{"id":2183,"date":"2019-12-19T15:59:19","date_gmt":"2019-12-19T18:59:19","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanaliseblog.com\/?p=2183"},"modified":"2019-12-19T15:59:19","modified_gmt":"2019-12-19T18:59:19","slug":"analisando-alternativas-de-luta-a-crise-democratica-na-america-latina-artigo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=2183","title":{"rendered":"Analisando alternativas de luta \u00e0 crise democr\u00e1tica na Am\u00e9rica Latina &#8211; artigo"},"content":{"rendered":"<p>Por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/anneledur\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Anne Ledur<\/a> e <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/blimarocha\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bruno Lima Rocha<\/a>, 19 de dezembro de 2019<\/p>\n<p>Um levantamento publicado pelo Jornal O Globo, em novembro deste ano, denunciou a fragilidade das democracias sul-americanas no \u00faltimo s\u00e9culo. De acordo com a investiga\u00e7\u00e3o, a cada dez meses, um presidente n\u00e3o conseguiu terminar seu mandato por raz\u00f5es pol\u00edticas. A pesquisa considerou os 12 pa\u00edses da Am\u00e9rica do Sul: Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile, Col\u00f4mbia, Bol\u00edvia, Venezuela, Equador, Peru, Guiana e Suriname, onde 114 chefes de Estado tiveram de abandonar seus cargos, entre 1912 a 2019. Assim, na pol\u00edtica latino-americana, a baboseira liberal n\u00e3o vale. A \u00fanica certeza \u00e9 a inconst\u00e2ncia, a possibilidade de virada de mesa e a interven\u00e7\u00e3o do imperialismo. Outro padr\u00e3o \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o recalcitrante de um republicanismo vazio. A ilus\u00e3o \u00e9 a for\u00e7a motriz da reprodu\u00e7\u00e3o de padr\u00f5es social-democratas da Europa em nossos pa\u00edses. Ilus\u00f5es perigosas, governos de centro-esquerda fracos, ideologicamente frouxos e com s\u00edndrome de Estocolmo. No s\u00e9culo XXI, a modalidade de derrubada de governos \u00e9 outra. Vejamos o que iniciou em Honduras em junho de 2009, ganhou contornos quase de drama caricato no golpe paraguaio de 2012 e atravessa nossas realidades.<\/p>\n<p>No Brasil, o Estado de Exce\u00e7\u00e3o operando sobre o Poder Executivo \u2013 uma constante para a popula\u00e7\u00e3o mais pobre e a maioria negra &#8211; encontrou lugar mais recentemente em 2016, com o <em>impeachment<\/em> de Dilma Rousseff. Podemos caracterizar a deposi\u00e7\u00e3o da ex-presidenta como um Golpe de Estado em fun\u00e7\u00e3o de tr\u00eas elementos.<\/p>\n<p>O primeiro e o mais vis\u00edvel foi ao se publicizar uma grava\u00e7\u00e3o da ex-presidenta com o ex-presidente Lula, quando n\u00e3o havia autoriza\u00e7\u00e3o do Supremo para aquela grava\u00e7\u00e3o. Pela regra, essa grava\u00e7\u00e3o deveria ter sido eliminada. Grampear uma presidenta da Rep\u00fablica no exerc\u00edcio do mandato e, ao mesmo tempo, de outros ministros de Estado, como o ent\u00e3o ministro Jacques Wagner, e depois tornar p\u00fablico o conte\u00fado da conversa, caracteriza um arranjo pol\u00edtico, jur\u00eddico e midi\u00e1tico. Logo, se n\u00e3o houvesse a presen\u00e7a e a cria\u00e7\u00e3o de consenso da opini\u00e3o p\u00fablica atrav\u00e9s da opini\u00e3o publicada, seria imposs\u00edvel a queda do governo e a mudan\u00e7a de regime (no caso, abalando o Pacto Constitucional de 1988).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O segundo elemento foi usar o artif\u00edcio das pedaladas para justificar o <em>impeachment<\/em>. Mesmo tendo uma legalidade contest\u00e1vel, as pedaladas s\u00e3o um procedimento muito comum em v\u00e1rios mandatos e continuaram sendo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>E o terceiro elemento foi porque, num <em>impeachment<\/em>, os direitos pol\u00edticos da presidenta teriam sido cassados, e n\u00e3o foram. Ent\u00e3o, n\u00e3o se localizou uma causa-crime. Teria sido um procedimento do tipo parlamentarista, num voto de desconfian\u00e7a, num regime brasileiro, que \u00e9 presidencialista.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O arranjo pol\u00edtico que resultou no <em>impeachment<\/em> de Dilma teve, evidentemente, um objetivo maior.<\/p>\n<p>O volume de den\u00fancias difundidas pelo <em>The Intercept<\/em> Brasil &#8211; que tamb\u00e9m tiveram leitura e checagem co-organizadas por uma s\u00e9rie de cons\u00f3rcios jornal\u00edsticos -, traz material suficiente para provar que havia uma unidade pol\u00edtica dentro da for\u00e7a-tarefa da Lava Jato e uma rela\u00e7\u00e3o entre Minist\u00e9rio P\u00fablico e juiz &#8211; que operava quase como um juiz-inquisidor \u2013 na inten\u00e7\u00e3o de interferir no resultado das elei\u00e7\u00f5es de 2018.<\/p>\n<p>Com o ex-presidente Lula liderando todas as pesquisas de inten\u00e7\u00e3o de voto, era necess\u00e1rio remov\u00ea-lo da corrida eleitoral. Avaliando os processos do Tr\u00edplex do Guaruj\u00e1 e do s\u00edtio de Atibaia, a impress\u00e3o \u00e9 de que Lula j\u00e1 havia sido condenado de antem\u00e3o e todo o processo serviu para legitimar a senten\u00e7a. Isso n\u00e3o significa que Lula n\u00e3o seja culpado, entretanto, nos casos espec\u00edficos em que foi condenado, n\u00e3o houve provas consistentes contra o ex-presidente. E, na aus\u00eancia de provas, ningu\u00e9m pode \u2013 ou ao menos jamais deveria &#8211; ser culpado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O que deveria acontecer, em um \u201cverdadeiro\u201d Estado Democr\u00e1tico de Direito, \u00e9 a anula\u00e7\u00e3o dos processos, em fun\u00e7\u00e3o da parcialidade do juiz S\u00e9rgio Moro \u2013 ainda mais evidenciada com a sua sa\u00edda da magistratura para tomar posse como titular do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a do Governo Jair Bolsonaro. Isso seria o mais consistente, para n\u00e3o radicalizar o apre\u00e7o sobre o Judici\u00e1rio e o Minist\u00e9rio P\u00fablico.<\/p>\n<p>A mudan\u00e7a no rumo dos acontecimentos poderia ser indicada a partir do julgamento, pelo Supremo Tribunal Federal, da A\u00e7\u00e3o Declarat\u00f3ria de Constitucionalidade que derrubou as pris\u00f5es em segunda inst\u00e2ncia, usadas e abusadas pela Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato. No entanto, ao que tudo indica, a decis\u00e3o do STF esteve mais correlacionada a uma disputa de posi\u00e7\u00f5es entre o Supremo e a for\u00e7a-tarefa, disputas intra-Supremo \u2013 a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as dentro do aparelho jur\u00eddico e dentro do poder pol\u00edtico \u2013, e at\u00e9 a algum tipo de press\u00e3o dos militares do que necessariamente um rigor do Estado Democr\u00e1tico de Direito ou a defesa de uma Cl\u00e1usula P\u00e9trea da Constitui\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, se f\u00f4ssemos interpretar a Constitui\u00e7\u00e3o Brasileira e o or\u00e7amento vinculado do Brasil sob o Controle Social, jamais poderiam ter aprovado a PEC 55, por exemplo. No entanto, ela foi aprovada e n\u00e3o entrou em nenhum problema de constitucionalidade.<\/p>\n<p>Por que o Supremo n\u00e3o fez este movimento, de proibir as pris\u00f5es em segunda inst\u00e2ncia, antes de 2016? \u00c9 uma grande d\u00favida, mas cuja suspeita \u00e9 de que o STF, no m\u00ednimo, foi omisso em todo o processo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Com a omiss\u00e3o do Poder Judici\u00e1rio, fica muito mais \u201clisa\u201d a rela\u00e7\u00e3o entre setores de classe dominante que exercem o poder e as elites gerenciais de transnacionais ou de capital financeiro que operam no Pa\u00eds com o poder pol\u00edtico. Essa rela\u00e7\u00e3o prom\u00edscua, in\u00fameras vezes, acaba ultrapassando a pr\u00f3pria soberania do povo. E isso \u00e9 uma esp\u00e9cie de regra do jogo do capitalismo, que se verifica, com muito mais intensidade, em capitalismos perif\u00e9ricos.<\/p>\n<p><strong>Jogo de interesses<\/strong><\/p>\n<p>O jogo de interesses \u2013 balizado pelas institui\u00e7\u00f5es concretas e os sistemas de cren\u00e7as \u2013 ficou muito mais vis\u00edvel no Brasil a partir de 2019, com o Governo Bolsonaro. Se h\u00e1 algum consenso das direitas p\u00f3s-2015 ou p\u00f3s segundo turno 2014, \u00e9 a agenda ultraliberal do \u201cChicago Boy\u201d Paulo Guedes, que foi referendada pelo Congresso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>H\u00e1 v\u00e1rios interesses setoriais como, por exemplo, da ind\u00fastria brasileira e de seus controladores, que acumulam com a jogatina financeira mais do que com a pr\u00f3pria ind\u00fastria \u2013 que, por gerar emprego direto e ter acesso a empr\u00e9stimos, a importa\u00e7\u00e3o de maquin\u00e1rio, a bens de produ\u00e7\u00e3o, de capital etc., \u00e9 importante ser mantida, at\u00e9 para ser uma forma de se extrair mais recursos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Outra possibilidade \u00e9 esse conflito dentro do agroneg\u00f3cio, do <em>agribusiness<\/em> brasileiro, entre mais entreguismo ou menos entreguismo, como por exemplo, entre setores representados pela senadora K\u00e1tia Abreu, pelo tamb\u00e9m senador Blairo Maggi (ambos ex-ministros do seu setor) e a linha ainda mais dura, com a UDR ainda ocupando cargos no Governo Bolsonaro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Uma terceira possibilidade \u00e9 este enorme mercado de explora\u00e7\u00e3o da f\u00e9 \u2013 n\u00e3o confundindo evang\u00e9lico com direita evang\u00e9lica, embora a direita evang\u00e9lica consiga capitanear o discurso do evangelicalismo ou dos evang\u00e9licos na pol\u00edtica, o que \u00e9 uma pena. Infelizmente, as posi\u00e7\u00f5es mais conservadoras e a favor do \u201cocidente imagin\u00e1rio da f\u00e9 crist\u00e3\u201d terminam por gerar um comportamento de manada nas igrejas protestantes, evang\u00e9licas e pentecostais, ao menos aparentando ter havido uma posi\u00e7\u00e3o un\u00edssona no segundo turno a favor de Bolsonaro e suas barbaridades. Casos como a \u201cmamadeira peniana\u201d ap\u00f3s os protestos do #EleN\u00e3o representam esse momento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Crise continental<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O modelo ultraliberal que deseja-se implementar no Brasil \u00e9 o mesmo que colapsou o Chile. As condi\u00e7\u00f5es de vida da sociedade chilena implicam numa concentra\u00e7\u00e3o de renda de 23 a 28% no 1% mais rico. Nossos vizinhos t\u00eam um texto constitucional cuja espinha dorsal foi escrita ainda durante a Ditadura de Pinochet \u2013 com muita participa\u00e7\u00e3o de juristas e pol\u00edticos do partido UDI, que \u00e9 a coaliz\u00e3o de governo com Pi\u00f1era (este da RN, um partido olig\u00e1rquico de trajet\u00f3ria golpista). E, no Chile, praticamente quase nada \u00e9 p\u00fablico e nada \u00e9 gratuito. Ent\u00e3o, o custo de vida \u00e9 muito alto. Al\u00e9m disso, o ultraliberalismo \u00e9 algo que implica uma carga tribut\u00e1ria muito regressiva. Ou seja, quanto menos se ganha, mais se \u00e9 tributado. Existe classe m\u00e9dia, mas muito inst\u00e1vel nas suas condi\u00e7\u00f5es materiais. Logo, o descontentamento \u00e9 ainda maior.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os protestos realizados recentemente pelos chilenos visaram a demonstrar para as elites pol\u00edticas que topam negociar e s\u00e3o especialistas em trai\u00e7\u00e3o popular que estas camarilhas (direita RN-UDI, centro-direita capitaneada pelo PDC e seus rachas e centro esquerda do Frente Amplio liderado pelo PS) praticamente n\u00e3o tomaram posi\u00e7\u00e3o para deslegitimar e desconstituir o texto constitucional de Pinochet e, ainda, o sistema de ensino superior privatizado, a sa\u00fade privatizada e o desastroso sistema de aposentadorias.<\/p>\n<p>Mas condi\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas e organizativas est\u00e3o dadas e t\u00eam, na Plaza Italia, centro de Santiago, o seu epicentro. As conquistas concretas ainda n\u00e3o foram atingidas. Foram melhoradas. Alguns decretos do presidente Pi\u00f1era foram aplicados para melhorar parcialmente as condi\u00e7\u00f5es de vida. O que pode acontecer, num processo constituinte, se n\u00e3o tiver uma participa\u00e7\u00e3o intermediada por pol\u00edticos profissionais, \u00e9 avan\u00e7ar bastante. At\u00e9 agora o modelo de convocat\u00f3ria da Constituinte est\u00e1 em aberto e a tend\u00eancia \u00e9, primeiro, um plebiscito tipo SIM ou N\u00c3O \u2013 se sai ou n\u00e3o a Constituinte \u2013 e, depois, no modelo de convocat\u00f3ria e participa\u00e7\u00e3o. Assim, Pi\u00f1era tamb\u00e9m vai ganhando tempo e sobrevivendo em seu carcomido governo.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>O Equador, por sua vez \u2013 em que rebeli\u00f5es populares obrigaram o presidente Len\u00edn Moreno a revogar o aumento no pre\u00e7o dos combust\u00edveis \u2013, tem outro problema grav\u00edssimo, que \u00e9 uma chantagem de que a estabilidade econ\u00f4mica estaria vinculada \u00e0 dolariza\u00e7\u00e3o da economia. O Equador \u00e9 um pa\u00eds que n\u00e3o tem moeda soberana e utiliza o d\u00f3lar como moeda corrente. Ainda assim, com a economia dolarizada, o Governo Rafael Correa gerou condi\u00e7\u00f5es de crescimento no pa\u00eds, mesmo insistindo nessa maldi\u00e7\u00e3o mineral exportadora, que quase sempre se choca com, por exemplo, os direitos dos povos origin\u00e1rios, os direitos ind\u00edgenas e as \u00e1reas de preserva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O que ocorre no Equador \u00e9 um recrudescimento da persegui\u00e7\u00e3o jur\u00eddica posterior \u00e0 rebeli\u00e3o que quase conseguiu derrubar o governo de Len\u00edn Moreno. A rebeli\u00e3o ainda conseguiu derrubar o decreto 887 e tamb\u00e9m conseguiu reverter pelo menos a piora de condi\u00e7\u00e3o de vida. Apesar de a repress\u00e3o estar vindo muito forte, h\u00e1 uma reorganiza\u00e7\u00e3o social que vem de fora para dentro, do campo para a cidade, da popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena para a urbana. \u00c9 pertinente lembrar que a Confedera\u00e7\u00e3o Ind\u00edgena (Conaie) rompeu com o correismo desde 2010 e tem uma agenda pr\u00f3pria e desvinculada do ex-presidente no ex\u00edlio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>J\u00e1 a Venezuela, exemplo cr\u00edtico de crise econ\u00f4mica, humanit\u00e1ria e pol\u00edtica, deve seu colapso especialmente \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o mineral exportadora, que a transformou em uma economia muito dependente do petr\u00f3leo, n\u00e3o chegando a ter a capacidade instalada necess\u00e1ria para se industrializar plenamente e sequer produzir todo o alimento que consome.<\/p>\n<p>A crise da Venezuela tamb\u00e9m tem muito a ver com as medidas de puni\u00e7\u00e3o, de bloqueios econ\u00f4micos, congelamento de contas, isolamento do sistema de trocas financeiras, impostos pelos Estados Unidos ao governo venezuelano, desde a administra\u00e7\u00e3o Bush Filho (e que vieram crescendo com Obama e Trump). Com o isolamento e com a perda do poder de compras do bol\u00edvar (moeda nacional), a capacidade de importa\u00e7\u00e3o da Venezuela \u00e9 muito baixa e, como o pa\u00eds n\u00e3o tem muita produtividade, resulta que o maior neg\u00f3cio da Venezuela \u00e9 o contrabando. Ent\u00e3o, o \u201cmercado branco\u201d \u2013 ironia \u2013\u00a0 costuma gerar uma infla\u00e7\u00e3o terr\u00edvel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No \u00e2mbito pol\u00edtico, a crise venezuelana se d\u00e1 a partir de abril de 2002, quando a direita que perdeu na urna se depara com uma constitui\u00e7\u00e3o bolivariana, na qual ela \u00e9 diretamente atingida e a maioria da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 beneficiada. Naquela tentativa de golpe de 2002, j\u00e1 havia crise pol\u00edtica, que, de l\u00e1 para c\u00e1, veio crescendo. A crise pol\u00edtica s\u00f3 n\u00e3o est\u00e1 pior na Venezuela gra\u00e7as ao fato de que a oposi\u00e7\u00e3o venezuelana \u00e9 uma caricatura mafiosa que n\u00e3o se entende como um todo. Sempre tem uma parcela que aceita negociar com o governo, que \u00e9 o que est\u00e1 acontecendo agora, inclusive com a possibilidade de liberta\u00e7\u00e3o de presos pol\u00edticos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Guerra h\u00edbrida e as m\u00eddias<\/p>\n<p><\/strong>H\u00e1 uma guerra h\u00edbrida em curso na Am\u00e9rica Latina. A guerra h\u00edbrida, guerra irregular, guerra de quarta gera\u00e7\u00e3o, entre outras denomina\u00e7\u00f5es, tem origem na proje\u00e7\u00e3o de poder dos Estados Unidos, que acabam desestabilizando sociedades nas suas periferias. Essa proje\u00e7\u00e3o de poder implica num conjunto de a\u00e7\u00f5es que v\u00e3o ao encontro de interesses da superpot\u00eancia, aplicando m\u00e9todos de mobiliza\u00e7\u00e3o social e de instabilidade pol\u00edtica, mas necessariamente tem tamb\u00e9m parceiros aliados e protagonistas locais. O Brasil foi um caso de guerra h\u00edbrida que come\u00e7ou no segundo turno de 2014, assim como em outros pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A guerra h\u00edbrida em sua opera\u00e7\u00e3o mais recente \u2013 a partir, especialmente, da administra\u00e7\u00e3o do Governo Trump \u2013, visa a acionar cora\u00e7\u00f5es e mentes atrav\u00e9s das m\u00eddias e redes sociais para os temas da corrup\u00e7\u00e3o moderna. No Projeto Pontes, por exemplo, a guerra h\u00edbrida colocou a Lava Jato em met\u00e1stase, incidindo sobre o contrato de empresas brasileiras em v\u00e1rios pa\u00edses da Am\u00e9rica.<\/p>\n<p>Nesse processo, o papel dos grandes conglomerados privados de comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 muito forte, mesmo com a influ\u00eancia das redes sociais, de grandes influenciadores digitais, dos circuitos da extrema direita que correm em paralelo aos grandes grupos de m\u00eddia. Teria sido imposs\u00edvel, por exemplo, grupos como MBL, Vem pra Rua e outros movimentos da nova direita a favor do <em>impeachment<\/em> ganharem relev\u00e2ncia sem a proje\u00e7\u00e3o dos grupos de m\u00eddia e sem a falta de exerc\u00edcio jornal\u00edstico.<\/p>\n<p>Um exemplo foi difus\u00e3o da conversa entre a ex-presidenta Dilma com o ex-presidente Lula. Se n\u00e3o fosse a difus\u00e3o da conversa \u2013 com o tipo de cobertura sensacionalista que foi feita, sem nem falar que aquilo ali era um crime \u2013, o golpe n\u00e3o teria tido efeito. A Lava Jato alimentou progressivamente as reda\u00e7\u00f5es dos telejornais e, em espec\u00edfico, da Rede Globo, com controversos vazamentos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 preciso que haja exerc\u00edcio jornal\u00edstico, a busca do contradit\u00f3rio e precis\u00e3o naquilo que se difunde. Propaganda e panfleto (n\u00e3o importando suporte e linguagem) s\u00e3o muito importantes, mas s\u00f3 o jornalismo e o espa\u00e7o p\u00fablico midi\u00e1tico de baixo para cima garantem a democracia de base e o protagonismo das maiorias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Traduzindo: sem democracia na comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 democracia nenhuma. Mesmo em per\u00edodo de guerra cibern\u00e9tica, onde as redes t\u00eam um peso muito grande, elas tamb\u00e9m repercutem o que circula na grande m\u00eddia. Ou seja, \u00e9 imposs\u00edvel fazer pol\u00edtica sem o aparelho midi\u00e1tico, e \u00e9 imposs\u00edvel ter democracia sem a democratiza\u00e7\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Mobiliza\u00e7\u00f5es populares<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Quando vemos mobiliza\u00e7\u00f5es populares da intensidade do Haiti, que continua em conflito civil contra um governo a favor do FMI (ali\u00e1s, o maior volume de mortes no segundo semestre de 2019 est\u00e1 no Haiti, dentre os pa\u00edses que est\u00e3o em rebeli\u00e3o popular na Am\u00e9rica Latina e no Caribe); depois, no Equador; logo ap\u00f3s, no Chile; no intervalo, na Bol\u00edvia; e mais recentemente, a greve geral na Col\u00f4mbia; todas as mobiliza\u00e7\u00f5es populares n\u00e3o se d\u00e3o de maneira espont\u00e2nea, n\u00e3o \u00e9 uma convuls\u00e3o. Elas ocorrem porque muita gente chega \u00e0s convocat\u00f3rias, mas a base de quem convoca \u00e9 muito organizada e tem uma profunda inser\u00e7\u00e3o social com algum grau de legitimidade, de alto para m\u00e9dio. Do contr\u00e1rio, seria imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sem a popula\u00e7\u00e3o organizada, com disposi\u00e7\u00e3o de luta e capacidade de realiza\u00e7\u00e3o de grandes atos p\u00fablicos, a capacidade de manipula\u00e7\u00e3o e de internaliza\u00e7\u00e3o de interesses externos das pot\u00eancias \u00e9 gigantesca. Logo, a chance que os povos latino-americanos, nossos pa\u00edses, nossos territ\u00f3rios t\u00eam de se libertar da influ\u00eancia externa \u00e9 nenhuma.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Se toda a esquerda se subordina \u00e0 centro-esquerda e coloca sua energia no exerc\u00edcio do poder pol\u00edtico burocr\u00e1tico, em rechear os espa\u00e7os vazios no aparelho do Estado, n\u00e3o sobrar\u00e1 energia e, ent\u00e3o, o povo sempre perder\u00e1.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Depois, \u00e9 preciso admitir os limites do jogo democr\u00e1tico burgu\u00eas na Am\u00e9rica Latina. Mesmo um partido reformista com propostas s\u00f3lidas, se chegar ao poder pelo voto ou por uma coaliz\u00e3o, tem de levar em considera\u00e7\u00e3o, o tempo inteiro, que pode ser derrubado. A \u00fanica certeza na pol\u00edtica latino-americana \u00e9 a incerteza gerada pela virada de mesa, a presen\u00e7a do imperialismo dos EUA, o acionar entreguista e anti-popular das elites econ\u00f4micas e a fragilidade diante da presen\u00e7a cada vez maior do capital chin\u00eas.<\/p>\n<p>A dimens\u00e3o da estabilidade e instabilidade na Am\u00e9rica Latina n\u00e3o \u00e9 um problema, \u00e9 um sintoma. O problema \u00e9 a continuidade e a descontinuidade dos projetos populares. Desde a independ\u00eancia formal de nossos pa\u00edses, \u00e9 assim. \u00c9 preciso entender que existem limites muito curtos dentro da institucionalidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas, enfim, h\u00e1 uma agenda positiva? Evidente!<\/p>\n<p>Uma delas \u00e9 a defesa dos territ\u00f3rios. No caso brasileiro, de territ\u00f3rios de popula\u00e7\u00f5es tradicionais, de ind\u00edgenas, quilombolas. Se somarmos tudo, \u00e9 cerca de 40% de territ\u00f3rio brasileiro. \u00c9 muita terra, muita \u00e1rea preservada, \u00e1reas onde n\u00e3o existem pr\u00e1ticas de<em> modus vivendi<\/em> capitalistas, e isso \u00e9 inegoci\u00e1vel. Ent\u00e3o, o que a esquerda ainda classista e com disposi\u00e7\u00e3o de luta deveria fazer \u00e9 militar. Militar socialmente, fazer pol\u00edtica na base social \u2013 e n\u00e3o para ela ou apesar dela. Este \u00e9 o primeiro ponto necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Outro ponto seria buscar sa\u00eddas econ\u00f4micas do capitalismo dentro do pr\u00f3prio capitalismo. Do contr\u00e1rio, a disputa se dar\u00e1 sempre na urna, podendo ganhar e n\u00e3o levar, levar primeiro e perder depois etc. Ent\u00e3o, \u00e9 important\u00edssimo ter debate de autogest\u00e3o, de moeda social, de sistemas de trocas e, urgentemente, da Moderna Teoria Monet\u00e1ria (MMT).<\/p>\n<p>Precisamos acabar com a mentira fiscalista, esta mentira deslavada do rentismo, dos supostos economistas neocl\u00e1ssicos, de que o excesso de moeda gera infla\u00e7\u00e3o. Isso n\u00e3o \u00e9 um capricho acad\u00eamico, mas algo que pode gerar muita riqueza, mesmo no capitalismo perif\u00e9rico. Se nos rendermos \u00e0s mentiras fiscalistas, n\u00e3o temos como sair da armadilha do austeric\u00eddio. Esse seria, de todos os debates, aquele que poderia unificar todo mundo, dos que v\u00e3o do nacionalismo \u00e0 extrema esquerda \u2013 nacionalista ou n\u00e3o \u2013, e a luta dos povos organizados em toda a Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Anne Ledur \u00e9 jornalista formada pela UFRGS e especialista em comunica\u00e7\u00e3o visual na It\u00e1lia (<a href=\"mailto:aledur@gmail.com\">aledur@gmail.com<\/a>)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Bruno Lima Rocha \u00e9 p\u00f3s-doutorando em economia pol\u00edtica, doutor e mestre em ci\u00eancia pol\u00edtica e professor universit\u00e1rio nos cursos de rela\u00e7\u00f5es internacionais, jornalismo e direito; graduado em\u00a0 jornalismo, editor do portal Estrat\u00e9gia &amp; An\u00e1lise<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.estrategiaeanaliseblog.com\">www.estrategiaeanaliseblog.com<\/a> \u2013 para textos e coment\u00e1rios atualizados<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.estrategiaeanalise.com.br\">www.estrategiaeanalise.com.br<\/a> \u2013 arquivo de 2005 a 2018, incluindo textos anteriores<\/p>\n<p><a href=\"mailto:blimarocha@gmail.com\">blimarocha@gmail.com<\/a> para E-mail e Facebook<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/estrategiaeanaliseoficial\/\">https:\/\/www.facebook.com\/estrategiaeanaliseoficial\/<\/a> &#8211; para todo material de \u00e1udio, TV e produ\u00e7\u00f5es em l\u00edngua espanhola e em ingl\u00eas<\/p>\n<p>t.me\/estrategiaeanalise \u2013 grupo do portal no Telegram<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Anne Ledur e Bruno Lima Rocha, 19 de dezembro de 2019 Um levantamento publicado pelo Jornal O Globo, em novembro deste ano, denunciou a fragilidade das democracias sul-americanas no \u00faltimo s\u00e9culo. De acordo com a investiga\u00e7\u00e3o, a cada dez meses, um presidente n\u00e3o conseguiu terminar seu mandato por raz\u00f5es pol\u00edticas. 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