{"id":2951,"date":"2022-07-08T11:02:37","date_gmt":"2022-07-08T14:02:37","guid":{"rendered":"https:\/\/estrategiaeanaliseblog.com\/?p=2951"},"modified":"2023-03-13T21:58:06","modified_gmt":"2023-03-14T00:58:06","slug":"a-rebeliao-indigena-e-popular-no-equador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=2951","title":{"rendered":"A rebeli\u00e3o ind\u00edgena e popular no Equador"},"content":{"rendered":"\n<p>Bruno Beaklini (@estanalise) \u2013 junho e julho de 2022<\/p>\n\n\n\n<p>Em 30 de junho adentrava a noite em Quito quando o ainda presidente Guillermo Lasso assinava a Ata de Paz, resultado de 18 dias de protestos. Tr\u00eas dias antes, segundo a m\u00eddia conservadora, o pa\u00eds estava quase entrando em colapso, a julgar pela interrup\u00e7\u00e3o de sistemas de transportes e alguns setores estrat\u00e9gicos.<\/p>\n\n\n\n<p>Na segunda-feira, 27 de junho do corrente ano,&nbsp;a produ\u00e7\u00e3o total de petr\u00f3leo do Equador estava em 234.496 barris por dia (bpd),&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.cnnbrasil.com.br\/internacional\/guillermo-lasso-presidente-do-equador-sobrevive-a-tentativa-de-impeachment\/\">menos da metade da produ\u00e7\u00e3o&nbsp;<\/a>de cerca de 520.000 bpd vista antes dos protestos. Um dos fatores fundamentais da jornada de \u201cParo Nacional\u201d iniciada em 13 de junho, convocada majoritariamente pela Confedera\u00e7\u00e3o das Nacionalidades Ind\u00edgenas do Equador (CONAIE), visava \u00e0 mudan\u00e7a do modelo mineral extrativista exportador. A origem deste processo veio da resposta \u00e0 crise social dada pelo movimento popular liderado pelas nacionalidades dos povos origin\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Na noite de domingo, 12 de junho, a partir da centralidade da Confedera\u00e7\u00e3o, esta e outras quatro organiza\u00e7\u00f5es de maioria ind\u00edgena convocaram a unidade para uma greve geral que se iniciaria no dia seguinte, 13 de junho. A meta \u00e9 o cumprimento dos <a href=\"https:\/\/www.elcomercio.com\/actualidad\/puntos-conaie-protestas-ecuador-lasso.html\">dez pontos de reivindica\u00e7\u00e3o<\/a> imediata, a serem atendidos pelo governo do banqueiro conservador.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<em>1 &#8211; <\/em><em><strong>Redu\u00e7\u00e3o e n\u00e3o mais aumento do pre\u00e7o do combust\u00edvel<\/strong><\/em><em>. Congelar o diesel em US$ 1,50 e gasolina extra e ecopa\u00eds em US$ 2,10, revogar os decretos 1158, 1183, 1054, e entrar no processo de direcionamento aos setores que precisam de subs\u00eddio: agricultores, camponeses, transportadores, pescadore<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>2 &#8211; <\/em><em><strong>Al\u00edvio econ\u00f4mico<\/strong><\/em><em> para mais de 4 milh\u00f5es de fam\u00edlias com morat\u00f3ria de pelo menos um ano e renegocia\u00e7\u00e3o de d\u00edvidas com redu\u00e7\u00e3o das taxas de juros do sistema financeiro (bancos p\u00fablicos e privados e cooperativas). N\u00e3o \u00e0 apreens\u00e3o de bens como casas, terrenos e ve\u00edculos por falta de pagamento.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>3 &#8211; <\/em><em><strong>Pre\u00e7os justos para produtos agr\u00edcolas<\/strong><\/em><em>: leite, arroz, banana, cebola, fertilizantes, batata, milho, tomate e muito mais; n\u00e3o \u00e0 cobran\u00e7a de royalties sobre flores. Para que milh\u00f5es de camponeses, pequenos e m\u00e9dios produtores tenham garantia de apoio e continuem produzindo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>4 &#8211; <\/em><em><strong>Emprego e direitos trabalhistas<\/strong><\/em><em>. Pol\u00edticas e investimentos p\u00fablicos para conter a precariza\u00e7\u00e3o do trabalho e garantir a sustentabilidade da economia popular. Exigir o pagamento de d\u00edvidas ao Instituto Equatoriano de Seguridade Social (IESS).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>5 &#8211; <\/em><em><strong>Morat\u00f3ria sobre a amplia\u00e7\u00e3o da fronteira extrativa<\/strong><\/em><em> mineradora\/petrol\u00edfera, auditoria e repara\u00e7\u00e3o integral dos impactos socioambientais. Para a prote\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rios, fontes de \u00e1gua e ecossistemas fr\u00e1geis. Revoga\u00e7\u00e3o dos Decretos 95 e 151.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>6 &#8211; <\/em><em><strong>Respeito aos 21 direitos coletivos<\/strong><\/em><em>: Educa\u00e7\u00e3o Intercultural Bil\u00edngue, justi\u00e7a ind\u00edgena, consulta pr\u00e9via, livre e informada, organiza\u00e7\u00e3o e autodetermina\u00e7\u00e3o dos povos ind\u00edgenas.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>7 &#8211; <\/em><em><strong>Parar a privatiza\u00e7\u00e3o de setores estrat\u00e9gicos<\/strong><\/em><em>, heran\u00e7a dos equatorianos (Banco del Pac\u00edfico, hidrel\u00e9tricas, IESS, CNT, rodovias, sa\u00fade), entre outros.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>8 &#8211; <\/em><em><strong>Pol\u00edticas de controle de pre\u00e7os<\/strong><\/em><em> e especula\u00e7\u00e3o no mercado de bens de primeira necessidade, realizadas por intermedi\u00e1rios e abuso de pre\u00e7os em produtos industrializados em redes de supermercados.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>9 &#8211; <\/em><em><strong>Sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o<\/strong><\/em><em>. Or\u00e7amento urgente em face da escassez nos hospitais por falta de medicamentos e pessoal. Garantir o acesso dos jovens ao ensino superior e melhoria da infraestrutura nas escolas, faculdades e universidades.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>10 &#8211; <\/em><em><strong>Seguran\u00e7a, prote\u00e7\u00e3o e gera\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas<\/strong><\/em><em> eficazes para deter a onda de viol\u00eancia, assassinatos por encomenda, delinqu\u00eancia, narcotr\u00e1fico, sequestros e crime organizado que mant\u00e9m o Equador em perigo.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Um pa\u00eds dolarizado onde o protesto ind\u00edgena \u00e9 o fiel da balan\u00e7a<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Sem expor os pontos de reivindica\u00e7\u00e3o simplesmente se torna imposs\u00edvel compreender as raz\u00f5es de uma luta nacional, que a exemplo da jornada de 2019, totalizaram dezoito dias. N\u00e3o foi a primeira jornada nacional, aquilo que em espanhol se costuma chamar de \u201cpueblada\u201d e pelo visto est\u00e1 longe de ser a \u00faltima. Em fevereiro de 1997 o ent\u00e3o presidente e ex-comediante Abdal\u00e1 Bucaram, foi destitu\u00eddo ap\u00f3s uma intensa jornada de protestos. Em janeiro de 2000, o presidente Jamil Mahuad decreta a dolariza\u00e7\u00e3o da economia equatoriana. Antes do fim do m\u00eas, outro levante popular, oportunisticamente apoiado pelas for\u00e7as armadas, resultou na sua derrocada e em golpe de Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2003 o coronel Lucio Guti\u00e9rrez ganhou a Presid\u00eancia com um discurso popular, aliado aos ind\u00edgenas e com um vi\u00e9s alvaradista (a tradi\u00e7\u00e3o militar nacionalista do vizinho Peru). Dois anos depois, ap\u00f3s abandonar a lealdade com sua base nos povos origin\u00e1rios, viu um levante por esquerda e uma indigna\u00e7\u00e3o pela direita, culminando com sua destitui\u00e7\u00e3o em abril de 2006. Rafael Correa foi eleito em janeiro de 2007, com uma plataforma nacionalista e de centro-esquerda, durou dez anos no poder, emplacou seu sucessor (Lenin Moreno) e foi tra\u00eddo por este.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos anos seguintes, mais regress\u00e3o neoliberal, e a rebeli\u00e3o chamada de \u201cestallido social\u201d de outubro de 2019, congregando a oposi\u00e7\u00e3o por esquerda ao correismo, como tamb\u00e9m as for\u00e7as sociais e pol\u00edticas aliadas do ex-presidente. Em conson\u00e2ncia com as lutas no Chile e Col\u00f4mbia, mas com um tra\u00e7o de protagonismo e auto-organiza\u00e7\u00e3o ind\u00edgena superior aos demais pa\u00edses sul-americanos (com exce\u00e7\u00e3o da Bol\u00edvia), o governo do traidor quase renunciou e se viu em xeque. O pleito foi vencido pelo banqueiro que concorria pela terceira, aproveitando a divis\u00e3o do voto origin\u00e1rio ap\u00f3s a terceira posi\u00e7\u00e3o ter sido ocupada pelo advogado neoliberal ind\u00edgena, Yaku P\u00e9rez,rachando a base da CONAIE e quase chegando ao segundo turno. Com a posi\u00e7\u00e3o rachada das nacionalidades, sendo que P\u00e9rez j\u00e1 dera apoio a Lasso em 2017, o especulador terminou empossado no Pal\u00e1cio de Carondelet.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A extrema depend\u00eancia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O Equador tem na riqueza mineral e agro-exportadora sua principal fonte de renda e tamb\u00e9m modelo de acumula\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria. Essa condi\u00e7\u00e3o, mais o desemprego e informalidade em grandes centros como Quito e Guaiaquil, eleva a press\u00e3o de uma economia dolarizada e sequestrada por discursos de \u201causteridade\u201d. Tanto o modelo econ\u00f4mico como o fato de n\u00e3o ter uma moeda nacional, amplia a depend\u00eancia das fam\u00edlias junto \u00e0s massas migrat\u00f3rias que chegaram nos EUA na virada do s\u00e9culo e incide sobre o bem estar coletivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro fator que atinge o pa\u00eds em sua coluna vertebral \u00e9 o terrorismo de Estado. Tal como na Col\u00f4mbia e no Chile em 2019, 2020 e 2021, a repress\u00e3o foi brutal, tendo mortos, desaparecidos e den\u00fancias de centros de tortura. Evidente que \u00e9 imposs\u00edvel reconciliar com as institui\u00e7\u00f5es formais, quando estas s\u00e3o a primeira linha de defesa dos privil\u00e9gios, do colonialismo interno e da depend\u00eancia externa.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde a guerra contra o Peru (Guerra de Cenepa, trinta dias em janeiro e fevereiro de 1995, com a vit\u00f3ria peruana) que as for\u00e7as armadas d\u00e3o a palavra final sobre a continuidade ou n\u00e3o dos mandatos presidenciais. Se na virada do s\u00e9culo havia certa inclina\u00e7\u00e3o nacionalista e pr\u00f3-ind\u00edgena, passadas duas d\u00e9cadas, as posi\u00e7\u00f5es dos altos mandos militares \u2013 semelhante ao Brasil &#8211; mais se preocupam com seus vencimentos do que com a realidade social do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos estes fatores for\u00e7am uma condi\u00e7\u00e3o de fato: ou a maioria se organiza a partir de suas for\u00e7as sociais permanentes, ou simplesmente as condi\u00e7\u00f5es de vida s\u00f3 v\u00e3o piorar. A densidade populacional ind\u00edgena faz da CONAIE o fiel da balan\u00e7a no Equador. Ao nacionalizar o programa de reivindica\u00e7\u00f5es, pela segunda vez a Confedera\u00e7\u00e3o tem a chance de mudar os rumos da heran\u00e7a maldita da coloniza\u00e7\u00e3o e do imperialismo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bruno Beaklini (@estanalise) \u2013 junho e julho de 2022 Em 30 de junho adentrava a noite em Quito quando o ainda presidente Guillermo Lasso assinava a Ata de Paz, resultado de 18 dias de protestos. 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