{"id":2735,"date":"2021-04-12T20:22:54","date_gmt":"2021-04-12T23:22:54","guid":{"rendered":"https:\/\/estrategiaeanaliseblog.com\/?p=2735"},"modified":"2021-04-12T20:22:54","modified_gmt":"2021-04-12T23:22:54","slug":"o-pais-sem-coordenacao-estrategica-a-sina-do-bananistao-agravada-na-pandemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=2735","title":{"rendered":"O pa\u00eds sem coordena\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica: a sina do Bananist\u00e3o agravada na pandemia"},"content":{"rendered":"\n<p>Abril 2021, <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/blimarocha\/\">Bruno Beaklini<\/a> (@estanalise) \u2013 artigo originalmente publicado na Revista Manuten\u00e7\u00e3o (<a href=\"https:\/\/www.revistamanutencao.com.br\/\">https:\/\/www.revistamanutencao.com.br\/<\/a>)<\/p>\n\n\n\n<p>Fica praticamente imposs\u00edvel viver a vida cotidiana sem o m\u00ednimo de previsibilidade. Quanto mais complexa \u00e9 a sociedade e abastado o padr\u00e3o de consumo, mais itens entram na forma\u00e7\u00e3o desta previs\u00e3o. Diante da escassez, se inverte a l\u00f3gica, sendo que a maior condi\u00e7\u00e3o imprevis\u00edvel \u00e9 quando as mais b\u00e1sicas condi\u00e7\u00f5es mat\u00e9rias de vida sequer s\u00e3o garantidas. O Brasil da pandemia, e antes, desde o in\u00edcio do segundo governo Dilma Rousseff &#8211; quando a reeleita presidenta coloca um Chicago Boy na Fazenda, o impag\u00e1vel Joaquim Levy \u2013 vive sob uma imprevisibilidade cada vez maior.<\/p>\n\n\n\n<p>A desinforma\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica dos neoliberais vende a f\u00f3rmula m\u00e1gica de \u201coferta e procura\u201d como aplic\u00e1vel em todos os \u201cmercados\u201d. Nada pode ser mais farsesco. Um, porque nem tudo \u00e9 \u201cmercado\u201d. Dois, porque no capitalismo, a classe de mercado por excel\u00eancia \u00e9 o oligop\u00f3lio. Cada vez mais precisamos de capacita\u00e7\u00e3o tecno-cient\u00edfica para desenvolver ind\u00fastria de base, de bens de produ\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m para controlar cadeias de alto valor agregado. A \u201cl\u00f3gica\u201d \u00e9 complexidade e especializa\u00e7\u00e3o, logo, acaba formando ainda maior concentra\u00e7\u00e3o, ou seja, oligop\u00f3lio. Neste sentido, cada ind\u00fastria conta, sendo mais ou menos complexa. E toda planta industrial que fecha, implicam em perda de empregos diretos e indiretos, cadeias de fornecedores e todo um tecido social-produtivo que cai na \u201cimprevisibilidade\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Um exemplo da aus\u00eancia de ind\u00fastria de base \u00e9 a car\u00eancia brasileira na produ\u00e7\u00e3o dos IFAs &#8211; os ingredientes farmac\u00eauticos ativos \u2013 os principais insumos da ind\u00fastria farmac\u00eautica. J\u00e1 fomos quase autossuficientes no setor, mas a combina\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00e3o de insumos para formar pre\u00e7os mais baratos com os gen\u00e9ricos e a subsequente desindustrializa\u00e7\u00e3o deste ramo, fez o Brasil ficar novamente dependente. Com o avan\u00e7o da pandemia e a necessidade de vacina\u00e7\u00e3o em massa, dois grandes produtores, como \u00cdndia (um bilh\u00e3o e 366 milh\u00f5es de pessoas) e China (um bilh\u00e3o e 398 milh\u00f5es), sendo muito populosos, necessariamente podem vir a priorizar atender \u00e0 sua cidadania ao inv\u00e9s de fornecer para outros pa\u00edses. Se isso ocorrer, e sempre pode ocorrer, logo, n\u00e3o teremos o material necess\u00e1rio para salvar nossa popula\u00e7\u00e3o. Simples e macabro assim.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro caso \u00e9 o da imposi\u00e7\u00e3o nos termos de troca, em escala de m\u00faltiplos fatores. Refiro-me aos Estados Unidos, que compraram de forma antecipada todas as vacinas e insumos poss\u00edveis, al\u00e9m de fabricarem por conta pr\u00f3pria a vacina anti-Covid. A previs\u00e3o \u00e9 de vacinar toda a popula\u00e7\u00e3o adulta estadunidense ainda em abril de 2021. E, provavelmente, n\u00e3o vender\u00e3o \u201cseus excedentes\u201d de vacina para pa\u00edses onde n\u00e3o houve planejamento adequado, como mais uma vez \u00e9 o caso do Brasil sob o desgoverno. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O exemplo da perda no fator de troca: a sina do Bananist\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Uma sociedade socialmente justa e politicamente democr\u00e1tica precisa de certo n\u00edvel de autonomia e independ\u00eancia, ao menos nos setores fundamentais ou estrat\u00e9gicos. Ou um pa\u00eds e seu bloco de poder det\u00eam excel\u00eancia em alguns fatores de troca, ou simplesmente ser\u00e1 alvo e v\u00edtima deste pr\u00f3prio jogo. Pouco adianta exportar um navio classe New Panamax (enorme cargueiro que passa no alargado Canal do Panam\u00e1) cheio de bananas se no sistema de trocas o pa\u00eds precisa vender cinco embarca\u00e7\u00f5es bananeiras para comprar uma traineira de mariola ou doce de banana (uma escala acima na transforma\u00e7\u00e3o do produto). Pior ainda se para a produ\u00e7\u00e3o em escala de mariola ou bananada \u00e9 necess\u00e1ria uma enzima geneticamente modificada, cujos royalties de produ\u00e7\u00e3o pertencem a uma \u00fanica empresa, ou qui\u00e7\u00e1 no m\u00e1ximo cinco complexos qu\u00edmicos em escala global.<\/p>\n\n\n\n<p>Podemos alegar que no padr\u00e3o global de consumo e na disputa por efici\u00eancia e produtividade o uso de \u201cdefensivos\u201d e \u201cpesticidas\u201d qu\u00edmicos aplicados em organismos geneticamente modificados \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o sem volta. Se assim \u00e9, e o Brasil \u00e9 um pa\u00eds agroexportador, logo, precisamos pensar em escala nacional uma produ\u00e7\u00e3o de fertilizantes e derivados que n\u00e3o onerem a produ\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria. Isso n\u00e3o acontece e na m\u00e9dia, a cada cem sacas de gr\u00e3os para exporta\u00e7\u00e3o (no padr\u00e3o da soja, por exemplo), cerca de vinte s\u00e3o para pagar royalties e outros direitos de uso de tecnologia intensiva. Fa\u00e7o quest\u00e3o de afirmar aqui: o consumo interno deveria ser baseado na agricultura familiar e camponesa, com produ\u00e7\u00e3o regionalizada e a partir de produtos org\u00e2nicos e sementes nativas. Vejamos.<\/p>\n\n\n\n<p>Repito, nenhuma desgra\u00e7a que foi narrada acima seria necess\u00e1ria. Um vigoroso colch\u00e3o social pode e deve come\u00e7ar pela seguran\u00e7a alimentar e a garantia de perman\u00eancia e presen\u00e7a das fam\u00edlias camponesas como produtoras agr\u00edcolas livres de veneno e intensivos. O programa nacional de alimenta\u00e7\u00e3o escolar e as propor\u00e7\u00f5es de compras dirigidas para a agricultura familiar regionalizada, desde que se constituiu, \u00e9 um fator fundamental para garantir tanto as crian\u00e7as e jovens de origens mais humildes no Brasil, assim como a fixa\u00e7\u00e3o dos camponeses. Outro fator importante \u00e9 prevenir o avan\u00e7o da especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, pois a tend\u00eancia \u00e9 a invas\u00e3o dos territ\u00f3rios ao redor de grandes cidades ou \u00e1reas metropolitanas, transformando unidades produtivas em im\u00f3veis que carecem de infraestrutura ainda mais onerosa.<\/p>\n\n\n\n<p>Estes elementos acima citados, como: zoneamento agr\u00edcola; previs\u00e3o de abastecimento; garantia de compras na agricultura familiar e previsibilidade m\u00ednima na vida em sociedade, formam o oposto da balela neoliberal de \u201cliberdade individual\u201d como valor mais importante. Toda liberdade \u00e9 importante, mas na aus\u00eancia de condi\u00e7\u00f5es materiais de vida, a \u201cliberdade\u201d se torna a tirania da concentra\u00e7\u00e3o de renda e poder, e assim nada se sustenta, nem sequer a ind\u00fastria dos pa\u00edses emergentes, da periferia ou semiperiferia, como \u00e9 o caso brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Um pa\u00eds que n\u00e3o garante a seguran\u00e7a alimentar de seu povo, compondo, por exemplo, estoques reguladores e sistemas de abastecimento regionalizados, simplesmente n\u00e3o tem condi\u00e7\u00e3o de enfrentar nada.&nbsp; Hoje \u00e9 uma pandemia, amanh\u00e3 uma guerra, ontem foi uma opera\u00e7\u00e3o de contra-intelig\u00eancia do FBI e CIA, dentro do Brasil, conforme comprovado pelas mat\u00e9rias da Vaza Jato (The Intercept Brasil). Sem coordena\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica em todos os n\u00edveis, ou vira a lei do mais forte, da pura e simples crueldade com um verniz de legalidade, ou ent\u00e3o um desgoverno, como o de Jair Bolsonaro e seus asseclas. Pode ser a soma das duas situa\u00e7\u00f5es, como o Filme de Terror que vivemos hoje em tempo real (citando o genial S\u00e9rgio Sampaio, na composi\u00e7\u00e3o de 1973, ver <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=8l4dDW-qDxI&amp;list=PLyRt6UrE4Q4vthdsmRqJYAMHjRN1LHDih&amp;index=2\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=8l4dDW-qDxI&amp;list=PLyRt6UrE4Q4vthdsmRqJYAMHjRN1LHDih&amp;index=2<\/a>).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O jogo real do Sistema Internacional<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No jogo sujo do Sistema Internacional, quem tem produ\u00e7\u00e3o de bens fundamentais imp\u00f5e suas condi\u00e7\u00f5es ou coordena a\u00e7\u00f5es cooperadas que podem modificar o \u201cequil\u00edbrio\u201d de for\u00e7as em escala planet\u00e1ria. O papel da China hoje \u00e9 exemplo disso, pois a capacidade de atuar em todos os n\u00edveis da economia capitalista fazem do Estado confuciano um parceiro fundamental para praticamente todos os pa\u00edses.<\/p>\n\n\n\n<p>Dificilmente um pa\u00eds com representa\u00e7\u00e3o na Assembleia Geral da ONU vai ter todos os fatores necess\u00e1rios para operar com autodetermina\u00e7\u00e3o. Mas, quando essa meta permanente sequer \u00e9 anunciada, n\u00e3o ocupa a mentalidade de quem domina ou dirige fronteira para dentro, a\u00ed simplesmente n\u00e3o h\u00e1 caminho a seguir, apenas ficar cambaleando conforme os sabores dos ventos soprados por terceiros.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 \u201cleis cient\u00edficas\u201d na economia pol\u00edtica que precisam necessariamente ser respeitadas.&nbsp; Uma delas trata da coordena\u00e7\u00e3o e controle (total ou parcial) em setores estrat\u00e9gicos. Quais s\u00e3o esses setores e qual fra\u00e7\u00e3o dirigente vai coordenar \u00e9 um debate em forma de luta por poder e recursos. Mas na aus\u00eancia destas defini\u00e7\u00f5es, a estupidez, a crueldade e a imbeciliza\u00e7\u00e3o s\u00e3o formas fact\u00edveis de dom\u00ednio das maiorias, incluindo a\u00ed as cadeias produtivas que n\u00e3o podem se defender no jogo de barganhas entre politiqueiros, parasitas do sistema financeiro e estamentos em ascens\u00e3o (como os militares entreguistas associados com Bolsonaro).<\/p>\n\n\n\n<p>E por favor, n\u00e3o venham a me dizer que tenho \u201cpreconceito\u201d contra bananas. A fruta \u00e9 fant\u00e1stica, assim como todos os produtos dela derivados. A banana realmente n\u00e3o merecia estar pejorativamente associada aos entreguistas coloniais de sempre.<\/p>\n\n\n\n<p>Resumindo: n\u00e3o teria problema vender bananas, desde que a meta fosse produzir tamb\u00e9m mariola e enzimas. Ou seja, que a produ\u00e7\u00e3o agromineral exportadora sirva para retomar a ind\u00fastria e a complexidade da economia brasileira, e n\u00e3o aumentar a sina colonial da plantation ou da minera\u00e7\u00e3o. Uma situa\u00e7\u00e3o ideal \u00e9 combinar a seguran\u00e7a alimentar com cadeias de alto valor agregado. Poucos pa\u00edses no mundo t\u00eam plenas condi\u00e7\u00f5es dessa realiza\u00e7\u00e3o. O Brasil \u00e9 um destes, mas precisa quebrar a espinha do colonialismo interno para alcan\u00e7ar tal possibilidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Artigo originalmente publicado na Revista Manuten\u00e7\u00e3o (<a href=\"https:\/\/www.revistamanutencao.com.br\/\">https:\/\/www.revistamanutencao.com.br\/<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Abril 2021, Bruno Beaklini (@estanalise) \u2013 artigo originalmente publicado na Revista Manuten\u00e7\u00e3o (https:\/\/www.revistamanutencao.com.br\/) Fica praticamente imposs\u00edvel viver a vida cotidiana sem o m\u00ednimo de previsibilidade. Quanto mais complexa \u00e9 a sociedade e abastado o padr\u00e3o de consumo, mais itens entram na forma\u00e7\u00e3o desta previs\u00e3o. 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