{"id":2546,"date":"2020-09-12T16:57:42","date_gmt":"2020-09-12T19:57:42","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanaliseblog.com\/?p=2546"},"modified":"2020-09-12T16:57:42","modified_gmt":"2020-09-12T19:57:42","slug":"2546","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=2546","title":{"rendered":"O entreguismo fardado no Governo Bolsonaro: um projeto pol\u00edtico &#8211; artigo de an\u00e1lise"},"content":{"rendered":"<p>Setembro de 2020, por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100002472324690\">Pedro Guedes<\/a> e<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/blimarocha\/\"> Bruno Lima Rocha<\/a> \u2013 ilustra\u00e7\u00e3o de <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100005706308090\">Rafael Costa<\/a><\/p>\n<p>O entreguismo dentro da pol\u00edtica brasileira, n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno novo, alternando maior ou menor proemin\u00eancia, ao menos desde 1952, com o debate acalorado resultante da Campanha do Petr\u00f3leo \u00e9 Nosso. Essa campanha, de forte teor popular e participa\u00e7\u00e3o direta \u2013 ainda que instrumentalizada pelo trabalhismo do governo eleito de Vargas &#8211; deu origem \u00e0 decis\u00e3o do Estado Brasileiro em criar a Petrobr\u00e1s, em 1953[1]. De maneira geral, o entreguismo \u00e9 caracterizado pela defesa da abdica\u00e7\u00e3o do uso dos recursos (naturais ou artificiais) que o pa\u00eds possui em prol do direito de uso destes mesmos recursos por uma pot\u00eancia estrangeira e suas empresas. Tal fen\u00f4meno \u00e9 associado com algumas for\u00e7as pol\u00edticas. No per\u00edodo entre o final do Estado Novo e o golpe de 1\u00ba de abril de 1964, o partido pol\u00edtico caracterizado como o mais entreguista era a Uni\u00e3o Democr\u00e1tica Nacional (UDN, abril de 1945-outubro de 1965). Dentro da extrema direita militar no per\u00edodo da Guerra Fria antes do golpe, havia um amplo setor Entreguista, meio caricato, para al\u00e9m da gera\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da Escola Superior de Guerra (ESG).<\/p>\n<p>Essa ideia \u00e9 baseada na cren\u00e7a de que o Estado Brasileiro n\u00e3o seria capaz de gerenciar de maneira eficiente o uso desses recursos, agindo inclusive de maneira corrupta e patrimonialista [2]. Enquanto a iniciativa privada, mesmo a estrangeira, traria uma racionalidade nova, imaculada dos v\u00edcios que seriam exclusividade do Estado brasileiro [3]. O pano de fundo \u00e9 pior. Para essa laia colonizada, n\u00e3o seriamos capazes de gerir nossos pr\u00f3prios recursos nem buscar as sa\u00eddas coletivas para a vida contempor\u00e2nea em sociedade. Parece que, segundo teses antigas como a do ge\u00f3grafo holand\u00eas-estadunidense Nicolas Spykman, reproduzindo fal\u00e1cias do estrategista brit\u00e2nico Halford Mackinder, identificando na origem ib\u00e9rica dos invasores de Palmares e Pindorama uma esp\u00e9cie de \u201cv\u00edcio de origem\u201d, \u201cmal interior\u201d. O efeito ideol\u00f3gico desse sentido de cren\u00e7as em alto n\u00edvel decis\u00f3rio \u00e9 proporcional \u00e0 difus\u00e3o do \u201cviralatismo sociol\u00f3gico\u201d que abunda no bolo fecal das mentalidades de deformadores de opini\u00e3o subordinada. No mundo castrense, em parte, essa \u201ctradi\u00e7\u00e3o\u201d coexiste com outras.<\/p>\n<p>Na hist\u00f3ria brasileira, a pot\u00eancia estrangeira, com capacidade de produzir consenso dentro das elites brasileiras, e de se beneficiar da consolida\u00e7\u00e3o desse pensamento, s\u00e3o os Estados Unidos. No s\u00e9culo XIX, a decad\u00eancia do Imp\u00e9rio Portugu\u00eas gerou uma vincula\u00e7\u00e3o d\u00fabia com Lisboa-Coimbra e o Porto. Na sequ\u00eancia, oscilamos entre a press\u00e3o da marinha, bancos e ind\u00fastrias inglesas e a proje\u00e7\u00e3o cultural e institucional da Fran\u00e7a. Na Rep\u00fablica Velha, a presen\u00e7a franco-inglesa come\u00e7ou a ser rivalizada com a dos Estados Unidos. Na d\u00e9cada de 30 do s\u00e9culo XX, a Opera\u00e7\u00e3o Panamericana come\u00e7a a ter suas influ\u00eancias a ponto de hegemonizar o andar de cima do pa\u00eds. Com base no ide\u00e1rio liberal (olig\u00e1rquico e colonizado, n\u00e3o a matriz dos antigos liberais exaltados ou democratas radicais, ou do federalismo radical como na tradi\u00e7\u00e3o artiguista e um pouco na matriz pernambucana) que em suma, defendem uma participa\u00e7\u00e3o do Estado na economia em patamares m\u00ednimos, mesmo em \u00e1reas estrat\u00e9gicas, como tecnol\u00f3gica, infraestrutura, energia e defesa, por exemplo. Essas ideias s\u00e3o publicadas e difundidas no segmento civil da sociedade por <em>think thanks<\/em>, como o Instituto Millenium (ligado \u00e0 Rede Globo de Televis\u00e3o) ou o Instituto Mises Brasil [10]. Em termos de processo hist\u00f3rico e forma\u00e7\u00e3o, h\u00e1 uma esp\u00e9cie de f\u00e1bula sistematizada, onde n\u00e3o se estudam os passos tomados pelas pot\u00eancias para criarem, por exemplo, seus parques industriais ou ent\u00e3o n\u00e3o se leva em conta o Sistema Internacional e a capacidade de cria\u00e7\u00e3o de excedentes de poder por pa\u00edses que est\u00e3o na Semiperiferia, ou quase pot\u00eancias, tal \u00e9 o caso do Brasil.<\/p>\n<p>Dentro dos c\u00edrculos militares, a penetra\u00e7\u00e3o dos ideais liberais e antinacionais foi acelerada em tr\u00eas momentos muito distintos. O primeiro foi nos anos subsequentes do in\u00edcio da participa\u00e7\u00e3o brasileira na Segunda Guerra Mundial. Aqui, alguns dos alto-oficiais que lideraram as tropas da For\u00e7a Expedicion\u00e1ria Brasileira (FEB) foram ensinados dentro par\u00e2metros do National War College, dos Estados Unidos. Calcados em um nascente anticomunismo, estes militares assimilaram entre outras ideias que a melhor maneira de o Brasil se inserir dentro do Sistema Internacional, era de maneira atrelada aos interesses e objetivos dos EUA. Em 1949, a Escola Superior de Guerra foi criada, sendo o principal basti\u00e3o dos ide\u00e1rios anticomunistas nas For\u00e7as Armadas [4]. Desta forma, reproduzimos na oficialidade a tese da \u201cdoutrina de seguran\u00e7a hemisf\u00e9rica\u201d ou da \u201cteoria das fronteiras ideol\u00f3gicas\u201d. A met\u00e1stase dessas ideias \u00e9 tamanha que encontra efeito nos discursos do presidente Jair Messias Bolsonaro, incluindo o t\u00e9trico e mentiroso discurso do sete de setembro do corrente ano. Vale ressaltar que o processo de incorpora\u00e7\u00e3o da alta oficialidade brasileira se deu ap\u00f3s um per\u00edodo de influ\u00eancia german\u00f3fila e at\u00e9 mesmo filo-nazista, al\u00e9m de evidente filia\u00e7\u00e3o fascista, tal \u00e9 o caso do conspirador Ol\u00edmpio Mour\u00e3o Filho, operador do autogolpe do Estado Novo em 1937 assim como o de 1\u00ba de abril de 1964.<\/p>\n<p>O segundo momento foi durante os est\u00e1gios iniciais do Golpe C\u00edvico e Militar de 1964. Este per\u00edodo \u00e9 importante de mencionar por que \u00e9 aqui onde as linhas nacionalistas mais pr\u00f3ximas das ideias progressistas e dos partidos pol\u00edticos de esquerda dentre os militares de posi\u00e7\u00f5es m\u00e9dias e altas (de majores a generais) v\u00e3o ser expurgadas. Aqui, \u00e9 fortalecida a ideia de que a\u00e7\u00f5es de cunho nacionalista, como estatiza\u00e7\u00f5es, medidas de prote\u00e7\u00e3o de mercado, exclusividade do Estado em \u00e1reas economicamente sens\u00edveis entre outras medidas, s\u00e3o \u201ccomunistas\u201d, devendo assim, serem erradicadas das casernas e da sociedade [6]. O apoio estadunidense ao golpe \u2013 a escolha da embaixada dos EUA do primeiro ditador-presidente, o marechal Castelo Branco -, se deu a partir de financiamento dos grupos de oposi\u00e7\u00e3o ao governo Jo\u00e3o Goulart, bem como pela promessa de suporte militar aos revoltosos [5].<\/p>\n<p>Contudo, ap\u00f3s o governo do marechal Castelo Branco, muitas dessas medidas ser\u00e3o tomadas pelos militares que escantearam os oficiais ideologicamente mais alinhados aos Estados Unidos das posi\u00e7\u00f5es de poder no Regime Ditatorial Militar [11]. Na d\u00e9cada de 1970, muitos destes militares desprestigiados iriam se aglutinar em torno do General Sylvio Frota, tentando derrubar o governo Geisel e a ala nacionalista conservadora do Ex\u00e9rcito, no que ficou conhecido como \u201cGolpe dentro do Golpe\u201d. Geisel a fim de evitar maior desgaste interno do Regime Ditatorial, demite Frota e isola os elementos do Ex\u00e9rcito pr\u00f3ximos a ele [8]. O recalque da caserna, o \u201cci\u00fame do poder\u201d, o sentimento de revanche veio \u00e0 tona. Na queda de bra\u00e7o entre Golbery e Meira Mattos, primeiro ganhou o primeiro e depois o FMI jogou ambos na lona, com a maxidesvaloriza\u00e7\u00e3o do cruzeiro e a derrota do governo Figueiredo. A subordina\u00e7\u00e3o se fez absoluta e parece que a meta do Brasil Pot\u00eancia virou um mito a ser reivindicado por vi\u00favos do regime, como o cardiologista e eterno pretenso l\u00edder nacionalista da extrema direita, En\u00e9as Carneiro (1938-2007).<\/p>\n<p>O Terceiro momento importante para o entendimento do movimento entreguista nas For\u00e7as Armadas \u00e9 a queda do Governo Dilma Rousseff, em 2016. Durante a crise pol\u00edtica que culminou no processo de impeachment de inspira\u00e7\u00e3o golpista, o Alto Comando do Ex\u00e9rcito n\u00e3o apenas se manteve calado frente \u00e0s movimenta\u00e7\u00f5es de grupos como o Movimento Brasil Livre (MBL), mas agiram para coagir o j\u00e1 fr\u00e1gil governo Dilma (via amea\u00e7as de quartelada pelo Twitter) [13] e segundo o \u00e1udio do Senador Juc\u00e1, agir em conjuntamente com o Supremo Tribunal Federal, a fim de concretizar a sucess\u00e3o de Dilma com a posse do Vice Presidente, Michel Temer[7]. \u201cCom o Supremo, com tudo\u201d, inclu\u00eda tamb\u00e9m uma fragilidade do estamento superior com mentalidade bananisteira, acuado pelas tuitadas do ent\u00e3o ainda comandante geral do Ex\u00e9rcito Brasileiro, general Eduardo Villas B\u00f4as. Diante de uma evidente ofensiva jur\u00eddica contra a Petrobr\u00e1s e visando a desindustrializa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, generais, brigadeiros e almirantes nada fizeram al\u00e9m de surfar na onda do \u201canticomunismo\u201d sem Guerra Fria ou na cruzada udenista, mas com uma vertente cada vez mais exibida de defesa de golpe de Estado atrav\u00e9s da \u201cinterven\u00e7\u00e3o militar constitucional\u201d e outras excresc\u00eancias intelectuais. Na propaganda cibern\u00e9tica da extrema direita anterior ao golpe com apelido de impeachment em abril de 2016, era comum a presen\u00e7a de militares da ativa com declara\u00e7\u00f5es de realinhamento aos EUA e \u00e0 subordina\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica ao Comando Sul da Superpot\u00eancia.<\/p>\n<p>Durante o governo de Temer, um programa calcado na entrega do patrim\u00f4nio nacional foi colocado em pr\u00e1tica, a \u201cPonte para o Futuro\u201d. Em linhas gerais este programa previa a venda de empresas p\u00fablicas, a concess\u00e3o do uso e gerenciamento de estradas, portos, aeroportos entre outras a\u00e7\u00f5es. Isso foi feito sob a ideia de que o Estado estaria \u201cinchado\u201d, cheio de empresas p\u00fablicas ineficientes e que os recursos de valor econ\u00f4mico (minas, portos, aeroportos e jazidas) n\u00e3o estariam sendo utilizados de maneira correta.\u00a0 Neste momento, n\u00e3o houve nenhum uma nota de oposi\u00e7\u00e3o por parte dos oficiais de alto escal\u00e3o das For\u00e7as Armadas, um contraste com a recente atividade de muitos oficiais militares at\u00e9 ent\u00e3o, entre 2016 e 2017. Pela demonstra\u00e7\u00e3o da via dos fatos, a prioridade n\u00e3o era a defesa da capacidade de desenvolvimento do pa\u00eds e sim fazer coro com a proje\u00e7\u00e3o de poder do Comando Sul e nas aventuras securit\u00e1rias junto ao governo colombiano, ampliando a tens\u00e3o com a Venezuela e realizando exerc\u00edcios conjuntos na Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>Em 2018, um candidato que se apresentava como um \u201cnacionalista\u201d, de ideologia conservadora e entusiasta da ditadura militar se elegia presidente do pa\u00eds, Jair Messias Bolsonaro, pelo Partido Social Liberal (PSL). Como vice na sua chapa, estava o general reformado Hamilton Mour\u00e3o, de quatro estrelas. Jair Messias foi um \u201cp\u00e9ssimo militar\u201d, segundo relato do ditador-presidente Ernesto Geisel. Foi praticamente expulso do Ex\u00e9rcito pela tentativa de atentado ocorrido na Praia Vermelha, RJ, na metade de d\u00e9cada de \u201980 do s\u00e9culo XX. Bolsonaro se colocava como um \u201canti-geisel\u201d. Assim, ele e seu cl\u00e3 estariam dispostos a desmontar todo o legado, como o que restou do parque industrial brasileiro, as linhas gerais de nossa pol\u00edtica externa (pragm\u00e1tica, universalista e aut\u00f4noma) [9]. Na \u201cguerra cultural\u201d que chafurdou o pa\u00eds, o debate em termos internacionais desceu \u00e0s profundezas da mesquinharia intelectual, e parece que desse lodo n\u00e3o sai f\u00e1cil.\u00a0 Considerando que em tese as For\u00e7as Armadas estariam dedicadas \u00e0 defesa do pa\u00eds, e n\u00e3o \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o e preserva\u00e7\u00e3o da ordem social injusta e racista.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>As semelhan\u00e7as entre Bolsonaro e o ex-general Sylvio Frota, residem principalmente no uso da for\u00e7a \u2013 modernamente na amea\u00e7a do uso da for\u00e7a &#8211; como meio de controlar o ambiente pol\u00edtico[9]. \u00c9 dif\u00edcil pensar em como as For\u00e7as Armadas se deixaram levar por um ex-militar, apoiado por pentescostais campe\u00f5es do pecado da usura, especuladores financeiros paraistas e ide\u00f3logos de baix\u00edssimo n\u00edvel, como Olavo de Carvalho. Mas diante da evid\u00eancia dos fatos e no correr do per\u00edodo j\u00e1 cumprido do desgoverno da extrema-direita, se observamos apenas o alinhamento ideol\u00f3gico entre o Alto Comando das Tr\u00eas For\u00e7as e o n\u00facleo do Bolsonarismo, \u00e9 exatamente isso o que est\u00e1 ocorrendo. H\u00e1 ainda, o interesse de militares da ativa e reformados em obter cargos na esfera civil e de participar do processo da tomada de decis\u00e3o do Estado Brasileiro[12]. A rela\u00e7\u00e3o de prebendas e postos de comandos civis em desvio de fun\u00e7\u00e3o com militares \u00e0 frente evidenciam que diante da \u201cseguran\u00e7a nacional\u201d, o mais importante \u00e9 \u201cser amigo dos amigos\u201d.<\/p>\n<p>A maior presen\u00e7a dos militares no governo Bolsonaro, atuando em todos os escal\u00f5es da m\u00e1quina p\u00fablica explicita o retorno\u00a0 de oficiais militares n\u00e3o apenas ao governo, mas tamb\u00e9m no ambiente pol\u00edtico[14]. Cuidando de articular o apoio ao governo, compor maiorias no Congresso Nacional, distribuir cargos entre os pol\u00edticos do Centr\u00e3o s\u00e3o tarefas que demonstram a tentativa da volta das For\u00e7as Armadas como um \u201cPoder Moderador\u201d no ambiente pol\u00edtico nacional [15].Como se sabe,\u00a0 ao dedicarem-se a fazer pol\u00edtica dom\u00e9stica, n\u00e3o defendem nada e atuma pior ainda na \u201cpolititica\u201d cotidiana.<\/p>\n<p>Essa fun\u00e7\u00e3o que os militares tentam trazer para eles hoje remonta a uma tradi\u00e7\u00e3o de interven\u00e7\u00e3o na arena pol\u00edtica que tem origem ao per\u00edodo posterior \u00e0 Guerra do Paraguai, ou ao Genoc\u00eddio do Pa\u00eds Guarani. Mesmo vitoriosos no conflito \u2013 com o apoio expl\u00edcito da Inglaterra &#8211; mas sem a aten\u00e7\u00e3o do Governo Imperial, os militares come\u00e7am a se estruturar como um agente pol\u00edtico organizado, que ir\u00e1 proclamar a rep\u00fablica em 1889 atrav\u00e9s de um golpe de Estado; governar de maneira ditatorial at\u00e9 o in\u00edcio da Rep\u00fablica Velha; atravessar momentos de aventuras redentoras como o tenentismo; co-governar o Estado Novo atrav\u00e9s de G\u00f3is Monteiro e Gaspar Dutra; servir como instrumento de desestabiliza\u00e7\u00e3o permanente entre 1946 at\u00e9 deflagar o Golpe Civil e Militar de 1964[16].<\/p>\n<p>Esperava-se que a Nova Rep\u00fablica, com a promulga\u00e7\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, com uma elite pol\u00edtica minimamente coesa e sociedade civil mais atenta, fossem inibir a volta dos militares a esse d\u00fabio e perigoso papel. Ledo engano, aproveitando-se de uma crise econ\u00f4mica pesada \u2013 impulsionada pela p\u00e9ssima escolha do Chicago Boy Joaquim Levy para aplicar o receitu\u00e1rio\u00a0 austericida -, descren\u00e7a na pol\u00edtica (atrav\u00e9s primeiro do pragmatismo dos governos social-democrata e na sequ\u00eancia com a terra arrasada promovida pelo Partido da Lava Jato) e um sentimento de saudosismo da supremacia do poder militar sobre a ordem civil, os militares ensaiam uma atua\u00e7\u00e3o cada vez maior na pol\u00edtica brasileira. Essa presen\u00e7a se cristaliza na grande quantidade de militares da ativa e milicos reformados trabalhando em minist\u00e9rios, secretarias, autarquias e empresas estatais.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a de tantos militares nos minist\u00e9rios civis, com destaque no Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, que liderados pelo general intendente Eduardo Pazuello &#8211; ainda como ministro interino -, foram incapazes de esbo\u00e7ar o m\u00ednimo. Milhares de milicos em desvio de fun\u00e7\u00e3o com postos civis e n\u00e3o sai uma estrat\u00e9gia minimamente eficaz de apoio aos estados e munic\u00edpios durante a corrente pandemia de Covid-19! At\u00e9 o momento de concluir a revis\u00e3o desse texto, o pa\u00eds j\u00e1 sofria mais de 130 mil mortos pela pandemia e tamb\u00e9m em fun\u00e7\u00e3o do desgoverno e falta de assist\u00eancia apropriada. Tamanho descalabro tamb\u00e9m \u00e9 o retrato da interven\u00e7\u00e3o n\u00e3o oficial do Ex\u00e9rcito no governo brasileiro.<\/p>\n<p>A hipocrisia \u00e9 do tamanho do entreguismo colonial.\u00a0 Essa presen\u00e7a mais ativa dos militares na pol\u00edtica brasileira n\u00e3o impediu que a Base de Alc\u00e2ntara, no Maranh\u00e3o fosse arrendada para os EUA quase que de gra\u00e7a e que a venda e desmembramento da Embraer fossem concretizadas. Tampouco impede o desmonte agressivo sobre a Petrobr\u00e1s, com a liquida\u00e7\u00e3o da BR Distribuidora e a desativa\u00e7\u00e3o de refinarias. Com oficiais militares profissionais assim, uma pot\u00eancia agressora n\u00e3o teria problema algum em invadir nosso pa\u00eds. Que vergonha.<\/p>\n<p><strong>Pedro Guedes<\/strong> \u00e9 graduado em Rela\u00e7\u00f5es Internacionais pela Universidade do vale do Rio dos Sinos. Graduando de direito pela PUC\/RS. S\u00f3cio da C&amp;G Consultoria e membro do Grupo Capital e Estado. Contato: <a href=\"mailto:pedro_0141@hotmail.com\">pedro_0141@hotmail.com<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Bruno Lima Rocha<\/strong> \u00e9 militante socialista libert\u00e1rio e editor dos canais do Estrat\u00e9gia &amp; An\u00e1lise, a an\u00e1lise pol\u00edtica para a esquerda mais \u00e0 esquerda.<\/p>\n<p>Contatos: blimarocha@gmail.com | facebook.com\/blimarocha<\/p>\n<p>Blog: www.estrategiaeanaliseblog.com<\/p>\n<p>facebook.com\/estrategiaeanaliseoficial<\/p>\n<p>Twitter: twitter.com\/estanalise<\/p>\n<p>YouTube: Estrat\u00e9gia e An\u00e1lise Blog<\/p>\n<p>Telegram: t.me\/estrategiaeanalise<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Rafael Costa \u00e9 desenhista e cartunista (E-mail- Rafael.martinsdacosta@yahoo.com.br. Instagram- @chargesecartuns)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Fontes Consultadas:<\/p>\n<p>[1]http:\/\/www.fgv.br\/cpdoc\/acervo\/dicionarios\/verbete-tematico\/entreguismo<br \/>\n[2]https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/dinheiro\/fi17039808.htm<\/p>\n<p>[3]https:\/\/www.institutomillenium.org.br\/arminio-fraga-estado-brasileiro-ainda-e-gordo-quebrado-e-ineficiente\/<\/p>\n<p>[4]https:\/\/www.esg.br\/a-esg\/historico<\/p>\n<p>[5]https:\/\/istoe.com.br\/1217_OS+EUA+NO+GOLPE+DE+64\/<\/p>\n<p>[6]https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/amp\/brasil-46532955<\/p>\n<p>[7] https:\/\/theintercept.com\/2016\/05\/23\/novo-abalo-politico-no-brasil-e-hora-da-midia-comecar-a-dizer-golpe\/<\/p>\n<p>[8]http:\/\/memorialdademocracia.com.br\/card\/geisel-enquadra-rivais-no-exercito<\/p>\n<p>[9]https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/amp\/colunas\/celso-rocha-de-barros\/2018\/10\/bolsonaro-representa-faccao-das-forcas-armadas-que-ganhou-poder-com-a-tortura.shtml<\/p>\n<p>[10] https:\/\/diplomatique.org.br\/think-tanks-ultraliberais-e-nova-direita-brasileira\/<\/p>\n<p>[11] <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/poder\/2020\/06\/ditadura-formou-geracao-de-militares-que-hoje-povoam-governo-bolsonaro.shtml\">https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/poder\/2020\/06\/ditadura-formou-geracao-de-militares-que-hoje-povoam-governo-bolsonaro.shtml<\/a><\/p>\n<p>[12] <a href=\"https:\/\/www.conjur.com.br\/2020-jul-17\/mil-militares-exercem-funcoes-civis-governo-federal\">https:\/\/www.conjur.com.br\/2020-jul-17\/mil-militares-exercem-funcoes-civis-governo-federal<\/a><\/p>\n<p>[13]https:\/\/www.dw.com\/pt-br\/militares-n%C3%A3o-mudaram-modo-de-pensar-depois-da-ditadura\/a-53679430<\/p>\n<p>[14] https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-51646346<\/p>\n<p>[15] <a href=\"https:\/\/www.conjur.com.br\/2020-jul-31\/forcas-armadas-nao-sao-poder-moderador-agu-stf\">https:\/\/www.conjur.com.br\/2020-jul-31\/forcas-armadas-nao-sao-poder-moderador-agu-stf<\/a><\/p>\n<p>[16] https:\/\/revistaforum.com.br\/politica\/historico-das-verdadeiras-intervencoes-militares-no-brasil\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Setembro de 2020, por Pedro Guedes e Bruno Lima Rocha \u2013 ilustra\u00e7\u00e3o de Rafael Costa O entreguismo dentro da pol\u00edtica brasileira, n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno novo, alternando maior ou menor proemin\u00eancia, ao menos desde 1952, com o debate acalorado resultante da Campanha do Petr\u00f3leo \u00e9 Nosso. 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