{"id":1882,"date":"2019-01-20T19:41:50","date_gmt":"2019-01-20T21:41:50","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanaliseblog.com\/?p=1882"},"modified":"2019-01-20T19:41:50","modified_gmt":"2019-01-20T21:41:50","slug":"embraer-boeing-e-a-projecao-de-poder-tecnologico-do-imperio-artigo-de-economia-politica-e-geoestrategia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=1882","title":{"rendered":"EMBRAER, BOEING e a proje\u00e7\u00e3o de poder tecnol\u00f3gico do Imp\u00e9rio &#8211; artigo de economia pol\u00edtica e geoestrat\u00e9gia"},"content":{"rendered":"<p>Janeiro de 2019, <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/ricardo.camera.965\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ricardo Camera<\/a>, <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100001678239313\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Lucas Santos<\/a> e <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/blimarocha\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bruno Lima Rocha<\/a><\/p>\n<p>Estamos sob o bombardeio midi\u00e1tico e mesmo antes da crise da Nova Rep\u00fablica e do golpe com apelido de impeachment que derrubou a presidenta Dilma Roussef em seu segundo mandato, h\u00e1 um consenso for\u00e7ado \u2013 ou um consentimento for\u00e7oso \u2013 onde se associa a imagem de empresas p\u00fablicas ou estatais como \u201cineficientes\u201d. Ao mesmo tempo, as fal\u00e1cias de modelos neoliberais fazem com que parte da popula\u00e7\u00e3o aumente tanto sua desconfian\u00e7a para com o aparelho de Estado (o que \u00e9 compreens\u00edvel), mas tamb\u00e9m, assuma como suas teses que ferem totalmente a soberania do Brasil sobre seu destino e territ\u00f3rio. Tal \u00e9 o caso da Empresa Brasileira de Aeron\u00e1utica S.A., nascida uma estatal e transformada em transnacional de controle brasileiro at\u00e9 a \u201cfus\u00e3o\u201d com a estadunidense Boeing.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 preciso derrubar os mitos que cercam a opera\u00e7\u00e3o entre a Embraer e a Boeing\u201d. N\u00e3o \u00e9 uma parceria, ao contr\u00e1rio do que disseram os presidentes das duas empresas. Os neg\u00f3cios da Embraer v\u00e3o se dissolver na nova empresa, quando ela for englobada por uma companhia muito maior. Seguir\u00edamos como gado para o abate a quase \u201cinevit\u00e1vel\u201d via das fus\u00f5es e aquisi\u00e7\u00f5es. Dizem os \u201cespertos do mercado\u201d que n\u00e3o h\u00e1 outro caminho neste mercado de gigantes, mas \u00e9 bom usar as defini\u00e7\u00f5es certas. Isso se a \u201cfus\u00e3o\u201d for confirmada em definitivo. Geralmente a ind\u00fastria aeron\u00e1utica e aeroespacial \u00e9 um componente em que se verifica a capacidade industrial e tecnol\u00f3gica de um pa\u00eds independente. Ou seja, privada ou estatal, ter uma ind\u00fastria desta envergadura \u00e9 sinal de grandeza de um pa\u00eds. Perde-la \u00e9 derrota de igual envergadura.<\/p>\n<p>Como toda empresa estrat\u00e9gica, privada ou n\u00e3o, a m\u00e3o do Estado capitalista est\u00e1 presente. \u201cMesmo depois de ser privatizada, a fabricante de avi\u00f5es sempre voou com a ajuda do Estado, s\u00f3 do BNDES foram R$ 8 bilh\u00f5es de financiamentos e mais US$ 22 bi de cr\u00e9dito \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o.\u201d Disse a jornalista Miriam Leit\u00e3o em sua coluna, na mesma semana que a Embraer e a Boeing anuncia a cria\u00e7\u00e3o de uma joint-venture realizada no valor de 5,2 bilh\u00f5es de d\u00f3lares. Basicamente, a Boeing ir\u00e1 se apoderar nova empresa no que tange a parte de avia\u00e7\u00e3o civil, ficando com 80% da a\u00e7\u00f5es<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>. N\u00e3o obstante, deve-se levar em conta, na compara\u00e7\u00e3o entre as empresas, que a Embraer teve em 2017 lucro l\u00edquido de R$ 795,8 milh\u00f5es de reais e US$ 18,9 bilh\u00f5es de valor de mercado, enquanto, em outro patamar de escala, a Boeing teve no mesmo ano uma receita l\u00edquida de US$ 8,1 bilh\u00f5es de d\u00f3lares e valor de mercado de US$ 92,333 bilh\u00f5es &#8211; sem mencionar sua integra\u00e7\u00e3o em diversas cadeias globais de valor. A Boeing tem valor de mercado 11,3 vezes maior do que a Embraer. Afinal, o que observamos \u00e9 ou n\u00e3o uma empresa dos EUA em processo de aquisi\u00e7\u00e3o de uma empresa brasileira de grande valor estrat\u00e9gico nas suas dimens\u00f5es econ\u00f4mica, pol\u00edtica e militar?\u00a0 Logo, em isso se consumando, trata-se de uma evidente viola\u00e7\u00e3o de soberania nacional? Sim, cremos que sim.<\/p>\n<p>Para entender esse fato e seus poss\u00edveis desdobramentos \u00e9 preciso ter no\u00e7\u00e3o da l\u00f3gica maior que atravessa a quest\u00e3o. N\u00e3o basta simplesmente se indignar diante da venda da empresa e apenas propor o exato oposto, dada a arapuca que os expoentes not\u00f3rios da centro-esquerda nacionalista n\u00e3o perceberam ainda. Ou fingem n\u00e3o perceber. Contudo, o coro neoconservador e liberal ao acordo Boeing-Embraer tamb\u00e9m \u00e9 contradit\u00f3rio aos interesses brasileiros. Est\u00e1 mais para um<em> America First!<\/em> E o governo do presidente Jair Bolsonaro, aquele que bateu contin\u00eancia para um representante diplom\u00e1tico do <em>America First!<\/em> \u2013 pretende manter o negociado.<\/p>\n<p>De fato, as alternativas \u00e0 Embraer s\u00e3o complicadas, para n\u00e3o dizer dif\u00edceis. Mas afinal, que arapuca \u00e9 essa em que o Brasil caiu? Bem, a l\u00f3gica resumida da armadilha \u00e9 que os Estados Unidos, gra\u00e7as ao alto grau de desenvolvimento tecnol\u00f3gico de seus centros de pesquisas e complexo industrial-militar \u2013 costurados em uma grande estrat\u00e9gica nacional para derrotar a URSS \u2013 puderam ser a vanguarda de tecnologia sofisticada no mundo. Todavia, a partir dos anos \u201970 e \u201980, os pa\u00edses emergentes &#8211; Brasil, Argentina e tigres asi\u00e1ticos &#8211; e os aliados desenvolvidos e reestruturados da guerra \u2013 Comunidade Europeia e Jap\u00e3o \u2013 tamb\u00e9m passaram a almejar projetos nacionais de desenvolvimento tecnol\u00f3gico, que lhes conferissem o prestigio e autonomia frente a sistemas de telecomunica\u00e7\u00f5es e TI, ind\u00fastria aeroespacial, ind\u00fastria b\u00e9lica e correlatos.<\/p>\n<p>Contudo, existiam entraves reais para esses pa\u00edses, tanto no quesito de coopera\u00e7\u00e3o internacional, como na tentativa de se produzir sozinho determinada cadeira de valor. Em outras palavras, a maior parte do mundo, sob a influ\u00eancia direta ou indireta dos Estados Unidos, n\u00e3o poderia fazer acordos de investimentos e transfer\u00eancia de tecnologia com a URSS e seus aliados.\u00a0 N\u00e3o obstante, o desenvolvimento unilateral de t\u00e3o sofisticada ci\u00eancia tornaria o processo muito lento e custoso, visto que plantar alimentos e ter ind\u00fastria de bens de capitais s\u00e3o \u201cest\u00e1gios\u201d que os pa\u00edses em desenvolvimento e desenvolvidos citados j\u00e1 tinham cumprido. Agora, o complexo industrial-militar e seus derivados lidam com componentes muito mais avan\u00e7ados, que levam anos de planejamento e Pesquisa &amp; Desenvolvimento (P&amp;D). \u00a0Os Estados Unidos, por seu turno, tinham no\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o poderiam perder seus mercados cativos, nem permitir a emerg\u00eancia de pot\u00eancias militares e tecnol\u00f3gicas em seu quintal &#8211; amea\u00e7ando sua hegemonia geopol\u00edtica e geoestrat\u00e9gica. Por exemplo, a tentativa de desenvolvimento industrial aut\u00f4nomo durante o governo Geisel e a proje\u00e7\u00e3o de poder do Brasil sobre o Atl\u00e2ntico Sul, poderia implicar em presen\u00e7a geoestrat\u00e9gica no continente africano, algo que veio a ocorrer novamente durante os dos governos de Lula e ao menos o primeiro governo Dilma.<\/p>\n<p>Este tipo de cria\u00e7\u00e3o de excedentes de poder, caso impliquem tamb\u00e9m o controle sobre cadeias sens\u00edveis \u2013 como as de tecnologia militar associadas \u00e0 ind\u00fastria b\u00e9lica e de alta complexidade \u2013 pode criar uma rela\u00e7\u00e3o direta Sul-Sul, onde o Brasil p\u00f4de (ao menos parcialmente) exercer autonomamente sua pol\u00edtica externa. Territ\u00f3rios com as dimens\u00f5es potenciais do Brasil s\u00e3o \u201cde por si\u201d uma amea\u00e7a potencial permanente para as pot\u00eancias, e especificamente para a Superpot\u00eancia que projeta poder militar na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Concomitantemente, a ind\u00fastria nascente e j\u00e1 na forma de oligop\u00f3lios do Vale do Sil\u00edcio desejava expandir mercados e obter ganhos de produtividade em outras regi\u00f5es do globo. Ent\u00e3o a manobra estrat\u00e9gica foi a seguinte: difundir os capitais tecnol\u00f3gicos norte-americanos em todo o mundo capitalista, de modo a incorpora-los nos projetos nacionais de cada pa\u00eds; assim, obtendo uma s\u00e9rie de controles sutis, e dirigindo o processo da ind\u00fastria sofisticada nesses Estados. Por exemplo, impedindo o avan\u00e7o excessivo de tecnologia estrangeira ao n\u00e3o transferir todas as \u201ccartas da manga\u201d, mas apenas as que lhes interessavam.<\/p>\n<p>Por exemplo, tendo acesso aos c\u00f3digos fontes dos outros pa\u00edses, conhecendo detalhes precisos de seu sistema de inova\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o, espionagem industrial, backdoors e at\u00e9 boicote ou destrui\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria local. Como no emblem\u00e1tico caso da compra do parque b\u00e9lico argentino pelo maior oligop\u00f3lio das armas do planeta, a norte-americana <em>Lockheed Martins.<\/em> Ou nos sucessivos embargos do governo dos EUA \u00e0s vendas da Embraer &#8211; relativas aos EMB-314 Supertucanos; ou ainda, o boicote da avi\u00f4nica feito nos anos 1980, em raz\u00e3o da pol\u00edtica estadunidense supostamente interessada na prote\u00e7\u00e3o dos rela\u00e7\u00e3o aos diretos humanos, que de fato eram violados pelo governo militar. A falta de avi\u00f4nica (tecnologia sens\u00edvel de circuitos e eletr\u00f4nica), sem a qual os avi\u00f5es n\u00e3o voam, fez a Embraer parar sua produ\u00e7\u00e3o. Eis a arapuca montada. Somente Estados Unidos e aliados<\/p>\n<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td width=\"11\"><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><\/td>\n<td><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>anglo-sax\u00f5es, Fran\u00e7a, Jap\u00e3o e R\u00fassia possuem dom\u00ednio sobre a tecnologia embarcada na forma de avi\u00f4nicos. Na d\u00e9cada de \u201980, o pa\u00eds apostou na cria\u00e7\u00e3o de um ca\u00e7a bi-nacional, o AMX, em parceria com a ind\u00fastria b\u00e9lica da It\u00e1lia. O projeto n\u00e3o foi adiante.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos avi\u00f4nicos, uma s\u00e9rie de outros componentes chamados de aeroestruturas, vistas acima na pir\u00e2mide de subcontratos e fornecedores, e de alto valor agregado, n\u00e3o se produz o Brasil. Desse modo, o cen\u00e1rio que se projeta para o pais se eventualmente n\u00e3o aceit\u00e1ssemos no acordo Boeing-Embraer, e de repente, houvesse uma guinada ao conhecido \u201cBrasil Pot\u00eancia\u201d, seria uma resposta geoestrat\u00e9gia agressiva dos Estados Unidos, via uma poss\u00edvel escalada de embargos e boicotes aos produtos da Embraer. Seria importante testar esse tipo de confronto, mas o mesmo implica um alto n\u00edvel de coes\u00e3o interna, visto que seria a contraposi\u00e7\u00e3o de interesses estrat\u00e9gicos do Brasil contra o dos EUA. Isso, em tempos de ilus\u00f5es neoliberais e tentativa de alinhamento autom\u00e1tico com o governo Trump seria impens\u00e1vel com a aus\u00eancia de um nacionalismo popular mais agressivo e tamb\u00e9m mais entranhado dentro do aparelho militar brasileiro.<\/p>\n<p>Como mencionado, esse tipo de boicote j\u00e1 ocorreu diversas vezes, e n\u00e3o apenas com o Brasil. Como o caso exemplar de chantagem internacional, observemos a quest\u00e3o da Alemanha Ocidental e Fran\u00e7a, nos anos \u201970, as quais desenvolviam um sistema de sat\u00e9lites de telecomunica\u00e7\u00f5es aut\u00f4nomo, o <em>Simphony. <\/em>Seu lan\u00e7amento falhou miseravelmente e, logo em seguida, os EUA se ofereceram para lan\u00e7ar o programa <em>Simphony<\/em> somente na condi\u00e7\u00e3o de que a Alemanha e Fran\u00e7a n\u00e3o promovessem telecomunica\u00e7\u00f5es com esses sat\u00e9lites &#8211; promovendo, ent\u00e3o, a manuten\u00e7\u00e3o do monop\u00f3lio anglo-americano da Intelsat.<\/p>\n<p>Consequentemente, se por um lado uma guinada <em>\u00e0 l\u00e1 Geisel <\/em>\u00e9 amea\u00e7ada pela possibilidade de chantagens e embargos, de outro, h\u00e1 a quest\u00e3o comercial. De fato, mesmo sendo a terceira maior fabricantes de avia\u00e7\u00e3o civil do mundo, a Embraer n\u00e3o ter\u00e1 condi\u00e7\u00f5es de competir com a fus\u00e3o canadense-europeia da Airbus-Bombardier e a Boeing norte-americana. Ambas possuem um parque industrial tecnol\u00f3gico e fontes de financiamento que est\u00e3o a anos luz de um pa\u00eds semiperif\u00e9rico. Al\u00e9m disso, a tend\u00eancia \u00e9 que o Brasil corte investimentos p\u00fablicos e subs\u00eddios, incluindo compras governamentais das for\u00e7as armadas, o que dificultaria ainda mais a sobreviv\u00eancia da Embraer. Esta \u00e9 a armadilha formada. \u00a0Isso implica em quebra imediata da Embraer? Evidente que n\u00e3o, apenas que a empresa brasileira perderia em volume, sendo obrigada a buscar mercados espec\u00edficos e aprofundar a presen\u00e7a na avia\u00e7\u00e3o regional chinesa (em espec\u00edfico) e asi\u00e1tica como todo. Mas, para realizar esta medida que acabamos de citar, seria preciso uma vontade coesa e capacidade de consecu\u00e7\u00e3o das decis\u00f5es estrat\u00e9gicas.<\/p>\n<p>Isso quer dizer que o Brasil n\u00e3o tem alternativas? Bem, elas existem, mas como afirmamos acima, s\u00e3o complexas e envolvem um trabalho de pol\u00edtica externa, com\u00e9rcio exterior e pol\u00edtica industrial\/ci\u00eancia e tecnologia que o pr\u00f3ximo governo parece n\u00e3o ter como meta.\u00a0 Primeiro, ao redor de metade das exporta\u00e7\u00f5es brasileiras de aeronaves e helic\u00f3pteros tem como dire\u00e7\u00e3o os Estados Unidos, (o que reflete uma esp\u00e9cie de depend\u00eancia tamb\u00e9m na esfera de exporta\u00e7\u00f5es). Nesse sentido, poder\u00edamos cortar todas as exporta\u00e7\u00f5es do complexo aeron\u00e1utico brasileiro aos vizinhos do norte \u2013 e at\u00e9, se h\u00e1 aud\u00e1cia para isso, n\u00e3o entregar os projetos que j\u00e1 foram pagos, a menos que os Estados Unidos tirem embargos. Essa seria uma estrat\u00e9gia arriscada, dentro do pior dos cen\u00e1rios, por que tamb\u00e9m teria um alto custo pol\u00edtico e econ\u00f4mico ao Brasil, e contribuiria para quebrar todo o setor aeroespacial local &#8211; haja vista que n\u00e3o temos capacidade geoecon\u00f4mica de contrapor decis\u00f5es da superpot\u00eancia na mesma medida. N\u00e3o temos o potencial de nos defender tal qual \u00e0s retalia\u00e7\u00f5es no pre\u00e7o do petr\u00f3leo promovidas pela OPEP nos anos \u201970; mas sempre \u00e9 poss\u00edvel contar com uma manobra de nacionalismo popular interno de modo a contrapor a presen\u00e7a ideol\u00f3gica e cultural dos EUA sempre enfraquecendo a coes\u00e3o de nossos pa\u00edses.<\/p>\n<p>Outra estrat\u00e9gia para nos mantermos aut\u00f4nomos seria realizar acordos de coopera\u00e7\u00e3o internacional sul-sul com os pa\u00edses do BRICs, dado que R\u00fassia, China e \u00cdndia tem alto n\u00edvel tecnol\u00f3gico, dominam cadeias globais de valores; a pr\u00f3pria China j\u00e1 realizou parcerias no passado com a Embraer, e tamb\u00e9m deseja construir uma ind\u00fastria aeron\u00e1utica competitiva. Seria uma sa\u00edda de mestre. Mesmo o Jap\u00e3o, Coreia do Sul, Fran\u00e7a e Alemanha desejam se ver mais aut\u00f4nomos dos arb\u00edtrios dos Estados Unidos. S\u00e3o poss\u00edveis parceiros, que dependem de uma grandiosa persuas\u00e3o diplom\u00e1tica, um jeitinho brasileiro&#8230;<\/p>\n<p>H\u00e1 uma terceira sa\u00edda. A mais \u201cconveniente\u201d dentro dos par\u00e2metros do governo que se vislumbra. Celebrar um novo acordo com a Boeing, por\u00e9m, que a nova empresa seja no m\u00ednimo dividida 50\/50 e com a Golden Share do governo brasileiro, e n\u00e3o 80\/20 como est\u00e1 agora. Em segundo lugar, n\u00e3o negociar as \u00e1reas em que as for\u00e7as armadas estejam envolvidas. Seria o mais correto dentro do horizonte imediato. Um adendo: como fica a joint-venture da Embraer e Telebr\u00e1s, a Visiona, empresa construtora de sat\u00e9lites brasileira? Haver\u00e1 entrela\u00e7o institucional-pol\u00edtico-econ\u00f4mico-jur\u00eddico com os Estados Unidos? Sabe-se que, se for o caso, nossos c\u00f3digos-fonte necessariamente passar\u00e3o em m\u00e3os norte-americanas, tendo em vista seu arcabou\u00e7o jur\u00eddico. O mesmo vale para a \u00e1rea militar, se firmado o acordo de outra joint-venture para a produ\u00e7\u00e3o do avi\u00e3o KC-390. A contradi\u00e7\u00e3o se agrava quando vemos formalizado nos termos da licita\u00e7\u00e3o apresentada pelo governo no recente processo de compra de ca\u00e7as militares, o projeto FX-BR. A licita\u00e7\u00e3o utilizava de Acordos de Offset, cl\u00e1usulas de transfer\u00eancia completa de tecnologia, obrigat\u00f3rias no Brasil desde 1992 para compras governamentais no setor aeroespacial, que objetivam uma ampla absor\u00e7\u00e3o de tecnologia externa para redu\u00e7\u00e3o da discrep\u00e2ncia tecnol\u00f3gica frente aos pa\u00edses de economia desenvolvida.<\/p>\n<p>Em suma, h\u00e1 motivos suficientes para afirmar que a Embraer est\u00e1 enrascada, e que os militares, ao n\u00e3o pressionarem pela mudan\u00e7a nos termos, est\u00e3o embriagados e catat\u00f4nicos com os assuntos eleitorais nacionais \u2013 leia-se, protagonismo na pol\u00edtica dom\u00e9stica e abandono da proje\u00e7\u00e3o de poder aut\u00f4nomo dentro do Sistema Internacional. Ainda que, sejamos justos, os generais e brigadeiros tenham se preocupado, ao menos um pouco, com a parte militar da Embraer, teremos um desastre quase irrecuper\u00e1vel se a Boeing arrebentar nosso fr\u00e1gil tecido tecnol\u00f3gico-industrial.<\/p>\n<p>A encruzilhada \u00e9 de dupla envergadura. A mais exposta \u00e9 a incorpora\u00e7\u00e3o da Embraer S.A. e o pouco que resta do sonho de Alberto Santos Dumont e dos pioneiros da avia\u00e7\u00e3o brasileira se transformar em distopia imperialista. A outra encruzilhada \u00e9 supor que pela simples exist\u00eancia de for\u00e7as armadas estas sejam suficientemente nacionalistas e comprometidas com nossa soberania a ponto de serem anti-imperialistas diante da Superpot\u00eancia. Mas, \u00e9 preciso refor\u00e7ar. Defender a Embraer \u00e9 defender a capacidade instalada no territ\u00f3rio brasileiro e qualquer sa\u00edda de longo prazo vai precisar de uma ind\u00fastria aeron\u00e1utica e de avia\u00e7\u00e3o de ca\u00e7a para defender nosso espa\u00e7o a\u00e9reo das amea\u00e7as imperiais.<\/p>\n<p>Ricardo Camera \u00e9 estudante de rela\u00e7\u00f5es internacionais;\u00a0 Lucas Santos \u00e9 formado em ci\u00eancias da computa\u00e7\u00e3o e Bruno Lima Rocha \u00e9 professor de rela\u00e7\u00f5es internacionais e jornalismo; todos s\u00e3o membros do Grupo de Pesquisa Capital e Estado (https:\/\/capetacapitaleestado.wordpress.com)<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Ver em: https:\/\/g1.globo.com\/economia\/noticia\/boieng-e-embraer-fecham-acordo-para-formar-joint-venture.ghtml<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Janeiro de 2019, Ricardo Camera, Lucas Santos e Bruno Lima Rocha Estamos sob o bombardeio midi\u00e1tico e mesmo antes da crise da Nova Rep\u00fablica e do golpe com apelido de impeachment que derrubou a presidenta Dilma Roussef em seu segundo mandato, h\u00e1 um consenso for\u00e7ado \u2013 ou um consentimento for\u00e7oso \u2013 onde se associa a [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1883,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[28,36],"tags":[49,67,178],"class_list":["post-1882","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-economia-politica","category-politica-internacional","tag-entreguismo","tag-geoestrategia","tag-industria-belica"],"jetpack_publicize_connections":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1882","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1882"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1882\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1883"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1882"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1882"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1882"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}