{"id":2936,"date":"2022-06-12T13:33:20","date_gmt":"2022-06-12T16:33:20","guid":{"rendered":"https:\/\/estrategiaeanaliseblog.com\/?p=2936"},"modified":"2023-03-13T21:58:06","modified_gmt":"2023-03-14T00:58:06","slug":"o-martirio-e-a-imortalidade-da-voz-da-palestina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=2936","title":{"rendered":"O mart\u00edrio e a imortalidade da Voz da Palestina"},"content":{"rendered":"\n<p>Bruno Beaklini (@estanalise)<\/p>\n\n\n\n<p>O artigo que segue distingue dos demais produzidos semanalmente por este analista. Temos an\u00e1lise, mas mesclada com ensaio e a indigna\u00e7\u00e3o pela crueza dos fatos e a crueldade do opressor. O mart\u00edrio da jornalista palestina Shireen Abu Akleh foi mais um assassinato dentre centenas de profissionais de m\u00eddia desde o in\u00edcio da ocupa\u00e7\u00e3o colonial. N\u00e3o se trata de mais um texto de homenagem, todos mais que justificados.<\/p>\n\n\n\n<p>Partimos de um ensaio com a po\u00e9tica de nossas brimas e brimos e observamos esse momento \u00fanico, onde um fato singular revela toda a estrutura dos crimes sionistas. Dentro da dor revela-se a grandeza de um povo, territ\u00f3rio, pa\u00edses e na\u00e7\u00e3o agredidos h\u00e1 mais de cem anos, alvos de cobi\u00e7a e conspira\u00e7\u00f5es das pot\u00eancias imperialistas. Culmina na pr\u00f3pria imortalidade de <em>shaheeds<\/em> em escala de milhares, quase milh\u00f5es.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O mart\u00edrio da Voz da Palestina<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Shireen Abu Akleh foi assassinada no dia 11 de maio deste corrente ano pelas for\u00e7as da ocupa\u00e7\u00e3o que marcaram toda sua vida. A rep\u00f3rter que come\u00e7ou a trabalhar na emissora Al Jazeera em 1997, nasceu em Jerusal\u00e9m Oriental (Al Quds), no ano de 1971, j\u00e1 sob a ocupa\u00e7\u00e3o estrangeira. Sua vida foi ap\u00f3s a Naksa e sua exist\u00eancia devotou-se para combater os efeitos nefastos concretizados na Nakba.<\/p>\n\n\n\n<p>Shireen era de fam\u00edlia melquita, cat\u00f3lica bizantina, uma das cl\u00e1ssicas igrejas crist\u00e3s do Oriente, mais pr\u00f3xima do cristianismo de Issa e n\u00e3o do Imp\u00e9rio que matou o Messias. Como Eescho, foi assassinada por invasores, \u00e0 luz do dia e identificada como jornalista; e n\u00e3o combatente, sequer manifestante. Ela lutava com os instrumentos da fala, da palavra e da verdade dos fatos.<\/p>\n\n\n\n<p>A rep\u00f3rter tinha cidadania estadunidense, como milhares de palestinas e palestinos, em especial os de fam\u00edlias crist\u00e3s. A presen\u00e7a de \u201ccananeus da Filisteia\u201d no territ\u00f3rio estatal formado pelas 13 col\u00f4nias invasoras europeias data de mais de um s\u00e9culo. Ela poderia ter ficado nos EUA, e n\u00e3o h\u00e1 dem\u00e9rito algum nisso. Mas, como quase sempre acontece, a terra lhe chamou de novo, e pela devo\u00e7\u00e3o \u00e0 verdade, encontrou o mart\u00edrio atrav\u00e9s do fuzil dos tiranos coloniais.<\/p>\n\n\n\n<p>Como se n\u00e3o bastasse, teve seu vel\u00f3rio violado, com repress\u00e3o, pris\u00f5es, apostasia contra sua igreja melquita, agress\u00e3o contra o ato ecum\u00eanico. Nada foi escondido, ceifaram sua vida \u00e0 luz do dia e brutalizaram o ritual de passagem sob o sol da Palestina Ocupada. Shireen exemplifica o mart\u00edrio do povo palestino.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O fim da hipocrisia, o reino do eufemismo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Cada vez mais o cinismo deixa de ser parte da liturgia do Terrorismo de Estado, o motor da economia de guerra que alimenta a entidade colonial sionista apelidada pelos invasores como \u201cEstado de Israel\u201d. Se todas as chacinas e massacres oficiais at\u00e9 a d\u00e9cada de 1980 foram praticados pelos trabalhistas sionistas, ap\u00f3s a segunda invas\u00e3o do L\u00edbano, o crime de Sabra e Chatila e o in\u00edcio da 1\u00aa Intifada, a \u201cdireita\u201d israelense come\u00e7a a ser hegem\u00f4nica na pol\u00edtica dom\u00e9stica no interior do Apartheid.<\/p>\n\n\n\n<p>Pararam de se poupar internamente (at\u00e9 mataram um ex-comandante da Palmach), aumentaram a divis\u00e3o social dentro dos ocupantes, importaram cada vez mais popula\u00e7\u00e3o, incluindo centenas de milhares de europeus de f\u00e9 judaica dos espa\u00e7os p\u00f3s-sovi\u00e9ticos. Como toda sociedade fundada em um crime \u2013 a expuls\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o origin\u00e1ria de sua terra natal -, e justificada por outro crime \u2013 a tenebrosa persegui\u00e7\u00e3o aos judeus europeus pelos nazistas \u2013 vive sob tens\u00e3o interna e externaliza no \u201coutro\u201d seus pr\u00f3prios dem\u00f4nios.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u201coutro\u201d \u00e9 sempre o alvo permanente, a legitimidade de quem l\u00e1 reside h\u00e1 mais de tr\u00eas mil anos, o fato de que at\u00e9 a tal \u201cdi\u00e1spora europeia\u201d tem tanta veracidade como o dil\u00favio a inundar todo o planeta. Pouco importa a verdade hist\u00f3rica, o fato concreto, as alian\u00e7as sem fim das col\u00f4nias sionistas com os imp\u00e9rios de turno, com prefer\u00eancia para o \u201cmandato\u201d brit\u00e2nico e iman\u00eancia dentro do Congresso dos EUA.<\/p>\n\n\n\n<p>Se o polon\u00easDavid Gr\u00fcn (apelidado de David Ben Gurion) organizava a informa\u00e7\u00e3o colonial e for\u00e7as paramilitares auxiliando os cruzados ingleses, seus descendentes como governadores coloniais, colocam a popula\u00e7\u00e3o leal n\u00e3o europeia como ponta de lan\u00e7a da limpeza \u00e9tnica. Mizrahins e afrodescendentes s\u00e3o a bucha de canh\u00e3o dos invasores, como os regimentos coloniais brit\u00e2nicos empregavam gurkhas e sikhs contra punjabis, hindis e t\u00e2miles. Manobra antiga, manipulada atrav\u00e9s da lente de \u00faltima gera\u00e7\u00e3o financiada como \u201cajuda militar\u201d vinda do Departamento de Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>As mesmas c\u00e2meras que abordam a tudo como \u201cdisputa narrativa\u201d, os embates sem fim com os \u201csionistas de esquerda\u201d (eu mesmo j\u00e1 entrei nessa vala comum e n\u00e3o sa\u00ed sem estar sujo), ganham ainda mais intensidade quando o inimigo cria um minist\u00e9rio para tal. Atende eufemisticamente como Minist\u00e9rio de Assuntos Estrat\u00e9gicos e Diplomacia P\u00fablica de Israel e acusa a tudo e a todos que combatem os invasores como \u201cantissemitas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Quase sempre \u00e9 a mesma ladainha. Europeus de f\u00e9 judaica e apoiadores da ocupa\u00e7\u00e3o da Palestina acusam a semitas ou descendentes de semitas de serem \u201cantissemitas\u201d! E enquanto do lado de c\u00e1 do oceano entramos em embates de palavras, em Al Quds o inimigo assassina uma rep\u00f3rter, aut\u00eantica \u201ctecel\u00e3 das letras\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A mira dos fuzis do ex\u00e9rcito de ocupa\u00e7\u00e3o traz outro eufemismo: For\u00e7as de \u201cDefesa\u201d de Israel. Curioso. Os brancos do Apartheid Sul-Africano tamb\u00e9m estavam se \u201cdefendendo\u201d, tanto na pol\u00edtica interna como dos pa\u00edses independentes da \u00c1frica Austral. O recrutamento tamb\u00e9m \u00e9 incessante. Deste modo, um jovem de classe m\u00e9dia ou alta no Brasil, pode ir para a Palestina Ocupada e gozar de direitos de ocupante, desde que sirva \u00e0s For\u00e7as de \u201cDefesa\u201d assassinando crian\u00e7as, <a><\/a>mulheres e outros jovens como ele ou ela.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A imortalidade da Voz da Palestina<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Toda a guerra de propaganda do inimigo, empregando termos em ingl\u00eas como \u201cgreenwashing\u201d, \u201cpinkwashing\u201d, cai por terra quando o caix\u00e3o de Shireen \u00e9 atacado, e esta agress\u00e3o \u00e9 transmitida em escala planet\u00e1ria. O projeto colonial atrai capitais transnacionalizados e tem penetra\u00e7\u00e3o em importantes centros de decis\u00e3o, como Washington, Londres, mas tamb\u00e9m Moscou e Berlim. No mundo europeu e anglo-sax\u00e3o, faz o que pode para se colocar como aliado fundamental, ou grupo de press\u00e3o imbat\u00edvel na pol\u00edtica dom\u00e9stica das democracias ocidentais.<\/p>\n\n\n\n<p>Shireen era crist\u00e3, mulher, independente, profissional consagrada, voz ativa e altiva. Conhecida mundialmente, venerada no Mundo \u00c1rabe e Isl\u00e2mico. A rep\u00f3rter da Al Jazeera carregava em si toda a quebra de estere\u00f3tipos muito bem trabalhados pelos invasores. As fam\u00edlias palestinas s\u00e3o \u201catrasadas\u201d, inimigas do progresso e do ocidente, o arabismo \u00e9 anti-crist\u00e3o e outras mentiras mais. De novo, pouco importa para o caluniador lembrar que o pan-arabismo, o movimento nacional \u00e1rabe e as lutas de liberta\u00e7\u00e3o nasceram umbilicalmente ligadas a fam\u00edlias crist\u00e3s, como de Abu Akleh, Habash, Hawatmeh, Aflaq, Zaydan, Said e centenas de outras.<\/p>\n\n\n\n<p>A entidade sionista se porta como a iluminada civiliza\u00e7\u00e3o francesa, celebrando a liberta\u00e7\u00e3o de Paris dos ocupantes nazistas, e logo depois torturando \u00e1rabes e vietnamitas, empregando at\u00e9 mercen\u00e1rios que serviram aos antigos inimigos. O cinismo colonial n\u00e3o tem fim nem limite, e menos ainda a defesa do \u201cprivil\u00e9gio hist\u00f3rico\u201d que denomina de \u201cconflito\u201d uma luta popular t\u00e3o assim\u00e9trica como a greve geral seguida da Grande Revolta \u00c1rabe na Palestina contra os tiranos do Mandato Brit\u00e2nico e seus protegidos europeus.<\/p>\n\n\n\n<p>Choramos nossas m\u00e1rtires e seguimos. A Palestina e o Bilad al-Sham s\u00e3o imortais, assim como a Voz da Palestina atrav\u00e9s do exemplo de Shireen Abu Akleh.<\/p>\n\n\n\n<p>Artigo originalmente publicado no Monitor do Oriente M\u00e9dio<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bruno Beaklini (@estanalise) O artigo que segue distingue dos demais produzidos semanalmente por este analista. Temos an\u00e1lise, mas mesclada com ensaio e a indigna\u00e7\u00e3o pela crueza dos fatos e a crueldade do opressor. 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