{"id":2346,"date":"2020-04-14T12:28:33","date_gmt":"2020-04-14T15:28:33","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanaliseblog.com\/?p=2346"},"modified":"2020-04-14T12:28:33","modified_gmt":"2020-04-14T15:28:33","slug":"debatendo-uma-politica-externa-anti-imperialista-atraves-do-sul-global-artigo-de-analise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=2346","title":{"rendered":"Debatendo uma pol\u00edtica externa anti-imperialista atrav\u00e9s do Sul Global  &#8211; artigo de an\u00e1lise"},"content":{"rendered":"<p>14 de abril de 2020 &#8211; <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/blimarocha\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bruno Lima Rocha<\/a><\/p>\n<p>Introdu\u00e7\u00e3o: nas palavras que seguem, de maneira pontual e com modesta pretens\u00e3o, apresenta-se um debate que julgo urgente. A reorganiza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica externa brasileira e o tipo de inser\u00e7\u00e3o no Sistema Internacional que nosso pa\u00eds deveria ter. Trata-se de um aporte concreto, com metas vi\u00e1veis, ainda que ousadas. Esperamos com isso n\u00e3o apenas abrir um debate e travar pol\u00eamicas com o entreguismo lacaio, mas tamb\u00e9m marcar uma posi\u00e7\u00e3o consequente, anti-imperialista e pelo Sul Global que tanto defendemos e onde o Brasil tem um protagonismo a conquistar e cumprir.<\/p>\n<p>Antes de mais nada: tudo passa pelo sentido de pertencimento. A inser\u00e7\u00e3o internacional do Brasil deve ser o carro-chefe da entrada da Am\u00e9rica Latina e Caribe atrav\u00e9s de seu membro mais relevante no Sistema Internacional. A condi\u00e7\u00e3o lacaia com os EUA, estabelecida desde o golpe com apelido de <em>impeachment,<\/em> em 2016, e as prof\u00edcuas rela\u00e7\u00f5es dentro do aparelho de Estado junto a organismos oficiais estadunidenses foram ao encontro de uma condi\u00e7\u00e3o da classe m\u00e9dia e da tecnocracia brasileiras, de fascina\u00e7\u00e3o idealizada com o norte hegem\u00f4nico e o mundo euroc\u00eantrico, subordinando ainda mais as decis\u00f5es do Estado brasileiro aos interesses externos mais vis.<\/p>\n<p>O \u201cesc\u00e2ndalo\u201d da aus\u00eancia de reagentes e a importa\u00e7\u00e3o de mais de 70% dos produtos da ind\u00fastria qu\u00edmico-farmac\u00eautica \u00e9 outro absurdo. De nada adianta uma postura anti-imperialista cl\u00e1ssica (anti-europ\u00e9ia e estadunidense) e nos tornarmos mais dependentes das ind\u00fastrias eurasi\u00e1ticas, a exemplo de \u00cdndia, China e Sudeste Asi\u00e1tico. O mesmo se d\u00e1 na internaliza\u00e7\u00e3o de capitais, de quaisquer origem e proced\u00eancia. \u00c9 fundamental uma legisla\u00e7\u00e3o protetiva e protetora que impe\u00e7a capitais externos, em especial chineses, de comprarem solo e subsolo brasileiros, assim como negar o acesso direto aos recursos h\u00eddricos e minerais. \u00c9 importante ter produtividade em nosso setor prim\u00e1rio \u2013 para atender a efetiva demanda interna e sob controle familiar e campon\u00eas &#8211; mas antes que nada \u00e9 fundamental termos autonomia, independ\u00eancia e deixarmos de necessitar de uma agricultura de alta intensidade e predat\u00f3ria para fechar no azul na balan\u00e7a comercial. Se a coopera\u00e7\u00e3o n\u00e3o\u00a0 subordinada com a China, a participa\u00e7\u00e3o mais ativa no Banco dos BRICS e no Fundo de Resgate Autom\u00e1tico for o caminho para n\u00e3o sermos mais t\u00e3o dependentes das reservas internacionais em d\u00f3lar, assim\u00a0 como os contratos fechados na moeda dos EUA, ent\u00e3o essa deve ser uma das prioridades absolutas da pol\u00edtica externa brasileira.<\/p>\n<p>Conforme dito acima, o Cone Sul, a Am\u00e9rica do Sul, a Am\u00e9rica Latina e Caribe, devem ser nossa prioridade. Na sequ\u00eancia, as rela\u00e7\u00f5es junto ao continente africano e pa\u00edses emergentes, assim como aumentar a presen\u00e7a no Grande Oriente M\u00e9dio e Mundo Isl\u00e2mico. Na estrutura de poder regional, os instrumentos j\u00e1 est\u00e3o presentes, no entanto precisam ser atualizados e fortalecidos, como o Mercosul, Unasul, CELAC e o moribundo Conselho de Defesa Sul-Americano. As metas s\u00e3o evidentes e passam urgentemente nas garantias de autodetermina\u00e7\u00e3o e soberania da Rep\u00fablica Bolivariana da Venezuela, \u00a0sem com isso implicar numa subordina\u00e7\u00e3o ao imperialismo e, menos ainda, hipotecar a renda petroleira. O mesmo vale no protesto contra o criminoso bloqueio econ\u00f4mico sobre Cuba e, em escala internacional, contra a Rep\u00fablica Isl\u00e2mica do Ir\u00e3.<\/p>\n<p>Em termos de financiamento de projetos produtivos \u00e9 vi\u00e1vel pensarmos em um Banco Latino-americano de Desenvolvimento, imaginando um Plano Marshall de n\u00f3s para n\u00f3s mesmos. O primeiro passo seria capitalizar o Banco do Sul com linhas de financiamento de cons\u00f3rcios produtivos e cadeias integradas no Sul-Sul, j\u00e1 nos padr\u00f5es industriais que praticamos. Uma boa iniciativa seria retomar a autonomia em todo o complexo m\u00e9dico-hospitalar e qu\u00edmico-farmac\u00eautico, medida efetiva que conta com um fator multiplicador de emprego direto e indireto e enorme presen\u00e7a de cientistas vinculados ao servi\u00e7o p\u00fablico.<\/p>\n<p>Nossas universidades e institui\u00e7\u00f5es cient\u00edficas precisam aumentar a coopera\u00e7\u00e3o dentro da Am\u00e9rica Latina, sem a reprodu\u00e7\u00e3o do colonialismo intelectual e os paradigmas do norte hegem\u00f4nico, em especial com o eixo anglo-sax\u00e3o. Essas iniciativas de coopera\u00e7\u00e3o podem se dar tanto em institui\u00e7\u00f5es de pesquisa independentes, como naquelas vinculadas aos governos nacionais (como a Fiocruz) ou subnacionais (como o Instituto Butant\u00e3).<\/p>\n<p>A import\u00e2ncia de condenar o colonialismo intelectual e as condi\u00e7\u00f5es lacaias da intelectualidade ganha materialidade ao analisarmos a chaga que assola o inconsciente coletivo e a fabrica\u00e7\u00e3o de uma moral t\u00edpica da direita republicana gringa em nosso pa\u00eds. Falo da dimens\u00e3o tomada pela Coopera\u00e7\u00e3o Jur\u00eddica Internacional e os profundos efeitos da internaliza\u00e7\u00e3o de interesses externos, como atrav\u00e9s da Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato, que demonstraram, materialmente, como o acionar dos Estados Unidos traz efeitos terr\u00edveis para a nossa sociedade em geral e para as estruturas produtivas em particular.<\/p>\n<p>Portanto, as rela\u00e7\u00f5es com os EUA devem ser distantes, cautelosas, mas pouco ou nada amistosas. Devemos e podemos manter todos os contenciosos na OMC e efetivar acordos somente sob Coopera\u00e7\u00e3o Internacional com transfer\u00eancia plena tecnol\u00f3gica, algo que jamais se d\u00e1 na compra de material b\u00e9lico dos EUA. Sabemos dos efeitos nefastos do imperialismo estadunidense nos cora\u00e7\u00f5es e mentes de autoridades constitu\u00eddas e tecnocracias de carreira (como na economia, no aparelho jur\u00eddico e no estamento militar) e como tal dever ser interrompido, incluindo os acordos de conv\u00eanio e as \u201cviagens de experi\u00eancia profissional\u201d.<\/p>\n<p>Devemos fazer o caminho inverso, aproximando-nos, como sociedade, de brasileiros emigrados em condi\u00e7\u00f5es legais ou ilegais, com uma agressiva pol\u00edtica cultural de perten\u00e7a e <em>soft power<\/em> brasileiro e latino-americano no cora\u00e7\u00e3o da Superpot\u00eancia b\u00e9lica.<\/p>\n<p>Parece l\u00f3gico, mas precisamos refor\u00e7ar o que \u00e9 evidente. Se formos um pa\u00eds exemplar na convers\u00e3o econ\u00f4mica para baixo carbono e pleno emprego, podemos liderar o Sul Global no caminho de um <em>green new deal<\/em> efetivo.<\/p>\n<p>Para que aquilo acima citado se torne programa reivindicativo e de constru\u00e7\u00e3o coletiva precisamos ir al\u00e9m. \u00c9 preciso criar mecanismos de press\u00e3o a partir do movimento popular, da sociedade organizada e das esquerdas para influenciar ou formular a pol\u00edtica externa brasileira. Uma das formas de contribuir \u00e9 demandar que a participa\u00e7\u00e3o no Itamaraty em postos diplom\u00e1ticos n\u00e3o seja uma carreira exclusiva e excludente, a exemplo do que ocorre nas carreiras jur\u00eddicas de Estado e a prerrogativa sobre as \u00e1reas policiais. Ao contr\u00e1rio do que os cr\u00edticos afirmam, essas medidas n\u00e3o deterioram o quadro t\u00e9cnico governamental e sim o deixariam pleno de \u201coxig\u00eanio\u201d e pensamento cr\u00edtico. Jamais, em hip\u00f3tese alguma, podemos nos permitir termos outros \u201cidiotas na chancelaria do pa\u00eds\u201d e, menos ainda, formar bachar\u00e9is em rela\u00e7\u00f5es internacionais com a mentalidade de energ\u00famenos colonizados deste calibre.<\/p>\n<p>O Brasil tem um papel fundamental no Sistema Internacional que vai ser produzido ao longo e principalmente ap\u00f3s a pandemia de coronav\u00edrus. \u00c9 nossa tarefa apontar neste sentido e contribuir nos caminhos correspondentes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>14 de abril de 2020 &#8211; Bruno Lima Rocha Introdu\u00e7\u00e3o: nas palavras que seguem, de maneira pontual e com modesta pretens\u00e3o, apresenta-se um debate que julgo urgente. A reorganiza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica externa brasileira e o tipo de inser\u00e7\u00e3o no Sistema Internacional que nosso pa\u00eds deveria ter. 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