{"id":2153,"date":"2019-11-03T12:08:29","date_gmt":"2019-11-03T15:08:29","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanaliseblog.com\/?p=2153"},"modified":"2019-11-03T12:08:29","modified_gmt":"2019-11-03T15:08:29","slug":"chile-licoes-que-vem-da-rebeliao-popular-contra-a-heranca-maldita-de-pinochet-artigo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=2153","title":{"rendered":"Chile: li\u00e7\u00f5es que v\u00eam da rebeli\u00e3o popular contra a heran\u00e7a maldita de Pinochet &#8211; artigo"},"content":{"rendered":"<p><u>03 de novembro de 2019, <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/blimarocha\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bruno Lima Rocha<\/a> <\/u><\/p>\n<p>Ao escrever estas linhas a rebeli\u00e3o do povo chileno em 2019 completa 15 dias. O estopim dessa vez foi o an\u00fancio do aumento das passagens do metr\u00f4, em Santiago do Chile, conhecido como Transantiago, de extens\u00e3o metropolitana. Como diz um dos lemas de quem est\u00e1 em luta, dos milh\u00f5es que enfrentam a sanha repressiva da Fuerza de Carabineros, das tropas do Ex\u00e9rcito e Marinha, \u201cn\u00e3o \u00e9 por trinta centavos, \u00e9 por trinta anos\u201d.<\/p>\n<p>Logo, tem ra\u00edzes muito profundas que remontam \u00e0 transi\u00e7\u00e3o negociada ap\u00f3s ditadura advinda do golpe de Estado de 11 de setembro de 1973, derrubando o governo da Unidade Popular tendo o m\u00e9dico socialista Salvador Allende \u00e0 frente. Remonta tamb\u00e9m \u00e0 democracia liberal p\u00f3s-Pinochet, onde as bases da vida em sociedade e o modelo de capitalismo seguem os mesmos do tirano e seus asseclas, incluindo not\u00f3rios Chicago Boys, amigos e parceiros do triste ministro de Jair Messias, o especulador e ex-s\u00f3cio do BTG Pactual, Paulo Guedes. Infelizmente, o pa\u00eds do cacique Lautaro e da na\u00e7\u00e3o Mapuche, das m\u00e1rtires do massacre mineiro de 1907 em Santa Maria de Iquique, dos mais de 11000 mortos e desaparecidos em ditadura, vive uma dupla mazela como Estado p\u00f3s-colonial.<\/p>\n<p><strong>As duas mazelas no plano da economia pol\u00edtica da domina\u00e7\u00e3o chilena<\/strong><\/p>\n<p>A primeira mazela \u00e9 comum a toda Am\u00e9rica Latina e se trata da condi\u00e7\u00e3o dependente, subalterna e perif\u00e9rica. Ao contr\u00e1rio do que arvoram os defensores do neoliberalismo, o Chile n\u00e3o \u00e9 uma economia complexa, segue dependendo das exporta\u00e7\u00f5es de cobre e sim, est\u00e1 muito privatizada. Como todos os nossos pa\u00edses, em maior ou menor escala, vivemos sob o dom\u00ednio interno de elites olig\u00e1rquicas, arrivistas e entreguistas. Gente med\u00edocre embora bem articulada com fra\u00e7\u00f5es de poderes hegem\u00f4nicos mundializados, especificamente no basti\u00e3o do imperialismo que nos toca diretamente e que n\u00e3o t\u00eam, em geral, um pingo de sentido de pertencimento \u00e0 sua terra e os povos que nela habitam. Neste sentido, o Chile \u00e9 com suas especificidades, mais um exemplo de complexo de vira-lata, entreguismo, gorilismo militar e vende-p\u00e1trias. Nada de novo no front. Mas, l\u00e1 o modelo neoliberal se aprofundou.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a segunda mazela. Toda a rotina \u00e9 muito cara (pela privatiza\u00e7\u00e3o e falta de amparo at\u00e9 na sa\u00fade p\u00fablica), os \u00edndices reais de condi\u00e7\u00f5es de custo de vida s\u00e3o altos e praticamente n\u00e3o h\u00e1 rede de prote\u00e7\u00e3o social. N\u00e3o interessa se o pa\u00eds cresce uma m\u00e9dia de 2,5% ao ano se este bolo n\u00e3o \u00e9 dividido, a expectativa de vida e a no\u00e7\u00e3o de \u201cfelicidade\u201d se d\u00e1 justo ao contr\u00e1rio. A educa\u00e7\u00e3o superior \u00e9 paga (mesmo quando s\u00e3o institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas) e n\u00e3o h\u00e1 cobertura universal de sa\u00fade. Os sal\u00e1rios s\u00e3o rebaixados, as leis do direito ao trabalho s\u00e3o fr\u00e1geis (quebrando o poder do sindicalismo, do tipo \u201creforma trabalhista\u201d e \u201cliberdade econ\u00f4mica\u201d implantadas no Brasil na sua guinada \u00e0 direita) e cerca de 40% da popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 concentrada na Capital e regi\u00e3o metropolitana. A aglomera\u00e7\u00e3o metropolitana \u00e9 comum em nossos pa\u00edses, mas faz com que as redes e fluxos de riquezas saiam dos territ\u00f3rios abundando as camadas superiores do poder composto por elites empresariais e pol\u00edticas de tipo associadas ao capital transnacional. A ditadura transformou um pa\u00eds industrial e uma zona de servi\u00e7os, com abundante presen\u00e7a de conglomerados transnacionais.<\/p>\n<p>No Chile, assim como no Brasil, o 1% mais rico fica com 25% da renda nacional. N\u00e3o h\u00e1 sociedade moderna que sustente isso. Como \u00e9 poss\u00edvel uma sociedade ser sadia onde a condi\u00e7\u00e3o normal \u00e9 o desencanto, somada com a desesperada luta pela sobreviv\u00eancia, al\u00e9m da certeza da maioria, que n\u00e3o ter\u00e1 uma velhice tranquila? \u00c9 uma sociedade \u201cmetamorfoseada\u201d como os EUA, com a singela exce\u00e7\u00e3o do poderio da Superpot\u00eancia diante dos diminutos PIB e da posi\u00e7\u00e3o do Chile no Sistema Internacional. N\u00e3o bastasse a influ\u00eancia de valores individualistas como marca de \u201csucesso\u201d na terra de Violeta Parra, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 muito direta, sem \u201chipocrisia\u201d. O Estado ainda controla parte da exporta\u00e7\u00e3o de cobre e esta \u00e9 usada para assegurar a aposentadoria integral sob um sistema p\u00fablico para as for\u00e7as de seguran\u00e7a e militares. Assim, a riqueza nacional garante a repress\u00e3o antipovo a mando de elites civis (e tamb\u00e9m parcelas do generalato) que s\u00e3o evidentemente antinacionais.<\/p>\n<p>Para as maiorias resta tentar sobreviver com as Administradoras de Fundos de Pens\u00e3o (as famigeradas AFPs), passando de uma educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica para o \u201cprecariado\u201d, incluindo muitas vezes o endividamento com o ensino superior, ap\u00f3s a vida sob um sal\u00e1rio m\u00ednimo e m\u00faltiplos empregos chegando at\u00e9 a aposentadoria com menos de um sal\u00e1rio m\u00ednimo. Neste caso, gastando quase tudo com rem\u00e9dios, pesando no or\u00e7amento familiar, fazendo com que o pa\u00eds de Victor Jara e Miguel Enr\u00edquez seja o triste campe\u00e3o latino-americano em depress\u00e3o e suic\u00eddio de idosos.<\/p>\n<p><strong>Democradura e resist\u00eancia p\u00f3s-Pinochet<\/strong><\/p>\n<p>Ap\u00f3s quase 30 anos de democracia formal, o Chile ainda vive sob a \u00e9gide da legisla\u00e7\u00e3o antiterrorista \u2013 que deu base ao texto aprovado no Brasil, ainda no governo Dilma \u2013 o que, na pr\u00e1tica, implica em criminalizar a luta social e suas mais variadas formas de protesto. E tal como era no in\u00edcio do s\u00e9culo XX em nosso Continente, a repress\u00e3o social n\u00e3o impede a luta, mas a agudiza. Um regime \u201cdemocr\u00e1tico\u201d, tutelado pelos Carabineros (pol\u00edcia militar nacional) e aplastrada pelo abismo da desigualdade, n\u00e3o pode pretender muito. Ao contr\u00e1rio do que tentam nos passar, h\u00e1 uma cultura de rebeldia no Chile e isso se deve a alguns fatores bem relevantes. Creio que passa pelo arraigo dos bairros de \u201cpobladores\u201d \u2013 equivalente a periferias onde as condi\u00e7\u00f5es de vida s\u00e3o prec\u00e1rias e a urbaniza\u00e7\u00e3o n\u00e3o existe quase \u2013 como foco da resist\u00eancia contra a ditadura e com fortalecimento na d\u00e9cada de \u201980. Um marco desse per\u00edodo e que opera como caracter\u00edstica da resist\u00eancia popular se encontra no emblem\u00e1tico bairro de La Victoria, e no mart\u00edrio do padre franc\u00eas Andr\u00e9 Jarl\u00e1n, assassinato cometido pelos Carabineros em setembro de 1984 ao reprimir protestos contra a tirania militar e neoliberal de Pinochet.<\/p>\n<p>Esta d\u00e9cada marcou tamb\u00e9m o retorno do movimento secundarista, que nunca cessou, criando as condi\u00e7\u00f5es de luta da Rebeli\u00e3o dos Pinguins (abril a junho de 2006, no primeiro governo Bachelet); tal como a segunda rebeli\u00e3o estudantil (abril a dezembro de 2011, primeiro governo Pi\u00f1era).<\/p>\n<p>Os Carabineros, al\u00e9m de odiados nas periferias e centros estudantis, tamb\u00e9m t\u00eam a tenebrosa fun\u00e7\u00e3o de conter a paix\u00e3o popular, visto o engajamento das maiores torcidas organizadas de futebol do Chile na luta popular. Garra Blanca do Colo Colo; Los de Abajo da Universidade do Chile e Los Cruzados da Universidade Cat\u00f3lica est\u00e3o alinhados nas marchas de protesto em Santiago, chegando a colocar contingentes de mais de 10.000 torcedores contra a repress\u00e3o e por direitos sociais.<\/p>\n<p>Outra frente de luta, irredut\u00edvel e com incr\u00edvel capacidade de se nacionalizar,\u00a0 ganhando ades\u00e3o na capital e em todas as dezesseis regi\u00f5es administrativas do Chile, \u00e9 a luta Mapuche. A na\u00e7\u00e3o que defende o territ\u00f3rio da Araucan\u00eda (ampliada) inunda a sensa\u00e7\u00e3o de defesa anti-colonial, em luta por descolonizar consci\u00eancia e defesa absoluta dos biomas. O conselho de caciques desta na\u00e7\u00e3o anunciou logo no in\u00edcio da rebeli\u00e3o de 2019 que aceitaria entrar em um processo constituinte (a Constitui\u00e7\u00e3o do Chile data de setembro-outubro de 1980), j\u00e1 que o texto da tirania mal foi transformado na reforma de 2005. Os territ\u00f3rios de todos os povos origin\u00e1rios do pa\u00eds, passa pelo mesmo drama de outros povos ind\u00edgenas, quilombolas e tradicionais, sendo atacados por empresas de minera\u00e7\u00e3o, de \u201creflorestamento\u201d, especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria e hoteleira al\u00e9m de intentos de destrui\u00e7\u00e3o de suas condi\u00e7\u00f5es mais concretas de reprodu\u00e7\u00e3o da vida conforme suas bases culturais. O pa\u00eds de Ra\u00fal Pellegrin teve idiomas ind\u00edgenas fort\u00edssimos e ainda tem profundas ra\u00edzes origin\u00e1rias.\u00a0 Diante da escassez de possibilidades dentro da distopia capitalista, refor\u00e7a-se a ideia de defender o territ\u00f3rio e seus biomas como forma de vida e sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p>Para Mapuches, na\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas e a imensa maioria dos mais de 18 milh\u00f5es de chilenos n\u00e3o h\u00e1 boas perspectivas fora da luta coletiva e popular. N\u00e3o h\u00e1 como governar sem o m\u00ednimo de condi\u00e7\u00f5es materiais imediatas e expectativas de futuro. E isso, o neoliberalismo n\u00e3o sabe e n\u00e3o quer assegurar.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Traidores, pinochetistas e insurgentes <\/strong><\/p>\n<p>Muito do que hoje ocorre est\u00e1 para al\u00e9m das pol\u00edticas antissociais dos governos Pi\u00f1era (2010-2014 e atual), que se encaminha para o caos, e que intercalou dois mandatos com Michelle Bachelet (2006-2010 e 2014-2018). Tal como Macri (presidente desde 2015), na Argentina, Pi\u00f1era n\u00e3o prometeu nada diferente do que est\u00e1 fazendo. Era evidente que a vida se tornaria mais dif\u00edcil, com maior n\u00edvel repressivo e desespero societ\u00e1rio. O problema n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a direita sendo a direita, mas os governos social-democratas e social-liberais que nada ou quase nada fizeram. Patricio Aylwin (1990-1994, PDC), Eduardo Frei (1994-2000, PDC), Ricardo Lagos (2000-2006, PPD) e Michele Bachelet (2006-2010) todos membros da Concertaci\u00f3n (coaliz\u00e3o liderada pela Democracia-Crist\u00e3 do PDC e Socialistas do PS, secundada por |\u201ddemocratas e liberais\u201d). Governaram por vinte anos n\u00e3o tocando nas estruturas de Estado deixadas como legado da heran\u00e7a maldita da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990). A tirania governou ao lado a DINA (pol\u00edcia pol\u00edtica que tamb\u00e9m operou no narcotr\u00e1fico) e seus s\u00f3cios Chicago Boys, da economia neocl\u00e1ssica de Milton Friedman cuja vers\u00e3o brasileira \u00e9 o Ministro da Economia da extrema-direita que chegou ao poder atrav\u00e9s do cl\u00e3 Bolsonaro e do generalato. A \u201cdemocradura\u201d seguiu reprimindo sem d\u00f3, dando carta branca aos Carabineros, militarizando os territ\u00f3rios ind\u00edgenas, tendo desaparecidos, presos pol\u00edticos e muita, muita concentra\u00e7\u00e3o de renda.<\/p>\n<p>Na defesa da heran\u00e7a de Pinochet em 1983, liderados por fac\u00ednoras como Jaime Guzm\u00e1n (um dos autores da Constitui\u00e7\u00e3o de Pinochet, senador e professor de diireito da Cat\u00f3lica, justi\u00e7ado por um comando rodriguizta em abril de 1991) e Andr\u00e9s Chadwick (primo de Pi\u00f1era e o\u00a0 ministro do Interior que autorizou o massacre deste ano, antes de ser derrubado), sociopatas conservadores criaram a Uni\u00e3o Democr\u00e1tica Independente (UDI), sendo este o partido pinochetista por excel\u00eancia. Como herdeiro do partido golpista por excel\u00eancia, o antigo Partido Nacional, foi criada em 1987 a Renova\u00e7\u00e3o Nacional (RN), legenda de Sebasti\u00e1n Pi\u00f1era. Ressalto que ambos partidos convocaram o S\u00ed para Pinochet, no plebiscito de outubro de 1988, quando o No a Pinochet ganhou por 55,99% a 44,01%. Logo, ao afirmar a transi\u00e7\u00e3o tutelada, as for\u00e7as pol\u00edticas aceitaram a conviv\u00eancia pac\u00edfica com os apoiadores civis de genocidas, torturadores e violadores.<\/p>\n<p>O famigerado golpe de Estado contra o governo constitucional de Salvador Allende (1970-1973), \u00e0 frente da Unidade Popular, assassinou, al\u00e9m de mais de 11.000, tamb\u00e9m um arranjo social que seria minimamente est\u00e1vel, solid\u00e1rio e economicamente regulado. A economia chilena, de base cooperativa, com fortes empresas estatais, ind\u00fastria nacional e presen\u00e7a de setores p\u00fablicos, foi praticamente aniquilada tal e qual os corpos no Est\u00e1dio Nacional. A resposta \u00e9 muito evidente tamb\u00e9m. A no\u00e7\u00e3o de seguir em rebeli\u00e3o \u00e9 muito galvanizada na juventude chilena de v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es. Destacamos o papel fundamental das for\u00e7as insurgentes contra a ditadura, como o Movimento de Esquerda Revolucion\u00e1rio (MIR chileno), a Frente Patri\u00f3tica Manuel Rodr\u00edguez (FPMR at\u00e9 1999 que inicia como o bra\u00e7o armado do PC Chileno e ganha autonomia na transi\u00e7\u00e3o) e o Movimento Juvenil Lautaro (MJL ou MAPU Lautaro, \u00e0 esquerda da esquerda crist\u00e3 do MAPU).<\/p>\n<p>Ainda que sendo colocadas em uma posi\u00e7\u00e3o isolada a partir da d\u00e9cada de \u201990, deixaram o legado da resist\u00eancia e de n\u00e3o aceitar a \u201ccoexist\u00eancia pac\u00edfica\u201d com os s\u00f3cios de Pinochet e Manuel Contreras (este \u00faltimo, coronel \u00e0 frente da DINA, criminoso de lesa humanidade e narcotraficante). O legado das for\u00e7as insurgentes arraigou na luta estudantil e popular, na posi\u00e7\u00e3o de valentia permanente (chegando a ser uma caracter\u00edstica da milit\u00e2ncia chilena). H\u00e1 uma posi\u00e7\u00e3o de antem\u00e3o altiva, rebelde e libert\u00e1ria nesta milit\u00e2ncia do s\u00e9culo XXI, cultura pol\u00edtica essa oriunda da d\u00e9cada de \u201980 do s\u00e9culo XX e que segue cada vez mais vigente. O Estado e suas oligarquias dobram a aposta e o povo repele a investida.<\/p>\n<p><strong>Do golpe de Estado ao p\u00f3s-Estado de Exce\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>O golpe de 1973 deixou marcas profundas, estruturas societ\u00e1rias cru\u00e9is e feridas muito longe de serem sanadas. \u00c9 preciso estudar e aprender com e a partir dos processos hist\u00f3ricos. Apesar do hero\u00edsmo do m\u00e9dico presidente, era \u00f3bvio que nem o Departamento de Estado (aliado dos militares entreguistas, chamados de \u201cvende patria\u201d, em espanhol) e menos ainda a oligarquia chilena iriam permitir uma &#8220;transi\u00e7\u00e3o pac\u00edfica&#8221; para o socialismo. Ao contr\u00e1rio, promoveram o Terrorismo de Estado e tais institui\u00e7\u00f5es continuam perpetuando a repress\u00e3o social generalizada, marcada no Estado de Exce\u00e7\u00e3o de Pi\u00f1era (durou de 19 a 28 de outubro de 2019) e o Toque de Recolher dando aval para os Carabineros barbarizarem as periferias.<\/p>\n<p>Diante deste desenho societ\u00e1rio e da impot\u00eancia dos governos de turno (independente se mais \u00e0 direita ou menos \u00e0 esquerda), a cada gera\u00e7\u00e3o de jovens chilenos fica evidente que o modelo n\u00e3o mudaria por &#8220;boa vontade&#8221; dos controladores das riquezas do pa\u00eds e seus patr\u00f5es externos. Some-se a revolta social com o racismo anti-ind\u00edgena atravessado pelo consumo frustrado e a mem\u00f3ria hist\u00f3rica do pinochetismo, sempre viva diante da carestia e do desespero para fechar as contas do m\u00eas para as fam\u00edlias de baixa renda.<\/p>\n<p>Podemos comparar o momento do Chile atual com outros epis\u00f3dios latino-americanos sob democracia olig\u00e1rquica. Penso no Caracazo venezuelano e no Estallido social argentino com a hiperinfla\u00e7\u00e3o, do fim do Plano Austral. No Chile, al\u00e9m da explos\u00e3o popular, tamb\u00e9m h\u00e1 incid\u00eancia dos movimentos sociais organizados e as esquerdas mais \u00e0 esquerda dentro e fora do espectro eleitoral. Caberia aprender das capacidades organizativas do povo em luta e buscar institui\u00e7\u00f5es sociais permanentes, como assembleias territoriais e frentes de luta entre distintos setores.<\/p>\n<p>H\u00e1 muita expectativa na conquista de uma nova Assembleia Constituinte dotada de uma rede de prote\u00e7\u00e3o social p\u00fablica e gratuita. Evidente que tal medida seria um avan\u00e7o consider\u00e1vel, mas toda a energia pode resultar em ilus\u00f5es institucionais se uma absurda legisla\u00e7\u00e3o repressiva e privatista n\u00e3o for eliminada imediatamente. Caso isso ocorra, acompanhada de medidas emergenciais para melhoria das condi\u00e7\u00f5es materiais de vida e a vit\u00f3ria pontual pode ganhar outro vulto. Por todo e qualquer \u00e2ngulo que se observe a luta chilena, trata-se de uma li\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. Tanto pela capacidade de resposta do povo em luta como da amoralidade do aparelho de Estado p\u00f3s-colonial na sanha repressiva, gerando dezenas de mortos, pessoas que ficaram cegas por levarem tiros \u201cn\u00e3o letais\u201d, isso sem falar de mulheres violadas e desaparecidas.<\/p>\n<p>As jornadas de outubro de 2019 na terra de Paylacar e das Guerras de Arauco t\u00eam e ter\u00e1 efeitos em toda a Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Bruno Lima Rocha<\/em> \u00e9 p\u00f3s-doutorando em economia pol\u00edtica, doutor e mestre em ci\u00eancia pol\u00edtica e professor nos cursos de rela\u00e7\u00f5es internacionais, direito e jornalismo. Contatos: <a href=\"mailto:blimarocha@gmail.com\">blimarocha@gmail.com<\/a> (para email e Facebook); t.me\/estrategiaeanalise (grupo no Telegram) e estrategiaeanaliseblog.com.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>03 de novembro de 2019, Bruno Lima Rocha Ao escrever estas linhas a rebeli\u00e3o do povo chileno em 2019 completa 15 dias. O estopim dessa vez foi o an\u00fancio do aumento das passagens do metr\u00f4, em Santiago do Chile, conhecido como Transantiago, de extens\u00e3o metropolitana. 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