidentifica&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; um par&acirc;metro adequado para caracterizar algu&eacute;m como anarquista. O anarquismo deve ser compreendido como a &ldquo;ala libert&aacute;ria do socialismo&rdquo;[19] e, portanto, profundamente conectado com as estrat&eacute;gias pol&iacute;ticas que possuem como objetivo finalista a revolu&ccedil;&atilde;o social.<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>Outro aspecto a ser levado em conta diz respeito &agrave;s habituais divis&otilde;es das correntes anarquistas, as quais devem ser desconstru&iacute;das. As tipologias que dividem os anarquistas entre anarco-comunistas, anarco-sindicalistas e anarco-pacifistas, como o fazem B&oacute;ris Fausto ou George Woodcock, por exemplo. Essas divis&otilde;es, em muitos momentos se sobrep&otilde;em e acabam amputando parte da experi&ecirc;ncia da classe e do movimento anarquista em detrimento de modelos sociol&oacute;gicos previamente determinados. Essas tipologias dividem os anarquistas como identidades pol&iacute;ticas perfeitamente separadas (essencialistas), e n&atilde;o por suas estrat&eacute;gias, o que obliterou em grande parte a compreens&atilde;o do referido objeto hist&oacute;rico, dificultando a compreens&atilde;o do &ldquo;fazer&rdquo; cotidiano dos anarquistas, no interior da classe.<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>Outro equ&iacute;voco &eacute; opor anarco-comunismo ao anarco-sindicalismo. A maioria dos anarco-sindicalistas explicitamente define como objetivo uma sociedade comunista; os anarco-sindicalistas russos declaram a necessidade da &ldquo;realiza&ccedil;&atilde;o completa do ideal anarco-comunista&rdquo; sobre a distribui&ccedil;&atilde;o de acordo com as necessidades. A Federa&ccedil;&atilde;o Oper&aacute;ria Regional Argentina (FORA), formada em 1901 e hegemonizada pelos anarquistas em 1904, declara que defende os &ldquo;princ&iacute;pios filos&oacute;ficos e econ&ocirc;micos do anarco-comunismo&rdquo;. A Federa&ccedil;&atilde;o Anarquista Comunista da Bulg&aacute;ria (FAKB), que foi formada em 1919, trabalha intimamente com a Confedera&ccedil;&atilde;o Nacional do Trabalho, anarco-sindicalista. A Confedera&ccedil;&atilde;o Nacional do Trabalho (CNT) espanhola declara-se claramente comunista an&aacute;rquica depois de 1919. Mesmo os chamados &ldquo;anarquistas puros&rdquo;, como Hatta anarquista japon&ecirc;s, encontraram seu suporte na Federa&ccedil;&atilde;o Nacional Libert&aacute;ria de Uni&otilde;es do Trabalho (usualmente abreviada como Zenkoku Jiren).[20]<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>Tendo em vista a longa dura&ccedil;&atilde;o no tratamento de nosso objeto, a principal divis&atilde;o no interior do anarquismo foi orientada fundamentalmente em torno de duas estrat&eacute;gias: a de massas e a insurrecionalista.<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>A primeira estrat&eacute;gia foi hegem&ocirc;nica na hist&oacute;ria do anarquismo, desde a Primeira Internacional; ela fundamenta-se na concep&ccedil;&atilde;o de que &ldquo;apenas movimentos de massas podem criar uma mudan&ccedil;a revolucion&aacute;ria na sociedade, e que tais movimentos s&atilde;o tipicamente constru&iacute;dos ao longo das lutas em torno de quest&otilde;es imediatas e reformas&rdquo;.[21] Esta estrat&eacute;gia recorreu largamente a um fundo ideol&oacute;gico que propunha a interven&ccedil;&atilde;o no n&iacute;vel de massas, buscando fazer dos sindicatos seu vetor social. Para justificarem e &ldquo;municiarem&rdquo; suas interven&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas, os aderentes dessa estrat&eacute;gia utilizaram largamente os autores anarquistas que defendiam a atua&ccedil;&atilde;o nos movimentos sociais da classe trabalhadora (Bakunin, Kropotkin, Malatesta, etc.), que sempre reiteraram em seus escritos &ldquo;o car&aacute;ter socialista do anarquismo&rdquo;. Como resultado hist&oacute;rico, essa estrat&eacute;gia fortaleceu e construiu o que hoje conhecemos como sindicalismo de inten&ccedil;&atilde;o revolucion&aacute;ria, a ponto de, em alguns momentos, o anarquismo se confundir com ele.[22]<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>A segunda estrat&eacute;gia, insurrecionalista, &ldquo;reivindica que reformas s&atilde;o ilus&otilde;es, que os movimentos como sindicatos s&atilde;o baluartes dispostos ou inconscientes da ordem existente, e que organiza&ccedil;&otilde;es formais s&atilde;o autorit&aacute;rias&rdquo;.[23] Esta estrat&eacute;gia, historicamente minorit&aacute;ria no movimento anarquista, reduziu-se &agrave;s atua&ccedil;&otilde;es em pequenos c&iacute;rculos e de grupos anarquistas que propunham a &ldquo;propaganda pelo fato&rdquo;, com o uso de bombas e atentados, limitando-se, praticamente, ao contexto do final do s&eacute;culo XIX[24] na Europa.<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>Ambas as estrat&eacute;gias advogam o uso da viol&ecirc;ncia nos processos revolucion&aacute;rios; entretanto, o que as difere &eacute; o momento, a forma e a organiza&ccedil;&atilde;o desta viol&ecirc;ncia, num contexto de transforma&ccedil;&atilde;o radical da sociedade. Segundo Schmidt:<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &ldquo;O que distingue o anarquismo insurrecionalista do anarquismo de massas n&atilde;o &eacute; necessariamente a viol&ecirc;ncia como tal, mas seu lugar em sua estrat&eacute;gia: para o anarquismo insurrecionalista, a propaganda pelo fato, levada a cabo por anarquistas conscientes, &eacute; vista como meio de gerar um movimento de massas; para maior parte do anarquismo de massas, a viol&ecirc;ncia opera como um meio de autodefesa de um movimento de massas j&aacute; existente.&rdquo; SCHMIDT, Michael. Cartography of Revolutionary Anarchism. Oakland: AK Press, no prelo, tradu&ccedil;&atilde;o nossa.<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>A aplica&ccedil;&atilde;o dessas estrat&eacute;gias pode ser analisada hist&oacute;rica e teoricamente numa perspectiva de longo prazo, verificando suas continuidades e perman&ecirc;ncias.[25] As quest&otilde;es estrat&eacute;gicas que constituem as bases das defini&ccedil;&otilde;es dessas correntes podem ser encontradas no anarquismo globalmente, de seu surgimento ao presente.<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>Michael Schmidt e Lucien Van der Walt resumem momentos-chaves do anarquismo que nos ajudam a elucidar a an&aacute;lise de Hobsbawm, a partir de um elemento fundamental e constituinte da tradi&ccedil;&atilde;o anarquista: o sindicalismo de inten&ccedil;&atilde;o revolucion&aacute;ria. Avaliando a aplica&ccedil;&atilde;o da an&aacute;lise segundo esse aporte te&oacute;rico, &eacute; imposs&iacute;vel minimizar a influ&ecirc;ncia dessa estrat&eacute;gia de massas no interior do anarquismo ou dar um peso demasiado aos te&oacute;ricos individualistas, em sua maioria ex&oacute;genos ou perif&eacute;ricos a essa tradi&ccedil;&atilde;o; ao mesmo tempo, &eacute; imposs&iacute;vel, ou claramente constrangedor, minimizar o papel dos anarquistas no sindicalismo de inten&ccedil;&atilde;o revolucion&aacute;ria.<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>Reconhecemos, assim, a liga&ccedil;&atilde;o estreita do anarquismo e o movimento oper&aacute;rio na constitui&ccedil;&atilde;o do sindicalismo de inten&ccedil;&atilde;o revolucion&aacute;ria e na forma&ccedil;&atilde;o de consci&ecirc;ncia de classe dos trabalhadores em distintos per&iacute;odos. Contrariando a vis&atilde;o de que o anarquismo nunca foi algo mais do que uma &ldquo;atra&ccedil;&atilde;o minorit&aacute;ria&rdquo;, ou o &ldquo;primo pobre de outras tradi&ccedil;&otilde;es de esquerda&rdquo;[26], &eacute; poss&iacute;vel, baseando-nos em pesquisas recentes, pela perspectiva da Hist&oacute;ria Social, argumentar coerentemente que o anarquismo de massas e sua estrat&eacute;gia fundamental, o sindicalismo de inten&ccedil;&atilde;o revolucion&aacute;ria, emergiram em diferentes regi&otilde;es, &ldquo;notadamente partes da Europa, da Am&eacute;rica, e Leste da &Aacute;sia&rdquo;.[27] Seria o anarquismo, ainda assim, um fen&ocirc;meno pr&eacute;-pol&iacute;tico? Verificaremos isso a seguir.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Notas da parte 3:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>1. HOBSBAWM, 1985, p. 94.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>2. Idem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>3. Assim como eram lidos Darwin e Spencer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>4. Nos referimos a VAN DER WALT, SCHMIDT, 2009.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>5. VAN DER WALT, SCHMIDT, 2009, p. 47.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>6. Segundo Gaston Leval &ldquo;Sorel n&atilde;o teve meia d&uacute;zia de leitores entre os militantes da C.G.T., enquanto Kropotkin teve milhares &ndash; todo esse sindicalismo deriva de Bakunin e foi extra&iacute;do das s&eacute;ries de artigos de L&rsquo;&Eacute;galit&eacute; e de Le Progr&egrave;s que, alguns meses ap&oacute;s sua apari&ccedil;&atilde;o, tornava-se um dos principais propagadores da doutrina bakuniniana; tamb&eacute;m extra&iacute;do de Protestation de l&rsquo;Aliance que, esta, por si s&oacute;, diz tanto quanto disse Sorel em toda a sua obra, nas Tr&ecirc;s Confer&ecirc;ncias Feitas aos Oper&aacute;rios do Vale de Saint-Imier e na resolu&ccedil;&atilde;o de pensamento ou de estilo bakuniniana, do Congresso de Saint-Imier. Esses escritos, cujo conjunto &eacute; copioso e nos quais encontramos, segundo o h&aacute;bito de Bakunin, disserta&ccedil;&otilde;es relativas a assuntos conexos, foram reproduzidos em M&eacute;moire de la F&eacute;der&aacute;tion Jurassiene que antes de 1914, encontr&aacute;vamos reunido, em um espesso volume, em numerosas bibliotecas sindicais da C.G.T. francesa.&rdquo; LEVAL, Gaston. Bakunin, Fundador do Sindicalismo Revolucion&aacute;rio. S&atilde;o Paulo: Imagin&aacute;rio\/Fa&iacute;sca, 2007, p. 42.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>7. Sobre o conceito de vetor social. Cf. SAMIS, Alexandre. &ldquo;Pavilh&atilde;o Negro sobre P&aacute;tria Oliva: sindicalismo e anarquismo no Brasil&rdquo; In&nbsp; COLOMBO, Eduardo; et AL. Hist&oacute;ria do Movimento Oper&aacute;rio Revolucion&aacute;rio. Tradu&ccedil;&atilde;o de Pl&iacute;nio Coelho. 1&ordf; ed., S&atilde;o Paulo, Imagin&aacute;rio, 2004.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>8. CLARK, Stuart. Pensando com os Dem&ocirc;nios. S&atilde;o Paulo: Edusp, 2006, p. 687.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>9. Sobre isso, Bourdieu nos alerta que, esta tend&ecirc;ncia &ldquo;frequentemente representada por pessoas que se filiam ao marxismo, quer relacionar o texto ao contexto e prop&otilde;e-se a interpretar as obras colocando-as em rela&ccedil;&atilde;o com o mundo social ou o mundo econ&ocirc;mico.&rdquo; BOURDIEU, Pierre. Os usos sociais da ci&ecirc;ncia: por uma sociologia cl&iacute;nica do campo cient&iacute;fico. S&atilde;o Paulo: Editora UNESP, 2004, p. 19. Deste modo uma obra (ou ideologia) como o anarquismo s&oacute; tem significado quando reduzida ao contexto em que foi gestada. Deste modo, Proudhon, acaba sendo facilmente associado a um mundo &ldquo;pr&eacute;-industrial&rdquo;. Sua obra &eacute; enquadrada convenientemente nos limites do contexto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>10. ROSANVALLON, Pierre. Por uma Hist&oacute;ria Conceitual do Pol&iacute;tico (nota de trabalho). Tradu&ccedil;&atilde;o de Paulo Martinez Universidade de S&atilde;o Paulo. N&Uacute;CLEO DE S&Atilde;O PAULO. Revista Brasileira de Hist&oacute;ria, S&atilde;o Paulo, v. 15, n0 30, 1995, p. 12.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>11. Sobre isso, Cf. BOURDIEU, 2004, p. 19.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>12. Sobre esta abordagem, Cf. CERUTTI, Simona. Microhistyory: social relations versus cultural models. In: CASTR&Eacute;N, Anna-Maija; LONKILA, Markku; PELTONEN, Matti (Eds). Between sociology and history. Helsinki: SKS\/Finnish Literature Society, 2004.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>13. Esse &eacute; o caso de George Woodcock que, mantendo a caricatura individualista sobre o anarquismo, trata Proudhon como um &ldquo;individualista&rdquo; social.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>14. Como o faz Eltzbacher (2004) apud CORR&Ecirc;A, 2012, p. 40: &ldquo;Os ensinamentos anarquistas t&ecirc;m em comum apenas uma coisa: eles negam o Estado no futuro&rdquo;. Roderick Edward afirma que &ldquo;o la&ccedil;o que une todos os anarquistas&rdquo; &eacute; &ldquo;o antagonismo a qualquer situa&ccedil;&atilde;o regulada pela imposi&ccedil;&atilde;o, pela obriga&ccedil;&atilde;o ou pela opress&atilde;o&rdquo;, um aspecto que constituiria, para ele, o fundamento do antiestatismo anarquista KEDWARD, 1971 apud CORR&Ecirc;A, 2012, pp. 5-6. Corinne Jacker (1968) sustenta que &ldquo;outro termo para anarquismo &eacute; antiestatismo&rdquo; JACKER Apud CORR&Ecirc;A, Ibidem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>15. Cf. SILVA, Rafael Viana da. &ldquo;Anarquismo Contra o Anarquismo&rdquo;. In: Anarkismo.net, 2011b. Dispon&iacute;vel em <http: 20240=\"\" article=\"\" www.anarkismo.net=\"\">. Acessado em 01\/09\/2012.<\/http:><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>16. SCHMIDT, VAN DER WALT, 2009, p. 71, tradu&ccedil;&atilde;o nossa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>17. Idem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>18. Idem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>19. Ibid, p. 14.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>20. SCHMIDT, VAN DER WALT, 2009, p. 127, tradu&ccedil;&atilde;o nossa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>21. SCHMIDT, VAN DER WALT, 2009, p. 20, tradu&ccedil;&atilde;o nossa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>22. O investimento dos anarquistas nessa estrat&eacute;gia de massas chegou, em alguns momentos, a confundir anarquismo e sindicalismo. Tal discuss&atilde;o, j&aacute; cl&aacute;ssica, foi abordada em parte das discuss&otilde;es do Congresso de Amsterd&atilde;, particularmente nos argumentos dos anarquistas Errico Malatesta e Pierre Monatte em sua discuss&atilde;o sobre as diferen&ccedil;as entre os fins e os meios do anarquismo. Monatte defendia que os fins do sindicalismo eram os mesmos do anarquismo e Malatesta argumentava que o sindicalismo s&oacute; poderia ser o meio, mas n&atilde;o o fim. Em alguns pa&iacute;ses, os anarquistas orientaram-se primordialmente para a constitui&ccedil;&atilde;o e a participa&ccedil;&atilde;o de sindicatos revolucion&aacute;rios, ignorando a forma&ccedil;&atilde;o de organiza&ccedil;&otilde;es espec&iacute;ficas anarquistas; em outros pa&iacute;ses, a estrat&eacute;gia de massas articulou-se com grupos\/organiza&ccedil;&otilde;es espec&iacute;ficos\/as anarquistas, que atuavam de maneira mais ou menos organizada dentro das entidades de classe, realizando n&atilde;o apenas a &ldquo;propaganda&rdquo;, mas fazendo um trabalho organizativo em seu seio. Essa diferen&ccedil;a de &ldquo;sintonia fina&rdquo; na estrat&eacute;gia de massas anarquista ocasionou problemas nas pr&oacute;prias an&aacute;lises hist&oacute;ricas, que costumam ter dificuldades em observar nela as pr&aacute;ticas pol&iacute;ticas anarquistas, chegando ao extremo de dissociar uma coisa da outra. O &ldquo;excesso&rdquo; de sindicalismo dos anarquistas em determinados contextos fez com que alguns estudos dissociassem o sindicalismo revolucion&aacute;rio (estrat&eacute;gia anarquista para os sindicatos, mas operacionalizada pelo conjunto da classe organizada) do anarquismo, ou chegassem ao limite de considerarem o sindicalismo revolucion&aacute;rio uma am&aacute;lgama de socialismo e sindicalismo, tese esta que n&atilde;o se sustenta factualmente. Sobre a influ&ecirc;ncia anarquista no sindicalismo revolucion&aacute;rio, Cf. SAMIS, 2008. Para uma cr&iacute;tica da dissocia&ccedil;&atilde;o do anarquismo e sindicalismo revolucion&aacute;rio, Cf. CORR&Ecirc;A, Felipe. Ideologia e Estrat&eacute;gia: Anarquismo, Movimentos Sociais e Poder Popular. S&atilde;o Paulo: Fa&iacute;sca, 2011.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>23. SCHMIDT, VAN DER WALT, 2009, p. 20, tradu&ccedil;&atilde;o nossa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>24. E ainda assim &eacute; oportuno dizer que a estrat&eacute;gia insurrecionalista conviveu com a estrat&eacute;gia de massas neste per&iacute;odo. Jamais foi hegem&ocirc;nica no pr&oacute;prio anarquismo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>25. Uma iniciativa neste sentido foi realizada por Felipe Corr&ecirc;a. Cf. CORR&Ecirc;A, Felipe. Rediscutindo o anarquismo: uma abordagem te&oacute;rica. Orientador: Prof. Dr. Marco Antonio Bettine de Almeida. S&atilde;o Paulo, 2012. Disserta&ccedil;&atilde;o (Mestrado em Ci&ecirc;ncias). Programa de Mudan&ccedil;a Social e Participa&ccedil;&atilde;o Pol&iacute;tica, da Escola de Artes, Ci&ecirc;ncias e Humanidades, da Universidade de S&atilde;o Paulo, 2012.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>26. SCHMIDT, VAN DER WALT, 2009, p. 09, tradu&ccedil;&atilde;o nossa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>27. Idem, tradu&ccedil;&atilde;o nossa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Bibliografia ao final da quinta parte<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este livro, Black Flame, dos sul-africanos Michael Schmidt e Lucien Van der Walt, nos ajuda a compreender a dimens\u00e3o mundial do anarquismo at\u00e9 o in\u00edcio da 2\u00aa Guerra Mundial e desconstr\u00f3i mitos baseados em falsas premissas como as criticadas neste artigo de f\u00f4lego. 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