{"id":2674,"date":"2021-01-20T19:46:15","date_gmt":"2021-01-20T22:46:15","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanaliseblog.com\/?p=2674"},"modified":"2021-01-20T19:46:15","modified_gmt":"2021-01-20T22:46:15","slug":"bolsonaro-e-o-espelho-retorcido-com-trump","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=2674","title":{"rendered":"Bolsonaro e o espelho retorcido com Trump"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Bruno Beaklini<\/em> (@estanalise) \u2013 artigo originalmente publicado no Monitor do Oriente M\u00e9dio&nbsp; (<a href=\"http:\/\/www.monitordooriente.com\">www.monitordooriente.com<\/a>)<\/p>\n\n\n\n<p>Dois l\u00edderes de pa\u00edses membros da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) seguiram fielmente os passos do derrotado presidente Donald Trump. Um, de forma subalterna e colonizada, \u00e9 o presidente brasileiro e protofascista, Jair Bolsonaro. Outro \u00e9 o premi\u00ea israelense, Benjamin Netanyahu. Comecemos pelo segundo. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O l\u00edder do Likud passou os \u00faltimos quatros anos na forma de simbiose, como um g\u00eameo univitelino do ex-dono de cassino. Sim, trata-se do mais que pol\u00eamico chauvinista assumido e acusado formalmente de corrup\u00e7\u00e3o, Benjamin Netanyahu, que atende pelo codinome de \u201cBibi\u201d.&nbsp; As rela\u00e7\u00f5es entre Israel e EUA s\u00e3o de complementaridade, inclusive na massifica\u00e7\u00e3o discursiva.&nbsp; Se por um lado o Estado sionista depende da ajuda militar e financeira do Imp\u00e9rio, por outro consegue impor sua agenda dom\u00e9stica como se fosse de primeira grandeza internacional para os estrategistas de Washington.<\/p>\n\n\n\n<p>Para quem ainda tiver alguma d\u00favida dessa capacidade, sugerimos a leitura do livro de John Mearsheimer e Stephen Walt, \u201cO lobby de Israel e a pol\u00edtica externa dos EUA\u201d (indico aqui o artigo traduzido e n\u00e3o o livro completo, dispon\u00edvel em <a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/pdf\/nec\/n76\/03.pdf\">https:\/\/www.scielo.br\/pdf\/nec\/n76\/03.pdf<\/a>). Nessa obra seminal, a dupla de consagrados cientistas pol\u00edticos estadunidenses e professores de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais &#8211; ambos muito vinculados ao establishment da oligarquia do Imp\u00e9rio \u2013 explicitam a rela\u00e7\u00e3o direta e, por vezes, subordinada dos Estados Unidos para com o governo de Tel Aviv.<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa forma, Israel consegue impor uma agenda ao Imp\u00e9rio, sendo o pr\u00f3prio Estado criado a partir da Nakba, na guerra de limpeza \u00e9tnica liderada por Ben Gurion, entre 1947 e 1949, uma parte dessa articula\u00e7\u00e3o imperialista. Ao contr\u00e1rio do Brasil, o Estado sionista opera como cabe\u00e7a de ponte dos cruzados, atuando com vontade pr\u00f3pria. J\u00e1 o governo sediado em Bras\u00edlia, pelo pr\u00f3prio peso gravitacional do pa\u00eds sul-americano, tende a entrar em rota de colis\u00e3o com a gravita\u00e7\u00e3o e proje\u00e7\u00e3o de excedentes de poder dos Estados Unidos. Em todos os territ\u00f3rios latino-americanos ocorre o mesmo fen\u00f4meno mas, no Brasil, Argentina e M\u00e9xico, pelo tamanho e dimens\u00e3o destes pa\u00edses, a press\u00e3o dos EUA tende a ser maior, embora com presen\u00e7a direta menos percept\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Trump, o \u00eddolo de Bolsonaro e a colonialidade da posi\u00e7\u00e3o subalterna<\/p>\n\n\n\n<p>Existe um n\u00edvel de depend\u00eancia que \u00e9 intr\u00ednseco \u00e0 forma\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses latino-americanos, e se refere ao conceito definido por An\u00edbal Quijano como \u201ca colonialidade do poder\u201d (<a href=\"http:\/\/www.decolonialtranslation.com\/espanol\/quijano-colonialidad-del-poder.pdf\">http:\/\/www.decolonialtranslation.com\/espanol\/quijano-colonialidad-del-poder.pdf<\/a>). Dessa forma, a domina\u00e7\u00e3o se d\u00e1 tanto de fora para dentro, como em um desembarque de fuzileiros navais no in\u00edcio do s\u00e9culo XX (entre 1898 e 1934) durante as chamadas \u201cguerras bananeiras\u201d (<a href=\"https:\/\/www.historiando.org\/guerras-bananeras\/\">https:\/\/www.historiando.org\/guerras-bananeras\/<\/a>), como tamb\u00e9m pode existir na estrutura de mentalidade que organiza as institui\u00e7\u00f5es nacionais. Assim, por mais ousada que seja uma correta pol\u00edtica externa, sem mudar as correla\u00e7\u00f5es de for\u00e7a dom\u00e9sticas, a tend\u00eancia de somar ignorantes, imbecis, arrivistas e parasitas, todos devidamente colonizados intelectualmente, \u00e9 gigantesca (<a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/artigo\/6926-revisitando-anibal-quijano-e-a-colonialidade-do-poder-na-america-latina\">http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/artigo\/6926-revisitando-anibal-quijano-e-a-colonialidade-do-poder-na-america-latina<\/a>). Tal \u00e9 o caso do desgoverno Bolsonaro e seu espelho retorcido diante do ex-dono de hot\u00e9is de luxo e apresentador de reality show.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u201ctrumpismo tropical\u201d representa o conjunto de mensagens, signos, identidades pol\u00edticas e posi\u00e7\u00f5es reacion\u00e1rias mesclando um passado conservador imagin\u00e1rio que relativiza o per\u00edodo colonial e a escravid\u00e3o. Esse conjunto de horrores ganhou for\u00e7a com a elei\u00e7\u00e3o de Trump em 2016, n\u00e3o por acaso o mesmo ano em que o governo de centro de Dilma Rousseff sofreu um golpe de Estado apelidado de impeachment. Na sua condi\u00e7\u00e3o subalterna, Bolsonaro apostou que uma rela\u00e7\u00e3o \u201cprivilegiada\u201d com o representante da extrema direita estadunidense poderia fornecer alguns ganhos na diplomacia e nas rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas. Nada disso aconteceu.<\/p>\n\n\n\n<p>Os descalabros da chancelaria brasileira ser\u00e3o abordados em outro artigo. J\u00e1 as supostas vantagens comparativas entre Estados Unidos e Brasil nunca existiram, concluindo o governo de Trump com o an\u00fancio de que a transnacional e montadora estadunidense Ford Motor vai simplesmente encerrar suas atividades no Brasil (<a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/economia\/noticia\/2021\/01\/11\/ford-fecha-fabricas-e-encerra-producao-no-brasil-em-2021.ghtml\">https:\/\/g1.globo.com\/economia\/noticia\/2021\/01\/11\/ford-fecha-fabricas-e-encerra-producao-no-brasil-em-2021.ghtml<\/a>). A desastrosa administra\u00e7\u00e3o de Bolsonaro e Paulo Guedes nada fez e tampouco nada faz para defender o emprego industrial no pa\u00eds, culminando com a sa\u00edda de uma empresa que est\u00e1 no Brasil h\u00e1 mais de cem anos (<a href=\"https:\/\/www.noticiasautomotivas.com.br\/apos-101-anos-ford-encerra-producao-no-brasil\/\">https:\/\/www.noticiasautomotivas.com.br\/apos-101-anos-ford-encerra-producao-no-brasil\/<\/a>). Se isso caracteriza uma \u201calian\u00e7a estrat\u00e9gica\u201d, como seria uma \u201calian\u00e7a t\u00e1tica\u201d com outro governo? Nenhum governo \u201camigo\u201d deveria permitir a sa\u00edda de uma f\u00e1brica vinculada ao Tesouro dos EUA, deixando em depress\u00e3o econ\u00f4mica as regi\u00f5es em que a empresa tem plantas industriais instaladas.<\/p>\n\n\n\n<p>O caso da sa\u00edda da Ford segue o padr\u00e3o desde a primeira viagem oficial do presidente Bolsonaro e toda sua trupe aos Estados Unidos. Na ocasi\u00e3o, em mar\u00e7o de 2019, dos quatro pontos considerados positivos por parte da comitiva brasileira, pragmaticamente apenas um teria algum significado concreto. Vejamos: apoio dos EUA para a entrada do Brasil na OCDE; inclus\u00e3o do Brasil como aliado extra da OTAN; vis\u00e3o positiva de parcerias para quest\u00f5es diplom\u00e1ticas e, por fim, o in\u00edcio de conversas para firmar tratados comerciais, principalmente na \u00e1rea da agricultura (<a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/app\/noticia\/politica\/2019\/03\/20\/interna_politica,744063\/um-saldo-positivo-na-viagem-de-bolsonaro-aos-estados-unidos.shtml\">https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/app\/noticia\/politica\/2019\/03\/20\/interna_politica,744063\/um-saldo-positivo-na-viagem-de-bolsonaro-aos-estados-unidos.shtml<\/a>). Tr\u00eas alinhamentos subalternos e uma promessa de pragmatismo que n\u00e3o se realizou. Ao contr\u00e1rio, jamais houve reciprocidade em termos efetivos entre o Itamaraty e o Departamento de Estado americano durante o per\u00edodo. Ou seja, al\u00e9m da prega\u00e7\u00e3o em defesa da \u201cciviliza\u00e7\u00e3o ocidental\u201d e outras fantasias reacion\u00e1rias, n\u00e3o houve avan\u00e7o algum em \u00e1rea nenhuma.<\/p>\n\n\n\n<p>O efeito final do \u201ctrumpismo nos EUA\u201d sem Trump na Casa Branca pode ser o alinhamento de uma legi\u00e3o com milh\u00f5es de manipulados em teorias conspirativas e alucina\u00e7\u00f5es semelhantes, culminando no ataque ao Capit\u00f3lio de 06 de janeiro desse ano (<a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/internacional-55568031\">https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/internacional-55568031<\/a>). No Brasil, o \u201ctrumpismo tropical\u201d pode recorrer a pr\u00e1ticas semelhantes em 2022. Mas, at\u00e9 l\u00e1, o protofascismo ter\u00e1 de conviver com um \u201cpatr\u00e3o diferente\u201d, lembrando-se de quem fez campanha contra sua candidatura.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Bolsonaro e o isolamento do Brasil no Sistema Internacional<\/p>\n\n\n\n<p>O governo da extrema direita brasileira pode ficar isolado diante do reposicionamento do Imp\u00e9rio sob a administra\u00e7\u00e3o Biden. Parece inevit\u00e1vel algum n\u00edvel de tens\u00e3o nos temas de meio ambiente, na retomada dos Acordos de Paris e em iniciativas multilaterais na preven\u00e7\u00e3o do c\u00e2mbio clim\u00e1tico. Na defesa da soberania brasileira na Amaz\u00f4nia Legal \u00e9 poss\u00edvel novo embate, j\u00e1 que os EUA podem ter no governo Bolsonaro, o \u201cvil\u00e3o perfeito\u201d, j\u00e1 que o presidente \u00e9 aliado de Trump e defensor das piores pr\u00e1ticas ambientais da hist\u00f3ria do Continente.<\/p>\n\n\n\n<p>Retomando o in\u00edcio do artigo, a diferen\u00e7a entre Benjamin Netanyahu e Jair Bolsonaro \u00e9 o peso relativo de cada um dos pa\u00edses. Israel se comporta com a mesma arrog\u00e2ncia da \u00c1frica do Sul durante as d\u00e9cadas de 1970 e 1980 no conflito ampliado da \u00c1frica Austral. J\u00e1 o Brasil, sob a tenebrosa administra\u00e7\u00e3o da extrema direita aliada a especuladores e militares entreguistas, \u00e9 como um gigante que tem medo e vergonha do pr\u00f3prio tamanho. Ao inv\u00e9s de exercer seu peso geopol\u00edtico e liderar o Continente voltando-se \u00e0s rela\u00e7\u00f5es Sul-Sul, se contenta em ser subordinado \u00e0s agendas do Imp\u00e9rio, com o agravante de internalizar a agenda pol\u00edtica dom\u00e9stica para fins de manobra e manipula\u00e7\u00e3o de amplas bases eleitorais.<\/p>\n\n\n\n<p>A tend\u00eancia \u00e9 o Brasil se tornar, de fato, um pa\u00eds n\u00e3o respeitado no Sistema Internacional no per\u00edodo que resta do desgoverno Bolsonaro.<\/p>\n\n\n\n<p>Este artigo originalmente publicado no Monitor do Oriente M\u00e9dio&nbsp; (www.monitordooriente.com)<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bruno Beaklini (@estanalise) \u2013 artigo originalmente publicado no Monitor do Oriente M\u00e9dio&nbsp; (www.monitordooriente.com) Dois l\u00edderes de pa\u00edses membros da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) seguiram fielmente os passos do derrotado presidente Donald Trump. 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