{"id":2903,"date":"2022-03-23T11:11:45","date_gmt":"2022-03-23T14:11:45","guid":{"rendered":"https:\/\/estrategiaeanaliseblog.com\/?p=2903"},"modified":"2023-03-13T21:58:18","modified_gmt":"2023-03-14T00:58:18","slug":"o-mundo-pos-guerra-russo-ucraniana-a-nova-bipolaridade-ampliada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=2903","title":{"rendered":"O mundo p\u00f3s-guerra Russo-Ucraniana: a \u201cnova bipolaridade\u201d ampliada"},"content":{"rendered":"\n<p>Bruno Beaklini (@estanalise) \u2013mar\u00e7o 2022<\/p>\n\n\n\n<p>Diante do conflito Russo-Ucraniano e obviamente, da perspectiva cada vez mais real de uma Nova Guerra Fria, unificando o Sistema Cinco Olhos (os pa\u00edses anglo-sax\u00f5es liderados pelos EUA, secundado por Gr\u00e3-Bretanha, Canad\u00e1, Austr\u00e1lia e Nova Zel\u00e2ndia) e a Uni\u00e3o Europeia em contraponto \u00e0 alian\u00e7a China-R\u00fassia (nesta ordem), decidi rever alguns textos da d\u00e9cada passada. Assim na dimens\u00e3o da hist\u00f3ria recente, estamos diante de uma nova periodiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira fase do mundo p\u00f3s Bipolar termina no dia 11 de setembro de 2001, quando criaturas (salafistas da Al Qaeda) atacam criadores (atingindo alvos dos Estados Unidos, seus co-patrocinadores). A segunda fase do s\u00e9culo XXI, ou a primeira virada destes cem anos, se deu com a \u201cFarsa com nome de Crise\u201d (<a href=\"https:\/\/www.alainet.org\/images\/Desvelando%20a%20farsa%20com%20o%20nome%20de%20crise.pdf\">ver livro<\/a>), quando o sistema especulativo de acumula\u00e7\u00e3o encontrou seu pr\u00f3prio limite, levando a maior transfer\u00eancia de renda da hist\u00f3ria dos pa\u00edses industrializados. A terceira fase seria no p\u00f3s-2008 at\u00e9 o m\u00eas de fevereiro de 2022, quando a opera\u00e7\u00e3o militar da R\u00fassia na Ucr\u00e2nia leva a uma guerra convencional na Europa e coloca o sistema hegem\u00f4nico realmente contra a parede. Mais uma vez, assim como em 2008, os pa\u00edses europeus seguem as determina\u00e7\u00f5es de sua lideran\u00e7a de fato, entrando no mesmo loda\u00e7al dos estadunidenses.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Um pouco de revis\u00e3o te\u00f3rica para escalonar os conflitos<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Na d\u00e9cada passada, especificamente em 2016, eu afirmava a exist\u00eancia de <a href=\"http:\/\/www.estrategiaeanalise.com.br\/ler02.php?idsecao=e8f5052b88f4fae04d7907bf58ac7778&amp;&amp;idtitulo=5f0f1a58e9dc8db2b24fb527f6141d4b\">tr\u00eas n\u00edveis de conflitos<\/a>:<\/p>\n\n\n\n<p>O Grande Jogo: <em>\u201cProponho uma an\u00e1lise bastante acess\u00edvel, ao dividir o Jogo Internacional em tr\u00eas n\u00edveis. O primeiro n\u00edvel \u00e9 o Grande Jogo, em n\u00edvel geoestrat\u00e9gico \u2013 portanto, ultrapassando o determinismo geogr\u00e1fico e o posicionamento original dos Estados.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O n\u00edvel regional: <em>\u201cO segundo n\u00edvel talvez seja o mais percept\u00edvel, onde em regi\u00f5es bastante conturbadas, as pot\u00eancias de n\u00edvel m\u00e9dio, operando como piv\u00f4s geopol\u00edticos e com aliados dispostos a fazer guerras indiretas se aliam impondo suas pautas tamb\u00e9m a grandes pot\u00eancias. No caso espec\u00edfico do Oriente M\u00e9dio, verificamos o jogo de Israel, Turquia, Ar\u00e1bia Saudita e Ir\u00e3 com n\u00edveis elevados de autonomia diante da for\u00e7a de prote\u00e7\u00e3o de EUA-Otan e com menor presen\u00e7a, a R\u00fassia. Quase sempre os grupos dominantes dom\u00e9sticos costumam ter poderes praticamente absolutos de veto dentro do jogo regional quando h\u00e1 um n\u00edvel elevado de conflito. O jogo de n\u00edvel dois confunde-se com os aliados dom\u00e9sticos e pode pender de lado segundo a condi\u00e7\u00e3o de dom\u00ednio nos Estados e territ\u00f3rios soberanos\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O terceiro n\u00edvel: <em>\u201cO terceiro n\u00edvel \u00e9 &#8211; de fato &#8211; o \u00fanico onde os protagonistas s\u00e3o os povos em luta. Estes podem ter dimens\u00e3o dom\u00e9stica ou mesmo regional, sempre e quando h\u00e1 o protagonismo dos agentes que atuam a partir de pa\u00edses ou pertencimentos, como atrav\u00e9s da etnicidade.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A caracteriza\u00e7\u00e3o que apresento acima seria totalmente aplic\u00e1vel, mas especificamente no caso da Am\u00e9rica Latina. Na massa continental Eurasi\u00e1tica, os conflitos que ganham aten\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses l\u00edderes, terminam sendo visibilizados ou tornados invis\u00edveis na propor\u00e7\u00e3oem que s\u00e3o transnacionalizados. Desse modo, proponho uma revis\u00e3o te\u00f3rica, observando que o direito ancestral de quem reside no lugar est\u00e1 acima de qualquer l\u00f3gica geopol\u00edtica ou geoestrat\u00e9gica, mas n\u00e3o se aplica necessariamente diante da press\u00e3o regional, internacional e transnacional nos conflitos.<\/p>\n\n\n\n<p>Por exemplo, a entidade sionista, como inimiga estrat\u00e9gica dos povos \u00e1rabes e de nossos pa\u00edses amigos, tem a capacidade de estar presente nos centros de poder e decis\u00e3o em escala planet\u00e1ria, de uma forma desproporcional ao seu peso econ\u00f4mico e mesmo militar. Portanto, essa vari\u00e1vel, os la\u00e7os de prote\u00e7\u00e3o e vassalagem, seguem operando como definidores. Deste modo, os conflitos de tipo tr\u00eas fora da \u00c1frica Subsaariana e da Am\u00e9rica Latina, tendem a ser regionalizados pelo pr\u00f3prio peso das lideran\u00e7as de seus entornos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Estamos diante de uma bipolaridade ampliada<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em 2013 e 2014, este analista escrevia sobre o conflito dentro da Ucr\u00e2nia e especificamente sobre <a href=\"http:\/\/www.estrategiaeanalise.com.br\/ler02.php?idsecao=c41fd8bdf2b7d02de4781eba911ea105&amp;&amp;idtitulo=c80e3c3f743781502e241067f3ff90d4\">a anexa\u00e7\u00e3o da Crimeia e a proje\u00e7\u00e3o de poder russa<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cA R\u00fassia retomou seu espa\u00e7o e gravita\u00e7\u00e3o no cen\u00e1rio internacional e isto \u00e9 um fato inequ\u00edvoco. Desde o final da Guerra Fria, ou seja, em pelo menos vinte anos, jamais se viu um poder estatal afrontar os Estados Unidos, contrapondo as vontades de Washington deste modo. Tomamos como marco a manobra diplom\u00e1tica e as reais amea\u00e7as militares proclamadas por Vladimir Putin de que, se a S\u00edria fosse bombardeada sem o aval do Conselho de Seguran\u00e7a da ONU, a R\u00fassia faria bombardeios de retalia\u00e7\u00e3o nos aliados dos EUA no Oriente M\u00e9dio.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cAs derrotas russas e dos aliados s\u00e9rvios ainda n\u00e3o foram digeridas e s\u00e3o retroalimentadas como uma humilha\u00e7\u00e3o diante da Superpot\u00eancia e o \u201cocidente\u201d. Na Grande R\u00fassia, os apparatchik pol\u00edtico-militares reorganizaram a defesa para reconstruir a esfera de influ\u00eancia Eurasiana. Para isso, \u00e9 necess\u00e1rio reconquistar ao menos aquilo que seria a sua \u00e1rea de respiro.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Os dois par\u00e1grafos acima, escritos ap\u00f3s a anexa\u00e7\u00e3o da Crimeia (fevereiro e mar\u00e7o de 2014), evidenciavam que as rela\u00e7\u00f5es macro entre EUA e R\u00fassia caminhavam para uma posi\u00e7\u00e3o de choque. Washington aumentaria o cerco dentro da Europa e Moscou iria garantir uma rede de seguran\u00e7a no espa\u00e7o p\u00f3s-sovi\u00e9tico, apostando em mais integra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica com a China e em um conflito congelado no leste europeu. Aparentemente, esta guerra tem duas dimens\u00f5es simult\u00e2neas. Uma, europeia, \u00e9 isolar a fronteira ocidental russa e criar a possibilidade da OTAN chegar ao C\u00e1ucaso, por todos os meios necess\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra, do lado russo, al\u00e9m de retomar a influ\u00eancia estrat\u00e9gica no espa\u00e7o p\u00f3s-sovi\u00e9tico (atrav\u00e9s da Ucr\u00e2nia desmilitarizada) e um empate no B\u00e1ltico, \u00e9 estreitar a alian\u00e7a com Beijing. Para tanto, o Kremlin admite que a interdepend\u00eancia econ\u00f4mica para com a China n\u00e3o ira virar a hegemonia do mundo caso n\u00e3o seja acompanhada de uma vers\u00e3o armada da mesma.<\/p>\n\n\n\n<p>De sua parte, o \u201cocidente\u201d aposta na escalada desta forma de guerra fria ampliada. Se n\u00e3o h\u00e1 condi\u00e7\u00e3o de chocar de frente com a economia mais din\u00e2mica do mundo \u2013 a chinesa \u2013 \u00e9 preciso bater no aliado estrat\u00e9gico, criando situa\u00e7\u00f5es de longo prazo onde toda a arquitetura financeira da R\u00fassia ter\u00e1 de ser baseada no sistema chin\u00eas de compensa\u00e7\u00f5es. O que era um ensaio de \u201cnova arquitetura financeira mundial\u201d, com os <a href=\"http:\/\/www.estrategiaeanalise.com.br\/ler02.php?idsecao=e8f5052b88f4fae04d7907bf58ac7778&amp;&amp;idtitulo=2fb5e425dd738818d896f42142551174\">BRICS e o novo eixo de expans\u00e3o capitalista<\/a>, se tornou uma realidade (acelerada) em escala eurasi\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p>Na proje\u00e7\u00e3o de poder do Partido Democrata na \u00c1sia, o governo Obama tentou avan\u00e7ar com o TPP (Tratado Transpac\u00edfico) e obteve como resposta a expans\u00e3o do <a href=\"https:\/\/www.aiib.org\/en\/index.html\">Banco Asi\u00e1tico de Infraestrutura e Investimentos<\/a> (AIIB). O padr\u00e3o de Bretton Woods estava sendo abalado antes do conflito Russo-Ucraniano e agora pode desmoronar.<\/p>\n\n\n\n<p>O AIIB tem os seguintes n\u00fameros: <em>\u201cO AIIB iniciou suas opera\u00e7\u00f5es em 2016 com 57 membros fundadores (37 regionais e 20 n\u00e3o regionais). At\u00e9 o final de 2020, t\u00ednhamos 103 membros aprovados, representando aproximadamente 79% da popula\u00e7\u00e3o global e 65% do PIB global.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O eixo din\u00e2mico dessa economia \u00e9 a China, cada vez mais pr\u00f3xima de ser aliada estrat\u00e9gica da R\u00fassia, realizando a aproxima\u00e7\u00e3o que faltou na Guerra Fria do s\u00e9culo XX para tentar realmente vencer o conflito globalizado. Para os poderes ocidentais, frear a R\u00fassia \u00e9 atingir a China, retrocedendo \u00e0 d\u00e9cada de 1950 em termos de presen\u00e7a geopol\u00edtica na \u00c1sia, avan\u00e7ando uma casa no conflito mundial, de interdepend\u00eancia econ\u00f4mica para armada.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 Beijing v\u00ea seus tempos acelerados pelo aliado europeu, refor\u00e7ando seus la\u00e7os no continente asi\u00e1tico e no mundo isl\u00e2mico, fazendo valer a presen\u00e7a econ\u00f4mica e empresarial como forma de assegurar seus interesses.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Artigo publicado originalmente no&nbsp; Monitor do Oriente M\u00e9dio<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bruno Beaklini (@estanalise) \u2013mar\u00e7o 2022 Diante do conflito Russo-Ucraniano e obviamente, da perspectiva cada vez mais real de uma Nova Guerra Fria, unificando o Sistema Cinco Olhos (os pa\u00edses anglo-sax\u00f5es liderados pelos EUA, secundado por Gr\u00e3-Bretanha, Canad\u00e1, Austr\u00e1lia e Nova Zel\u00e2ndia) e a Uni\u00e3o Europeia em contraponto \u00e0 alian\u00e7a China-R\u00fassia (nesta ordem), decidi rever alguns [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2905,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[28,36],"tags":[27,29,170],"class_list":["post-2903","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-economia-politica","category-politica-internacional","tag-economia-de-guerra","tag-economia-politica-internacional","tag-globalizacao-capitalista"],"jetpack_publicize_connections":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2903","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2903"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2903\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11833,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2903\/revisions\/11833"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/2905"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2903"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2903"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2903"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}