{"id":2806,"date":"2021-07-15T11:07:07","date_gmt":"2021-07-15T14:07:07","guid":{"rendered":"https:\/\/estrategiaeanaliseblog.com\/?p=2806"},"modified":"2021-07-15T11:07:07","modified_gmt":"2021-07-15T14:07:07","slug":"fundamentos-do-regime-de-acumulacao-financeira-um-debate-classico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=2806","title":{"rendered":"Fundamentos do regime de acumula\u00e7\u00e3o financeira \u2013 um debate cl\u00e1ssico"},"content":{"rendered":"\n<p><em><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/blimarocha\/\">Bruno Lima Rocha<\/a><\/em> &#8211; artigo originalmente publicado na Revista Manuten\u00e7\u00e3o (www.revistamanutencao.com.br) <\/p>\n\n\n\n<p>No texto que segue, retomamos um debate da cl\u00e1ssica da cr\u00edtica da economia pol\u00edtica e economia pol\u00edtica internacional contempor\u00e2nea, estabelecendo um di\u00e1logo frut\u00edfero com refer\u00eancias vivas como Maria da Concei\u00e7\u00e3o Tavares, Alain Chesnais e Barry Eichengreen. \u00c9 preciso compreender os mecanismos que d\u00e3o suporte ao regime de acumula\u00e7\u00e3o financeira e as condi\u00e7\u00f5es de hegemonia dos EUA, a partir dos \u00faltimos dez anos da Guerra Fria e na d\u00e9cada seguinte. O debate que tento promover n\u00e3o se encerra aqui,longe disso, tratando-se de um aporte, breve mas consistente.<\/p>\n\n\n\n<p>Se h\u00e1 um fator que vai ao encontro da participa\u00e7\u00e3o de Transnacionais na economia mundial \u00e9 o regime de acumula\u00e7\u00e3o financeira. Desde a d\u00e9cada de \u201980, com a forma absoluta do novo arranjo dos EUA para retomar e assegurar a hegemonia mundial, como nos explica Tavares (1985), \u00e9 a mudan\u00e7a for\u00e7osa do n\u00facleo mais din\u00e2mico do capitalismo. Ao abrir m\u00e3o de parte importante de seu parque industrial e tornar a hegemonia do d\u00f3lar o privil\u00e9gio exorbitante na economia mundo, os dois governos de Reagan (1981-1988) e o primeiro de Bush pai (1989-1992), dinamizaram o capitalismo estadunidense tomando por base a expans\u00e3o de sua pr\u00f3pria d\u00edvida p\u00fablica, o investimento desses recursos na corrida armamentista com \u00eanfase na vantagem estrat\u00e9gica das tecnologias de informa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o e liberalizando os mercados financeiros.<\/p>\n\n\n\n<p>Eichengreen (2011, p.3) explica a assimetria do emprego do d\u00f3lar estadunidense como moeda internacional na maneira que os demais pa\u00edses oferecem aos EUA para adquirir sua moeda soberana. Por exemplo, na produ\u00e7\u00e3o da moeda impressa, sonante, a casa da moeda da Superpot\u00eancia gasta centavos de d\u00f3lar para a produ\u00e7\u00e3o de uma nota US$100. Mas, ressalta Eichengreen: \u201c<em>outros pa\u00edses precisam fornecer US$100 em bens e\/ou servi\u00e7os para obter a mesma nota de US$100<\/em>\u201d (2011, p.3). Essa diferen\u00e7a traz o conceito de \u201c<em>senhoriagem<\/em>\u201d, da tradi\u00e7\u00e3o medieval, onde o senhor feudal, e na sequ\u00eancia o Estado soberano que cunha a moeda teria o direito de reter parte do metal precioso usado na cunhagem (Eichengreen, 2011, p.4). Essa condi\u00e7\u00e3o de deter a senhoriagem sobre a moeda mundial proporciona o chamado \u201cprivil\u00e9gio exorbitante\u201d, garantindo aos Estados Unidos uma produ\u00e7\u00e3o permanente de excedentes de poder, incluindo a capacidade de emprego de \u201carmas financeiras\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Tavares demonstra que a economia mundial correu para o d\u00f3lar ap\u00f3s a eleva\u00e7\u00e3o da taxa de juros no in\u00edcio do governo Reagan, e tamb\u00e9m o fez pelo fato dos EUA se tornarem um destino de exporta\u00e7\u00f5es de manufatura, diminuindo progressivamente o papel de sua pr\u00f3pria ind\u00fastria na economia implantada em seu territ\u00f3rio. Conforme nos explica Tavares (1985, p.6)&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>Com efeito, al\u00e9m do movimento de restaura\u00e7\u00e3o do prest\u00edgio pol\u00edtico e ideol\u00f3gico, Reagan resolveu fazer uma coisa nunca vista, a saber uma pol\u00edtica Keynesiana bastarda, de cabe\u00e7a para baixo, combinada com uma pol\u00edtica monet\u00e1ria dura. Redistribuir a renda a favor dos mais ricos, aumentar o d\u00e9ficit fiscal e subir a taxa de juros \u00e9 uma combina\u00e7\u00e3o de pol\u00edtica econ\u00f4mica explosiva, tanto do ponto de vista interno como internacional. No entanto, esta pol\u00edtica contradit\u00f3ria teve como resultado a recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica americana, na medida em que os EUA conseguiram submeter os seus parceiros a desafiar militar e economicamente os seus advers\u00e1rios.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A assimetria se nota o emprego difuso e permanente das redes telem\u00e1ticas que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, realizam suas transa\u00e7\u00f5es em d\u00f3lar. Eichengreen (2011, p.3) explica como esse uso traz benef\u00edcios bancos e empresas estadunidenses. \u201c<em>Uma empresa alem\u00e3 que exporte m\u00e1quinas para a China e receba o pagamento em d\u00f3lar incorre no custo adicional de converter os d\u00f3lares em euros<\/em>\u201d. O exemplo vai mais al\u00e9m, quando o autor traz o exemplo de \u201c<em>um banco su\u00ed\u00e7o que aceite dep\u00f3sitos em francos, mas conceda empr\u00e9stimos externos em d\u00f3lares [&#8230;] preocupa-se com o risco da taxa de c\u00e2mbio. \u00c9 poss\u00edvel gerenciar o risco-cambial, mas essa produ\u00e7\u00e3o envolve custos adicionais<\/em>\u201d. Logo, as despesas com prote\u00e7\u00e3o (hedge) em moeda \u201cestrangeira\u201d n\u00e3o s\u00e3o uma necessidade de institui\u00e7\u00f5es financeiras dos EUA, mas uma obriga\u00e7\u00e3o de todos os demais pa\u00edses do mundo, porque o risco cambial n\u00e3o \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o do mercado financeiro estadunidense.<\/p>\n\n\n\n<p>O d\u00f3lar \u00e9 a moeda da globaliza\u00e7\u00e3o capitalista, ou mundializa\u00e7\u00e3o, seguindo a defini\u00e7\u00e3o franc\u00f3fona a qual dou prefer\u00eancia neste trabalho. Com dados acumulados da primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo XXI, Eichengreen (2011, p.2) demonstra a consolida\u00e7\u00e3o dessa hegemonia em volumes transacionais que utilizam o d\u00f3lar, tais como:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Coreia do Sul e Tail\u00e2ndia definem em d\u00f3lar mais de 80% de seu com\u00e9rcio, embora apenas 20% de suas exporta\u00e7\u00f5es se destinem a compradores americanos. Nada menos que 70% das exporta\u00e7\u00f5es da Austr\u00e1lia s\u00e3o faturadas em d\u00f3lar, conquanto menos de 6% se destinem aos EUA. As principais bolsas de commodities cotam os pre\u00e7os em d\u00f3lar. O d\u00f3lar \u00e9 usado em 85% de todas as transa\u00e7\u00f5es internacionais em todo o mundo. A moeda estadunidense responde por quase a metade do estoque global de t\u00edtulos de divida internacionais. \u00c9 a moeda que bancos centrais de todo o mundo mant\u00eam 60% de suas reservas em divisas internacionais.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A consolida\u00e7\u00e3o dessa hegemonia garantidora de privil\u00e9gio exorbitante, segundo Chesnais (2001, p.11) o movimento de autonomiza\u00e7\u00e3o da moeda estadunidense, chegando ao momento da d\u00e9cada seguinte das vit\u00f3rias pol\u00edticas da revolu\u00e7\u00e3o conservadora, foi antecedido pelo \u201c<em>balan\u00e7o e totalmente negativo do \u2018socialismo real\u2019<\/em>\u201d. De acordo com esse autor, a Nomenklatura de origem sovi\u00e9tica e seus pares subalternos no Leste Europeu teriam cavado o leito da restaura\u00e7\u00e3o neoliberal ao servir como freio para os movimentos de avan\u00e7os da democracia e de conte\u00fado anticapitalista presentes tanto na Europa Ocidental, como nos pa\u00edses sat\u00e9lites da URSS, como tamb\u00e9m no pr\u00f3prio territ\u00f3rio dos EUA. A revolu\u00e7\u00e3o conservadora de Thatcher e Reagan \u2013 e depois mundializada &#8211; foi antecedida do \u201c<em>desastre no qual a gest\u00e3o burocr\u00e1tica da economia, o terror staliniano e a repress\u00e3o generalizada do longo per\u00edodo brejneviano conduziram os pa\u00edses do Leste e, em particular, todos os povos da ex-Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica<\/em>\u201d.&nbsp; (Chesnais, 2001, p.12).<\/p>\n\n\n\n<p>As crises na periferia do sistema (como na d\u00e9cada de \u201980 do s\u00e9culo XX, a quebra da economia polonesa em 1980\/81 e a morat\u00f3ria do M\u00e9xico em 1982) levam \u00e0 sa\u00edda de aplica\u00e7\u00f5es dos capitais vol\u00e1teis, eleva\u00e7\u00e3o das an\u00e1lises de risco de pa\u00edses subalternos e a busca permanente ao d\u00f3lar como aplica\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a. Segundo Tavares (1985, p.7)<\/p>\n\n\n\n<p><em>A partir da\u00ed o movimento de cr\u00e9dito interbanc\u00e1rio se orientou decisivamente para os EUA e o sistema banc\u00e1rio passou a ficar sob o controle do FED. E n\u00e3o apenas sob o controle da pol\u00edtica monet\u00e1ria, que dita as regras do jogo, as flutua\u00e7\u00f5es da taxa de juros e do c\u00e2mbio, mas tamb\u00e9m a servi\u00e7o da pol\u00edtica fiscal americana. A partir do in\u00edcio dos anos 80, todos os grandes bancos internacionais est\u00e3o em Nova York, n\u00e3o apenas sob a umbrella do FED, mas tamb\u00e9m financiando obrigatoriamente \u2013 porque n\u00e3o h\u00e1 outra alternativa \u2013 o d\u00e9ficit fiscal americano.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Chesnais (2001, p. 10) nos apresenta a din\u00e2mica da autonomiza\u00e7\u00e3o da moeda desregulada, tendo in\u00edcio no ano de 1979 com a vit\u00f3ria de Thatcher na Inglaterra, seguida do triunfo eleitoral de Reagan em 1981, materializando o eixo da alian\u00e7a que deu base para a revolu\u00e7\u00e3o conservadora, alastrada essa na Europa&nbsp; e no Jap\u00e3o. Gra\u00e7as a medidas cujo ponto de partida remonta \u00e0 autonomia do d\u00f3lar deixando os arranjos de Bretton Woods, o acionar de Paul Volcker abandonando os acordos do FMI e o duro ajuste interno promovido pelos EUA para garantir uma Nova Ordem Mundial com sua hegemonia reeditada e com refor\u00e7o.&nbsp; \u201c<em>Por outro lado, ao manter uma pol\u00edtica monet\u00e1ria dura e for\u00e7ar uma supervaloriza\u00e7\u00e3o do d\u00f3lar, o FED retomou na pr\u00e1tica o controle do sistema privado internacional e articulou em seu proveito os interesses do rebanho disperso<\/em>\u201d (TAVARES, 1985, p.7).<\/p>\n\n\n\n<p>Foi nesse contexto de luta pol\u00edtica, de controle dos Estados-chave no Sistema Internacional que \u201c<em>o capital conseguiu fazer soltar a maioria dos freios e anteparos que comprimiram e canalizaram sua atividade nos pa\u00edses industrializados. O lugar decisivo ocupado pela moeda no modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista deu \u00e0 liberaliza\u00e7\u00e3o e \u00e0 desregulamenta\u00e7\u00e3o um car\u00e1ter e conseq\u00fc\u00eancias estrat\u00e9gicas<\/em>\u201d (CHESNAIS, 2001, p.9).<\/p>\n\n\n\n<p>Pela mesma interpreta\u00e7\u00e3o l\u00f3gica, o inverso pode ser verdadeiro, tanto com o novo eixo da hegemonia no Sistema Internacional no rumo da \u00c1sia centralizado pela China e com piv\u00f4s geopol\u00edticos e mesmo geoestrat\u00e9gicos importantes (como Ir\u00e3), pot\u00eancias eurasi\u00e1ticas (R\u00fassia) ou asi\u00e1ticas (\u00cdndia). Igualmente, as margens ilimitadas do capital podem ser contidas pela press\u00e3o das sociedades organizadas e a necess\u00e1ria defesa do emprego vivo e trabalho formal, al\u00e9m de pol\u00edticas p\u00fablicas como forma efetiva de distribui\u00e7\u00e3o de renda contrabalan\u00e7ando o conflito distributivo.<\/p>\n\n\n\n<p> <\/p>\n\n\n\n<p>Refer\u00eancias<\/p>\n\n\n\n<p>CHESNAIS, Fran\u00e7ois. <strong>Mundializa\u00e7\u00e3o: o capital financeiro no comando<\/strong>. In Revista Outubro, N\u00famero 05 \u2013 edi\u00e7\u00e3o de fevereiro de 2001. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/outubrorevista.com.br\/mundializacao-o-capital-financeiro-no-comando\/&gt;. Acesso em: 15 jun. 2020.<\/p>\n\n\n\n<p>EICHENGREEN, Barry. <strong>Privil\u00e9gio Exorbitante: A ascens\u00e3o e queda do d\u00f3lar e o futuro do Sistema Monet\u00e1rio Internacional.<\/strong> Elsevier: Rio de Janeiro, 2011.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bruno Lima Rocha &#8211; artigo originalmente publicado na Revista Manuten\u00e7\u00e3o (www.revistamanutencao.com.br) No texto que segue, retomamos um debate da cl\u00e1ssica da cr\u00edtica da economia pol\u00edtica e economia pol\u00edtica internacional contempor\u00e2nea, estabelecendo um di\u00e1logo frut\u00edfero com refer\u00eancias vivas como Maria da Concei\u00e7\u00e3o Tavares, Alain Chesnais e Barry Eichengreen. \u00c9 preciso compreender os mecanismos que d\u00e3o suporte [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2808,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[28,36],"tags":[364,29,55],"class_list":["post-2806","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-economia-politica","category-politica-internacional","tag-capitalismo","tag-economia-politica-internacional","tag-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2806","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2806"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2806\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/2808"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2806"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2806"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2806"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}