{"id":2484,"date":"2020-07-19T14:24:21","date_gmt":"2020-07-19T17:24:21","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanaliseblog.com\/?p=2484"},"modified":"2020-07-19T14:24:21","modified_gmt":"2020-07-19T17:24:21","slug":"no-bananistao-dos-parapoliciais-4a-parte-o-perigo-da-complexidade-no-modelo-de-controle-na-economia-politica-do-crime-artigo-de-analise-e-fabula-macabra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=2484","title":{"rendered":"No Bananist\u00e3o dos Parapoliciais (4\u00aa parte): o perigo da complexidade no modelo de controle na economia pol\u00edtica do crime &#8211; artigo de an\u00e1lise e f\u00e1bula macabra"},"content":{"rendered":"<p>19 de julho de 2020, por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/blimarocha\">Bruno Lima Rocha<\/a> e <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100005706308090\">Rafael Costa<\/a><\/p>\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o do quarto e \u00faltimo artigo da s\u00e9rie<\/strong><\/p>\n<p>At\u00e9 este epis\u00f3dio viemos apelando para a narrativa de f\u00e1bula macabra, pois seria um risco jur\u00eddico muito grande escrever que a Terra \u00e9 plana e dar nomes aos bois, incluindo sobrenomes e apelidos. Neste texto, a f\u00e1bula s\u00f3 retorna na conclus\u00e3o, e vamos nos valer do que circula de informa\u00e7\u00e3o, conceitos e an\u00e1lises hist\u00f3ricas recentes a respeito da complementaridade da economia pol\u00edtica do crime, as estruturas de organiza\u00e7\u00f5es criminosas como forma contempor\u00e2nea de \u201cacumula\u00e7\u00e3o selvagem\u201d e os riscos reais consequentes da maximiza\u00e7\u00e3o dessas estruturas.<\/p>\n<p><strong>Pensando a partir da Am\u00e9rica Latina: perigos da expans\u00e3o dos cart\u00e9is como complemento e fra\u00e7\u00e3o de classe dominante incidindo nas cadeias de valor e nos tomadores reais de decis\u00f5es <\/strong><\/p>\n<p>Infelizmente temos exemplos de sobra na Am\u00e9rica Latina, de organiza\u00e7\u00e3o territorial, atrav\u00e9s do controle das cadeias de valor da economia pol\u00edtica do crime e, na complementaridade, entre o poder do Estado &#8211; em n\u00edvel local &#8211; e o neg\u00f3cio do capitalismo ilegalizado. Recentemente, \u00faltimos cinco anos eu diria, ganhou popularidade no Brasil atrav\u00e9s de s\u00e9ries e novelas com produ\u00e7\u00f5es associadas. No M\u00e9xico e na Col\u00f4mbia, com estilos de teledramaturgia diferentes &#8211; e desde j\u00e1 me alinho com a estrutura de trama narrativa colombiana, mais sutil e realista &#8211; a chamada &#8220;cultura narco&#8221;, &#8220;subcultura do narco&#8221; ou ainda &#8220;cultura pop do narco&#8221;, vem ganhando espa\u00e7os e complexificando, cada vez mais, os modelos de neg\u00f3cios apresentados.<\/p>\n<p>O perigo sempre presente desta complexifica\u00e7\u00e3o pode ser acompanhado nas s\u00e9ries estreladas pela consagrada atriz mexicana Kate del Castillo, sendo que a segunda temporada da Rainha do\u00a0 Sul,\u00a0 para al\u00e9m de toda a caricatura, \u00e9 o exemplo que tento descrever. Vamos indicar os perigos e apontar seus riscos reais.<\/p>\n<p><u>Primeiro perigo (Perigo Tipo 1):<\/u> o dom\u00ednio territorial em fra\u00e7\u00f5es de pa\u00edses, na geografia pol\u00edtica ou na ci\u00eancia pol\u00edtica mais classificat\u00f3ria, os chamados &#8220;governos subnacionais&#8221;. Se em n\u00edvel de munic\u00edpios ou em estados inteiros, se numa regi\u00e3o metropolitana, caso tenha o pa\u00eds algum tipo de administra\u00e7\u00e3o de tipo microrregional; ou um arranjo consorciado. Isso \u00e9 problema grande, de Tipo 1. Podemos definir esse Perigo Tipo 1 na presen\u00e7a\u00a0 hist\u00f3rica do Cartel de Medell\u00edn, com a associa\u00e7\u00e3o da malandragem de Envigado com os senhores locais, da\u00ed a tr\u00edade de tr\u00eas familias: Escobar Gav\u00edria (a de Pablo Emilio, o pr\u00f3prio) e da oligarquia local, com os Ochoa \u00e0 frente e todos com respaldo dos Uribe V\u00e9lez (sendo um irm\u00e3o ex-presidente e figura mais influente na direita colombiana, o \u00c1lvaro e seu irm\u00e3o e pai sendo fundadores do paramilitarismo em forma empresarial, as Autodefesas Unidas da Col\u00f4mbia, AUC).<\/p>\n<p><u>Segundo perigo (Perigo Tipo 2):<\/u> Quando o controle da economia pol\u00edtica do crime implica em fra\u00e7\u00f5es inteiras de um pa\u00eds associado \u00e0 administra\u00e7\u00e3o estatal, influenciando parte das carreiras pol\u00edticas, parcelas importantes do sistema de defesa, de seguran\u00e7a\u00a0 e correcional (Ex. For\u00e7as Armadas, parcela das pol\u00edcias, controle dos pres\u00eddios) e atingindo diretamente o aparelho Judici\u00e1rio (como com venda de senten\u00e7as, advocacia administrativa e compadrio burocr\u00e1tico). A &#8220;sorte&#8221; se d\u00e1 quando h\u00e1 disputa entre carteis, com fra\u00e7\u00f5es de classe dominante e elites dirigentes associando-se em oposi\u00e7\u00e3o a outros setores. Isso refor\u00e7a o dom\u00ednio local e amplia o conflito para zonas inteiras. Sem exagero, podemos afirmar que este \u00e9 o ponto do conflito dos carteis mexicanos no momento atual, mas que descende do fim do controle Priista (do longo per\u00edodo de mais de 70 anos do PRI no poder central) sobre a economia do narcotr\u00e1fico e o consequente racha da Federa\u00e7\u00e3o montada sobre a alian\u00e7a Sinaloa-Jalisco, sob a batuta do ex-policial estadual Miguel \u00c1ngel F\u00e9lix Gallardo, unificador dos carteis do pa\u00eds, com a b\u00ean\u00e7\u00e3o da DFS (a KGB do PRI, criada em 1947 e dissolvida em 1985 ap\u00f3s o esc\u00e2ndalo da morte do agente da DEA, Enrique Camarena Salazar, tema central da primeira temporada da s\u00e9rie Narcos M\u00e9xico 1), todos, com exce\u00e7\u00e3o do Cartel do Golfo, antigo Cartel de Matamoros, controlador at\u00e9 hoje do estado de Tamaulipas.<\/p>\n<p>Terceiro perigo (Perigo Tipo 3):\u00a0 a soma de todos os males e a presen\u00e7a destes controles no com\u00e9rcio ilegal de longa dist\u00e2ncia, atrav\u00e9s do acesso \u00e0s \u00e1reas privativas de portos com alguma capacidade de carga. Veracruz no M\u00e9xico (no Golfo), porto de Buenaventura (Pac\u00edfico colombiano, litoral do departamento no Valle del Cauca, onde operavam os carteis de C\u00e1li e depois os do Norte do Vale) e o acesso interno a entroncamentos rodovi\u00e1rios. O problema est\u00e1 na rela\u00e7\u00e3o entre pa\u00edses e quando o volume de neg\u00f3cios traz tamanha liquidez que os bancos com capacidade de movimenta\u00e7\u00e3o em escala transnacional come\u00e7am a disputar esses dep\u00f3sitos. O caso mais escancarado \u00e9 o do finado BCCI, mas bancos que nasceram com o narcotr\u00e1fico nunca esquecem, tal \u00e9 o caso de importantes ag\u00eancias do HSBC lavando para os Zetas e o Cartel de Sinaloa em plena Nova York (ver este link: https:\/\/www.proceso.com.mx\/429555\/demandan-a-hsbc-en-eu-por-permitir-lavado-de-dinero-para-el-narco) e centenas de casos mais. Quando o volume de dinheiro advindo do narcotr\u00e1fico e atividades correlatas e ilegais injeta liquidez e implica at\u00e9 na sustentabilidade de uma economia inteira &#8211; no auge do narcotr\u00e1fico a liquidez colombiana era garantida pelo envio de dinheiro sonante dos EUA para a Col\u00f4mbia, atrav\u00e9s dos ganhos com o varejo do narco nas metr\u00f3poles mais viciadas do planeta no Hamburguest\u00e3o.<\/p>\n<p>Caberia ainda debater o Perigo Tipo 3 em termos absolutos em Honduras. O irm\u00e3o do presidente ileg\u00edtimo Juan Orlando Hern\u00e1ndez (JOH), Tony Hern\u00e1ndez foi preso\u00a0 nos Estados Unidos e r\u00e9u confesso, involucrou a todo o governo do JOH (ver este link: https:\/\/elpais.com\/internacional\/2019\/10\/18\/actualidad\/1571420844_713692.html). Hern\u00e1ndez alterou a Constitui\u00e7\u00e3o de pr\u00f3prio punho, avan\u00e7ou em medidas ultraliberais, fraudou as elei\u00e7\u00f5es onde foi reeleito e ainda foi formalmente acusado de operar junto a uma filial do Cartel de Sinaloa, o cartel dos Chang com base na vizinha Guatemala. Para tal, unidades inteiras do ex\u00e9rcito hondurenho, o mesmo que deu o golpe de Estado em 2009 com aval da Suprema Corte e foi logo reconhecido pela chancelaria gringa no primeiro governo Obama, operava para o narcotr\u00e1fico. Cobran\u00e7a de tributo sobre a economia ilegal (<em>derecho de piso<\/em> em escala nacional) e enriquecimento dos altos mandos faz com que a for\u00e7a contrarrevolucion\u00e1ria treinada na Escola das Am\u00e9ricas seja o pilar da economia do crime. O Departamento de Estado j\u00e1 sob governo Trump finge que n\u00e3o v\u00ea nada, a DEA opera pouco no pa\u00eds e segue a puni\u00e7\u00e3o seletiva conforme as conveni\u00eancias da administra\u00e7\u00e3o de turno no Imp\u00e9rio da Gringol\u00e2ndia.<\/p>\n<p><strong>O Rio de Janeiro, Perigo Tipo 1 e ampla expans\u00e3o da complexidade<\/strong><\/p>\n<p>Poderia seguir nos exemplos, mas ressalto que tudo isso, tudo mesmo, est\u00e1 em disputa hoje na Zona Oeste do rio de Janeiro e o Arco Metropolitano com a Baixada Fluminense. Se o cons\u00f3rcio de mil\u00edcias de parapoliciais controlar realmente uma parte do Porto de Itagua\u00ed n\u00e3o ser\u00e1 uma met\u00e1stase, mas sim uma f\u00e1brica cancer\u00edgena de enormes propor\u00e7\u00f5es. Se o acesso aos postos de controle rodovi\u00e1rios for apenas parcialmente controlado por for\u00e7as associadas das \u201cmil\u00edcias de paramilitares\u201d e destes chegarem a um terminal de cont\u00eaineres, a distribui\u00e7\u00e3o faz o elo costa do Sudeste, interioriza\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o internacional. Indo e vindo.<\/p>\n<p>Se algu\u00e9m apenas julgar \u201cexagerada\u201d nossa preocupa\u00e7\u00e3o, sugiro assistir a essa entrevista com Luiz Eduardo Soares (ver este link: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=yofUUypLTj4&amp;t=36s\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=yofUUypLTj4&amp;t=36s<\/a>) assim como tamb\u00e9m essa entrevista com o professor da UFRRJ Jos\u00e9 Cl\u00e1udio Souza Alves (ver este link: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=DRiJyrPceGI&amp;t=1550s\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=DRiJyrPceGI&amp;t=1550s<\/a>). O professor Souza Alves \u00e9 o maior especialista no tema das mil\u00edcias de parapoliciais tanto no Rio de Janeiro (antiga Guanabara) assim como na Baixada Fluminense. Para acompanhar o dia a dia do combate \u00e0s bandas e fac\u00e7\u00f5es de parapoliciais, \u00e9 surpreendente o perfil da Delegacia de Repress\u00e3o ao Crime Organizado \u2013 Inqu\u00e9ritos Especiais (DRACO-IE, Pol\u00edcia Civil do estado do Rio).<\/p>\n<p><strong>A f\u00e1bula macabra: o esquema termina no senador Gelatina e o cl\u00e3 dos FA, ou come\u00e7a?<\/strong><\/p>\n<p>Voltando ao Arroio de Fevereiro, sempre lembrando que \u00e9 melhor prevenir do que remediar e que a Terra continua redonda, nos perguntamos se o esquema que envolve a seguinte f\u00f3rmula:<\/p>\n<p><strong>Rachadinha de gabinete na Assembleia + multiplica\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio imobili\u00e1rio + subavalia\u00e7\u00e3o dos mesmos im\u00f3veis (magros na compra e gordos na venda) = capitaliza\u00e7\u00e3o e lavagem das Mil\u00edcias de Parapoliciais.<\/strong><\/p>\n<p>Se for esta a f\u00f3rmula, logo o emprego de parentes diretos de perigosos operadores do crime no nexo policial-paramilitar \u00e9 a ponta de um esquema que pode se nacionalizar caso os aliados do cl\u00e3 dos Fascistas Arrivistas realmente tiverem o controle sobre rodovias interligadas e \u00e1reas portu\u00e1rias (de desembarque) e retro portu\u00e1rias (para escoamento). Assim, o dom\u00ednio territorial na Zona Oeste e na Baixada \u2013 em esquema coligado pelo visto, mas ainda que exista concorr\u00eancia entre outras fac\u00e7\u00f5es de paramilitares \u2013 incide na capacidade extratora que, nos tempos modernos, majoritariamente pertence aos aparelhos de Estado. Isso caracteriza um Estado falido em n\u00edvel subnacional com v\u00ednculos diretos ao Poder Executivo da vergonhosa Rep\u00fablica Bananisteira sob o desgoverno da extrema direita alinhada com o ultraliberalismo econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>Da\u00ed o nexo do Perigo Tipo 1, modalidade\u00a0 mais comum no Arroio de Fevereiro,\u00a0 sendo entreverado com outros perigos aqui narrados, pulando de 1 para\u00a0 3 atrav\u00e9s justamente da capacidade de intermedia\u00e7\u00e3o. Uma vez arraigado, \u00e9 poss\u00edvel nacionalizar o modelo, j\u00e1 que o papai do tremelique tem adeptos ac\u00e9falos em todo o Bananist\u00e3o. O alerta \u00e9 pela gravidade da situa\u00e7\u00e3o e a complexidade do modelo de parapolicialismo. Toda aten\u00e7\u00e3o \u00e9 pouca e toda e qualquer den\u00fancia se faz urgente e necess\u00e1ria.<\/p>\n<p><em>Bruno Lima Rocha<\/em> \u00e9 editor dos canais do Estrat\u00e9gia &amp; An\u00e1lise, a an\u00e1lise pol\u00edtica para a esquerda mais \u00e0 esquerda. <em>Rafael Costa<\/em> \u00e9 desenhista e cartunista (E-mail- Rafael.martinsdacosta@yahoo.com.br. Instagram- @chargesecartuns )<\/p>\n<p>Contato: blimarocha@gmail.com | facebook.com\/blimarocha<\/p>\n<p>Blog: www.estrategiaeanaliseblog.com<\/p>\n<p>facebook.com\/estrategiaeanaliseoficial<\/p>\n<p>Twitter: twitter.com\/estanalise<\/p>\n<p>YouTube: Estrat\u00e9gia e An\u00e1lise Blog<\/p>\n<p>Telegram: t.me\/estrategiaeanalise<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>19 de julho de 2020, por Bruno Lima Rocha e Rafael Costa Introdu\u00e7\u00e3o do quarto e \u00faltimo artigo da s\u00e9rie At\u00e9 este epis\u00f3dio viemos apelando para a narrativa de f\u00e1bula macabra, pois seria um risco jur\u00eddico muito grande escrever que a Terra \u00e9 plana e dar nomes aos bois, incluindo sobrenomes e apelidos. 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