{"id":2493,"date":"2020-08-01T11:35:57","date_gmt":"2020-08-01T14:35:57","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanaliseblog.com\/?p=2493"},"modified":"2020-08-01T11:35:57","modified_gmt":"2020-08-01T14:35:57","slug":"onde-esta-a-esquerda-arabe-brasileira-iniciando-o-debate","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=2493","title":{"rendered":"Onde est\u00e1 a esquerda \u00e1rabe-brasileira? Iniciando o debate."},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/blimarocha\">Bruno Beaklini<\/a> (Bruno Lima Rocha Beaklini) e <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100005706308090\">Rafael Costa<\/a> (ilustrador,\u00a0 n\u00e3o \u00e9 descendente, apoia a Causa Palestina)<\/p>\n<p>Esse artigo inicia uma s\u00e9rie trazendo um dilema e uma convocat\u00f3ria. Na verdade, um apelo. Mas antes de ousar chamar ao dever brimos e brimas, \u00e9 necess\u00e1rio um debate, larga reflex\u00e3o eu diria. A pergunta me atormenta h\u00e1 d\u00e9cadas e realmente \u00e9 complexa. Eis a quest\u00e3o:<\/p>\n<p>\u201cPorque temos uma gigantesca col\u00f4nia \u00e1rabe-brasileira, incluindo o conjunto de \u00e1rabes descendentes e n\u00e3o se organiza uma fra\u00e7\u00e3o desta base social como apoiadora incondicional da liberta\u00e7\u00e3o da Palestina?\u201d<\/p>\n<p><strong>Quem somos e como chegamos<\/strong><\/p>\n<p>Isso porque, segundo alguns n\u00fameros apurados, ser\u00edamos mais de 11 milh\u00f5es de pessoas no pa\u00eds, outros indicadores apontam um montante de cerca de 16 milh\u00f5es no Brasil. Em boa parte das vezes se trata de fam\u00edlias muitas vezes com forte trajet\u00f3ria na pol\u00edtica profissional, carreiras em profiss\u00f5es consolidadas e ainda assim isso n\u00e3o reverte em envolvimento na Causa da Unidade \u00c1rabe e nem na Liberta\u00e7\u00e3o da Palestina. Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>Uma das \u201craz\u00f5es\u201d alegadas poderia ser o sentido de pertencimento e posi\u00e7\u00e3o na pir\u00e2mide social brasileira. Como somos socialmente brancos, no Brasil, a condi\u00e7\u00e3o de \u00e1rabe fica secund\u00e1ria diante da estrutura racista e de heran\u00e7a escravocrata da sociedade.\u00a0 Isso est\u00e1 at\u00e9 na g\u00eanese de nossa imigra\u00e7\u00e3o. O Imperador Escravagista Dom Pedro II aprende a falar o idioma do profeta, vai ao L\u00edbano encantado com uma popula\u00e7\u00e3o franc\u00f3fila, que se dizia fen\u00edcia e tinha como sistema de cren\u00e7as ritos crist\u00e3os do Oriente M\u00e9dio. Especificamente, a maior migra\u00e7\u00e3o \u00e1rabe para o Brasil vem de fam\u00edlias libanesas de credo maronita (cat\u00f3licos maronitas) e que era uma parcela da popula\u00e7\u00e3o da ent\u00e3o Grande S\u00edria que, por sinal, era muito mal vista pelos governantes otomanos. O per\u00edodo hist\u00f3rico \u00e9 complicado. Se d\u00e1 antes do protetorado franc\u00eas, etapa interm\u00e9dia da liberta\u00e7\u00e3o do jugo otomano decadente e de se livrar da opress\u00e3o da Fran\u00e7a alcan\u00e7ando a independ\u00eancia formal, a maior leva de \u00e1rabes chega ao Brasil.<\/p>\n<p>Aqui chegando, nos anos derradeiros do Imp\u00e9rio e ainda na primeira fase da Rep\u00fablica Velha, nossos patr\u00edcios e patr\u00edcias se depararam com um ambiente muito hospitaleiro. Como a sociedade \u00e9 racista, mas n\u00e3o \u00e9 sect\u00e1ria &#8211; ou seja, permite o casamento inter-\u00e9tnico, estavam dadas as condi\u00e7\u00f5es ideais de assimila\u00e7\u00e3o e escalada de posi\u00e7\u00f5es na pir\u00e2mide social. As fam\u00edlias \u00e1rabe-libanesas se viram em um pa\u00eds de domina\u00e7\u00e3o branca e cat\u00f3lica, justamente o duplo papel social que nossos antepassados poderiam exercer. Enquanto isso no Oriente M\u00e9dio, a Ummah de dire\u00e7\u00e3o otomana chegava ao fim e a ascens\u00e3o dos poderes europeus era visto como a chegada modernizadora e ofensiva dos novos cruzados. Era e continua sendo.<\/p>\n<p><strong>Entre o arabismo unificado e o am\u00e1lgama na pir\u00e2mide social ascendente<\/strong><\/p>\n<p>A chegada dos e das imigrantes foi concomitante ao nascimento, a expans\u00e3o do nacionalismo pan-arabista. No per\u00edodo hist\u00f3rico aproximado, come\u00e7ando em 1880 e tomando vulto nos cinquenta anos seguintes, a Na\u00e7\u00e3o \u00c1rabe projetava no arabismo o elemento unificador que poderia unificar todos os segmentos pr\u00e9-isl\u00e2micos e das vertentes arabizadas, portadora do idioma \u00e1rabe como l\u00edngua franca e as massas islamizadas do Mundo \u00c1rabe. Por este prisma do nacionalismo pan-\u00e1rabe, \u00e1rabes somos \u2013 ser\u00edamos &#8211; todos, incluindo hebreus mizrahim, drusos, todas as vertentes crist\u00e3s do Oriente M\u00e9dio, as forma\u00e7\u00f5es culturais pr\u00e9-isl\u00e2micas assim como as massas islamizadas, sunitas, xiitas e sufis, dentre outras linhas minorit\u00e1rias. Tamb\u00e9m s\u00e3o \u201c\u00e1rabes\u201d as popula\u00e7\u00f5es do Magreb, primos e primas camitas, assim como o povo berbere, heroico na liberta\u00e7\u00e3o contra a presen\u00e7a francesa na Arg\u00e9lia. De fora poderia haver unidade, usando um instrumento pol\u00edtico do inimigo europeu, o nacionalismo moderno, como ferramenta de liberta\u00e7\u00e3o contra a cobi\u00e7a da corrida imperial pr\u00e9 e p\u00f3s 1\u00aa Guerra Mundial. Concomitantemente, se davam as bases da Nakba com o Mandato Brit\u00e2nico na Palestina.<\/p>\n<p>Infelizmente, os grandes debates, os alinhamentos e porque n\u00e3o as trag\u00e9dias hist\u00f3ricas dos \u00e1rabes, sendo a maior destas a perda da Palestina para invasores europeus, n\u00e3o chegaram a circular na maior parcela da segunda e terceira gera\u00e7\u00e3o de \u00e1rabes-brasileiros. Concomitantemente, a gera\u00e7\u00e3o de mascates se assentava em munic\u00edpios de mediana prosperidade e j\u00e1 juntavam suas economias de modo que a primeira gera\u00e7\u00e3o nascida no pa\u00eds tivesse acesso ao ensino superior, fator fundamental para a mobilidade em uma sociedade altamente estratificada. Vale observar que como col\u00f4nia, as fam\u00edlias \u201cturcas\u201d, o odiado apelido que era dado pelos nacionais quando os patr\u00edcios chegaram com passaporte otomano, se mesclavam bastante.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que os elementos de origem \u00e1rabe est\u00e3o presentes nas zonas \u201cproibidas\u201d na 1\u00aa Rep\u00fablica, nas periferias das Grandes Cidades, indo do bazar ao com\u00e9rcio varejista, e tamb\u00e9m passando por posi\u00e7\u00f5es complicadas, como nas fam\u00edlias do jogo do bicho. Por um lado, contribu\u00edmos e muito para a forma\u00e7\u00e3o do Brasil. Como \u00e1rabe-descendentes, somos muito, mas muito brasileiros, ao menos no vi\u00e9s mais popular na forma\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea de nosso pa\u00eds. Por outro, a aus\u00eancia de uma etnia mais aguerrida do port\u00e3o de casa para fora, nos diluiu de modo a conseguir reproduzir os papeis sociais com excel\u00eancia, mesmo quando na excresc\u00eancia como na atua\u00e7\u00e3o de pessoas muito controversas como Paulo Salim Maluf, Michel Miguel Elias Temer, Salim Mattar, Naji Nahas, Alberto Yousseff, An\u00edsio Abr\u00e3o David, Ant\u00f4nio Petrus Kalil, Romeu Tuma, Nabi Abi Chedid, Ali Kamel e a lista segue, para vergonha dos e das \u00e1rabes e desespero da esquerda que ainda n\u00e3o existe. N\u00e3o \u00e9 exclusividade nossa, haja vista a presen\u00e7a\u00a0 execr\u00e1vel de personagens \u00e1rabe-argentinos como Carlos Saul Menem e Alfredo Yabr\u00e1n, dentre outros.<\/p>\n<p><strong>Nossas institui\u00e7\u00f5es culturais, onde est\u00e3o? <\/strong><\/p>\n<p>Talvez a pista para sabermos onde est\u00e3o nossas bases \u00e9tnicas mais aguerridas deve ser na aus\u00eancia de institui\u00e7\u00f5es culturais para al\u00e9m de algumas igrejas e clubes sociais. A capacidade de reprodu\u00e7\u00e3o de valores, cultura estrat\u00e9gica e porque n\u00e3o, referentes da simbologia pol\u00edtica definitivamente n\u00e3o se localizam nem em epopeias \u00e0 altura de Simbad como o Campeonato Mundial de Basquete FIBA conquistado pelo Esporte Clube S\u00edrio no gin\u00e1sio do Ibirapuera em 06 de outubro de 1979 (com televisionamento ao vivo, veja o jogo completo aqui:\u00a0 <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=pkCilEH7rxY\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=pkCilEH7rxY<\/a>) com o vice-campeonato de 1981 (assista aqui: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=g4Pf6sU72e4\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=g4Pf6sU72e4<\/a>) e ambos antecedidos pelo segundo lugar no mesmo mundial FIBA em 1973, todos realizados em S\u00e3o Paulo e com mais de vinte mil pessoas gritando \u201cS\u00edrio, S\u00edrio\u201d, em plena Guerra do Yom Kippur! No t\u00edtulo de 1979, com o L\u00edbano j\u00e1 invadido e o conflito \u00e1rabe-israelense no seu auge, dos treze jogadores eram tr\u00eas de origem \u00e1rabe, incluindo o craque piv\u00f4 da sele\u00e7\u00e3o Marquinhos Abdalla (Marcos Ant\u00f4nio Abdalla Leite). Faltou trabalhar a massifica\u00e7\u00e3o dos signos transformando em simbologia pol\u00edtica e elementos agregadores. S\u00edrio, <em>S\u00faryia<\/em>, Brasil. As condi\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas e afetivas estavam dadas, at\u00e9 a temporalidade pol\u00edtica, com o famigerado Paulo Salim Maluf governador de S\u00e3o Paulo e apoiador das For\u00e7as Libanesas \u2013 em especial da direita crist\u00e3 do L\u00edbano &#8211; aliada hist\u00f3rica da Fran\u00e7a, dos EUA e dos invasores israelenses.<\/p>\n<p>O caminho estava aberto, com a revolu\u00e7\u00e3o palestina ainda peleada al\u00e9m dos rios, o L\u00edbano como epicentro do Oriente M\u00e9dio e Beirute vindo a ser a Stalingrado dos \u00e1rabes. Seguiremos no tema e na mesma senda, defendendo incondicionalmente a Liberta\u00e7\u00e3o da Palestina, a Independ\u00eancia e Autodetermina\u00e7\u00e3o do L\u00edbano e o Confederalismo Democr\u00e1tico como \u00fanica sa\u00edda para o Oriente M\u00e9dio.<\/p>\n<p>Bruno Beaklini (Bruno Lima Rocha Beaklini), \u00e9 militante socialista libert\u00e1rio de origem \u00e1rabe-brasileira e editor dos canais do Estrat\u00e9gia &amp; An\u00e1lise, a an\u00e1lise pol\u00edtica para a esquerda mais \u00e0 esquerda.<\/p>\n<p>Rafael Costa apoia a Causa Palestina, \u00e9 desenhista e cartunista (E-mail- Rafael.martinsdacosta@yahoo.com.br. Instagram- @chargesecartuns)<\/p>\n<p>Contato: blimarocha@gmail.com | facebook.com\/blimarocha<\/p>\n<p>Blog: www.estrategiaeanaliseblog.com<\/p>\n<p>facebook.com\/estrategiaeanaliseoficial<\/p>\n<p>Twitter: twitter.com\/estanalise<\/p>\n<p>YouTube: Estrat\u00e9gia e An\u00e1lise Blog<\/p>\n<p>Telegram: t.me\/estrategiaeanalise<\/p>\n<p>A vers\u00e3o original desse texto foi publicado primeiramente no Monitor do Oriente M\u00e9dio (monitordooriente.com)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bruno Beaklini (Bruno Lima Rocha Beaklini) e Rafael Costa (ilustrador,\u00a0 n\u00e3o \u00e9 descendente, apoia a Causa Palestina) Esse artigo inicia uma s\u00e9rie trazendo um dilema e uma convocat\u00f3ria. Na verdade, um apelo. Mas antes de ousar chamar ao dever brimos e brimas, \u00e9 necess\u00e1rio um debate, larga reflex\u00e3o eu diria. 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