{"id":2955,"date":"2022-07-11T17:07:21","date_gmt":"2022-07-11T20:07:21","guid":{"rendered":"https:\/\/estrategiaeanaliseblog.com\/?p=2955"},"modified":"2023-03-13T21:58:06","modified_gmt":"2023-03-14T00:58:06","slug":"a-luta-brasileira-contra-a-manipulacao-identitaria-vinda-do-partido-democrata-dos-eua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=2955","title":{"rendered":"A luta brasileira contra a manipula\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria vinda do Partido Democrata dos EUA"},"content":{"rendered":"\n<p>Bruno Lima Rocha Beaklini &#8211; julho de 2022 (@estanalise)<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Infelizmente a desgra\u00e7a n\u00e3o chega aos poucos mas em geral de uma vez s\u00f3. Ent\u00e3o, assim como temos o avan\u00e7o da extrema direita, simultaneamente, a perda de organicidade nos partidos pol\u00edticos, o culto \u00e0 personalidade e os individualismos crescem a ritmos alucinantes. Proponho aqui um debate amplo, franco e sincero, sem censura pr\u00e9via, entrando nos meandros do problema da manipula\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria e do imperialismo multicolorido, aquele que vem junto com o selo do Partido Democrata dos EUA.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes que comece o cancelamento, que obviamente se dar\u00e1, ressalto que quem escreve defende as lutas espec\u00edficas, setoriais ou como queiram chamar a muito tempo, e perten\u00e7o a uma corrente de pensamento pol\u00edtico que n\u00e3o v\u00ea no operariado fabril imagin\u00e1rio a centralidade de um processo hist\u00f3rico pr\u00e9-evocado. Sugiro leitura atenta e aprofundada, sem preconceitos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A luta contra a manipula\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Sei que o tema \u00e9 &#8220;pol\u00eamico&#8221;, mas tem uma dist\u00e2ncia abissal entre a defesa do direito ao reconhecimento e a pol\u00edtica identit\u00e1ria. Em paralelo a Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato (o Lawfare que chegou no Brasil no final de 2014), estamos colonizados pela agenda do Partido Democrata dos U$A e toda a confus\u00e3o que isso gera.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo que Bolsonaro perca nas elei\u00e7\u00f5es gerais de 2022, vai ser dif\u00edcil voltar aos conceitos base de que &#8220;representatividade&#8221; vem de delega\u00e7\u00e3o coletiva e n\u00e3o uma condi\u00e7\u00e3o dada pela pir\u00e2mide \u00e9tnico-social. Enfim, &#8220;intelectual org\u00e2nico&#8221; est\u00e1 organizado e serve a uma causa coletiva e n\u00e3o apenas se serve dela.<\/p>\n\n\n\n<p>Seguindo no tema. \u00c9 evidente que \u00e9 importante respeitar o estatuto da representatividade, em especial naquilo que \u00e9 exposto para al\u00e9m das organiza\u00e7\u00f5es. Mas, representar implica em delega\u00e7\u00e3o coletiva e, al\u00e9m de ter perten\u00e7a \u00e9tnica, de g\u00eanero ou origem territorial, estar de acordo e \u00e0 altura do que a organiza\u00e7\u00e3o, partido ou movimento quer e expressa em suas inst\u00e2ncias coletivas. Fora do debate amplo e com democracia interna nas inst\u00e2ncias corretas, toda a discurseira \u00e9 pura tirania multicolorida.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 \u00f3bvio que \u00e9 importante ter representa\u00e7\u00e3o social na interna de organiza\u00e7\u00f5es e partidos pol\u00edticos. E, a presen\u00e7a nas fun\u00e7\u00f5es executivas podem ter um sistema de paridade. O que defendemos nas cotas, por exemplo, pode ser reproduzido nas internas pol\u00edticas. Mas isso \u00e9 um dos crit\u00e9rios.<\/p>\n\n\n\n<p>O outro \u00e9 o preparo. Se a milit\u00e2ncia n\u00e3o est\u00e1 preparada para as fun\u00e7\u00f5es que tem de exercer, a\u00ed se sobrecarrega no discurso, no &#8220;ato e lugar de fala&#8221;, cada reuni\u00e3o vira um teatro e a vida org\u00e2nica um palco. Ao inv\u00e9s de decidir coletivamente, cada qual, cada uma, cada um cada unx vai se expressar como bem entender. O coletivo se transforma numa miscel\u00e2nea sem prop\u00f3sito a n\u00e3o ser atender as demandas privadas ou quando muito setoriais. Assim n\u00e3o tem for\u00e7a pol\u00edtica que consiga operar, talvez sequer existir.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O Partido Democrata e o identitarismo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o adianta esconder a realidade, ao menos \u00e9 a vis\u00e3o deste que escreve. Temos uma necessidade concreta de afirma\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas de g\u00eanero, \u00e9tnico-raciais e a busca de outro padr\u00e3o de desenvolvimento. Isso \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o absoluta.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra condi\u00e7\u00e3o, danosa e daninha para a Am\u00e9rica Latina, \u00e9 a reprodu\u00e7\u00e3o da cultura pol\u00edtica da &#8220;esquerda&#8221; do Partido Democrata dos EUA, que tende \u00e0 fragmenta\u00e7\u00e3o das lutas e a cria\u00e7\u00e3o de uma vers\u00e3o mais &#8220;popular&#8221; do conceito de VIP.<\/p>\n\n\n\n<p>Da\u00ed de &#8220;pessoa muito importante&#8221;, temos as &#8220;pessoas muito interessantes&#8221;, VIPs no plural da l\u00edngua inglesa. E de personagem em personagem o debate pol\u00edtico vai morrendo, o direito pol\u00edtico sofrendo chantagens de cancelamento e os temas estruturantes &#8211; como a defesa de pol\u00edticas p\u00fablicas justamente para os setores mais vulner\u00e1veis &#8211; v\u00e3o ficando ref\u00e9ns das estrelas de momento do algoritmo no capitalismo de plataforma.<\/p>\n\n\n\n<p>A outra insanidade coletiva \u00e9 o tal do &#8220;opress\u00f4metro&#8221;, onde a a\u00e7\u00e3o da estrutura social ficaria individualizada e personalizada. No alto da cadeia alimentar do capitalismo at\u00e9 a base do sistema, mas em termos de simbologia individual, logo individualista.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, ao inv\u00e9s de termos sa\u00eddas coletivas, por setores mesmo, temos pessoas afirmando algum tipo de reputa\u00e7\u00e3o p\u00fablica via redes sociais e substituindo a luta coletiva. Um fen\u00f4meno parecido se deu na febre das ONGs, dos &#8220;ongueiros profissionais&#8221;. N\u00e3o tinha mais luta social, era tudo projeto de agenda positiva. Nada mais semelhante do que a ala progressista do Partido Democrata.<\/p>\n\n\n\n<p>Os projetos institucionais n\u00e3o est\u00e3o &#8211; neste modelo &#8211; subordinados \u00e0 luta pol\u00edtica e \u00e0s inst\u00e2ncias com algum grau de democracia interna. N\u00e3o, \u00e9 ao contr\u00e1rio, e a representa\u00e7\u00e3o da &#8220;sociedade civil&#8221; termina sendo uma ONG ou Funda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora piorou, porque indiv\u00edduos ganham reputa\u00e7\u00e3o por algum canal &#8211; como por exemplo o sionista Jean Willys &#8211; e a\u00ed entra como chamariz de holofotes para a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Tem por direita tamb\u00e9m, como a T\u00e1bata Amaral e demais projetos de clones do Lemann. Na aus\u00eancia de debate coletivo, \u00e9 uma esp\u00e9cie de meritocracia da representatividade, onde os exemplos refor\u00e7ados pelos aparatos de m\u00eddia e afins s\u00f3 refor\u00e7am a regra.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>As armadilhas da luta identit\u00e1ria nos EUA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Pode parecer estranho, mas tenho certa familiaridade com a esquerda dos EUA e suas m\u00faltiplas lutas modernas, desde o 1o de maio de Chicago em 1886, at\u00e9 os embates contra o trumpismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Tem a\u00e7\u00e3o afirmativa de sobra e pol\u00edtica p\u00fablica de menos. Os gringos trocaram o modelo econ\u00f4mico dom\u00e9stico nos anos 80 ap\u00f3s sua crise estutural nos 70. Resultado: cortar na pr\u00f3pria carne e decretar a mis\u00e9ria e a drogadic\u00e7\u00e3o como arma de guerra interna.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos os \u00edndices de pobreza e mis\u00e9ria s\u00e3o mais fortes nas comunidades afro americanas e latino-americanas, a propor\u00e7\u00e3o \u00e9 20% de ingresso nas tomadas de decis\u00e3o e dom\u00ednio do PIB e os demais 80% sobrevivendo entre a repress\u00e3o e as d\u00edvidas.<\/p>\n\n\n\n<p>O governo Obama n\u00e3o mudou nada dessa estrutura, nada, mas recuperou a economia de empregos ruins, com baixos sal\u00e1rios e com cada vez menos direitos trabalhistas.<\/p>\n\n\n\n<p>No n\u00edvel de base, as iniciativas s\u00e3o in\u00fameras e excelentes, mas, a articula\u00e7\u00e3o nacional passa ainda pela chantagem da &#8220;esquerda&#8221; do Partido Democrata e sua inclus\u00e3o seletiva, como com a vice presidenta Kamala &#8220;Dirty&#8221; Harris, que fez sua carreira pol\u00edtica mandando em cana negros e chicanos.<\/p>\n\n\n\n<p>Basta pisar na Gringol\u00e2ndia que j\u00e1 somos latinoamericanos e n\u00e3o &#8220;brasileiros socialmente brancos&#8221; como aqui. \u00c9 uma baita experi\u00eancia pol\u00edtica e ajuda a n\u00e3o reproduzir em nosso pa\u00eds as mesmas armadilhas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>As armadilha da luta identit\u00e1ria no Brasil como repodu\u00e7\u00e3o dos EUA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nada \u00e9 mais poderoso no Brasil do que a massifica\u00e7\u00e3o da luta anti racista e de liberta\u00e7\u00e3o p\u00f3s colonial. Justo por isso o capital, o liberalismo e industria cultural v\u00e3o fazer o poss\u00edvel para constru\u00edrem uma iconograf\u00eda de ascens\u00e3o social, produzindo Gil do Vigor, Jean Willys, Karol com K e mais um monte de gente sem forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e com grande capacidade de influ\u00eancia via redes sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>A luta \u00e9 bem cruel. Barack Obama e Kamala Harris apontaram o caminho a n\u00e3o ser seguido, mas que a social democracia pode abra\u00e7ar o tempo todo. Intelectuais importantes como Silvio Almeida, quando se metem a fazer pol\u00edtica ferram tudo, como ele mesmo caiu na armadilha do Carrefour. A Teia nos d\u00e1 muita esperan\u00e7a assim como a Luta Quilombola, mas ao mesmo tempo, amplia o abismo entre campo e cidade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Apontando alguma conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 reclamar n\u00e3o adianta e menos ainda ficar xingando gera\u00e7\u00f5es que nasceram como nativas da internet. O trabalho pol\u00edtico organizativo ainda \u00e9 insuper\u00e1vel e pode perfeitamente abarcar todas as lutas espec\u00edficas e incidir no conjunto da sociedade. Se falta teoria pol\u00edtica, ou se esta precisa ser retomada, \u00e9 outra tarefa e cada vez mais urgente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bruno Lima Rocha Beaklini &#8211; julho de 2022 (@estanalise) Introdu\u00e7\u00e3o Infelizmente a desgra\u00e7a n\u00e3o chega aos poucos mas em geral de uma vez s\u00f3. Ent\u00e3o, assim como temos o avan\u00e7o da extrema direita, simultaneamente, a perda de organicidade nos partidos pol\u00edticos, o culto \u00e0 personalidade e os individualismos crescem a ritmos alucinantes. 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