{"id":2650,"date":"2020-12-31T12:03:24","date_gmt":"2020-12-31T15:03:24","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanaliseblog.com\/?p=2650"},"modified":"2020-12-31T12:03:24","modified_gmt":"2020-12-31T15:03:24","slug":"um-balanco-de-2020-e-a-normalizacao-com-o-apartheid-israelense","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=2650","title":{"rendered":"Um balan\u00e7o de 2020 e a \u201cnormaliza\u00e7\u00e3o\u201d com o Apartheid israelense"},"content":{"rendered":"\n<p>Bruno Beaklini (<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/blimarocha\/\">Bruno Lima Rocha Beaklini<\/a>) \u2013 artigo originalmente publicado no Monitor do Oriente M\u00e9dio (monitordooriente.com)<\/p>\n\n\n\n<p>No Grande Oriente M\u00e9dio, o ano de 2020 come\u00e7a e termina com duas agress\u00f5es imperialistas contra autoridades iranianas. Em janeiro uma a\u00e7\u00e3o militar dos Estados Unidos leva ao mart\u00edrio do tenente-general Qassem Soleimani, possivelmente o militar iraniano mais reconhecido na hist\u00f3ria recente. No final de novembro, o f\u00edsico e engenheiro Mohsen Fakhrizadeh, com patente de brigadeiro-general na Guarda Revolucion\u00e1ria (IRGC, Pasdaran na romaniza\u00e7\u00e3o do farsi) foi assassinado atrav\u00e9s de uma metralhadora de combate acionada provavelmente acionada por sat\u00e9lite. Ressalto estas passagens, porque as agress\u00f5es ao Ir\u00e3 v\u00e3o de encontro com a determina\u00e7\u00e3o do Estado persa e seus aliados na expuls\u00e3o das for\u00e7as estadunidenses de toda a regi\u00e3o. Abordaremos esse tema em espec\u00edfico no in\u00edcio de 2021, valendo aqui como registro de um balan\u00e7o anual com momentos de cerco diplom\u00e1tico ao povo palestino e \u00e0s causas dos oprimidos no Mundo \u00c1rabe e territ\u00f3rios conexos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s o ato criminoso citado acima, os Estados Unidos em conson\u00e2ncia com Israel lan\u00e7aram seu plano macabro de \u201cAcordo do S\u00e9culo\u201d (<a href=\"https:\/\/exame.com\/mundo\/acordo-do-seculo-de-trump-para-o-oriente-medio-sera-finalmente-revelado\/\">https:\/\/exame.com\/mundo\/acordo-do-seculo-de-trump-para-o-oriente-medio-sera-finalmente-revelado\/<\/a>). A ideia seria razoavelmente \u201csimples\u201d. Oficializar o dom\u00ednio sionista nos territ\u00f3rios Ocupados da Naksa, e a formaliza\u00e7\u00e3o dos bantust\u00f5es na Cisjord\u00e2nia e de Gaza como sendo a Soweto \u00e1rabe. O cerco implicava formalizar o uso dos recursos mar\u00edtimos do Mediterr\u00e2neo mesmo na costa palestina que seria de uso exclusivo segundo resolu\u00e7\u00e3o da ONU. Ao mesmo tempo, a proposi\u00e7\u00e3o de Trump visava atrair investimentos tripartites, com capitais das petro-monarquias do Golfo e a amplia\u00e7\u00e3o do porto israelense de Eilat, no Mar Vermelho.<\/p>\n\n\n\n<p>Um efeito direto desta proposta infame foi a possibilidade de unifica\u00e7\u00e3o das for\u00e7as pol\u00edticas palestinas e a afirma\u00e7\u00e3o de um novo c\u00edrculo de aproxima\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas na regi\u00e3o. Desta forma, no territ\u00f3rio ocupado e na pol\u00edtica de refugiados, a reaproxima\u00e7\u00e3o de Fatah e Hamas, somada \u00e0s for\u00e7as mais \u00e0 esquerda e mais islamitas, conseguiria gerar a unidade pol\u00edtica necess\u00e1ria para dar batalha ao inimigo de forma coordenada. Infelizmente, esse processo est\u00e1 lento e ainda sofre possibilidades de n\u00e3o se realizar por completo.<\/p>\n\n\n\n<p>Simultaneamente, um poss\u00edvel realinhamento da Turquia, que \u2013 em tese &#8211; estaria definitivamente preocupada em fazer uma pol\u00edtica regional no apoio da Palestina, alinhando-se com pa\u00edses que t\u00eam essa mesma preocupa\u00e7\u00e3o: o titubeante gabinete do L\u00edbano (antes e depois da explos\u00e3o no Porto de Beirute); o governo s\u00edrio em Damasco; o ainda fr\u00e1gil Poder Executivo em Bagd\u00e1; a monarquia do Qatar e a Rep\u00fablica Isl\u00e2mica do Ir\u00e3. Em uma posi\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica mais distante e tamb\u00e9m convivendo com intensos problemas internos, a Arg\u00e9lia estaria nesta mesma condi\u00e7\u00e3o. Esses pa\u00edses formariam um c\u00edrculo de for\u00e7a e apoio \u00e0s mais variadas formas de resist\u00eancia contra a presen\u00e7a de cruzados imperialistas no Oriente M\u00e9dio e com algum grau de solidariedade no Mundo \u00c1rabe e no Mundo Isl\u00e2mico. Evidente que esse n\u00edvel de alian\u00e7as ainda depende de agendas pr\u00f3prias e interesses regionais por vezes conflitantes, tal como o tema do reconhecimento da soberania relativa em Rojava e o fim da militariza\u00e7\u00e3o do Curdist\u00e3o sob o dom\u00ednio turco. Mesmo sabendo do conjunto desta complexidade, j\u00e1 \u00e9 uma sadia possibilidade de resposta aos planos de cerco diplom\u00e1tico e ocupa\u00e7\u00e3o permanente na Palestina.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes do chamado \u201cAcordo do S\u00e9culo\u201d, Tel Aviv acenava com uma infame oferta de \u201ccompra de territ\u00f3rio jordaniano\u201d para aloca\u00e7\u00e3o de popula\u00e7\u00e3o palestina das \u00e1reas A, B e C da Cisjord\u00e2nia (<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=z8AoMqDjtjo\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=z8AoMqDjtjo<\/a>). Tal absurdo vinha acompanhado da tens\u00e3o interna no Reino Hachemita da Jord\u00e2nia, onde ainda sobra identifica\u00e7\u00e3o quase exclusiva entre o aparelho de Estado e o c\u00edrculo mais pr\u00f3ximo de sua majestade e os mais variados graus de parentesco diretos e indiretos. Com menos desfa\u00e7atez do que a compra de terras na Jord\u00e2nia, a militariza\u00e7\u00e3o do Sinai e a pol\u00edtica de fronteira fechada entre Gaza e Egito sob mando dos militares leais ao general El-Sisi segue no mesmo tom de cerco estrat\u00e9gico.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A jogada dupla da alian\u00e7a Netanyahu-Gantz com Trump veio no caminho do \u201cmal menor\u201d. A normaliza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas de Israel com pa\u00edses-membro da Liga \u00c1rabe vai ao encontro das mais deplor\u00e1veis posi\u00e7\u00f5es que esses mesmos Estados absolutistas v\u00eam tomando. A come\u00e7ar com os Emirados \u00c1rabes Unidos (EAU), em agosto, cujo emir de Abu Dhabi e presidente da uni\u00e3o pol\u00edtica, Bin Zayed (me perdoem a petul\u00e2ncia, mas me recuso a chama-lo de Khalifa), vinha realizando acordos securit\u00e1rios e na \u00e1rea de intelig\u00eancia com Israel (<a href=\"http:\/\/jornalri.com.br\/2020\/a-normalizacao-das-relacoes-entre-israel-e-os-emirados-arabes-unidos\">http:\/\/jornalri.com.br\/2020\/a-normalizacao-das-relacoes-entre-israel-e-os-emirados-arabes-unidos<\/a>). EAU foi secundado pelo Bahrain (<a href=\"https:\/\/www.dw.com\/pt-br\/israel-e-bahrein-anunciam-acordo-para-normalizar-rela%C3%A7%C3%B5es\/a-54901450\">https:\/\/www.dw.com\/pt-br\/israel-e-bahrein-anunciam-acordo-para-normalizar-rela%C3%A7%C3%B5es\/a-54901450<\/a>), n\u00e3o por coincid\u00eancia pa\u00eds onde o Imp\u00e9rio estadunidense estaciona sua 5\u00aa frota na Ilha de Manama ().<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 imposs\u00edvel abstrair o cen\u00e1rio mais complexo da regi\u00e3o da Causa Palestina. Os navios de guerra do Imp\u00e9rio afetam diretamente a navega\u00e7\u00e3o no Estreito de Ormuz o que implica em parcela significativa da atividade econ\u00f4mica de Ir\u00e3 e Qatar, al\u00e9m de 20% dos barris de petr\u00f3leo comercializados no planeta. A prepot\u00eancia dos cruzados afirma que a 5\u00aa Frota, pertencente ao Comando Central, \u201cgarante seguran\u00e7a\u201d no Golfo P\u00e9rsico, Mar Vermelho e Mar da Ar\u00e1bia (<a href=\"https:\/\/www.cusnc.navy.mil\/\">https:\/\/www.cusnc.navy.mil\/<\/a>). O inverso \u00e9 totalmente verdadeiro. Infelizmente as monarquias do Golfo se portam mais como Estados vassalos competindo entre si pelos favores anglo-sax\u00f5es do s\u00e9culo XXI do que pa\u00edses \u00e1rabes a cumprir um destino coletivo. Desta forma, a Liga \u00c1rabe se desmoraliza ainda mais, para al\u00e9m das posi\u00e7\u00f5es da Ar\u00e1bia Saudita e sua coaliz\u00e3o com os Emirados, apoiando uma fac\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria no conflito do I\u00eamen e fingindo n\u00e3o ver uma ampla malha territorial sob o controle da Al Qaeda na Pen\u00ednsula Ar\u00e1bica (AQAP). Obviamente Israel n\u00e3o emite nem uma nota a respeito, seguindo na hipocrisia de sempre.<\/p>\n\n\n\n<p>Falando em hipocrisia, temos dois casos. Primeiro o ciclo de normaliza\u00e7\u00f5es traz o caso do Sud\u00e3o, que em tratativas de plenas rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas com o Estado Colonial deixa de ser considerado um pa\u00eds apoiador do terrorismo (<a href=\"https:\/\/www.rfi.fr\/pt\/mundo\/20201024-sud%C3%A3o-e-israel-acordam-normalizar-rela%C3%A7%C3%B5es\">https:\/\/www.rfi.fr\/pt\/mundo\/20201024-sud%C3%A3o-e-israel-acordam-normalizar-rela%C3%A7%C3%B5es<\/a>), mesmo tendo v\u00ednculos hist\u00f3ricos com o salafismo (<a href=\"https:\/\/www.aljazeera.com\/opinions\/2020\/2\/6\/what-is-behind-the-talk-of-sudan-israel-normalisation\">https:\/\/www.aljazeera.com\/opinions\/2020\/2\/6\/what-is-behind-the-talk-of-sudan-israel-normalisation<\/a>). Diante da competi\u00e7\u00e3o por influ\u00eancias regionais, a China tem no governo de Cartum um ativo fornecedor de petr\u00f3leo e pelo visto, na disputa por influ\u00eancia literalmente, Netanyahu e o derrotado Trump aceitam tudo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em segundo lugar, a normaliza\u00e7\u00e3o com o Apartheid israelense foi afirmada pela monarquia marroquina, quando o Rei Mohammed VI trocou o destino dos palestinos pela ocupa\u00e7\u00e3o ilegal que sua coroa promove contra a Rep\u00fablica \u00c1rabe Saaraui Democr\u00e1tica desde o ano de 1976. A valente Frente Polis\u00e1rio resiste de todas as formas poss\u00edveis, mas foi \u201cvendida\u201d pelo secret\u00e1rio de Estado Mike Pompeo, o pr\u00f3-c\u00f4nsul cruzado da rid\u00edcula administra\u00e7\u00e3o republicana de Trump (<a href=\"https:\/\/www.dn.pt\/mundo\/marrocos-normaliza-relacoes-com-israel-apos-eua-reconhecerem-a-sua-soberania-no-saara-ocidental-13125905.html\">https:\/\/www.dn.pt\/mundo\/marrocos-normaliza-relacoes-com-israel-apos-eua-reconhecerem-a-sua-soberania-no-saara-ocidental-13125905.html<\/a>). Na pr\u00e1tica isso fere o cessar fogo de 1991, ratificado pela ONU e que gerou um impasse no Saara Ocidental.<\/p>\n\n\n\n<p>O ano de 2020 n\u00e3o passou ao largo de conflitos de tipo realismo regional, que muito nos entristecem e n\u00e3o deveriam mais existir. Infelizmente a luta pelo destino dos \u00e1rabes, a liberta\u00e7\u00e3o da Palestina e o eixo de resist\u00eancia anti-imperialista na Pen\u00ednsula, Mesopot\u00e2mia, Levante, Palestina e Maghreb sofrem distintas formas de agress\u00e3o externa e tamb\u00e9m posi\u00e7\u00f5es beligerantes sect\u00e1rias que poderiam ser perfeitamente evitadas. Os acordos de normaliza\u00e7\u00e3o do Estado Colonial do Apartheid (Israel) s\u00e3o t\u00e3o absurdos que poderiam servir de motiva\u00e7\u00e3o para uma pol\u00edtica cada vez mais madura no Grande Oriente M\u00e9dio, onde a rela\u00e7\u00e3o entre pa\u00edses leais n\u00e3o fosse amea\u00e7ada por temas secund\u00e1rios. Um passo concreto poderia ser a cria\u00e7\u00e3o de acordos majorit\u00e1rios e cons\u00f3rcios de desenvolvimento cient\u00edfico-tecnol\u00f3gico, tanto para defesa como adentrando em cadeias de produ\u00e7\u00e3o com alto valor agregado. A intera\u00e7\u00e3o de setores-chave com produ\u00e7\u00e3o consorciada de ativos estrat\u00e9gicos poderia ser uma sa\u00edda para os impasses ainda remanescentes.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bruno Beaklini (Bruno Lima Rocha Beaklini) \u2013 artigo originalmente publicado no Monitor do Oriente M\u00e9dio (monitordooriente.com) No Grande Oriente M\u00e9dio, o ano de 2020 come\u00e7a e termina com duas agress\u00f5es imperialistas contra autoridades iranianas. 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