{"id":2879,"date":"2022-02-15T11:13:45","date_gmt":"2022-02-15T14:13:45","guid":{"rendered":"https:\/\/estrategiaeanaliseblog.com\/?p=2879"},"modified":"2023-03-13T21:58:18","modified_gmt":"2023-03-14T00:58:18","slug":"um-debate-sobre-a-geoestrategia-no-limite-da-asia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=2879","title":{"rendered":"Um debate sobre a geoestrat\u00e9gia no limite da \u00c1sia"},"content":{"rendered":"\n<p>Bruno Beaklini (@estanalise) &#8211; publicado em janeiro de 2022<\/p>\n\n\n\n<p>A crise no Cazaquist\u00e3o, datada na primeira quinzena deste ano, nos alerta para a necessidade do debate conceitual franco e preciso, sem cair em armadilhas de tipo \u201cjogo de torcidas\u201d ou \u201cfalsifica\u00e7\u00e3o das realidades\u201d para enquadrar o discurso v\u00e1lido. Neste texto, aportamos um gr\u00e3o de areia atrav\u00e9s de uma mirada do Oeste da \u00c1sia, pensando de forma franca por e pelo Eixo da Resist\u00eancia e compreendendo a ilegitimidade dos pa\u00edses ocidentais na regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O in\u00edcio \u00e9 conceitual. Os pa\u00edses da massa continental asi\u00e1tica operam cada vez como territ\u00f3rios econ\u00f4micos aut\u00f4nomos em rela\u00e7\u00e3o ao Ocidente, especificamente os Estados Unidos. Liderados pela China como superpot\u00eancia continental e global, passando pelo Ir\u00e3 e sua capacidade de resistir a mais de 40 anos de san\u00e7\u00f5es \u2013 incluindo o desligamento do Sistema Swift \u2013 e culminando nos territ\u00f3rios de maioria isl\u00e2mica, \u00e1rabe ou n\u00e3o, confrontando amea\u00e7as ocidentais (como a entidade sionista e o apartheid programado), mas tamb\u00e9m disputando entre si. No limite do jogo vemos a disputa entre as \u201cEuropas\u201d, no tabuleiro da luta eurasi\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro debate necess\u00e1rio \u00e9 o da pol\u00edtica dom\u00e9stica. Infelizmente, nem todo governo anti-imperialista ou defensor da soberania de seu povo e territ\u00f3rio \u00e9 virtuoso. Algo semelhante se d\u00e1 ao rev\u00e9s, pois justas lutas por autodetermina\u00e7\u00e3o podem estar de fato contaminadas por suas rela\u00e7\u00f5es e apoios externos. S\u00e3o temas distintos. Direitos sociais fundamentais e causas de soberania popular s\u00e3o sempre defens\u00e1veis para suas popula\u00e7\u00f5es. Desde que partam da premissa de n\u00e3o se aliarem a proje\u00e7\u00f5es de poder imperiais do ocidente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O \u201cgrande jogo\u201d, vers\u00e3o s\u00e9culo XXI<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O come\u00e7o \u00e9 simples. Sempre vai haver uma duplicidade de interpreta\u00e7\u00e3o quando tivermos&nbsp; uma proje\u00e7\u00e3o de poder anglo-sax\u00e3 contrapondo a presen\u00e7a do Kremlin na massa continental asi\u00e1tica. O Grande Jogo, iniciado ainda no final do s\u00e9culo XVIII, contrapunha as proje\u00e7\u00f5es de brit\u00e2nicos e russo-bizantinos. Na corrida rumo ao \u00cdndico e Mar da Ar\u00e1bia, os dois imp\u00e9rios ocidentais davam como favas contadas a incapacidade- total ou parcial- de povos, sistemas pol\u00edticos e sociedades concretas do Sul da \u00c1sia e o \u201cGrande Oriente M\u00e9dio\u201d (conceito da m\u00e9trica londrina que reproduzimos de forma quase imediata) de buscarem suas pr\u00f3prias sa\u00eddas. A derrota do Imp\u00e9rio Mogul e a avan\u00e7ada de Nicolau II no C\u00e1spio, assim como a progress\u00e3o ferrovi\u00e1ria do Imp\u00e9rio Czarista, provaram o que a Marinha de Sua Majestade pilhava e roubava em todos os lugares da Terra. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o h\u00e1 como debater a disputa atual sem levar em conta essa dimens\u00e3o hist\u00f3rico-estrutural. Pa\u00edses como o Ir\u00e3, ainda chamada de P\u00e9rsia, e o pr\u00f3prio Afeganist\u00e3o, evitaram os invasores brit\u00e2nicos e ocidentais, mas na \u00c1sia Central indo at\u00e9 a Costa Pac\u00edfico, Moscou e S\u00e3o Petesburgo colocavam \u00e0 prova a decad\u00eancia chinesa. Tanto \u00e9 que a grande entrada do Imp\u00e9rio do Sol Nascente no s\u00e9culo XX foi a Guerra Russo-Japonesa e a derrota avassaladora do czar. A forma\u00e7\u00e3o da R\u00fassia moderna passa pelo per\u00edodo sovi\u00e9tico, a derrota na Guerra Fria e tenebrosa ascens\u00e3o das oligarquias nos espa\u00e7os p\u00f3s-sovi\u00e9ticos. Em parte, tais oligarcas formaram um bloqueio do&nbsp; sistema pol\u00edtico e se confundiram com o pr\u00f3prio aparelho de Estado. Noutras formaram m\u00e1fias ou, como diz o conceito do capitalismo do s\u00e9culo XXI, \u201cnexo pol\u00edtico-criminal\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Definitivamente s\u00e3o estes os conceitos-chave que defensores da proje\u00e7\u00e3o de poder da OTAN atrav\u00e9s da Ucr\u00e2nia fazem quest\u00e3o de \u201cesquecer\u201d. Algo semelhante ocorre na defesa virtuosa acr\u00edtica do exerc\u00edcio de poder atrav\u00e9s de Vladimir Putin e seu gabinete. Na R\u00fassia p\u00f3s-sovi\u00e9tica, nos anos de \u201cgoverno\u201d Yeltsin, a \u00e1rea core da antiga pot\u00eancia foi sendo dilacerada, at\u00e9 chegar no anel mais pr\u00f3ximo dos centros de poder. A retomada do controle dos recursos essenciais, como as empresas Gazprom, Rosneft, LUKoil e Bashneft, foi uma necessidade aplicada como Raz\u00e3o de Estado. Todos os meios necess\u00e1rios foram empregados de modo a controlar oligarcas desleais ao aparelho de seguran\u00e7a e promover grupos amigos do aparelho de seguran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>No limite das defini\u00e7\u00f5es, os caminhos da soberania da Federa\u00e7\u00e3o Russa passam pelo controle da popula\u00e7\u00e3o de credo isl\u00e2mico (como os acordos com as elites dirigentes na Chech\u00eania), na proje\u00e7\u00e3o de poder p\u00f3s-sovi\u00e9tico (exemplificado pela interven\u00e7\u00e3o via acordo diplom\u00e1tico da CSTO) e na defesa de sua linha defensiva. Est\u00e1 totalmente fora de cogita\u00e7\u00e3o para Putin e os demais tomadores de decis\u00e3o russos, admitir um arsenal nuclear da OTAN na Ucr\u00e2nia e qualquer amea\u00e7a de cerco ao <em>oblast<\/em> e enclave naval de Kaliningrado, no Mar B\u00e1ltico. Situa\u00e7\u00e3o semelhante est\u00e1 na Bielorr\u00fassia e sua rivalidade com a Pol\u00f4nia. Em termos de pol\u00edtica dom\u00e9stica, o governo Aleksandr Grigorievitch Lukashenko \u00e9 indefens\u00e1vel. Mas, existe de fato oposi\u00e7\u00e3o em Belarus que n\u00e3o se comprometa com as redes de terceiro setor alimentadas pela intelig\u00eancia de pa\u00edses ocidentais?<\/p>\n\n\n\n<p>E porque os \u201canalistas\u201d internacionais n\u00e3o lembram do \u00f3bvio? Expondo as origens oligarcas e mafiosas de Ihor Kolomoisky, \u201cpadrinho\u201d do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky. Ou o passo seguinte, demonstrando o governo do ex-comediante como vertical e aplicando Lawfare de modo semelhante ao de Putin na sua luta contra as fac\u00e7\u00f5es de oligarcas apoiadoras dos acordos que dilaceraram a economia russa na d\u00e9cada de \u201990? Trata-se de n\u00e3o explicar nada e gerar elementos de discurso operando de forma propagandista.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Os passos conceituais conclusivos<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Neste artigo defendemos uma posi\u00e7\u00e3o anal\u00edtica. As rela\u00e7\u00f5es do Mundo Isl\u00e2mico, Sul, Oeste e Leste da \u00c1sia com a R\u00fassia n\u00e3o s\u00e3o tranquilas e menos ainda harm\u00f4nicas, mas podem ser complementares quando o inimigo comum \u2013 EUA, OTAN e aliados ocidentais \u2013 se manifesta. Afirmar essa obviedade est\u00e1 anos luz distante do mecanismo de propaganda fornecida por \u201canalistas\u201d a favor do ocidente, mas tamb\u00e9m reprodutores de obviedades \u201ctorcendo\u201d por Beijing e Moscou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 praticamente imposs\u00edvel fazer an\u00e1lise do Sistema Internacional sem separar os n\u00edveis conceituais ou apenas reproduzindo o cinismo dos realistas e geopol\u00edticos. N\u00e3o h\u00e1 como pensar o Eixo da Resist\u00eancia projetando convic\u00e7\u00f5es doutrin\u00e1rias disfar\u00e7adas de \u201cteoria\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O conceito de geoestrat\u00e9gia do t\u00edtulo evidentemente ultrapassa a massa continental \u2013 da\u00ed seria geopol\u00edtica \u2013 e dialoga com a interdepend\u00eancia complexa gerada pela China e sua economia mundo baseada nos tomadores de decis\u00e3o em Beijing. Reconhecer essa evid\u00eancia \u00e9 o primeiro passo. O segundo \u00e9 admitir que h\u00e1 vontade pr\u00f3pria nas regi\u00f5es da \u00c1sia \u2013 como \u00e9 o caso emblem\u00e1tico do Ir\u00e3 &#8211; e a tend\u00eancia \u00e9 a integraliza\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios econ\u00f4micos, com economia parcial e soberania total ou relativa. O terceiro \u00e9 saber que em termos de acordo securit\u00e1rio, a R\u00fassia n\u00e3o est\u00e1 blefando e vai defender tanto o seu espa\u00e7o p\u00f3s-sovi\u00e9tico (como na Ucr\u00e2nia e Belarus) como o eurasi\u00e1tico (atrav\u00e9s da CSTO). O quarto \u00e9 entender que os pa\u00edses da OTAN s\u00e3o vistos como invasores, usurpando soberania e gerando o caos nos territ\u00f3rios do Continente, tal e qual o Ocidente faz desde o s\u00e9culo XVIII e s\u00f3 n\u00e3o vai seguir fazendo se for impedido.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bruno Beaklini (@estanalise) &#8211; publicado em janeiro de 2022 A crise no Cazaquist\u00e3o, datada na primeira quinzena deste ano, nos alerta para a necessidade do debate conceitual franco e preciso, sem cair em armadilhas de tipo \u201cjogo de torcidas\u201d ou \u201cfalsifica\u00e7\u00e3o das realidades\u201d para enquadrar o discurso v\u00e1lido. 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