{"id":1759,"date":"2018-10-07T12:45:59","date_gmt":"2018-10-07T15:45:59","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanaliseblog.com\/?p=1759"},"modified":"2018-10-07T12:45:59","modified_gmt":"2018-10-07T15:45:59","slug":"voto-democracia-substantiva-e-a-politica-alem-da-urna","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=1759","title":{"rendered":"Voto, democracia substantiva e a pol\u00edtica al\u00e9m da urna"},"content":{"rendered":"<p><u>07 de outubro de 2018, <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/blimarocha\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bruno Lima Rocha<\/a> <\/u><\/p>\n<p>Mesmo sabendo das urg\u00eancias dos tempos, e dos pesadelos que vivemos como sociedade, eu tomo a liberdade de apresentar um breve debate de teoria pol\u00edtica, especificamente, de teoria da radicaliza\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica dentro do capitalismo semiperif\u00e9rico como o praticado no Brasil. Vamos ao debate. Todo per\u00edodo eleitoral a cidadania brasileira se v\u00ea diante do espelho. E agora? Votar em quem? Quais os crit\u00e9rios? E a pol\u00edtica, existe al\u00e9m do voto? Sim, existe, e a\u00ed, como faz\u00ea-la para al\u00e9m das redes sociais? O debate \u00e9 urgente e o tempo muito curto.<\/p>\n<p>A orienta\u00e7\u00e3o para o voto \u00e9 talvez um dos temas mais delicados em teoria pol\u00edtica. Primeiro porque supomos que o bem comum \u00e9 um valor de toda a sociedade, quando na verdade, a luta por este significado \u2013 o que \u00e9 o melhor para as maiorias \u2013 \u00e9 a arte da pol\u00edtica. Ou seja, se o eleitor e a eleitora n\u00e3o tiverem uma demanda espec\u00edfica, deveriam votar conforme a defesa dos interesses diretos do maior n\u00famero de cidad\u00e3os poss\u00edveis. Assim, a primeira dica \u00e9 observar os programas de governo e a trajet\u00f3ria pregressa de cada candidatura, tanto na proporcional como na majorit\u00e1ria.<\/p>\n<p>Outro problema \u00e9 compreender quais s\u00e3o os interesses das maiorias e como se organiza esta defesa. Em outras palavras, como garantir que haver\u00e1 controle sobre os representados \u2013 ao menos controle parcial \u2013 e o povo, a classe trabalhadora, as mulheres, a maioria afro-brasileira, quem mora na ro\u00e7a e no campo, os povos das florestas, as na\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas, enfim, o Brasil verdadeiro, n\u00e3o ser\u00e1 novamente uma moeda de troca barata para garantir a tal da governabilidade?<\/p>\n<p>Complica mais o esquema mental proposto pela democracia delegativa, liberal, de procedimentos, representativa, indireta e burguesa, saber que existem estruturas de poder permanentes e a complexidade do aparelho de Estado est\u00e1 muito al\u00e9m do rito do voto. A soberania popular \u00e9 parcialmente traduzida atrav\u00e9s dos pleitos como express\u00e3o da vontade coletiva. Parcialmente por uma s\u00e9rie de fatores, mas dois se destacam. Um, de ordem dom\u00e9stica, implica nas entranhas de corpora\u00e7\u00f5es de Estado com grupos hegem\u00f4nicos, sejam elites dirigentes e fra\u00e7\u00f5es de classe dominante. A ascens\u00e3o da caserna, o protagonismo das carreiras jur\u00eddicas atrav\u00e9s das a\u00e7\u00f5es intempestivas da Lava-Jato, implica uma evid\u00eancia: estamos diante da cria\u00e7\u00e3o pactuada de um Novo Poder Moderador, uma alian\u00e7a da farda com a toga, n\u00e3o verticalizada como foi a ditadura militar e seu regime, mas com proje\u00e7\u00e3o sobre o sistema pol\u00edtico, ao lado do Baronato Financeiro e dos Donos da M\u00eddia.<\/p>\n<p>O fator de ordem externa implica na fragilidade das posi\u00e7\u00f5es brasileiras a partir de sua pouca coes\u00e3o. O Estado brasileiro \u00e9 uma peneira e a lealdade do andar de cima do pa\u00eds \u00e9 digna da Rep\u00fablica do Bananist\u00e3o. Somos uma pot\u00eancia econ\u00f4mica, exemplo de resili\u00eancia do povo que trabalha, mas com uma l\u00f3gica dominante predat\u00f3ria, alienada e subalterna. Os \u201cinvestidores\u201d, ou seja, \u201cos aplicadores financeiros\u201d externos, associados \u00e0s hienas internas ou n\u00e3o, devastam e corroem a maior parte dos instrumentos de pol\u00edtica econ\u00f4mica soberana. A depend\u00eancia \u00e9 tamanha que atravessa as estruturas de mentalidades tamb\u00e9m dentro das For\u00e7as Armadas, como era de se esperar e se espelha no campo de alian\u00e7as do Coiso (a farda, o latif\u00fandio e o mercado especulativo).\u00a0 No Brasil a depend\u00eancia \u00e9 de m\u00e3o dupla, e seu ponto mais alto, al\u00e9m da importa\u00e7\u00e3o de tecnologia de ponta, est\u00e1 na dimens\u00e3o ideol\u00f3gica das elites brasileiras.<\/p>\n<p>Voltando ao debate eleitoral e partindo do princ\u00edpio dos interesses das maiorias, quem defender or\u00e7amento adequado para as pol\u00edticas p\u00fablicas, o avan\u00e7o dos direitos sociais e coletivos, deve ter mais simpatia da massa do que discursos particulares ou de supremacia. Neste quesito, a elei\u00e7\u00e3o de 2018 \u00e9 \u00fanica. O debate pol\u00edtico circula em sociedade atrav\u00e9s de estere\u00f3tipos e do \u00f3dio. Infelizmente, misoginia, racismo e viol\u00eancia estatal est\u00e3o presentes no pleito.\u00a0 Minha segunda dica \u00e9 o caminho inverso disso.<\/p>\n<p>As escolhas do eleitorado tamb\u00e9m deveriam estar ancoradas nos compromissos cotidianos. Explico. Quanto mais organizada for uma sociedade, quanto maior o n\u00famero de pessoas participando de a\u00e7\u00f5es coletivas (como sindicatos, associa\u00e7\u00f5es, movimentos e causas), maior a capacidade de press\u00e3o debaixo para cima, subordinando a representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e0s maiorias. Essa \u00e9 a dimens\u00e3o substantiva da democracia e sua meta-fim.<\/p>\n<p>A participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica supera, e muito, a capacidade de intermediar e de representa\u00e7\u00e3o das oligarquias pol\u00edticas. Isso \u00e9 muito bom. Assim, a orienta\u00e7\u00e3o do voto tamb\u00e9m passa pela compreens\u00e3o das candidaturas quanto \u00e0 limita\u00e7\u00e3o da democracia formal. Trata-se da necessidade de avan\u00e7ar no controle social sobre o Estado, n\u00e3o deixando o or\u00e7amento p\u00fablico sob o controle dos \u201ct\u00e9cnicos\u201d a servi\u00e7o das elites. \u00a0A democracia deve ser a express\u00e3o do poder das maiorias desfavorecidas, colocando a pol\u00edtica ao servi\u00e7o do povo organizado. Isso vai muito al\u00e9m dos desejos e pronunciamentos, trata-se sim da correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as reais e projetadas, sendo medidas numa queda de bra\u00e7o permanente.<\/p>\n<p>O Brasil est\u00e1 de p\u00e9 diante da amea\u00e7a fascista e para frear a rea\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m \u00e9 preciso ir al\u00e9m do voto \u00fatil e da mobiliza\u00e7\u00e3o em tempos de elei\u00e7\u00f5es. Infelizmente, nosso pa\u00eds se politizou atrav\u00e9s da difus\u00e3o da ignor\u00e2ncia pol\u00edtica e tendo por base o \u00f3dio nas redes sociais. O resultado dos \u00faltimos quatro anos n\u00e3o poderia ser diferente.\u00a0 Uma candidatura ultrarreacion\u00e1ria, defendendo a tortura e a redu\u00e7\u00e3o de direitos sociais, se apresentando como \u201cantissistema\u201d e na verdade, querendo uma nova forma de ditadura. Caso o pior aconte\u00e7a na urna, ser\u00e1 tarefa de todas e todos impedirmos que a democracia sucumba diante da tenta\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria vinda da latrina do andar de cima e suas for\u00e7as auxiliares. Se o pesadelo n\u00e3o se concretizar nas elei\u00e7\u00f5es, as amea\u00e7as seguir\u00e3o vigentes. O momento \u00e9 urgente e quem sabe faz a hora, n\u00e3o espera o pior acontecer.<\/p>\n<p><em>Bruno Lima Rocha<\/em> \u00e9 p\u00f3s-doutorando em economia pol\u00edtica; doutor e mestre em ci\u00eancia pol\u00edtica, graduado jornalista e professor de rela\u00e7\u00f5es internacionais e de jornalismo.<\/p>\n<p>(estrategiaeanaliseblog.com \/ E-mail e Facebook: <a href=\"mailto:blimarocha@gmail.com\">blimarocha@gmail.com<\/a> \/ grupo no telegrama: t.me\/estrategiaeanalise)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>07 de outubro de 2018, Bruno Lima Rocha Mesmo sabendo das urg\u00eancias dos tempos, e dos pesadelos que vivemos como sociedade, eu tomo a liberdade de apresentar um breve debate de teoria pol\u00edtica, especificamente, de teoria da radicaliza\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica dentro do capitalismo semiperif\u00e9rico como o praticado no Brasil. Vamos ao debate. 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