{"id":2542,"date":"2020-09-08T15:16:39","date_gmt":"2020-09-08T18:16:39","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanaliseblog.com\/?p=2542"},"modified":"2020-09-08T15:16:39","modified_gmt":"2020-09-08T18:16:39","slug":"a-guerra-do-opio-afega-eua-x-taliban-artigo-de-analise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=2542","title":{"rendered":"A Guerra do \u00d3pio Afeg\u00e3: EUA x Taliban &#8211; artigo de an\u00e1lise"},"content":{"rendered":"<p>Texto de Thales Valente e Bruno Beaklini (Bruno Lima Rocha Beaklini). Ilustra\u00e7\u00e3o de Rafael Costa.<\/p>\n<p>Em 2001, no Afeganist\u00e3o, o regime do Taliban (grupo pol\u00edtico militar que governava 90% da regi\u00e3o e origin\u00e1rio da forma\u00e7\u00e3o wahhabita de resist\u00eancia \u00e0 invas\u00e3o sovi\u00e9tica) caiu depois da interven\u00e7\u00e3o militar estadunidense no pa\u00eds. O \u201cocidente\u201d declarava sua segunda guerra contra o pa\u00eds em menos de quinze anos, sendo que dessa vez os \u201ccruzados\u201d n\u00e3o eram eslavos de credo \u201cbizantino\u201d, mas sim anglo-sax\u00f5es liderando uma ofensiva sucessora do Rajast\u00e3o Brit\u00e2nico. A partir da\u00ed come\u00e7ou a nova era securit\u00e1ria da chamada <em>War on Drugs<\/em> (Guerra \u00e0s Drogas) na regi\u00e3o. Houve um otimismo tempor\u00e1rio na m\u00eddia ocidental e a propaga\u00e7\u00e3o da ideia de que o Afeganist\u00e3o estaria se encaminhando a uma consolida\u00e7\u00e3o de um Estado Na\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tico e que o cultivo de \u00f3pio da regi\u00e3o diminuiria progressivamente. (GOODHAND, 2005). Todavia, desde a queda do regime Taliban, verificamos exatamente o oposto. Afinal, a Alian\u00e7a do Norte, coaliz\u00e3o anti-Taliban que chegara ao poder atrav\u00e9s da interven\u00e7\u00e3o da OTAN e que antes havia sido derrotada pelos wahhabitas na guerra civil que sucedeu a expuls\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica (em 1988), era justamente comandada por \u201csenhores da guerra e da papoula\u201d. Por consequ\u00eancia, a instabilidade pol\u00edtica no pa\u00eds e nas zonas lim\u00edtrofes gerou um aumento exponencial do cultivo de \u00f3pio que, no momento em que conclu\u00edmos esse texto (setembro de 2020), tornou a regi\u00e3o como o centro desse cultivo mundial.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Fonte: (UNODC, 2019)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para verificarmos os motivos principais do aumento dr\u00e1stico do cultivo da papoula, refino do \u00f3pio e o \u201cfracasso\u201d contempor\u00e2neo (etapa iniciada na segunda d\u00e9cada do s\u00e9culo XXI) da <em>War on Drugs<\/em>, primeiramente deve-se analisar o hist\u00f3rico da regi\u00e3o e de como a cultura do \u00f3pio surgiu. Na sequ\u00eancia, \u00e9 preciso observar como a \u201cGuerra contra as Drogas\u201d foi implantada no territ\u00f3rio concreto e ampliado e ent\u00e3o chegar \u00e0s observa\u00e7\u00f5es finais. Portanto, come\u00e7aremos por uma breve explica\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o em si.<\/p>\n<p><strong>Afeganist\u00e3o: hist\u00f3ria e mercado do \u00f3pio.<\/strong><\/p>\n<p>Quando falamos da Rep\u00fablica Isl\u00e2mica do Afeganist\u00e3o, estamos nos referindo a um territ\u00f3rio cont\u00ednuo que \u2013 sob o olhar duro da geopol\u00edtica asi\u00e1tica &#8211; serve como \u201ctamp\u00e3o\u201d entre Ir\u00e3, China e Paquist\u00e3o. \u00c9 uma regi\u00e3o com muitas etnias que historicamente \u00e9 separada em pequenas lideran\u00e7as tribais\/familiares. Em sua hist\u00f3ria, o Afeganist\u00e3o sempre esteve numa encruzilhada. De um lado, forma\u00e7\u00f5es estatais como dom\u00ednio de Estado territorial como uma federa\u00e7\u00e3o de lealdades entre urbaniza\u00e7\u00f5es e rotas, com uma complexa rede de alian\u00e7as locais e regionais \u2013 do contraforte do Himalaia a rotas des\u00e9rticas que ligam ao cora\u00e7\u00e3o da \u00c1sia Central e ao Sul da \u00c1sia. Essa seria a mirada afeg\u00e3. Outra, como j\u00e1 foi referida atrav\u00e9s da pretensa proje\u00e7\u00e3o imperial, teria servido como estado tamp\u00e3o de grandes imp\u00e9rios ou na\u00e7\u00f5es. Portanto, sempre conviveu com certa instabilidade, infligindo ou sendo atingida por conflitos internos e externos e fragmentada em poderes e influ\u00eancias\u00a0(UNODC, 2003).<\/p>\n<p>No s\u00e9culo XIX, o Grande Jogo da \u00c1sia chegou ao Afeganist\u00e3o. Houve o conflito de influ\u00eancia entre Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico (consolidado na forma\u00e7\u00e3o do Rajast\u00e3o, tendo como epicentro o Subcontinente Indiano) e o Imp\u00e9rio Russo (czarista e herdeiro bizantino, eslavo e ortodoxo). No \u201cbalan\u00e7o de proje\u00e7\u00e3o de for\u00e7a e poder\u201d, o p\u00eandulo tendeu aos brit\u00e2nicos, at\u00e9 que durante a Guerra Fria o governo central em Kabul do Afeganist\u00e3o come\u00e7ou a negociar com a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica (URSS) e a modernizar o pa\u00eds.<\/p>\n<p>A monarquia, abolida em 1973 atrav\u00e9s de um golpe de Estado com apoio sovi\u00e9tico, abriu passo para outro <em>putsch<\/em>, este em 1978, derrubando o ent\u00e3o l\u00edder do regime de transi\u00e7\u00e3o, Mohamed Daoud. As medidas tomadas pelo regime pr\u00f3-sovi\u00e9tico instaurado deu base a uma guerra civil. Como um gesto solid\u00e1rio e afundando o Grande Jogo do s\u00e9culo XIX reeditado na Guerra Fria do s\u00e9culo XX, em 1979 a URSS invade o pa\u00eds e participa do esfor\u00e7o de guerra contra a popula\u00e7\u00e3o rural. Nove anos depois e com mais de seis milh\u00f5es de pessoas levadas ao ex\u00edlio no Paquist\u00e3o, o desastre estava instaurado.<\/p>\n<p>Entre a for\u00e7a estatal e a rede de lealdades \u00e9tnico-tribais, somada com a devastadora m\u00e1quina de guerra sovi\u00e9tica, a intelig\u00eancia conjunta paquistanesa, saudita, estadunidense e com infra-estrutura de apoio de Israel montou a rede de contra opera\u00e7\u00f5es. Para ser honesto intelectualmente,embora de costumes retr\u00f3grados, a resist\u00eancia dos mais de 80 agrupamentos <em>mudjahidin<\/em> era leg\u00edtima e pulverizada. Para al\u00e9m da fragmenta\u00e7\u00e3o, a unidade da luta contra a URSS se deu ao redor de grupos isl\u00e2micos que se opuseram ao governo da capital, pois n\u00e3o o consideravam leg\u00edtimo, uma vez que as medidas modernizadoras \u2013 em termos human\u00edsticos, mais que apropriadas \u2013 n\u00e3o levavam em conta costumes ancestrais, o poder de imames e as complexas rela\u00e7\u00f5es \u00e9tnico-tribais. A for\u00e7a conjunta do dinheiro saudita, a prega\u00e7\u00e3o wahhabita nas madra\u00e7as (escola, no caso, espec\u00edficas para meninos e de orienta\u00e7\u00e3o religiosa conservadora sunita) e as redes operadas pelo ISI (a influente intelig\u00eancia paquistanesa) geraram o caldo de cultura pol\u00edtico-militar para os rumos do pa\u00eds na d\u00e9cada de \u201990.<\/p>\n<p>Em 1988 em Genebra, Gorbachev concorda com a retirada das tropas da regi\u00e3o (efetuada em 1989). Os <em>warlords <\/em>(chefes tribais e de fam\u00edlias com poderes b\u00e9licos e econ\u00f4micos), ent\u00e3o, j\u00e1 fortalecidos por armamentos patrocinados pelos EUA que tinha influ\u00eancia no Paquist\u00e3o, come\u00e7aram a competir pelas rotas de com\u00e9rcio e de terras ar\u00e1veis, para s\u00f3 ent\u00e3o em 1996 o Taliban assumir controle de 90% da regi\u00e3o deixando o poder em 2002 (KATZMAN, 2010)<\/p>\n<p>Importante destacar que, independente do regime em que o Afeganist\u00e3o estava inserido, sempre houve instabilidade pol\u00edtica e a estrutura \u00e9tnico-tribal (com cl\u00e3s e fam\u00edlias entrela\u00e7adas por arranjos de casamentos) possu\u00edam seus pr\u00f3prios sistemas de leis e com\u00e9rcios (possuindo inclusive moedas diferentes). Em termos \u201cmodernos\u201d, nunca houve um Estado devidamente consolidado de modo a exercer controle sobre o conjunto do territ\u00f3rio. Deste modo, o per\u00edodo Taliban (1996-2001, cuja estrutura vertebral era composta por ex-alunos das madra\u00e7as) foi o mais pr\u00f3ximo de um Estado contempor\u00e2neo desde o s\u00e9culo XVIII a consolidar uma estabilidade pol\u00edtica (abrangendo 90% do territ\u00f3rio) e mesmo assim como regime poucos anos ficaram no poder. Desta forma, a popula\u00e7\u00e3o do Afeganist\u00e3o em sua maior parte da hist\u00f3ria foi majoritariamente rural (compondo os tecidos urbanos majoritariamente por \u00eaxodos for\u00e7ados), as planta\u00e7\u00f5es serviam de subsist\u00eancia para pequenas fam\u00edlias e de mercado para m\u00e9dios e grandes agricultores. A luta por terras e posi\u00e7\u00f5es de mercado foi algo que marcou a estrutura produtiva, a guerra econ\u00f4mica do \u00f3pio entre os <em>warlords<\/em> durou at\u00e9 o in\u00edcio da d\u00e9cada de 90 (o caos de quase todos contra quase todos, a exemplo da Som\u00e1lia). Nesse tempo a ind\u00fastria que surgiu era para facilitar zonas de influ\u00eancia, o <em>Afghan Transit Trade Agreement (ATTA), <\/em>um tratado que permitia que um produto fosse importado sem impostos e vendido no Paquist\u00e3o, deu origem ao contrabando tanto de \u00f3pio quanto de artigos do Golfo P\u00e9rsico tendo o Afeganist\u00e3o como rota de com\u00e9rcio. O Taliban \u2013 como ponta de lan\u00e7a do ISI, a intelig\u00eancia paquistanesa &#8211; foi o agrupamento pol\u00edtico-militar que mais tirou proveito da situa\u00e7\u00e3o. Quando vence a guerra civil &#8211; em 1996 &#8211; consolida seu poder de influ\u00eancia em 90% do territ\u00f3rio, tendo em seu dom\u00ednio quase todas as rotas de com\u00e9rcio, aeroportos, cidades e pontos de troca. (RUBIN, 2000)<\/p>\n<p>O \u00f3pio tornou-se um grande atrativo em quase todos os territ\u00f3rios afeg\u00e3os, pois sua facilidade de cultivo e grande demanda (principalmente externa) tornam uma forma mais f\u00e1cil e garantida de renda para as fam\u00edlias. Al\u00e9m disso, o \u00f3pio oferece mercado de trabalho, pois necessita de m\u00e3o de obra para cultivo, uma abrang\u00eancia grande de comerciantes, exige uma log\u00edstica entre as regi\u00f5es (simples, por\u00e9m essencial), demanda seguran\u00e7a das planta\u00e7\u00f5es e pe\u00f5es de tr\u00e1fico. Em uma regi\u00e3o cont\u00ednua \u2013 Afeganist\u00e3o e Paquist\u00e3o &#8211; que um d\u00e9ficit muito grande de industrializa\u00e7\u00e3o, onde o com\u00e9rcio \u00e9 basicamente de comodities, o \u00f3pio oferecia uma seguran\u00e7a econ\u00f4mica maior para as pessoas e redes familiares.\u00a0(UNODC, 2003).<\/p>\n<p>Outra vertente da cadeia de valor do \u00f3pio \u00e9 a liquidez, manejando enormes quantias em esp\u00e9cie e fluxo corrente de remessas de divisas, tanto por sistemas de contas banc\u00e1rias em para\u00edsos fiscais, lavagem de dinheiro e opera\u00e7\u00f5es de infraestrutura financeira onde o longo bra\u00e7o do ISI e das redes sauditas sempre aparecem. O caso do banco BCCI (<em>Bank of Credit and Commerce International<\/em>, 1972-1991) foi o melhor exemplo da proje\u00e7\u00e3o de poder da intelig\u00eancia conjunta saudi-paquistanesa, captando recursos l\u00edcitos, il\u00edcitos e suspeitos e irrigando a rede de apoio dos mujahidins de todas vertentes. Atrav\u00e9s do BCCI e das empresas de constru\u00e7\u00e3o civil, o <em>sheikh<\/em> Osama bin Laden operou o financiamento e o fluxo financeiro da etapa formadora da Al Qaeda e do envio dos volunt\u00e1rios para a resist\u00eancia sunita contra a invas\u00e3o sovi\u00e9tica. As mesmas redes sempre operaram o tr\u00e1fico de \u00f3pio.<\/p>\n<p>No seu per\u00edodo no poder e ap\u00f3s, o Taliban lucrou muito com o cultivo do \u00f3pio no territ\u00f3rio. No curto per\u00edodo do governo, todavia, come\u00e7ou a industrializar a regi\u00e3o central do pa\u00eds gerando um \u00eaxodo rural e tentando criar oportunidades de emprego para os jovens. Mas devido a fatores como corrup\u00e7\u00e3o, falta de m\u00e3o de obra especializada e a pobreza a industrializa\u00e7\u00e3o progredia muito lentamente. Houve uma tentativa de acerto das lealdades, as negocia\u00e7\u00f5es se estenderam aos antigos warlords para que o \u00f3pio fosse gradualmente extinto e a regi\u00e3o industrializada.\u00a0(GOODHAND, 2005) Em 2001 o Taliban proibiu a planta\u00e7\u00e3o de \u00f3pio, o que gerou desgosto e certa revolta da popula\u00e7\u00e3o rural. Em entrevistas feitas com agricultores da regi\u00e3o pelo <em>Institute for War &amp; Peace Reporting<\/em> (IWPR) sobre a planta\u00e7\u00e3o de papoula eles disseram que defenderiam a planta\u00e7\u00e3o do \u00f3pio at\u00e9 que suas demandas fossem cumpridas, nas palavras de um agricultor:<\/p>\n<p><em>\u201cEles devem prover empregos para nossos jovens. N\u00f3s cultivaremos papoula por mais 5 anos at\u00e9 que tenhamos certeza que nossos jovens tenham empregos permanentes e n\u00f3s pudermos cobrir suas necessidades de outras formas\u201d (IWPR, 2001)<\/em><\/p>\n<p>Desta forma, a depend\u00eancia do mercado do \u00f3pio para a popula\u00e7\u00e3o j\u00e1 estava praticamente concretizada.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>EUA e a <em>\u201cWar on Drugs\u201d <\/em>Afeg\u00e3:<\/strong><\/p>\n<p>Ap\u00f3s os ataques de 11 de setembro de 2001 os EUA intensificaram a chamada \u201cguerra ao terror\u201d (GWOT na sigla em ingl\u00eas) e voltaram seus olhos ao Grande Oriente M\u00e9dio e Mundo Isl\u00e2mico justificando interven\u00e7\u00f5es militares em pa\u00edses onde julgavam necess\u00e1rio intervir (a saber: Afeganist\u00e3o 2001; Iraque 2003 e Som\u00e1lia entre 2006 e 2008, atrav\u00e9s do Comando Africano dos EUA). O conceito de \u201cseguran\u00e7a\u201d a partir da\u00ed foi for\u00e7ado a ser visto como um problema multidimensional, e quest\u00f5es como o tr\u00e1fico de drogas entraram como prioridades, pois a atividade econ\u00f4mica ilegal ajuda a financiar fac\u00e7\u00f5es consideras terroristas.\u00a0(SWANSTROM, 2007) O Taliban, nessa \u00e9poca, j\u00e1 era visado como inimigo p\u00fablico dos EUA devido a sua liga\u00e7\u00e3o com a rede Al Qaeda, rede de terror isl\u00e2mico wahhabita, por tanto considerada extremista. O governo de Kabul sob as ordens diretas do Taliban se recusou a extraditar Osama Bin Laden de seu territ\u00f3rio e negou a autoriza\u00e7\u00e3o das tropas estadunidenses para procurar ativistas da Al Qaeda em territ\u00f3rio afeg\u00e3o sem sua permiss\u00e3o. Isso gerou descontentamento dos EUA \u2013 ou a raz\u00e3o alegada que Washington precisava para promover o ataque &#8211; que invadiram o territ\u00f3rio afeg\u00e3o em sete de outubro de 2001 e retiraram o Taliban do poder central em nove de Dezembro de 2001.\u00a0(KATZMAN, 2010)<\/p>\n<p>A <em>War on Drugs (guerra \u00e0s drogas) <\/em>no Afeganist\u00e3o tomou os mesmos rumos que a estrat\u00e9gia da guerra \u00e0s drogas dos EUA na d\u00e9cada de 70; ou seja, o objetivo era diminuir a oferta de narc\u00f3ticos por meio de repress\u00f5es intensas ao plantio, cultivo e fabrica\u00e7\u00f5es de narc\u00f3ticos. (MCCOY, 2000-2001). Todavia, o com\u00e9rcio do \u00f3pio \u00e9 el\u00e1stico e devido a sua facilidade de planta\u00e7\u00e3o e cultivo ele pode ser facilmente realocado. A estrat\u00e9gia de combate \u00e0s drogas dos EUA possu\u00eda diversas falhas e a possibilidade de gerar exatamente o oposto, provocando o aumento do pre\u00e7o da venda que estimularia ainda mais a produ\u00e7\u00e3o. (SWANSTROM, 2007).<\/p>\n<p>A comunidade internacional, com o aux\u00edlio da ONU tomou esfor\u00e7os para estabelecer um governo transit\u00f3rio na regi\u00e3o. (KATZMAN, 2010) Todavia, a guerra civil no Afeganist\u00e3o n\u00e3o terminou ap\u00f3s a queda do Taliban, mas se acentuou, pois os <em>warlords<\/em> come\u00e7aram novamente a tentar tomar o controle das rotas de com\u00e9rcio e de terras ar\u00e1veis no interior do pa\u00eds. A confer\u00eancia de Bonn (realizada em momento posterior da derrota do Taliban em 2001) chamou apenas alguns pequenos representantes das fac\u00e7\u00f5es, deixando em minoria aqueles que n\u00e3o possu\u00edam negocia\u00e7\u00f5es e afinidades pr\u00e9vias com o ocidente. Esse gesto refor\u00e7ou ainda mais a rivalidade das fac\u00e7\u00f5es. Haji Abdul Qadir, um dos poucos membros dos Pashtuns (grupo \u00e9tnico do Afeganist\u00e3o) da Alian\u00e7a do Norte do Afeganist\u00e3o, se retirou no meio da Confer\u00eancia de Bonn justamente pela falta de representatividade. (CHANDRA, 2006)<\/p>\n<p>\u00c9 simplesmente imposs\u00edvel qualquer arranjo de governo ou sequer de conviv\u00eancia pac\u00edfica nos dois pa\u00edses, Afeganist\u00e3o e Paquist\u00e3o, sem contar com a maioria da lideran\u00e7a Pashtun nestas negocia\u00e7\u00f5es. As redes do ISI, operando com ex-alunos internos das mais de 2000 madra\u00e7as \u2013 pequenas e grandes \u2013 instauradas nas regi\u00f5es militarizadas da divisa entre ambos os pa\u00edses, foram gestoras do \u201cchauvinismo pashtun\u201d, retroalimentado pela doutrina wahhabita e a intensa atividade pol\u00edtica da intelig\u00eancia paquistanesa dentro de seu pa\u00eds, no conflito da Cachemira assim como nos enlaces da popula\u00e7\u00e3o islamizada dentro do Hindust\u00e3o (\u00cdndia). Apenas essa constata\u00e7\u00e3o, senso comum em quem estuda a pol\u00edtica dom\u00e9stica e o cen\u00e1rio regional Indo-paquistan\u00eas e afeg\u00e3o, j\u00e1 revela o desastre que foi a absurda tentativa de montagem de um governo \u201cpr\u00f3-ocidental\u201d ap\u00f3s a invas\u00e3o estadunidense de outubro de 2001.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Consequ\u00eancias da interven\u00e7\u00e3o:<\/strong><\/p>\n<p>A falta de representatividade nas decis\u00f5es do Estado gerou uma descentraliza\u00e7\u00e3o ainda maior, pois diversos grupos \u00e9tnicos n\u00e3o aceitavam o modo de governan\u00e7a que estava sendo implementado em Kabul e n\u00e3o reconheciam o governo como soberano. Os EUA, ent\u00e3o come\u00e7aram a apoiar Karzai (um Pashtun que tinha rivalidade com o Taliban) que foi eleito para liderar a <em>Afghan Transitional Authority<\/em> (ATA) na tentativa de apaziguar e aumentar a representatividade. Todavia sua agenda foi fortemente restringida devido \u00e0 resist\u00eancia de fac\u00e7\u00f5es rivais e pashtuns que possu\u00edam liga\u00e7\u00f5es com o Taliban. O simples fato de ter um Pashtun eleito n\u00e3o era suficiente para sanar a falta de representatividade no poder. (CHANDRA, 2006) O aumento das rivalidades e a instabilidade pol\u00edtico-econ\u00f4mica causou um aumento dr\u00e1stico das planta\u00e7\u00f5es de papoula, pois a tradi\u00e7\u00e3o do \u00f3pio era visto como a melhor garantia de renda na maior parte das regi\u00f5es.\u00a0(GOODHAND, 2005)<\/p>\n<p>O conflito armado no Afeganist\u00e3o permanece at\u00e9 o momento quem que conclu\u00edmos esse texto (setembro de 2020), o primeiro da s\u00e9rie sobre a Guerra do \u00d3pio no S\u00e9culo XXI. Em Mar\u00e7o de 2020 <em>The International Criminal Court (ICC)<\/em> autorizou uma investiga\u00e7\u00e3o de crimes de guerra feitos no Afeganist\u00e3o, onde as fac\u00e7\u00f5es, juntamente com o ex\u00e9rcito estadunidense ser\u00e3o julgadas igualmente. O julgamento a ser realizado sem nenhum representante dos EUA na corte gerou desgosto dos EUA levando o presidente Donald Trump a restringir viagens dos funcion\u00e1rios da ICC. (JAZEERA, 2020). Como a presen\u00e7a militar dos Estados Unidos depende de redes de alian\u00e7as e rela\u00e7\u00f5es t\u00edpicas de atividades de intelig\u00eancia com a presen\u00e7a end\u00eamica da economia pol\u00edtica do narcotr\u00e1fico, aliados locais da Superpot\u00eancia traficam ou tributam o tr\u00e1fico nos contrafortes do Himalaia como os paramilitares colombianos faziam o mesmo no Vale do Rio Magdalena sob os ausp\u00edcios da CIA e com a hipocrisia de sempre da DEA. Muda o produto \u2013 de coca\u00edna para \u00f3pio, de folha de coca para papoula \u2013 mas \u00e9 o mesmo padr\u00e3o operacional hip\u00f3crita da Superpot\u00eancia.<\/p>\n<p>O conflito na regi\u00e3o ampliada (Afeganist\u00e3o-Paquist\u00e3o-Cachemira) foi se intensificando e a caracter\u00edstica de \u201cEstado tamp\u00e3o\u201d especializou os <em>warlords<\/em> em guerra por controle de rotas e territ\u00f3rios. A viol\u00eancia se acentua gradativamente e as pessoas sem terra ou poder pol\u00edtico\/econ\u00f4mico ficam a merc\u00ea do sistema implantado pela fac\u00e7\u00e3o que domina suas localiza\u00e7\u00f5es. Isto somado \u00e0s rela\u00e7\u00f5es \u00e9tnico-tribais religiosas, mais o novo arranjo das \u00e1reas de seguran\u00e7a paquistanesas, de dom\u00ednio dos cl\u00e3s majorit\u00e1rios e operando conforme os primos afeg\u00e3os de prefer\u00eancia. Desta forma, a cultura da papoula se solidificou cada vez mais tornando seus derivados (\u00f3pio e hero\u00edna) inclusive como forma de cr\u00e9dito e moeda de troca. \u00a0(PAIN, 2008) Desta forma, a interven\u00e7\u00e3o militar estadunidense e a chamada <em>\u201cWar on Drugs\u201d <\/em>Afeg\u00e3 apenas intensificaram o tr\u00e1fico e os conflitos na regi\u00e3o, tornando a cultura do \u00f3pio e seu enraizamento na sociedade cada vez mais dif\u00edcil de ser contido.<\/p>\n<p><em>Thales Valente<\/em> \u00e9 graduando em rela\u00e7\u00f5es internacionais (<a href=\"mailto:bellocvalenteri@gmail.com\">bellocvalenteri@gmail.com<\/a>)<\/p>\n<p><em>Rafael Costa<\/em> \u00e9 desenhista e cartunista (E-mail- Rafael.martinsdacosta@yahoo.com.br. Instagram- @chargesecartuns)<\/p>\n<p><em>Bruno Beaklini<\/em> (<em>Bruno Lima Rocha Beaklini<\/em>) \u00e9 militante socialista libert\u00e1rio de origem \u00e1rabe-brasileira e editor dos canais do Estrat\u00e9gia &amp; An\u00e1lise, a an\u00e1lise pol\u00edtica para a esquerda mais \u00e0 esquerda.<\/p>\n<p>Contatos: blimarocha@gmail.com | facebook.com\/blimarocha<\/p>\n<p>Blog: www.estrategiaeanaliseblog.com<\/p>\n<p>facebook.com\/estrategiaeanaliseoficial<\/p>\n<p>Twitter: twitter.com\/estanalise<\/p>\n<p>YouTube: Estrat\u00e9gia e An\u00e1lise Blog<\/p>\n<p>Telegram: t.me\/estrategiaeanalise<\/p>\n<h1>Refer\u00eancias<\/h1>\n<p>CHANDRA, V. Warlords, Drugs and the \u2018War on Terror\u2019 in Afghanistan: The Paradoxes. <strong>Strategic Analysis<\/strong>, v. 30, n. 1, p. 64-92, Jan-Mar 2006.<\/p>\n<p>CORTI, D.; SWAIN, A. War on Drugs and War on Terror: Case of Afghanistan. <strong>Peace &amp; Conflict Review<\/strong>, v. 3, n. 2, p. 41 &#8211; 53, 2009.<\/p>\n<p>GOODHAND, J. Frontiers and Wars: The Opium Economy in Afghanistan. <strong>Journal of Agrarian Change<\/strong>, v. 5, n. 2, p. 191-216, april 2005.<\/p>\n<p>IWPR. The Killing Fields of Afghanistan. <strong>IWPR<\/strong>, 2001. Disponivel em: &lt;https:\/\/iwpr.net\/global-voices\/killing-fields-afghanistan&gt;. Acesso em: 29 agosto 2020.<\/p>\n<p>JAZEERA, A. ICC authorises investigation into alleged Afghanistan war crimes. <strong>Al Jazeera<\/strong>, 2020. Disponivel em: &lt;https:\/\/www.aljazeera.com\/news\/2020\/03\/icc-authorises-investigation-alleged-afghanistan-war-crimes-200305101406253.html&gt;. Acesso em: 30 agosto 2020.<\/p>\n<p>KATZMAN, K. <strong>Afghanistan: Post-Taliban Governance, Security, and U.S. Policy<\/strong>. Congressional Reaserch Service. Washington DC. 2010.<\/p>\n<p>MCCOY, A. W. From Free Trade to Prohibition: a Critical History of the Modern Asian Opium Trade. <strong>Fordham Urban Law Journal<\/strong>, v. 28, p. 307-350, 2000-2001.<\/p>\n<p>PAIN, A. Opium Poppy and Informal credit. <strong>Afghanistan Research and Evaluation Unit IssuePaper Series<\/strong>, Kabul, outubro 2008.<\/p>\n<p>RUBIN, B. The Political Economy of War and Peace in Afghanistan. <strong>World Development<\/strong>, v. 28, p. 1789-1803, out. 2000.<\/p>\n<p>SWANSTROM, N. The Narcotics Trade: A Threat to Security? National and Transnational Implications. <strong>Global Crimes<\/strong>, v. 8, n. 1, p. 1-25, 2007.<\/p>\n<p>UNDCP. Global Illicit Drug Trends. <strong>UNDCP<\/strong>, p. 30, 2001.<\/p>\n<p>UNODC. THE OPIUM ECONOMY IN AFGHANISTAN: An International Problem. <strong>UNODC <\/strong>, 2003.<\/p>\n<p>UNODC. Afghanistan opium survey 2018: Challenges to sustainable development, peace and security. <strong>UNODC Reaserch<\/strong>, Julho 2019.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto de Thales Valente e Bruno Beaklini (Bruno Lima Rocha Beaklini). Ilustra\u00e7\u00e3o de Rafael Costa. Em 2001, no Afeganist\u00e3o, o regime do Taliban (grupo pol\u00edtico militar que governava 90% da regi\u00e3o e origin\u00e1rio da forma\u00e7\u00e3o wahhabita de resist\u00eancia \u00e0 invas\u00e3o sovi\u00e9tica) caiu depois da interven\u00e7\u00e3o militar estadunidense no pa\u00eds. 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