{"id":2227,"date":"2020-01-23T12:52:29","date_gmt":"2020-01-23T15:52:29","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanaliseblog.com\/?p=2227"},"modified":"2020-01-23T12:52:29","modified_gmt":"2020-01-23T15:52:29","slug":"a-real-ameaca-antissemita-e-a-defesa-do-povo-palestino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=2227","title":{"rendered":"A real amea\u00e7a antissemita e a defesa do povo palestino"},"content":{"rendered":"<p><strong>23 de janeiro de 2020, Bruno Baaklini (<\/strong><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/blimarocha\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bruno Lima Rocha<\/a> Beaklini<strong>)<\/strong><\/p>\n<p><u>Introdu\u00e7\u00e3o: o antissemitismo manifesto dentro do governo Bolsonaro<\/u><\/p>\n<p>No dia 17 de janeiro de 2020, o ent\u00e3o secret\u00e1rio especial de Cultura do governo Jair Bolsonaro foi demitido (ver link: https:\/\/oglobo.globo.com\/cultura\/roberto-alvim-demitido-da-secretaria-especial-da-cultura-24196589). O motivo? Descuido. Em v\u00eddeo institucional gravado para difundir o Pr\u00eamio Nacional das Artes (ver link: https:\/\/g1.globo.com\/politica\/noticia\/2020\/01\/17\/secretario-nacional-da-cultura-roberto-alvim-faz-discurso-sobre-artes-semelhante-ao-de-ministro-da-propaganda-de-hitler.ghtml) , o dramaturgo praticamente copiou trecho de seu colega de profiss\u00e3o, o tamb\u00e9m autor de teatro e criminoso de guerra, o ministro da Informa\u00e7\u00e3o e Propaganda do III Reich,\u00a0 Joseph Goebbels.\u00a0 Na v\u00e9spera, 16 de janeiro, Alvim participou da transmiss\u00e3o ao vivo pela internet em companhia do pr\u00f3prio capit\u00e3o reformado de artilharia (ver link: https:\/\/noticias.uol.com.br\/politica\/ultimas-noticias\/2020\/01\/16\/secretario-de-cultura-fala-em-salvar-jovens-com-novo-programa-do-governo.htm), compartilhando a mesa com o secret\u00e1rio nacional da Pesca (aquele que elogiou a intelig\u00eancia dos peixes para desviarem do \u00f3leo contaminando o litoral nordestino). Durante a transmiss\u00e3o, a \u201cgenialidade\u201d de Bolsonaro refor\u00e7ou a confian\u00e7a no autor de dramaturgia para garantir uma cultura que garanta \u201co conservadorismo em arte\u201d, para \u201csalvar os jovens\u201d e \u201cdignificar o ser humano\u201d.<\/p>\n<p>Um dia depois, Alvim grava em v\u00eddeo a seguinte frase \u201cA arte brasileira da pr\u00f3xima d\u00e9cada ser\u00e1 heroica e ser\u00e1 nacional, ser\u00e1 dotada de grande capacidade de envolvimento emocional, e ser\u00e1 igualmente imperativa, posto que profundamente vinculada \u00e0s aspira\u00e7\u00f5es urgentes do nosso povo \u2013 ou ent\u00e3o n\u00e3o ser\u00e1 nada.\u201d J\u00e1 o seu referente afirmara em 1933: \u201cA arte alem\u00e3 da pr\u00f3xima d\u00e9cada ser\u00e1 heroica, ser\u00e1 ferreamente rom\u00e2ntica, ser\u00e1 objetiva e livre de sentimentalismo, ser\u00e1 nacional com grande p\u00e1thos e igualmente imperativa e vinculante, ou ent\u00e3o n\u00e3o ser\u00e1 nada.&#8221; Logo, a \u00eanfase no p\u00e1thos, no sentido de uma epopeia da cultura nacional (no caso de Alvim seria uma na\u00e7\u00e3o imaginada, um pa\u00eds de invasores \u201cbrancos\u201d, pois os povos dos Brasis est\u00e3o centrados em Palmares e Pindorama) implicaria em algo \u201cgrandioso\u201d, como uma queima de livros, execra\u00e7\u00e3o cibern\u00e9tica, celebra\u00e7\u00f5es de pentecostalismo capitalista?! Algo assim, premiado pelo Estado atrav\u00e9s do governo de turno. Talvez.<\/p>\n<p>Alvim foi demitido porque se descuidou. Como provar? Porque na v\u00e9spera fora elogiado ao vivo pelo pr\u00f3prio presidente. Com sua exonera\u00e7\u00e3o, j\u00e1 \u00e9 o quarto a ocupar o cargo em um ano de desgoverno. Sua prega\u00e7\u00e3o foi antissemita? Sem d\u00favida. Elogiou, plagiou, repetiu um discurso nazista? Com certeza. Uma das evid\u00eancias do desconforto com tal discurso veio do pr\u00f3prio embaixador de Israel (ver link: https:\/\/jovempan.com.br\/noticias\/brasil\/demissao-roberto-alvim-embaixada-israel.html), que apoiou a demiss\u00e3o do dramaturgo, assim como a nota da Confedera\u00e7\u00e3o Israelita do Brasil (CONIB, ver link: https:\/\/cultura.estadao.com.br\/noticias\/geral,conib-chama-de-inaceitavel-fala-de-roberto-alvim-e-pede-afastamento-do-secretario,70003162854). Repito: vimos um sintoma, um aspecto tang\u00edvel, a rela\u00e7\u00e3o de fasc\u00ednio da extrema direita protofascista com o nazismo e sua ascens\u00e3o \u00e9 permanente. Ap\u00f3s a demiss\u00e3o, Roberto Rego Pinheiro (nome de registro de Roberto Alvim) cogitou que todo o evento teria base em alguma \u201ca\u00e7\u00e3o sat\u00e2nica\u201d (ver link: <a href=\"https:\/\/revistaforum.com.br\/politica\/roberto-alvim-comeco-a-desconfiar-de-uma-acao-satanica-em-toda-essa-horrivel-historia\/\">https:\/\/revistaforum.com.br\/politica\/roberto-alvim-comeco-a-desconfiar-de-uma-acao-satanica-em-toda-essa-horrivel-historia\/<\/a>). Como n\u00e3o se pode rir dessa situa\u00e7\u00e3o, s\u00f3 nos resta aumentar ainda mais a indigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa longa introdu\u00e7\u00e3o \u00e9 para trazer \u00e0 superf\u00edcie um tema que gera muita confus\u00e3o e causa disc\u00f3rdias e problemas nas sociedades civis organizadas dos pa\u00edses \u201cocidentalizados\u201d, assim como nas esquerdas mundiais. O texto que segue tenta desassociar o combate ao antissemitismo com as cr\u00edticas ao Estado de Israel. S\u00e3o temas diferentes, mas deveras manipulados para que o povo palestino fique ainda mais isolado.<\/p>\n<p><u>Apresenta\u00e7\u00e3o, do autor e do primeiro artigo <\/u><\/p>\n<p>Esse \u00e9 o primeiro texto que fa\u00e7o com tamanha exposi\u00e7\u00e3o pessoal, afirma\u00e7\u00e3o \u00e9tnica e perten\u00e7a. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil.\u00a0 Toda estreia \u00e9 uma sensa\u00e7\u00e3o nova, que inclui o desafio de falar &#8211; conversar \u2013 com um p\u00fablico ampliado e ainda assim refor\u00e7ar v\u00ednculos j\u00e1 existentes. Esse \u00e9 o artigo inaugural abordando explicitamente os temas do Grande Oriente M\u00e9dio com \u00eanfase especial na liberta\u00e7\u00e3o da Palestina e nos direitos inalien\u00e1veis e indissoci\u00e1veis com o territ\u00f3rio e seu povo. Trata-se de texto de opini\u00e3o, circulando com a tem\u00e1tica central no pan-arabismo e na dram\u00e1tica situa\u00e7\u00e3o em que se encontra a Cisjord\u00e2nia, Gaza e os demais elementos centrais na constru\u00e7\u00e3o de uma sa\u00edda vi\u00e1vel que contemple, no m\u00ednimo do m\u00ednimo, a mais de sete milh\u00f5es de pessoas. Confesso que a tarefa n\u00e3o \u00e9 simples e parece ultrapassar minhas possibilidades.<\/p>\n<p>Antes de seguir pe\u00e7o licen\u00e7a para me apresentar. N\u00e3o sou ne\u00f3fito nas atividades pol\u00edticas (comecei no engajamento ainda crian\u00e7a, na chamada pr\u00e9-adolesc\u00eancia na d\u00e9cada de \u201980 do s\u00e9culo passado) e menos ainda no apoio \u00e0 Causa Palestina. Por parte de pai tenho origem \u00e1rabe, e como milh\u00f5es de brasileiros e brasileiras, ascend\u00eancia libanesa crist\u00e3 (no meu caso, maronita) embora distante das ra\u00edzes. Felizmente a forma\u00e7\u00e3o no tema iniciou muito cedo, quando da Guerra Civil Libanesa (1975-1990), especialmente na segunda invas\u00e3o de Israel ao L\u00edbano (em 1982). Tive a sorte de aprender sobre a regi\u00e3o atrav\u00e9s de meu falecido av\u00f4 paterno, um entusiasta defensor da Frente Rejeicionista, do Bloco \u00c1rabe-Palestino-Mu\u00e7ulmano e Progressistas. Meu av\u00f4 era um seguidor \u2013 \u00e0 dist\u00e2ncia \u2013 das ideias do Sheikh Kamal Jumblatt. Curiosa situa\u00e7\u00e3o, pois n\u00e3o venho de fam\u00edlia drusa e sim maronita. Assim, atrav\u00e9s da escuta sobre as posi\u00e7\u00f5es do l\u00edder hist\u00f3rico Movimento Nacional Liban\u00eas, me fiz pan-arabista e pr\u00f3-palestino desde muito novo.<\/p>\n<p>A politiza\u00e7\u00e3o em temas do Brasil e da Am\u00e9rica Latina veio mais forte, mas pela via da milit\u00e2ncia, o desenvolvimento pol\u00edtico caminhou junto ao compromisso com a Causa \u00c1rabe e Palestina. No final desta d\u00e9cada e no in\u00edcio dos anos \u201990, participei ainda vivendo no Rio de Janeiro, do Comit\u00ea pela Liberta\u00e7\u00e3o de Lamia Maruf Hassan. Desde ent\u00e3o os v\u00ednculos \u2013 mais emotivos que pol\u00edticos, mais de mem\u00f3ria que org\u00e2nicos \u2013 n\u00e3o foram interrompidos. A partir de 2013, j\u00e1 doutor em ci\u00eancia pol\u00edtica e dedicado nas tarefas de docente de rela\u00e7\u00f5es internacionais, ao que era vontade militante se somou com a miss\u00e3o do of\u00edcio. Um dos princ\u00edpios do Direito Internacional, o da autodetermina\u00e7\u00e3o dos povos e seus territ\u00f3rios, se tornou um princ\u00edpio de vida. Logo, n\u00e3o h\u00e1 como correr dos v\u00ednculos com o Oriente M\u00e9dio, no apoio incondicional \u00e0 Causa Palestina e ao Confederalismo Democr\u00e1tico no Curdist\u00e3o, assim como no combate aos imperialismos e trai\u00e7\u00f5es que assolam os pa\u00edses de nossos antepassados. Nos textos que seguem (neste e nos demais), me atenho na rela\u00e7\u00e3o do pan-arabismo com a tentativa de incidir sobre a col\u00f4nia e descendentes \u00e1rabe-brasileiros assim como participar do esfor\u00e7o internacional em solidariedade ao povo palestino. N\u00e3o \u00e9 tarefa f\u00e1cil e muito menos corriqueira. Vamos ao tema do antissemitismo.<\/p>\n<p><strong>Expondo os termos iniciais do debate: o combate ao antissemitismo e a defesa da Palestina\u00a0 \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Por mais v\u00ednculos que tenhamos com o Grande Oriente M\u00e9dio, o Arabismo e porque n\u00e3o, o Mundo Isl\u00e2mico, a trajet\u00f3ria pol\u00edtica e intelectual do apoio solid\u00e1rio \u00e9 marcadamente outra. Somos solid\u00e1rios a uma Causa distante de sociedades que em geral compreendemos pouco. \u00a0Citando a Edward Said, h\u00e1 que se temer o \u201corientalismo\u201d mesmo quando esse existe na nega\u00e7\u00e3o do mesmo. Ou seja, \u00e9 t\u00e3o nefasto ver a regi\u00e3o como \u201cex\u00f3tica ou exc\u00eantrica\u201d, como tamb\u00e9m o \u00e9 ignorando as forma\u00e7\u00f5es sociais concretas e a vida em sociedade que por l\u00e1 se desenvolve, com todas as suas mazelas e conflitos de interesse. Assim, vejo como muito, muito importante conhecer com grau de profundidade as rela\u00e7\u00f5es de poder no Mundo \u00c1rabe, os sistemas de governo, as estruturas de domina\u00e7\u00e3o, os papeis sociais e, dentro de tudo isso, a luta de classes (quando estas assim existem), a luta dos povos e a presen\u00e7a constante de Imp\u00e9rios Ocidentais (como os cruzados anglo-sax\u00f5es e os cruzados russo-bizantinos).<\/p>\n<p>Escrevemos a partir do \u201cocidente perif\u00e9rico\u201d, \u00e9 sempre bom lembrar. Digo isso porque a rela\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m como eu, diante das comunidades judaicas, \u00e9 sempre de alguma dubiedade. Tendo forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica &#8220;ocidental&#8221; (no p\u00f3s-iluminismo socialista ainda na 1\u00aa Internacional), e de base libert\u00e1ria, a persegui\u00e7\u00e3o \u00e0s comunidades judaicas europeias em distintos per\u00edodos hist\u00f3ricos \u00e9 sempre uma constante. Logo, entendo que \u00e9 necess\u00e1ria uma garantia para as pessoas de descend\u00eancia e f\u00e9 judaicas. Neste sentido concordo com aquilo que foi declarado, de forma gen\u00e9rica pelo mais que respeitado historiador Ilan Papp\u00e9. N\u00e3o \u00e9 toler\u00e1vel nenhuma forma de antissemitismo (nem o europeu, contra popula\u00e7\u00f5es judaicas e tampouco anti-\u00e1rabes) e sim, entendo que seria necess\u00e1ria uma esp\u00e9cie de territ\u00f3rio e santu\u00e1rio para a comunidade judaica. Nenhuma toler\u00e2ncia com ideias supremacistas pode ser \u201ctolerada\u201d.<\/p>\n<p>Sendo direto. O combate aos perseguidores do povo judeu n\u00e3o pode em hip\u00f3tese alguma implicar em nenhum n\u00edvel de complac\u00eancia ou relativismo contra a deporta\u00e7\u00e3o, desterritorializa\u00e7\u00e3o, ocupa\u00e7\u00e3o militar e limpeza \u00e9tnica na Palestina. Como \u00e9 sabido, ainda na d\u00e9cada de \u201920 do s\u00e9culo passado, a lideran\u00e7a \u00e1rabe-palestina chegou a cogitar um Estado Binacional, algo solenemente ignorado por Ben Gurion e seus pares. O resultado desta vontade expressa, incluindo a alian\u00e7a com o imperialismo ingl\u00eas, depois com EUA e Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, j\u00e1 em 1956 novamente com Inglaterra e Fran\u00e7a e na sequ\u00eancia o apoio incondicional dos Estados Unidos, todos sabemos no que resultou. Repetindo. Ser contra o antissemitismo n\u00e3o implica, jamais, em parecer aceit\u00e1vel os termos da funda\u00e7\u00e3o do Estado de Israel \u2013 a Nakba &#8211; e menos ainda tendo por base a limpeza \u00e9tnica anterior e os tipos de ocupa\u00e7\u00e3o sendo realizadas ap\u00f3s 1948.<\/p>\n<p>\u00c9 importante refor\u00e7ar o \u00f3bvio. No cumprimento do dever, venho de uma tradi\u00e7\u00e3o onde n\u00e3o se \u201cconversa\u201d ou \u201cdialoga\u201d com o antissemitismo. N\u00e3o foram poucas vezes em que fomos chamados \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias com essa laia autodenominada de nazifascista, integralista ou assemelhados. Lutar contra a excresc\u00eancia n\u00e3o pode ser coniv\u00eancia com a desumaniza\u00e7\u00e3o do povo palestino. Tamanha necessidade hist\u00f3rica (a luta frontal contra a extrema direita) s\u00f3 ganha legitimidade se \u2013 no Oriente M\u00e9dio \u2013 essas mesmas pessoas promoverem uma equipara\u00e7\u00e3o de direitos com o povo \u00e1rabe-palestino. Resumindo: a luta contra o antissemitismo n\u00e3o tem \u201cdono\u201d e menos ainda a chancela de ser ou n\u00e3o antissemita pode pertencer aos apoiadores da Ocupa\u00e7\u00e3o da Cisjord\u00e2nia e do Cerco \u00e0 Gaza. Ao mesmo tempo, \u00e9 urgente n\u00e3o reproduzir o mito de \u201cIsrael basti\u00e3o das ideias mais avan\u00e7adas\u201d no Oriente M\u00e9dio, porque o custo e peso desta sociedade liberal capitalista \u00e9 a domina\u00e7\u00e3o de milh\u00f5es de \u00e1rabes.<\/p>\n<p>Em n\u00fameros aproximados, s\u00e3o sete milh\u00f5es s\u00f3 dentro das fronteiras de Israel em 1948 (quase dois milh\u00f5es de palestinos que Tel Aviv insiste em denominar \u201c\u00e1rabe-israelense\u201d), Cisjord\u00e2nia (tr\u00eas milh\u00f5es) e Gaza (dois milh\u00f5es). Logo, o que \u00e9 poss\u00edvel pensar como sendo o \u201cplano estrat\u00e9gico\u201d de Israel para sete milh\u00f5es de pessoas e mais os seis milh\u00f5es de refugiados origin\u00e1rios na Nakba? Aniquilar estes territ\u00f3rios? Colapsar as m\u00ednimas condi\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias? Condenar a fome e a inani\u00e7\u00e3o os habitantes de Gaza? Anexar \u2013 de fato &#8211; toda a Cisjord\u00e2nia, passando por cima do direito internacional? \u201cComprar\u201d terras no Estado Hachemita da Jord\u00e2nia e transferir centenas de milhares de fam\u00edlias? Qual a solu\u00e7\u00e3o para o\u00a0 n\u00e3o cumprimento dos Acordos de Oslo?<\/p>\n<p>A posi\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples como dram\u00e1tica. Lutar contra o antissemitismo no mundo e defender a Causa da Liberta\u00e7\u00e3o da Palestina. N\u00e3o h\u00e1 meio termo como lembra John Mearshemier; c\u00e9lebre cientista pol\u00edtico realista e co-autor junto a Stephen Walt do livro cl\u00e1ssico \u201cThe Israel Lobby and US Foreign Policy, 2007. Ou o Apartheid \u00e9 superado, ou ent\u00e3o Israel troca paz por terra e \u00e1gua e restabelece condi\u00e7\u00f5es concretas para 2 povos e 2 Estados. Isso implicaria, por exemplo, o total recuo dos colonos e assentamentos da Cisjord\u00e2nia, a distribui\u00e7\u00e3o parit\u00e1ria de todos os recursos h\u00eddricos, o estabelecimento de um Porto em Gaza, sem bloqueio naval e um aeroporto na Cisjord\u00e2nia, al\u00e9m das fronteiras abertas e sob controle palestino tanto com a Jord\u00e2nia como com o Egito. Isso ou um Estado conjunto, p\u00f3s-apartheid, tal como na \u00c1frica do Sul ap\u00f3s 1994. N\u00e3o para por a\u00ed. Israel tem de devolver Gol\u00e3 para a S\u00edria e interromper os &#8220;ataques preventivos&#8221; de toda e qualquer natureza com o L\u00edbano e a S\u00edria. Esses itens seriam o m\u00ednimo do m\u00ednimo.<\/p>\n<p>Sem negociar sobre o concreto, o debate do antissemitismo vira uma guerra de intelig\u00eancia comunicacional e cibern\u00e9tica pelo controle da narrativa. E isso s\u00f3 interessa a quem n\u00e3o quer de fato combater a ascens\u00e3o da extrema direita no Ocidente e menos ainda mover um cent\u00edmetro a favor da solu\u00e7\u00e3o da Quest\u00e3o e da Causa Palestina.<\/p>\n<p><strong>Linhas conclusivas: e o antissemitismo alegado na defesa da Palestina?<\/strong><\/p>\n<p>Encerro chamando aten\u00e7\u00e3o para um tema que vai orientar \u2013 literalmente \u2013 nosso debate nos pr\u00f3ximos artigos. Antissemitismo \u00e9 crime, profana\u00e7\u00e3o de tumbas e apostasia de qualquer natureza tamb\u00e9m. Contra essa laia, \u00e9 preciso empregar todos os recursos dispon\u00edveis. E, \u00e9 um crime pol\u00edtico atribuir que a defesa dos direitos do povo palestino seja uma forma de antissemitismo. Ser antissemita tamb\u00e9m \u00e9 ser anti-\u00e1rabe, porque semitas somos tanto \u00e1rabes como hebreus. Logo, ser anti-\u00e1rabe (e porque n\u00e3o islamof\u00f3bico) \u00e9 ser \u201corientalista\u201d segundo Said e pr\u00f3-ocidental e imperialista, al\u00e9m de colonizador cultural. Assim, na atualidade, nada mais anti-\u00e1rabe do que o cinismo israelense e sua pr\u00e1tica de ocupa\u00e7\u00e3o militar e vigil\u00e2ncia atrav\u00e9s da Shabak (Shin Bet, pol\u00edcia pol\u00edtica) contra toda a popula\u00e7\u00e3o \u00e1rabe-palestina. J\u00e1 nos pa\u00edses \u201cocidentalizados\u201d, ter boas rela\u00e7\u00f5es com governos mais \u00e0 direita \u2013 como Bolsonaro e Trump \u2013 e ignorar os apoios de antissemitas declarados que tais governantes t\u00eam, forma um tipo de \u201cpragmatismo pol\u00edtico\u201d que s\u00f3 ajuda a relativizar os efeitos danosos da laia. Para quem duvida ou pensa ser exagero, sugiro assistir \u00e0s \u201ccomemora\u00e7\u00f5es\u201d da Alt-Rigt (ver link: https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=Uqv7IVDubVY) depois de um ano da Batalha de Charlottesville, em agosto de 2017 (ver link: \u00a0https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=RIrcB1sAN8I)<\/p>\n<p>Nos pr\u00f3ximos meses seguimos com este debate, alinhando-o e entrando nos meandros mais dif\u00edceis. Voltaremos.<\/p>\n<p>Obs: a primeira vers\u00e3o desse artigo, sem a Introdu\u00e7\u00e3o, foi originalmente publicada no Monitor do Oriente (MEMO, vers\u00e3o em portugu\u00eas).<\/p>\n<p>Bruno Baaklini (Bruno Lima Rocha no sobrenome materno, <a href=\"mailto:blimarocha@gmail.com\">blimarocha@gmail.com<\/a>), \u00e1rabe-brasileiro de descend\u00eancia libanesa \u00e9 cientista pol\u00edtico, professor nos cursos de rela\u00e7\u00f5es internacionais, jornalismo e direito.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>23 de janeiro de 2020, Bruno Baaklini (Bruno Lima Rocha Beaklini) Introdu\u00e7\u00e3o: o antissemitismo manifesto dentro do governo Bolsonaro No dia 17 de janeiro de 2020, o ent\u00e3o secret\u00e1rio especial de Cultura do governo Jair Bolsonaro foi demitido (ver link: https:\/\/oglobo.globo.com\/cultura\/roberto-alvim-demitido-da-secretaria-especial-da-cultura-24196589). O motivo? Descuido. 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