{"id":1831,"date":"2018-11-22T14:10:47","date_gmt":"2018-11-22T16:10:47","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanaliseblog.com\/?p=1831"},"modified":"2018-11-22T14:10:47","modified_gmt":"2018-11-22T16:10:47","slug":"que-tipo-de-formacao-de-brasilidade-e-essa-que-convicta-elege-bolsonaro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=1831","title":{"rendered":"QUE TIPO DE FORMA\u00c7\u00c3O DE BRASILIDADE \u00c9 ESSA QUE CONVICTA ELEGE BOLSONARO?!"},"content":{"rendered":"<p>22 de novembro de 2018, Bruno Lima Rocha<\/p>\n<p>Desta vez assumo uma condi\u00e7\u00e3o de ensaio, explora\u00e7\u00e3o do tema mesmo. A elei\u00e7\u00e3o do deputado federal pelo PSL-RJ, Jair Messias Bolsonaro, foi fruto de um conjunto de fatores e tamb\u00e9m, m\u00e9rito eleitoral tanto de seu proselitismo como do conjunto de alian\u00e7as eleitorais, econ\u00f4micas e sociais ao seu redor. Disto n\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas, assim como o bloqueio da candidatura do ex-presidente Lula e a n\u00e3o transfer\u00eancia de votos, al\u00e9m de uma enxurrada de Fake News.<\/p>\n<p>Mas, para al\u00e9m dos efeitos eleitorais, superando o voto de protesto e a nega\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica, ultrapassando a migra\u00e7\u00e3o da pobreza e do desamparo, com uma parcela de votos que migra de Lula para o ex-capit\u00e3o de artilharia de curta carreira na For\u00e7a Terrestre, existe uma d\u00favida de profundidade.<\/p>\n<p>Que tipo de Brasil, qual a ideia de Brasil, quais ideias de Brasil que elegeram Bolsonaro?!<\/p>\n<p>Tenho medo de cair em armadilhas conceituais, como querendo rebater aos cl\u00e1ssicos do conservadorismo, a exemplo de Oliveira Vianna (a quem Golbery do Couto e Silva se referia como &#8220;mestre Vianna&#8221;), ou o perigoso Nina Rodrigues, por exemplo. Meus temores passam por integralistas como Gustavo Barroso e Pl\u00ednio Salgado. Mas, no meio desta tormenta, me deparo com a obviedade de que a Barata Cascuda, o folclorista C\u00e2mara Cascudo, participou dos Galinhas Verdes e isso a gera\u00e7\u00e3o protofascista do s\u00e9culo XXI sequer faz.<\/p>\n<p>Estamos diante de uma gigantesca esquizofrenia. Desde o del\u00edrio Udenista P\u00f3s-Moderno dos coxinhas de 2015 e 2016, passando pela campanha paralela do cl\u00e3 Bolsonaro, trata-se de\u00a0 um Brasil profanando o verde e amarelo como verniz, negacionista de quase tudo, opositor inclusive aos feitos da direita brasileira. Ou aos feitos das direitas brasileiras. Este que escreve se fosse politicamente ativo no per\u00edodo de 1964, certamente agora estaria no al\u00e9m. Mas, n\u00e3o posso negar que a ditadura militar tinha proje\u00e7\u00f5es de Brasil Grande, e este \u00e9 igualmente negado. Se vivo fosse nos anos &#8217;30, a partir de 1934 especificamente, certamente me encontraria tamb\u00e9m no mundo de l\u00e1, mas tampouco posso negar que os governos autorit\u00e1rios de Vargas, incluindo o Estado Novo, tinha um projeto de pa\u00eds integrado e com o controverso elogio da mesti\u00e7agem. Assim, ainda que eu critique a invisibilidade afrobrasileira, identifico no projeto cultural do eixo Rio-Minas-Bahia da Era Vargas, simplesmente um projeto de pa\u00eds afrocentrado.<\/p>\n<p>Poderia ficar buscando pistas republicanas, mas isso me parece ir mais al\u00e9m. Observando a est\u00e9tica pol\u00edtica do cl\u00e3 vitorioso e seus aliados, ultrapassando o espelho retorcido que tenta mimetizar e porque n\u00e3o imitar loucamente as posi\u00e7\u00f5es dos EUA como Superpot\u00eancia, o que vejo remonta aos marcos coloniais do Imp\u00e9rio Luso-Brasileiro e suas consequ\u00eancias.<\/p>\n<p><strong>Ra\u00edzes no Imp\u00e9rio?<\/strong><\/p>\n<p>Estava pensando no Brasil Imp\u00e9rio e justamente em dois movimentos do Estado no per\u00edodo. O primeiro, a afirma\u00e7\u00e3o da &#8220;nobreza ilegal&#8221;, tanto como forma de sustentar o in\u00edcio dos parasitas que aqui chegaram escoltados pela Marinha Inglesa &#8211; e todas as suas consequ\u00eancias &#8211; como depois, no per\u00edodo da Reg\u00eancia e o Golpe da Maioridade, quando o paradigma pol\u00edtico oportunista de Bernardo Vasconcellos faz derrubar as m\u00e1scaras do liberalismo conservador brasileiro.<\/p>\n<p>No auge do Segundo Reinado, a escolha preferencial pela importa\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra, apontando a necessidade do\u00a0 pa\u00eds ter &#8220;popula\u00e7\u00e3o branca&#8221;, mesmo sendo estes os pobres da Europa, a cristandade distante do Oriente M\u00e9dio (de onde vem majoritariamente este mortal que aqui escreve) ou mesmo apontando as baterias para a importa\u00e7\u00e3o de &#8220;americanos&#8221;\u00a0 no interior de S\u00e3o\u00a0 Paulo. Enfim, j\u00e1 na rep\u00fablica chegaram os nip\u00f4nicos e todos nos tornamos automaticamente, socialmente brancos e dotados dos benef\u00edcios desta posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Vejamos a elei\u00e7\u00e3o de 2014. A presidente reeleita \u00e9 filha de um exilado b\u00falgaro e uma fam\u00edlia quatrocentona mineira. Seu vice, primeira gera\u00e7\u00e3o no pa\u00eds, de origem libanesa maronita e se torna presidente. Olhando assim, esta \u00e9 a terra das oportunidades. Ser\u00e1?<\/p>\n<p>Esta pode ser a dica da vis\u00e3o de brasilidade. Somos todos integrados, desde que obedecendo a &#8220;ordem social das coisas&#8221;. Para isso, a vota\u00e7\u00e3o expressiva de Bolsonaro sobre a mancha da soja e do latif\u00fandio da coloniza\u00e7\u00e3o interna explica muito.<\/p>\n<p><strong>Charles Borer como paradigma de ascens\u00e3o e queda <\/strong><\/p>\n<p>Recentemente um amigo e companheiro de longas jornadas falou em evento pol\u00edtico-acad\u00eamico algo que me chamou a aten\u00e7\u00e3o. &#8220;J\u00e1 passamos da fase de tentar responder perguntas dif\u00edceis com resposta f\u00e1ceis. Reafirmamos a escola libert\u00e1ria uruguaia: certeza ideol\u00f3gica, d\u00favida te\u00f3rica, precis\u00e3o anal\u00edtica&#8221;. Assino embaixo.<\/p>\n<p>Falo isso porque n\u00e3o basta explicar a vota\u00e7\u00e3o de Bolsonaro por nenhuma categoria absoluta e menos ainda cabe negar a ascens\u00e3o de alguma ideia da extrema direita profundamente antag\u00f4nica a qualquer matriz social brasileira. Ficaria contente em afirmar que &#8220;o viralatismo explica&#8221;. Explica muito sim, mas n\u00e3o tudo. O racismo estrutural tamb\u00e9m est\u00e1 mais perto do que imaginamos, assim como os esgotos do inconsciente, mas n\u00e3o basta.<\/p>\n<p>N\u00e3o basta porque n\u00e3o imagino um modelo de Brasil que essa gente, ao menos os 20% de convictos da extrema direita, consiga ver como v\u00e1lida. Para al\u00e9m dos holofotes, da &#8220;guerra cultural atrav\u00e9s da Unizap&#8221;, da &#8220;memifica\u00e7\u00e3o&#8221; da pol\u00edtica, ser\u00e1 que essa parcela convicta j\u00e1 foi numa feira livre? Perdoem o carioquismo, mas ser\u00e1 que esse pessoal j\u00e1 escutou Jorge Ben ou Tim Maia, se maravilhou com um partido alto ou foi \u00e0s l\u00e1grimas ouvindo Cartola ou dona Clementina?<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o quero fazer desse ensaio um arremedo de cr\u00f4nica de Jo\u00e3o Saldanha e Sandro Moreyra, mesmo porque teria de nascer ao menos cinco vezes para escrever com dez por cento do talento dos dois. Mas, um pouco de Botafogo ajuda a explicar. Dizem que o cl\u00e3 \u00e9 alvinegro, como este aqui que peleia com as palavras. Nasci com a estrela solit\u00e1ria como fralda, sendo filho e neto dos dois lados. Enfim, pensamos no Glorioso e imaginamos um banho de Brasil em preto e branco, como Manga, Nilton Santos, Didi, Garrincha, Jairzinho, Afonsinho, Paulo C\u00e9sar, Heleno de Freitas, Amarildo (ufa, vou parar por aqui para n\u00e3o narrar vinte linhas de craques imortais). Ao vislumbrar o Fog\u00e3o ningu\u00e9m mais se lembra do tenebroso per\u00edodo de Charles Borer como presidente, ele mesmo, irm\u00e3o de Cecil Borer, o todo poderoso delegado do DOPS da Guanabara. Borer foi presidente de 1976 a 1981, incluiu mais de 400 conselheiros para votar nele de forma incondicional (chamados de borem\u00e9ritos) e quando em 1981 o Conselho foi votar seu impeachment, chegou escoltado de seguran\u00e7as e com tr\u00eas viaturas da PMERJ. Saiu escorra\u00e7ado igual e hoje o clube esconde este passado recente, onde ficamos sem sede hist\u00f3rica e sem t\u00edtulos de nenhuma ordem. Enfim, analogias \u00e0 parte, para al\u00e9m das alegorias futebol\u00edsticas, isso pode explicar muito.<\/p>\n<p>Estamos diante de uma f\u00f3rmula desastrosa: a ascens\u00e3o imagin\u00e1ria, um governo de ocupa\u00e7\u00e3o, desastres terr\u00edveis, aproveitadores de todo tipo e, se fizermos nossa parte, vir\u00e1 a renascen\u00e7a t\u00e3o furiosa como o clube de samba do mesmo nome no bairro do Andara\u00ed. Vai doer, mas vai passar, e passar\u00e1 mais r\u00e1pido se as esquerdas mergulharem definitivamente, de cabe\u00e7a e alma na forma\u00e7\u00e3o do povo brasileiro. Um p\u00e9 em cada mundo, como Beth Carvalho e Gonzaguinha, generosos com os humildes iludidos e irredut\u00edveis com os usurpadores.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Bruno Lima Rocha<\/em> \u00e9 p\u00f3s-doutorando em economia pol\u00edtica, doutor e mestre em ci\u00eancia pol\u00edtica, professor de rela\u00e7\u00f5es internacionais e jornalismo e, mais importante do que tudo isso, \u00e9 brasileiro e botafoguense.<\/p>\n<p>(estrategiaeanaliseblog.com \/ <a href=\"mailto:blimarocha@gmail.com\">blimarocha@gmail.com<\/a> \/\u00a0 Facebook\u00a0 e Telegram: t.me\/estrategiaeanalise)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>22 de novembro de 2018, Bruno Lima Rocha Desta vez assumo uma condi\u00e7\u00e3o de ensaio, explora\u00e7\u00e3o do tema mesmo. 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