{"id":2856,"date":"2021-11-25T11:26:28","date_gmt":"2021-11-25T14:26:28","guid":{"rendered":"https:\/\/estrategiaeanaliseblog.com\/?p=2856"},"modified":"2021-11-25T11:26:28","modified_gmt":"2021-11-25T14:26:28","slug":"caracterizando-o-imperialismo-e-a-disputa-de-poder-no-sistema-internacional-no-seculo-xxi-periodizacao-e-conceitos-basicos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=2856","title":{"rendered":"Caracterizando o imperialismo e a disputa de poder no Sistema Internacional no s\u00e9culo XXI: periodiza\u00e7\u00e3o e conceitos b\u00e1sicos\u00a0"},"content":{"rendered":"\n<p>Bruno Lima Rocha Beaklini  \u2013 artigo <a href=\"https:\/\/www.revistamanutencao.com.br\/colunas\/conjuntura\/economia.html\">originalmente publicado <\/a>na Revista Manuten\u00e7\u00e3o (revistamanuten\u00e7ao.com.br)<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das tarefas mais dif\u00edceis na an\u00e1lise do Sistema Internacional e em especial de algumas \u00e1reas mais sens\u00edveis como a economia pol\u00edtica internacional \u00e9 dialogar com a hist\u00f3ria contempor\u00e2nea e aplicar uma correta periodiza\u00e7\u00e3o. Minha pesquisa mais recente foi Iniciada com a inten\u00e7\u00e3o de fazer um relevo do per\u00edodo que seria verific\u00e1vel no capitalismo mundial p\u00f3s-2008 e anterior \u00e0 pandemia do novo Coronav\u00edrus, segundo a classifica\u00e7\u00e3o da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (que decretou pandemia em 11 de mar\u00e7o de 2020). Embora n\u00e3o seja necessariamente um objeto de pol\u00eamica ou o ponto central para interpretar a virada e perda de poder do mundo ocidentalizado durante e logo ap\u00f3s o desastroso governo de Donald Trump, esse debate \u00e9 necess\u00e1rio por algumas raz\u00f5es.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A mais sens\u00edvel \u00e9 porque os conceitos s\u00e3o reais ou, ao menos, t\u00eam a inten\u00e7\u00e3o de interpretar o real, vivido como experi\u00eancia concreta, e n\u00e3o apenas o universo imagin\u00e1rio (que tamb\u00e9m forma o real vivido). Ou seja, parto da premissa de que existe imperialismo e existem pot\u00eancias com capacidade de agendas imperiais, incluindo avan\u00e7os em escalas regionais. A outra situa\u00e7\u00e3o bem concreta e em di\u00e1logo com a primeira \u00e9 que o poder global n\u00e3o impede o jogo regional ou mesmo continental, mesmo que este seja muito heterodoxo e fira interesses m\u00faltiplos simultaneamente. Um exemplo disso \u00e9 o caso da Turquia na Era Erdogan, ainda dentro do guarda-chuva da OTAN e com pol\u00edtica externa extremamente agressiva e contrariando v\u00e1rias pot\u00eancias regionais e globais simultaneamente. Podemos afirmar estas mesmas capacidades para outras pot\u00eancias m\u00e9dias do G20 e pa\u00edses com capacidades semelhantes, como Ir\u00e3, Paquist\u00e3o e Mal\u00e1sia.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora a presen\u00e7a militar em escala planet\u00e1ria seja ainda exclusiva dos Estados Unidos, algumas outras pot\u00eancias tamb\u00e9m s\u00e3o herdeiras do colonialismo do s\u00e9culo XIX e da Era das Navega\u00e7\u00f5es, tais como Fran\u00e7a e Reino Unido. Tamb\u00e9m existem imp\u00e9rios tardios que v\u00e3o se alastrando na esteira do Imp\u00e9rio matriz, tal \u00e9 o caso dos EUA. Este pa\u00eds \u00e9 classificado como promotor do imperialismo na maior parte dos estudos de p\u00f3s Segunda Guerra e, em especial, ao final da Guerra Fria e Bipolaridade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Outra raz\u00e3o pr\u00e1tica do debate sobre o imperialismo \u00e9 reconhecer suas formas contempor\u00e2neas (saindo da caricatura). Imperialismo n\u00e3o \u00e9 apenas uma invas\u00e3o de fuzileiros navais estadunidenses, mas tamb\u00e9m uma forma superior do capitalismo, e nisso L\u00eanin estava correto (ao menos na classifica\u00e7\u00e3o), mas n\u00e3o s\u00f3. Antigos imp\u00e9rios muitas vezes obedecem a l\u00f3gicas geopol\u00edticas e \u00e9tnico-territoriais muito anteriores da forma\u00e7\u00e3o moderna destes Estados. Por exemplo, na tradi\u00e7\u00e3o russo-bizantina, a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica agiu de forma imperialista no Afeganist\u00e3o, seguindo a trajet\u00f3ria da disputa imperial anglo-russa nesta mesma regi\u00e3o (conhecido como o Grande Jogo). A rela\u00e7\u00e3o da China com o Vietn\u00e3 rec\u00e9m-unificado e liberto da invas\u00e3o dos EUA (guerra sino-vietnamita de 1979) foi semelhante tamb\u00e9m. Obedecia a uma l\u00f3gica de rivalidade milenar, ainda que sob os novos formatos dentro da etapa final da guerra fria ou o mundo bipolar. De forma gen\u00e9rica, o jogo de poder na \u00c1sia pode ser assim classificado, com exce\u00e7\u00e3o do Grande Oriente M\u00e9dio (Mundo \u00c1rabe e boa parte do Mundo Isl\u00e2mico), onde incide a luta contra o colonialismo sionista e as perversas tratativas com o fim do Imp\u00e9rio Otomano, como no \u201cacordo\u201d Sykes-Picot.&nbsp; &nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Sistema Cinco Olhos e a legitimidade questionada<\/p>\n\n\n\n<p>No s\u00e9culo XXI, as capacidades de proje\u00e7\u00e3o imperialistas e as formas de arranjo do Sistema Internacional, ao menos no campo da economia, reproduzem formas do capitalismo. Hoje, EUA e o seu Sistema Cinco Olhos (junto da Gr\u00e3 Bretanha, Canad\u00e1, Austr\u00e1lia e Nova Zel\u00e2ndia) e a Uni\u00e3o Europeia (empatadas as \u00faltimas duas), j\u00e1 n\u00e3o incidem tanto na \u00e1rea core da \u00c1sia. Apesar de ser uma nota positiva, muito do capitalismo se confunde com a integridade da economia global e est\u00e1 sob alguma tutela da vigil\u00e2ncia estadunidense. \u00cdndia, Ir\u00e3 e Turquia, em segundo plano, tamb\u00e9m podem exercer press\u00f5es em alguma escala, gerando excedentes de poder de modo a articular interesses nacionais com interesses dom\u00e9sticos de outros pa\u00edses. \u00c9 preciso afirmar algo delicado: \u00e9 um gesto leg\u00edtimo que pa\u00edses fronteiri\u00e7os ou de territ\u00f3rios cont\u00edguos, desde que n\u00e3o sejam povoados por colonos invasores (como na Palestina Ocupada em 1948 e em 1967), incidam e sejam influenciados por seus demais vizinhos, fazendo pol\u00edtica para al\u00e9m de suas fronteiras e ampliando \u00e1reas de influ\u00eancia direta.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta legitimidade \u00e9 radicalmente distinta de fazer guerras de agress\u00e3o, ou empregar mercen\u00e1rios salafistas e takhfiristas (como os do Daesh, autodenominados de \u201cEstado Isl\u00e2mico\u201d e sequestrar pautas e causas que a princ\u00edpio seriam justas). Especificamente agindo contra a legitimidade internacional, temos a situa\u00e7\u00e3o de monarquias \u00e1rabes do Golfo, como Emirados \u00c1rabes Unidos, Bahrein e Ar\u00e1bia Saudita. Como formador de ampla instabilidade e agress\u00e3o permanente, desde a sua \u201cinven\u00e7\u00e3o\u201d, est\u00e1 inclu\u00eddo ao \u201cEstado de Israel\u201d, a entidade colonial por excel\u00eancia. Outro debate urgente seria a respeito dos poderes m\u00e9dios da constela\u00e7\u00e3o do G20 e afins, ampliando o conceito de poder m\u00e9dio (Middle Power).<\/p>\n\n\n\n<p>Entre a diversidade e a conforma\u00e7\u00e3o global, o planeta \u00e9 mais complexo do que os manuais de neg\u00f3cios internacionais. A constela\u00e7\u00e3o de pa\u00edses e territ\u00f3rios aut\u00f4nomos ou semiaut\u00f4nomos s\u00e3o sistemas pol\u00edticos, formas de governo e regimes distintos, mas em termos de Economia Pol\u00edtica Internacional, a soma da concerta\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica de fra\u00e7\u00f5es da classe dominante com a elite dirigente pode reproduzir uma proje\u00e7\u00e3o no Sistema Internacional ou com este associado. Observemos a corrida ao &#8220;eldorado africano&#8221;, uma das bases do renascimento de nosso continente co-irm\u00e3o: China, Fran\u00e7a, Turquia e at\u00e9 o Brasil (em um belo exerc\u00edcio de coopera\u00e7\u00e3o e competi\u00e7\u00e3o no continente africano, mas dotado&nbsp; de cr\u00edticas) disputam ou disputaram espa\u00e7os importantes, al\u00e9m dos EUA de sempre. H\u00e1 coopera\u00e7\u00e3o Sul-Sul, mas sempre dependemos de arranjos locais, pol\u00edtica dom\u00e9stica ou mesmo da correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as com o \u201ccentro do ocidente\u201d. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Igualmente \u00e9 v\u00e1lido debater o tema, pois, quase sempre, o modelo do s\u00e9culo XIX, onde h\u00e1 um conjunto de alian\u00e7as locais que se beneficia da press\u00e3o externa (ou da desnacionaliza\u00e7\u00e3o das riquezas e da perda de soberania popular) ainda existe e se reproduz. O dom\u00ednio interno e associado pode ser motivado por interesses, muitas vezes, de motiva\u00e7\u00e3o original ideol\u00f3gica (sentido de pertencimento, colonialismo e aus\u00eancia de decolonialidade), e se posicionam, concomitantemente, ao conflito distributivo interno.<\/p>\n\n\n\n<p>Cabe tamb\u00e9m observar que a complexidade do tema pede um debate \u00e0 altura de sua amea\u00e7a, incluindo vers\u00f5es muito atuais, como os efeitos quase sempre nefastos da Coopera\u00e7\u00e3o Jur\u00eddica Internacional (temas permanentemente abordados por este analista); da interpenetra\u00e7\u00e3o das redes sociais e de grupos de desinforma\u00e7\u00e3o (o Brasil e a rela\u00e7\u00e3o com neopentecostais e ultraliberais do Partido Republicano exemplificam o problema); e tamb\u00e9m de perigosas teses absurdas da &#8220;conspira\u00e7\u00e3o globalista&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, conspira\u00e7\u00e3o e presen\u00e7a externa, assim como espionagem e guerras h\u00edbridas s\u00e3o assuntos t\u00e3o evidentes e s\u00e9rios, que n\u00e3o podemos ser irrespons\u00e1veis em confundi-las com absurdas e delirantes &#8220;teorias conspirat\u00f3rias totalizantes\u201d, sem evid\u00eancias nem conceitos. O debate urge assim como a correta classifica\u00e7\u00e3o conceitual.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bruno Lima Rocha Beaklini \u2013 artigo originalmente publicado na Revista Manuten\u00e7\u00e3o (revistamanuten\u00e7ao.com.br) Uma das tarefas mais dif\u00edceis na an\u00e1lise do Sistema Internacional e em especial de algumas \u00e1reas mais sens\u00edveis como a economia pol\u00edtica internacional \u00e9 dialogar com a hist\u00f3ria contempor\u00e2nea e aplicar uma correta periodiza\u00e7\u00e3o. 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