{"id":2082,"date":"2019-09-08T22:15:23","date_gmt":"2019-09-09T01:15:23","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanaliseblog.com\/?p=2082"},"modified":"2019-09-08T22:15:23","modified_gmt":"2019-09-09T01:15:23","slug":"retomando-o-debate-sobre-o-conceito-de-imperialismo-artigos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=2082","title":{"rendered":"Retomando o debate sobre o conceito de imperialismo &#8211; artigos"},"content":{"rendered":"<p><u>08 de setembro de 2019, <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/blimarocha\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bruno Lima Rocha<\/a><\/u><\/p>\n<p>Preciso come\u00e7ar esta nova s\u00e9rie (creio eu) em fun\u00e7\u00e3o de algumas raz\u00f5es \u00f3bvias. A primeira e a mais sens\u00edvel das raz\u00f5es porque os conceitos s\u00e3o reais, ou ao menos intentam interpelar, interpretar o real vivido como experi\u00eancia concreta e n\u00e3o apenas o universo imagin\u00e1rio (que tamb\u00e9m forma o real vivido). Ou seja, isso existe, existe imperialismo e existem pot\u00eancias &#8211; no plural sim &#8211; imperialistas.<\/p>\n<p>Algumas pot\u00eancias s\u00e3o tamb\u00e9m herdeiras do colonialismo, e talvez por isso o general Villas B\u00f4as, no seu arroubo nacionalista circunstancial, tenha citado Ho Chi Mihn para atingir a imagem do presidente franc\u00eas, o banqueiro Emmanuel Macron. Tamb\u00e9m existem imp\u00e9rios tardios que se alastra na esteira do Imp\u00e9rio matriz, tal \u00e9 o caso dos EUA, o alvo da acusa\u00e7\u00e3o de imperialismo de nove entre dez militantes das esquerdas (onde me incluo). \u00d3bvio que do Imp\u00e9rio dos Gringos o mesmo general nada fala. Porque ser\u00e1?!<\/p>\n<p>Outra raz\u00e3o pr\u00e1tica do debate sobre o imperialismo \u00e9 reconhecer as formas contempor\u00e2neas e sair da vala comum da caricatura. Imperialismo n\u00e3o \u00e9 apenas uma invas\u00e3o de fuzileiros navais gringos, mas tamb\u00e9m \u00e9 isso, at\u00e9 hoje. O imperialismo \u00e9 a forma superior do capitalismo, e nisso at\u00e9 o L\u00eanin est\u00e1 correto &#8211; ao menos na an\u00e1lise &#8211; mas n\u00e3o s\u00f3. A Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica foi imperialista no Afeganist\u00e3o, seguindo a trajet\u00f3ria da disputa imperial anglo-russa nesta mesma regi\u00e3o. A rela\u00e7\u00e3o da China com o Vietn\u00e3 rec\u00e9m-unificado e liberto da invas\u00e3o dos EUA, isso ap\u00f3s combater franceses e japoneses, foi horrorosa. Neste caso, Deng Xiao Ping disse a que veio em todas as \u00e1reas.<\/p>\n<p>Mas, infelizmente, no s\u00e9culo XXI, as capacidades de proje\u00e7\u00e3o imperialistas, ao menos no campo da economia, reproduzem formas de capitalismo. Hoje, EUA, China, R\u00fassia e Uni\u00e3o Europeia (empatadas as \u00faltimas duas), \u00cdndia, Ir\u00e3 e Turquia em segundo plano, podem exercer press\u00f5es em alguma escala, gerando excedentes de poder de modo a violar soberanias e internalizar interesses externos para al\u00e9m de suas fronteiras e \u00e1reas de influ\u00eancia direta. Por seu peso relativo, podemos\u00a0 incluir sem d\u00favida alguma a Israel e Ar\u00e1bia Saudita nesta lista tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>S\u00e3o sistemas pol\u00edticos, formas de governo e regimes distintos, mas em termos de Economia Pol\u00edtica Internacional, a soma da concerta\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica de fra\u00e7\u00f5es de classe dominante com elite dirigente reproduz uma dimens\u00e3o imperialista. Observemos a corrida ao &#8220;eldorado africano&#8221;, uma das bases do renascimento de nosso continente co-irm\u00e3o: China, Fran\u00e7a, Turquia e at\u00e9 o Brasil (em um belo exerc\u00edcio de coopera\u00e7\u00e3o, mas nunca sem cr\u00edticas) disputam ou disputaram espa\u00e7os importantes, al\u00e9m dos EUA de sempre.<\/p>\n<p>Igualmente \u00e9 v\u00e1lido debater o tema, pois quase sempre o modelo do s\u00e9culo XIX, onde h\u00e1 um conjunto de alian\u00e7as locais que se beneficia da press\u00e3o externa &#8211; ou da desnacionaliza\u00e7\u00e3o das riquezas e da perda de soberania popular &#8211; ainda existe e se reproduz. E, pasmem, os interesses s\u00e3o muitas vezes de motiva\u00e7\u00e3o original ideol\u00f3gica &#8211; sentido de pertencimento &#8211; e caminham lado a lado com a mesquinharia t\u00edpica de quem muito tem, quer mais ainda, e se julga com um m\u00e9rito bem superior ao da maioria.<\/p>\n<p>Cabe tamb\u00e9m observar que a complexidade do tema pede um debate \u00e0 altura de sua amea\u00e7a, incluindo vers\u00f5es muito atuais, como os efeitos quase sempre nefastos da Coopera\u00e7\u00e3o Jur\u00eddica Internacional; da interpenetra\u00e7\u00e3o de redes sociais e grupos de desinforma\u00e7\u00e3o (o Brasil e a rela\u00e7\u00e3o com neopentecostais e ultraliberais da esc\u00f3ria do Partido Republicano exemplificam o problema) e tamb\u00e9m da loucura mal intencionada como da transloucada e perigosa tese da &#8220;conspira\u00e7\u00e3o globalista&#8221;.<\/p>\n<p>Por fim, conspira\u00e7\u00e3o e presen\u00e7a externa assim como espionagem e guerras h\u00edbridas s\u00e3o assuntos t\u00e3o evidentes e s\u00e9rios que n\u00e3o podemos ser irrespons\u00e1veis ao confundir esta seriedade com absurdas e delirantes &#8220;teorias conspirat\u00f3rias totalizantes sem evid\u00eancias nem conceitos&#8221;. O debate urge e os prazos correm (no meu caso, literalmente). Este perfil e adjac\u00eancias aceita (aceitam) sugest\u00f5es e cr\u00edticas.<\/p>\n<p><strong>A primeira etapa p\u00f3s Guerra Fria at\u00e9 o auge posterior ao 11 de setembro de 2001<\/strong><\/p>\n<p>O mais evidente deste conceito \u00e9 a presen\u00e7a militar, especificamente dos EUA, operando nove comandos combatentes permanentes. A proje\u00e7\u00e3o de excedentes de poder pela via da for\u00e7a n\u00e3o \u00e9 exclusividade do Imp\u00e9rio Gringo, mas a dimens\u00e3o e o volume em que isso ocorre sim. No per\u00edodo p\u00f3s-Guerra Fria e pr\u00e9 11 de setembro, o Pent\u00e1gono inaugura uma etapa que vai atender pelo Guerra Total ao\u00a0 Terror (GWOT da sigla em ingl\u00eas). H\u00e1 controv\u00e9rsias se esta inicia ap\u00f3s o primeiro atentado contra as Torres G\u00eameas (em 26 de fevereiro de 1993) ou derivados da explos\u00e3o simult\u00e2nea das embaixadas estadunidenses em Nair\u00f3bi, capital do Qu\u00eania e tamb\u00e9m em Dar es Salaam, na Tanz\u00e2nia (em 07 de agosto de 1998). A escala ganha por estas opera\u00e7\u00f5es ap\u00f3s o 11 de setembro \u00e9 enorme, mas a doutrina j\u00e1 estava estabelecida antes. Ou seja, come\u00e7a com o governo Bill Clinton (Partido Democrata) e segue no governo eleito atrav\u00e9s de fraude, com Bush Jr (Partido Republicano) derrotando a Al Gore.<\/p>\n<p>A concep\u00e7\u00e3o de um inimigo multipresente, e de fato, antag\u00f4nico aos &#8220;imp\u00e9rios infi\u00e9is&#8221; como Estados Unidos, R\u00fassia (no C\u00e1ucaso) e China (no Turquest\u00e3o Leste), indica a enorme capacidade da Superpot\u00eancia (atrav\u00e9s tamb\u00e9m de seus aliados na Europa, atrav\u00e9s da OTAN) e das pot\u00eancias em ascens\u00e3o, de projetar seus interesses militares al\u00e9m fronteiras. A agressividade das for\u00e7as especiais dos EUA e da &#8220;Guerra ao Terror&#8221; &#8211;\u00a0 com sequestros ilegais em pa\u00edses estrangeiros, c\u00e1rcere n\u00e3o processado em Guant\u00e1namo e campos de concentra\u00e7\u00e3o como em Abu Ghraib (Iraque) e Bagram (Afeganist\u00e3o) &#8211; \u00e9 a marca dos primeiros dez anos p\u00f3s-11 de setembro.<\/p>\n<p>Outra marca est\u00e1 nas chamadas revolu\u00e7\u00f5es coloridas dos antigos Estados sovi\u00e9ticos, como a Rosa na Ge\u00f3rgia (2003-2004), Laranja na Ucr\u00e2nia (2004) e Tulipa no Quirguist\u00e3o (2005).\u00c9 importante ressaltar que ao mesmo tempo\u00a0 que h\u00e1\u00a0 incid\u00eancia atrav\u00e9s da manipula\u00e7\u00e3o cidad\u00e3 via internet e meios de comunica\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m existe, sempre existe, maior ou menor demanda social leg\u00edtima e processos reivindicativos realmente existentes. Como dizem os uruguaios &#8220;s\u00f3 se organiza o que existe&#8221;, mesmo que seja com a pior das inten\u00e7\u00f5es. O tema da Primavera \u00c1rabe como &#8220;revolu\u00e7\u00e3o colorida&#8221;, afora o emprego da internet, n\u00e3o vejo como uma aplica\u00e7\u00e3o v\u00e1lida. No &#8220;movimento verde do Ir\u00e3&#8221;, ou &#8220;revolu\u00e7\u00e3o verde iraniana&#8221;, ap\u00f3s a elei\u00e7\u00e3o de Mahmoud Ahmadinejad e derrota dos &#8220;moderados&#8221; Mir-Houssein Moussavi e Mehdi Karroubi, \u00e9 evidente que houve tratativa de apoio ocidental, mas a disputa cultural entre a interpreta\u00e7\u00e3o da P\u00e9rsia e a sofistica\u00e7\u00e3o das camadas urbanas iranianas \u00e9 tema muito antigo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Dei estes exemplos para verificarmos um esfor\u00e7o que modestamente fa\u00e7o para retirar os r\u00f3tulos e o &#8220;debate de lacra\u00e7\u00e3o&#8221; os quais as parcelas politizadas e mal formadas de nossa gente est\u00e3o expostas e irmos al\u00e9m das denomina\u00e7\u00f5es por conveni\u00eancia.<\/p>\n<p>Se a Guerra ao Terror e as &#8220;revolu\u00e7\u00f5es coloridas&#8221; inauguram o imperialismo estadunidense no p\u00f3s-11 de setembro, a avalanche das redes sociais \u00e9 a marca globalizada de manipula\u00e7\u00e3o da esfera p\u00fablica de pa\u00edses inteiros. As evid\u00eancias s\u00e3o escancaradas com o caso Edward Snowden em 2013, j\u00e1 passados cinco anos do estouro da &#8220;Farsa com nome de Crise OU da Fraude com nome de Bolha&#8221; imobili\u00e1ria e seus derivativos mundo afora. A interconex\u00e3o das consci\u00eancias, o ataque da esfera p\u00fablica, a cria\u00e7\u00e3o de fantoches na sociedade civil que podem vir a se massificarem \u00e9 a marca deste per\u00edodo, radicalizando o processo na subjun\u00e7\u00e3o das novas direitas \u00e0s pautas marcadas pelas direitas ainda mais \u00e0\u00a0 direita dos EUA. O processo que leva \u00e0 elei\u00e7\u00e3o de Trump e sua repercuss\u00e3o globalizada refletem esta nossa afirma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><em>Bruno Lima Rocha<\/em> (<a href=\"mailto:blimarocha@gmail.com\">blimarocha@gmail.com<\/a> \/ t.me\/estrategiaeanalise) \u00e9 p\u00f3s-doutorando em economia pol\u00edtica, doutor e mestre em ci\u00eancia pol\u00edtica e professor nos cursos de rela\u00e7\u00f5es internacionais, comunica\u00e7\u00e3o social e direito. \u00c9 membro do Grupo de Pesquisa Capital e Estado (<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/capetacapitaleestado\/\">https:\/\/www.facebook.com\/capetacapitaleestado\/<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>08 de setembro de 2019, Bruno Lima Rocha Preciso come\u00e7ar esta nova s\u00e9rie (creio eu) em fun\u00e7\u00e3o de algumas raz\u00f5es \u00f3bvias. 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