{"id":2884,"date":"2022-02-23T15:37:31","date_gmt":"2022-02-23T18:37:31","guid":{"rendered":"https:\/\/estrategiaeanaliseblog.com\/?p=2884"},"modified":"2023-03-13T21:58:18","modified_gmt":"2023-03-14T00:58:18","slug":"o-golpe-em-burkina-faso-e-o-salafismo-na-africa-subsaariana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=2884","title":{"rendered":"O golpe em Burkina Faso e o salafismo na \u00c1frica subsaariana"},"content":{"rendered":"\n<p>Bruno Beaklini (@estanalise) \u2013 janeiro 2022 &#8211; publicado originalmente no Monitor do Oriente M\u00e9dio<\/p>\n\n\n\n<p>O golpe militar em Burkina Faso reflete um problema estrutural nos pa\u00edses africanos, em especial nas regi\u00f5es subsaarianas. Em 24 de janeiro deste corrente ano, o tenente-coronel Paul-Henri Sandaogo Damiba, porta voz dos golpistas, anunciou a <a href=\"https:\/\/www.aljazeera.com\/news\/2022\/1\/24\/burkina-faso-army-says-it-has-deposed-president-kabore\">deposi\u00e7\u00e3o do presidente eleito Roch Kabore<\/a>, o fechamento do congresso e demais institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, impediu o tr\u00e2nsito nas fronteiras do pa\u00eds e tornou invalida a constitui\u00e7\u00e3o vigente. A insubordina\u00e7\u00e3o militar teria sido decorrente de pris\u00f5es de militares e agita\u00e7\u00e3o dos quart\u00e9is pelo descontentamento da popula\u00e7\u00e3o ap\u00f3s seguidas derrotas para os salafistas locais.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos dias anteriores ao golpe, militares insurretos entraram em conflito armado contra for\u00e7as ainda leais ao governo eleito. Nos meses anteriores, protestos populares terminaram em ampla repress\u00e3o governamental contra a popula\u00e7\u00e3o civil. A delicadeza do momento legitima o ato dos militares.<\/p>\n\n\n\n<p>A regi\u00e3o est\u00e1 deflagrada. O centro do Sahel, composto por Mali, N\u00edger e Burkina Faso est\u00e3o sob constante amea\u00e7a destas mesmas organiza\u00e7\u00f5es takfiristas. O caminho para o desastre parece evidente e s\u00e3o part\u00edcipes da problem\u00e1tica tanto a presen\u00e7a de redes salafistas como a permanente arrog\u00e2ncia imperial de pa\u00edses como Fran\u00e7a e Estados Unidos. No texto que segue, trazemos evid\u00eancias desta correla\u00e7\u00e3o. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Comecemos expondo as obviedades. Burkina Faso n\u00e3o \u00e9 exce\u00e7\u00e3o e n\u00e3o tem cabimento argumenta\u00e7\u00e3o euroc\u00eantrica ou colonialista. Primeiro, de alguma forma, h\u00e1 uma crise na democracia representativa, e isso n\u00e3o \u00e9 exclusivo da \u00c1frica, nem do Sul Global, mas de todas as sociedades que de alguma&nbsp; forma reproduzem a f\u00f3rmula liberal-democr\u00e1tica. Segundo, especificamente falando da \u201cmancha salafista\u201d no continente africano, trata-se de reproduzir teses absurdas, cometer <em>haram<\/em> o tempo todo e desfrutar de fundos e apoios inconfess\u00e1veis, na maioria das vezes, vindos de fortunas ou elites dirigentes aliadas direta ou indiretamente ao sionismo. Terceiro, a a\u00e7\u00e3o nefasta dos EUA ao estabelecer um dos comandos combatentes permanentes na \u00c1frica, o <a href=\"https:\/\/www.africom.mil\/topic\/kenya\">AFRICOM<\/a>. \u201cCuriosamente\u201d quanto maior o alcance dos operadores militares do imperialismo, mais aumenta a presen\u00e7a de salafistas, wahhabitas e takfiristas.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde o ano 2007, quando os EUA insuflaram a invas\u00e3o da Som\u00e1lia e acabaram com a nascente jurisdi\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o das Cortes Isl\u00e2micas que a presen\u00e7a de redes alinhadas com a Al Qaeda e, a partir da d\u00e9cada seguinte com o Daesh, s\u00f3 faz crescer. Na ocasi\u00e3o, o Comando Africano, operando atrav\u00e9s de sua base em Manda Bay (Qu\u00eania), promoveu a interven\u00e7\u00e3o militar tendo a <a href=\"https:\/\/au.int\/\">Uni\u00e3o Africana<\/a> como ponta de lan\u00e7a. O resultado foi nefasto, aumentando o poder da Al Shabab (rede terrorista salafista afiliada a Al Qaeda), fragilizando a estabilidade pol\u00edtica e securit\u00e1ria do territ\u00f3rio queniano.<\/p>\n\n\n\n<p>A outra marca da presen\u00e7a da OTAN est\u00e1 na a\u00e7\u00e3o contra o governo do tenente coronel formado na Inglaterra, Muamar Gaddafi, e a promo\u00e7\u00e3o de \u201cbombardeios humanit\u00e1rios\u201d na L\u00edbia. Em abril de 2011 e nos meses seguintes, a alian\u00e7a ocidental garantiu que a impopularidade do l\u00edder se tornasse uma ampla guerra civil e promovendo a pol\u00edtica de terra arrasada a partir da destrui\u00e7\u00e3o de Tr\u00edpoli. O resultado do desmonte da Jamahiriya foi e \u00e9 uma permanente guerra interna, com dois ou tr\u00eas setores de acordo com o per\u00edodo e total subordina\u00e7\u00e3o internacional. Para piorar, a distribui\u00e7\u00e3o do arsenal de governo deposto ficou fora de controle. Na \u00faltima etapa da guerra, a convoca\u00e7\u00e3o para a defesa do anel mais conc\u00eantrico de Gaddafi resultou em dissemina\u00e7\u00e3o de armas leves al\u00e9m das fronteiras l\u00edbias. Os nexos do extinto regime instaurado com a derrubada do Rei Idris I em 1969 ultrapassam o Saara e a guerra p\u00f3s-colonial do Chade (1978-1987) \u2013 com vit\u00f3ria da fac\u00e7\u00e3o pr\u00f3 Fran\u00e7a \u2013 evidenciam esse grau de letalidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos efeitos diretos da pr\u00e1tica de terra arrasada na L\u00edbia chegou at\u00e9 o Mali. Na crise de 2012, o imp\u00e9rio de Paris evocou a sua raz\u00e3o de \u201c<em>Fran\u00e7afrique<\/em>\u201d, enviou efetivos da Legi\u00e3o Estrangeira e regimentos coloniais de paraquedistas. Primeiro enviou \u201cconsultores\u201d e no ano seguinte, tropas ostensivas. Ao inv\u00e9s de promover a Uni\u00e3o Africana ou as for\u00e7as conjuntas da ECOWAS (Bloco dos pa\u00edses da \u00c1frica Ocidental), o ent\u00e3o presidente Fran\u00e7ois Hollande mandou tropas profissionais e em tese, afastara em definitivo o perigo de que takfiristas venham a tomar a capital Bamako. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A trama realmente \u00e9 intrincada. A Al-Shabab origin\u00e1ria da Som\u00e1lia, t\u00eam uma enorme difus\u00e3o atrav\u00e9s das redes sociais e do imagin\u00e1rio do ocidente a partir da desgra\u00e7a promovida pelos estadunidenses em Mogad\u00edscio entre 1992 e 1993, repetida na primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo XX. Ao inv\u00e9s do que prega Washington, o acionar imperial n\u00e3o decorre da manh\u00e3 de 7 de agosto de 1998. Nesta data ocorreram dois atentados promovidos pela Al Qaeda contra as embaixadas estadunidenses, em momento quase simult\u00e2neo, em Nairobi (capital do Qu\u00eania) e Dar es Salaam (capital da Tanz\u00e2nia). O AFRICOM \u00e9 t\u00e3o capaz de operar de fato, que esconde seu comando operacional em base na Alemanha. Todo esse conjunto de absurdos \u00e9 utilizado como ferramenta de propaganda e recrutamento n\u00e3o s\u00f3 da Al Shabab, mas da Boko Haram (Nig\u00e9ria) e demais bra\u00e7os operacionais das redes wahabbitas.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se trata das guerra civis tristemente ocorridas nos pa\u00edses ap\u00f3s sua independ\u00eancia formal. Tampouco das cl\u00e1ssicas manipula\u00e7\u00f5es dos partidos e lealdades \u00e9tnico territoriais, muitas vezes insufladas por interesses de transnacionais ou jogos de poder cl\u00e1ssicos entre diplomatas, mercen\u00e1rios e governos fracos. Estamos diante de um fen\u00f4meno distinto.<\/p>\n\n\n\n<p>Existe popula\u00e7\u00e3o islamizada na \u00c1frica h\u00e1 mais de mil anos e somente nos \u00faltimos trinta o salafismo usurpa as palavras do profeta e promove takfirismo armado. Os terroristas confrontam for\u00e7as regulares com baixo or\u00e7amento, o que gera descontrole da tropa e acentua a separa\u00e7\u00e3o entre a elite dirigente, os servidores do Estado e a popula\u00e7\u00e3o desassistida. Simultaneamente, as maiorias est\u00e3o descontentes e as minorias amea\u00e7adas de perder sua posi\u00e7\u00e3o e o status quo.<\/p>\n\n\n\n<p>Transnacionais operando nestes pa\u00edses entram em p\u00e2nico se n\u00e3o conseguem negociar, e podem vir a deixar o pa\u00eds, como ocorreu com a <a href=\"https:\/\/www.dw.com\/pt-002\/sa%C3%ADda-da-total-deixa-empresariado-mo%C3%A7ambicano-com-corda-ao-pesco%C3%A7o\/a-57343051\">Total em Mo\u00e7ambique<\/a>. Em abril do ano passado, a gigante francesa decidiu abandonar a regi\u00e3o de Cabo Delgado, no norte do pa\u00eds de Samora Machel, responsabilizando o governo de Maputo de n\u00e3o conseguir garantir a seguran\u00e7a de suas instala\u00e7\u00f5es e funcion\u00e1rios. A Al Shabab Mo\u00e7ambicana conseguiu em duas campanhas o que a RENAMO n\u00e3o obteve ap\u00f3s retomar o conflito interno em 2013.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Apontando conclus\u00f5es \u00f3bvias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se pode responsabilizar aos absurdos salafistas a todos os problemas em termos econ\u00f4micos, pol\u00edticos e securit\u00e1rios dos pa\u00edses africanos onde atuam os terroristas. Menos ainda promover discursos colonialistas onde a d\u00e1diva das interven\u00e7\u00f5es das pot\u00eancias ocidentais resolveria alguma coisa. Tampouco as institui\u00e7\u00f5es republicanas nos pa\u00edses do continente irmanado com a Am\u00e9rica Latina s\u00e3o muito mais fortes do que as existentes deste lado do Atl\u00e2ntico.<\/p>\n\n\n\n<p>Obviamente os EUA e OTAN n\u00e3o s\u00e3o confi\u00e1veis para combater os aliados de seus aliados. E especificamente as pot\u00eancias decadentes da Fran\u00e7a, Inglaterra, B\u00e9lgica, Portugal, Espanha, It\u00e1lia e Dinamarca t\u00eam as m\u00e3os manchadas do sangue desde os tempos da col\u00f4nia e da escravid\u00e3o. O terror salafista \u00e9 instrumento de chantagem externa e seus financiadores s\u00e3o perfeitamente reconhec\u00edveis e identificados. A solu\u00e7\u00e3o no curto prazo \u00e9 a coopera\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da Uni\u00e3o Africana, da ECOWAS e demais alian\u00e7as entre pa\u00edses do continente. No m\u00e9dio e longo prazos, a coopera\u00e7\u00e3o Sul Sul \u00e9 \u00fanico caminho.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bruno Beaklini (@estanalise) \u2013 janeiro 2022 &#8211; publicado originalmente no Monitor do Oriente M\u00e9dio O golpe militar em Burkina Faso reflete um problema estrutural nos pa\u00edses africanos, em especial nas regi\u00f5es subsaarianas. Em 24 de janeiro deste corrente ano, o tenente-coronel Paul-Henri Sandaogo Damiba, porta voz dos golpistas, anunciou a deposi\u00e7\u00e3o do presidente eleito Roch [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2886,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[54,44,36],"tags":[371,372,236],"class_list":["post-2884","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-grande-oriente-medio-e-mundo-islamico","category-mundo-afro","category-politica-internacional","tag-africa","tag-burkina-faso","tag-salafismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2884","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2884"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2884\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11837,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2884\/revisions\/11837"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/2886"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2884"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2884"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2884"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}