{"id":2710,"date":"2021-03-13T20:52:25","date_gmt":"2021-03-13T23:52:25","guid":{"rendered":"https:\/\/estrategiaeanaliseblog.com\/?p=2710"},"modified":"2021-03-13T20:52:25","modified_gmt":"2021-03-13T23:52:25","slug":"o-petroleo-privatizado-e-exposto-aos-precos-especulativos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=2710","title":{"rendered":"O petr\u00f3leo privatizado e exposto aos pre\u00e7os especulativos"},"content":{"rendered":"\n<p>Bruno Beaklini &#8211; mar\u00e7o 2021 \u2013 artigo originalmente publicado na Revista Manuten\u00e7\u00e3o (<a href=\"https:\/\/www.revistamanutencao.com.br\/\">https:\/\/www.revistamanutencao.com.br\/<\/a>)<\/p>\n\n\n\n<p>Um pa\u00eds soberano passa pela autonomia energ\u00e9tica, combinando matrizes f\u00f3sseis e renov\u00e1veis (como \u00e9 o caso do Sistema Eletrobr\u00e1s, que o governo tamb\u00e9m quer vender). Pa\u00edses que t\u00eam problemas nesse quesito entram automaticamente no problema estrat\u00e9gico da seguran\u00e7a energ\u00e9tica. Assim, de toda e qualquer maneira um Estado sem acesso a fontes abundantes para ao menos abastecer sua demanda interna (de consumo, residencial, institucional, na infraestrutura e industrial) precisa impor termos de troca, em que jamais fique ref\u00e9m de abastecimento de energia. No caso do petr\u00f3leo e derivados, quem tem ocupa posi\u00e7\u00e3o de maior independ\u00eancia no Sistema Internacional e pode ou desenvolver uma grande ind\u00fastria de extra\u00e7\u00e3o de \u00f3leo cru, ou fazer uma escolha pela autossufici\u00eancia em todas as etapas desta cadeia de valor e produ\u00e7\u00e3o. O Brasil seria autossuficiente em todos os n\u00edveis, caso n\u00e3o sofr\u00eassemos uma gest\u00e3o entreguista na Petrobr\u00e1s, iniciada, n\u00e3o por coincid\u00eancia, ap\u00f3s o golpe jur\u00eddico-parlamentar com \u201capelido de impeachment\u201d, em abril de 2016.<\/p>\n\n\n\n<p>Impressiona tamb\u00e9m como a hist\u00f3ria se repete. Em 17 de mar\u00e7o de 1951, a empresa que operava como \u201cjoint venture\u201d da British Petroleum (BP), a Anglo Persian Oil Company (APOC) foi nacionalizada pelo parlamento iraniano. O regime, \u00e0 \u00e9poca, era de monarquia parlamentarista, e a ascens\u00e3o da Frente Nacional e suas bandeiras de reformas e melhores condi\u00e7\u00f5es de vida conseguiu criar, no Ir\u00e3, uma maioria contra a explora\u00e7\u00e3o da ent\u00e3o principal riqueza do pa\u00eds, apenas pelos ingleses. As instala\u00e7\u00f5es da APOC, em especial a emblem\u00e1tica Refinaria de Abadan (ainda hoje a principal do pa\u00eds, ver <a href=\"https:\/\/abadan-ref.ir\/en\/about-us\">https:\/\/abadan-ref.ir\/en\/about-us<\/a>), operavam como \u201cum Estado dentro do Estado\u201d. Ap\u00f3s a nacionaliza\u00e7\u00e3o, em 1952, a m\u00e3o de obra estrangeira e os executivos brit\u00e2nicos deixaram o pa\u00eds. Toda a produ\u00e7\u00e3o foi nacionalizada e a categoria petroleira iraniana assumiu a infraestrutura instalada e toda a cadeia de valor do petr\u00f3leo, tanto dom\u00e9stica como externa.<\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria repetida \u00e9 \u201csimples\u201d. O ent\u00e3o 35\u00ba Primeiro Ministro do Ir\u00e3, Mohammad Mosaddegh, foi derrubado por um golpe militar articulado pela intelig\u00eancia dos EUA (CIA) e do Reino Unido (MI6). A \u201cmudan\u00e7a de regime\u201d se deu em agosto de 1953. O Ir\u00e3 deixou de ser uma monarquia parlamentarista para tornar-se um reino absolutista. Al\u00e9m da repress\u00e3o interna e um sistema de privil\u00e9gios no acesso \u00e0s riquezas do pa\u00eds, a APOC ganhou entrada de capital da Golf (depois fundida na Standard Oil), Total, Shell e a pr\u00f3pria BP. A produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo foi elevada e passou a ter seus pre\u00e7os balizados pelo Cons\u00f3rcio Internacional de Petr\u00f3leo. Desse modo, a cadeia de produ\u00e7\u00e3o petrol\u00edfera iraniana ficou mais barata para exporta\u00e7\u00e3o e cara, muito cara, para o mercado interno e para o abastecimento nacional. Tal fato s\u00f3 mudou com a revolu\u00e7\u00e3o popular de 1979.<\/p>\n\n\n\n<p>Com matizes, esse padr\u00e3o se repete por todo o s\u00e9culo XX e, at\u00e9 o presente momento, tamb\u00e9m no s\u00e9culo XXI.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tudo est\u00e1 em jogo na Petrobr\u00e1s<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O Brasil sofre ataque especulativo todo dia, em todos os n\u00edveis. Essa mentalidade dos grandes \u201ctraders\u201d internacionais adentrou o Conselho de Administra\u00e7\u00e3o da Petrobr\u00e1s e, em parte, de sua cadeia de comando. A categoria petroleira, atrav\u00e9s de suas entidades sindicais e da engenharia da Petrobr\u00e1s (<a href=\"http:\/\/www.aepet.org.br\/w3\/index.php\/2017-03-29-20-29-03\/cartas-da-aepet\/item\/5876-nota-sobre-a-demissao-de-roberto-castello-branco-da-presidencia-da-petrobras\">http:\/\/www.aepet.org.br\/w3\/index.php\/2017-03-29-20-29-03\/cartas-da-aepet\/item\/5876-nota-sobre-a-demissao-de-roberto-castello-branco-da-presidencia-da-petrobras<\/a>) explica, em detalhes, os porqu\u00eas da demiss\u00e3o do presidente Roberto Castello Branco e a composi\u00e7\u00e3o da alta hierarquia da empresa. Na gest\u00e3o do demitido presidente est\u00e3o tr\u00eas representantes dos &#8220;acionistas minorit\u00e1rios&#8221;, incluindo um &#8220;gestor de fundos&#8221;. Embora seja uma empresa de economia mista e com a maior parte dos votos vinda do Poder Executivo, a cada gesto de soberania ou mesmo de recurso demag\u00f3gico, os grupos de m\u00eddia operam como porta-vozes da especula\u00e7\u00e3o financeira que fatura em cima dos contratos futuros e das opera\u00e7\u00f5es em bolsa. Simples assim.<\/p>\n\n\n\n<p>A composi\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os para o mercado interno \u00e9 uma das metas-chave da tomada de poder na empresa e tamb\u00e9m est\u00e1 no cerne do entreguismo de nossa sociedade. Combust\u00edvel caro n\u00e3o gera popularidade e menos ainda voto. O presidente Jair Bolsonaro, de forma demag\u00f3gica e atabalhoada (como sempre), \u201cinterveio\u201d na companhia, destituindo Castello Branco e emplacando o general (sempre um militar de alta patente; s\u00f3 n\u00e3o sei se defensor da economia nacional) Joaquim Silva e Luna, diretor-geral da parte brasileira na Itaipu Binacional. Se n\u00e3o alterar o desmonte da Petrobr\u00e1s e o custo para o pa\u00eds rodar com derivados de petr\u00f3leo, pouco importa quem ser\u00e1 o novo presidente. Ainda assim, a \u201cgritaria dos mercadores\u201d foi e segue sendo enorme, a come\u00e7ar pela reclama\u00e7\u00e3o dos porta-vozes e da parasitagem financeira pela debandada dos quatro conselheiros.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo O Globo, a \u201cPetrobras perdeu quatro membros do seu Conselho de Administra\u00e7\u00e3o. Jo\u00e3o Cox Neto, Nivio Ziviani, Paulo Cesar de Souza e Silva e Omar Carneiro da Cunha pediram para deixar os postos de conselheiros da estatal. Os quatros s\u00e3o indicados pelo governo, o acionista controlador da estatal\u201d (<a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/economia\/quatro-membros-do-conselho-da-petrobras-indicados-pelo-governo-deixam-os-cargos-24906665\">https:\/\/oglobo.globo.com\/economia\/quatro-membros-do-conselho-da-petrobras-indicados-pelo-governo-deixam-os-cargos-24906665<\/a>). N\u00e3o por acaso, Omar \u00e9 ex-presidente da Shell e afirmou para a Comiss\u00e3o de Valores Mobili\u00e1rios (CVM) o seguinte: \u201cem virtude dos recentes acontecimentos relacionados&nbsp; \u00e0s&nbsp; altera\u00e7\u00f5es&nbsp; na&nbsp; alta administra\u00e7\u00e3o&nbsp; da&nbsp; Petrobras,&nbsp; e&nbsp; os&nbsp; posicionamentos&nbsp; externados&nbsp; pelo&nbsp; representante&nbsp; maior&nbsp; do&nbsp; acionista controlador da mesma, n\u00e3o me sinto na posi\u00e7\u00e3o de aceitar a recondu\u00e7\u00e3o de meu nome como Conselheiro desta&nbsp; renomada&nbsp; empresa,&nbsp; na&nbsp; qual&nbsp; tive&nbsp; o&nbsp; privil\u00e9gio&nbsp; de&nbsp; servir&nbsp; nos&nbsp; \u00faltimos&nbsp; sete&nbsp; meses&#8221; (mesmo link anterior). O libelo contra a economia nacional e, por tabela, contra toda atividade produtiva no pa\u00eds, vai al\u00e9m. O mesmo entreguista afirma que: \u201cse manteve aderente \u00e0s estrat\u00e9gias devidamente aprovadas, e seguindo os mais altos n\u00edveis de&nbsp; governan\u00e7a e de conformidade &nbsp;com&nbsp; os estatutos da empresa, e aos mais altos padr\u00f5es de gest\u00e3o empresarial&#8221;. Por essa \u201cl\u00f3gica\u201d n\u00e3o haveria nem a Organiza\u00e7\u00e3o dos Pa\u00edses Produtores de Petr\u00f3leo (OPEP) e, menos ainda, autossufici\u00eancia energ\u00e9tica em lugar algum. Todo o planeta ainda seria ref\u00e9m das chamadas Sete Irm\u00e3s, os maiores conglomerados de petr\u00f3leo que criaram um oligop\u00f3lio dominante por meio s\u00e9culo!<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre a composi\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os para o mercado interno, a mentira \u00e9 sistem\u00e1tica. Os grupos de m\u00eddia afirmam que dependemos dos pre\u00e7os internacionais e sempre colocam gr\u00e1ficos ou indicadores cuja fonte \u00e9 WTI\/EUA (<a href=\"https:\/\/br.investing.com\/commodities\/crude-oil\">https:\/\/br.investing.com\/commodities\/crude-oil<\/a>), contratos futuros ou \u00edndice do Brent. O WTI \u00e9 o West Texas Intermediate e incide sobre as cota\u00e7\u00f5es operadas na Bolsa de Nova York, a partir dos \u00edndices de produ\u00e7\u00e3o do Golfo do M\u00e9xico (a regi\u00e3o que os gringos insistem em chamar de Golfo do Texas) e a possibilidade de venda futura. O Brent (<a href=\"https:\/\/www.ifcmarkets.com.br\/market-data\/commodities-prices\/brent\">https:\/\/www.ifcmarkets.com.br\/market-data\/commodities-prices\/brent<\/a>) \u00e9 uma cota\u00e7\u00e3o que tem origem no Mar do Norte, em prov\u00edncias petrol\u00edferas onde havia maior incid\u00eancia da BP e da Shell. Majoritariamente, o Brent \u00e9 negociado na Bolsa de Londres.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses pre\u00e7os n\u00e3o s\u00e3o em cima de custos de produ\u00e7\u00e3o, nem nada diretamente relacionado \u00e0s opera\u00e7\u00f5es produtivas complexas dessa ind\u00fastria. Ou seja, s\u00e3o pre\u00e7os estimados a partir da especula\u00e7\u00e3o do momento. Tem mais. \u00c9 fato: o Brasil n\u00e3o refina todo o volume de derivados de petr\u00f3leo que consome. Mas nenhum ve\u00edculo de comunica\u00e7\u00e3o lembra que a dire\u00e7\u00e3o entreguista deixa refinarias paradas e ainda vende por pre\u00e7o abaixo do valor, tanto instala\u00e7\u00f5es de refino, como importantes subsidi\u00e1rias, como empresas de g\u00e1s natural e distribuidoras. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para piorar, como quem est\u00e1 \u201ccomprando\u201d as refinarias a pre\u00e7o de banana n\u00e3o tem obriga\u00e7\u00e3o de contrato para reinvestimento, simplesmente pode deixar parada a instala\u00e7\u00e3o, comprar petr\u00f3leo a baix\u00edssimo custo da Pen\u00ednsula Ar\u00e1bica e colocar os pre\u00e7os absurdos que os \u201cacionistas minorit\u00e1rios\u201d exigem. O pre\u00e7o pago pela refinaria privatizada \u00e9 coberto com 100 dias de faturamento bruto. Trata-se, simplesmente, do ABC do Entreguismo no Brasil do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u00c9 preciso retomar o controle da economia brasileira<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nenhum pa\u00eds \u00e9 soberano se n\u00e3o controla seus ativos estrat\u00e9gicos. Caso seja produtor de petr\u00f3leo precisa, necessariamente, operar com pre\u00e7os protegidos para o \u201cmercado interno\u201d, ainda mais considerando o fato de sermos absurdamente dependentes do modal rodovi\u00e1rio. Dependemos do diesel para transporte de carga e passageiros, g\u00e1s de cozinha para consumo dom\u00e9stico e de gasolina para ve\u00edculos de passeio. N\u00e3o h\u00e1 como esperar nada do atual governo e nem daqueles que operaram o entreguismo com a infla\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os administrados iniciada em 2015, bem como a crise pol\u00edtica advinda com o falso moralismo da Lava Jato e a absoluta subordina\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, a partir do governo ileg\u00edtimo de Temer.<\/p>\n\n\n\n<p>Mudar essa correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as vai muito al\u00e9m da urna e precisa passar pela tomada de consci\u00eancia e organiza\u00e7\u00e3o de quem est\u00e1 na ponta, incluindo o setor de servi\u00e7os precarizado com o mundo do trabalho \u201cuberizado\u201d. \u00c9 uma longa jornada, cujo passo primordial \u00e9 defender as empresas p\u00fablicas do pa\u00eds como fator de soberania nacional.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Artigo originalmente publicado na Revista Manuten\u00e7\u00e3o (<a href=\"https:\/\/www.revistamanutencao.com.br\/\">https:\/\/www.revistamanutencao.com.br\/<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bruno Beaklini &#8211; mar\u00e7o 2021 \u2013 artigo originalmente publicado na Revista Manuten\u00e7\u00e3o (https:\/\/www.revistamanutencao.com.br\/) Um pa\u00eds soberano passa pela autonomia energ\u00e9tica, combinando matrizes f\u00f3sseis e renov\u00e1veis (como \u00e9 o caso do Sistema Eletrobr\u00e1s, que o governo tamb\u00e9m quer vender). 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