{"id":2961,"date":"2022-08-01T15:19:49","date_gmt":"2022-08-01T18:19:49","guid":{"rendered":"https:\/\/estrategiaeanaliseblog.com\/?p=2961"},"modified":"2023-03-13T21:58:06","modified_gmt":"2023-03-14T00:58:06","slug":"a-permanente-crise-da-america-latina-agora-e-a-vez-da-argentina-e-do-panama","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=2961","title":{"rendered":"A permanente crise da Am\u00e9rica Latina: agora \u00e9 a vez da Argentina e do Panam\u00e1"},"content":{"rendered":"\n<p>Bruno Beaklini (@estanalise) \u2013 julho 2022<\/p>\n\n\n\n<p>Ao contr\u00e1rio do que costumamos publicar neste portal, este artigo n\u00e3o ser\u00e1 nem de an\u00e1lise de conjuntura,nem hist\u00f3rico. Dadas as condi\u00e7\u00f5es de perman\u00eancia em nossa Am\u00e9rica Latina, nos cabe ver a depend\u00eancia estruturante do s\u00e9culo XXI e, modestamente, apontar caminhos para sair dessas armadilhas.<\/p>\n\n\n\n<p>Comecemos por n\u00f3s mesmos. Esta publica\u00e7\u00e3o se dedica aos temas do Oriente M\u00e9dio, do Mundo \u00c1rabe e dos pa\u00edses de maioria isl\u00e2mica. Nos pa\u00edses latino-americanos, em maior ou menor propor\u00e7\u00e3o, havendo col\u00f4nias dos distintos territ\u00f3rios do Bilad al-Sham, todas e todos n\u00f3s descendentes de libaneses, s\u00edrios e palestinos, somos socialmente brancos e podemos estar aculturados e, portanto, ocidentalizados. Logo, carregamos na interna da col\u00f4nia uma vers\u00e3o imigrante do \u201ccriollismo da era da independ\u00eancia\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante da ordem p\u00f3s-colonial, as sociedades concretas rec\u00e9m libertadas do jugo espanhol e portugu\u00eas promoveram como \u201cbrancos do Novo Mundo\u201d as elites olig\u00e1rquicas donas de terra. Essa forma\u00e7\u00e3o de riquezas se deu com o roubo dos povos origin\u00e1rios na forma de acumula\u00e7\u00e3o selvagem, sendo a selvageria europeia diante da espolia\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o nativa. Qualquer semelhan\u00e7a com o Estado artificial sionista criado por europeus na Cananeia dos Filisteus n\u00e3o \u00e9 nenhuma coincid\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, nossos setores mais ativos, tomando como exemplo a pr\u00f3pria Argentina, geraram vergonhosos traidores como Carlos Saul Menem e Alfredo Yabr\u00e1n. A terra de Mar\u00eda Eva Duarte (Evita) tamb\u00e9m nos deu shaheeds de dois mundos como Envar El-Kadri, feday\u00ed, nos cedros e na pampa. Representando a segunda gera\u00e7\u00e3o militante, tivemosa legend\u00e1ria fam\u00edlia Haidar (Ricardo, Mirta e Adriana), incorporando a alma de leoas na forma de jaguares em plena rebeli\u00e3o Montonera.<\/p>\n\n\n\n<p>Infelizmente, a passagem de gera\u00e7\u00f5es nos fez de parte da classe trabalhadora de origem imigrante para uma parcela da elite euroc\u00eantrica, l\u00f3cus sociol\u00f3gico onde tamb\u00e9m se encontram outras col\u00f4nias n\u00e3o europeias, como a nip\u00f4nica. \u00c9 essa a const\u00e2ncia da forma\u00e7\u00e3o social concreta dos pa\u00edses latino-americanos. Em maior ou menor escala, a classe dominante se mescla com a elite dirigente, se subordinam ao controle do sistema financeiro (nacional e transnacional) e com alguns setores estamentais (como os militares de alta patente), al\u00e9m de se comportarem como oligarcas latifundi\u00e1rios ou, quando muito, feitores dos desmandos especulativos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A desindustrializa\u00e7\u00e3o gera mais depend\u00eancia externa<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Evidente que cada pa\u00eds moderno na Am\u00e9rica Latina tem sua pr\u00f3pria conforma\u00e7\u00e3o e os subsistemas regionais \u2013 Cone Sul, Zona Andina, Centro Am\u00e9rica, Caribe e Antilhas, M\u00e9xico, Brasil, Amaz\u00f4nia Sul-Americana &#8211; falam muito das correla\u00e7\u00f5es de for\u00e7a e a presen\u00e7a ou n\u00e3o de tropas estadunidenses (caso colombiano). Ainda com o subdesenvolvimento diversificado, alguns tra\u00e7os s\u00e3o comuns.<\/p>\n\n\n\n<p>Nossas moedas perdem valor muito rapidamente, e uma parcela dessa responsabilidade est\u00e1 no fato de que o dinheiro local pode ser substitu\u00eddo como reserva de valor e unidade cont\u00e1bil. Assim, a dolariza\u00e7\u00e3o interna deforma pre\u00e7os e ataca o valor real das reservas nacionais. Uma parcela dos produtores de <em>commodities<\/em> agr\u00edcolas estocam para especula\u00e7\u00e3o e outra parcela dessa produ\u00e7\u00e3o gera termos de troca desvantajosos para o pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Vejamos o exemplo da Argentina. At\u00e9 o fechamento deste artigo, o governo Alberto Hern\u00e1ndez estava montando um pacote para controlar a especula\u00e7\u00e3o interna e, ao menos, garantir tanto o abastecimento de produtos essenciais como o b\u00e1sico de ingressos para a maioria ter renda de sobreviv\u00eancia. De sua parte, a oligarquia e o conjunto dos grupos de comunica\u00e7\u00e3o de envergadura nacional (exce\u00e7\u00e3o aos canais esportivos, p\u00fablicos e a rede C5N) fica pregando que a \u201cinterven\u00e7\u00e3o do Estado na economia\u201d vai gerar ainda mais crise.<\/p>\n\n\n\n<p>Os n\u00fameros s\u00e3o aterrorizantes. Com o investimento de 0,3% do PIB argentino acaba a extrema pobreza em seis meses. A produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola vem estocando um valor total de 20 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, a economia do contrabando ultrapassa 2 bilh\u00f5es de USD e a perda de riqueza do pa\u00eds ultrapassa os USD 54 bilh\u00f5es. Tal como no Brasil, o Tesouro financia as safras, as vendas s\u00e3o dolarizadas, \u00e9 baixa a tributa\u00e7\u00e3o e parte do valor pago pela Fazenda Nacional se transforma em transfer\u00eancia de renda transnacional, devido ao pagamento de royalties para transg\u00eanicos e taxas de importa\u00e7\u00e3o para fertilizantes e demais insumos.<\/p>\n\n\n\n<p>Parece uma volta no tempo, mas em condi\u00e7\u00f5es piores. Quando da grande depress\u00e3o do s\u00e9culo XX, quase todos os pa\u00edses latino-americanos e com especial \u00eanfase de Brasil, Argentina, Chile e Uruguai, fizeram uma op\u00e7\u00e3o. Industrializar para substituir importa\u00e7\u00f5es. Uma das maneiras de sustentar essa virada estrat\u00e9gica era a emiss\u00e3o e endividamento do Estado. Outra era a convers\u00e3o de excedentes. Fechar no azul com exporta\u00e7\u00f5es prim\u00e1rias e investir pesado em ind\u00fastrias e no setor de desenvolvimento e pesquisa. Para este segundo operar, \u00e9 preciso uma massa de juventude estudantil, da pr\u00e9-escola \u00e0 p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, para garantir uma sociedade civil com voca\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e laica.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a primeira d\u00e9cada perdida da d\u00edvida (anos 1980) e a segunda ru\u00edna (anos 1990), a guinada neoliberal p\u00f3s ditaduras seguia o p\u00e9ssimo exemplo do Chile. Quando o tirano Augusto Pinochet encabe\u00e7ou um golpe de Estado, em 11 de setembro de 1973, a massa trabalhadora chilena era composta por mais de 48% de emprego industrial. Em 1990, quando o operador da CIA deixa o Palacio de La Moneda, a terra de Lautaro seguia mineral exportadora, mas sem ind\u00fastrias quase. Na Argentina passou o mesmo, e esta tend\u00eancia segue no Continente.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a forma\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os agr\u00edcolas baseados em especula\u00e7\u00e3o estrangeira, a exemplo do que ocorre com o petr\u00f3leo e o absurdo \u00edndice Brent, temos o seguinte paradoxo. O Brasil, por exemplo, produz alimentos para quase 1 bilh\u00e3o de seres humanos, mas tem mais de 125 milh\u00f5es com inseguran\u00e7a alimentar e 33 milh\u00f5es na extrema pobreza passando fome. A Argentina produz para mais de 600 milh\u00f5es, mas ao menos 11 milh\u00f5es vivem abaixo da linha de pobreza. Na pr\u00e1tica, a agricultura de intensidade \u00e9 transnacional, e o entreguismo ganha for\u00e7a subsidiando o esp\u00f3lio nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro problema grave \u00e9 o abandono da pr\u00f3pria moeda e o emprego do d\u00f3lar como sistema de trocas e reserva de valor, ainda que no caso panamenho, conviva com o balboa como unidade cont\u00e1bil. O Panam\u00e1 poderia coordenar o com\u00e9rcio Interamericano, mas depende de tributar a navega\u00e7\u00e3o pelo canal e incentiva a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria sem d\u00f3. Segue com o drama de condenar \u00e0 fome a popula\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica urbana (na Cidade do Panam\u00e1 e em Col\u00f3n, por exemplo), assim como faz com a popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena, herdeira de Victoriano Lorenzo e da guerra territorial de 1925 (a Revolu\u00e7\u00e3o Cuna).<\/p>\n\n\n\n<p>As condi\u00e7\u00f5es da revolta s\u00e3o permanentes em ambos os pa\u00edses: pobreza, infla\u00e7\u00e3o, fome, endividamento externo, economia dolarizada, repress\u00e3o sist\u00eamica, especula\u00e7\u00e3o de terras ancestrais e a sensa\u00e7\u00e3o permanente de que o governo nacional ou \u00e9 um gestor de privil\u00e9gios e depend\u00eancia externa (caso panamenho), ou n\u00e3o arrisca o necess\u00e1rio para ao menos garantir as condi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas de vida (atual caso argentino).<\/p>\n\n\n\n<p>O pa\u00eds de Rodolfo Walsh \u00e9 um exemplo gritante: 114 mil argentinos t\u00eam mais de um milh\u00e3o de USD e subordinam internamente a mais de 40 milh\u00f5es. A disparada do d\u00f3lar paralelo esvazia as reservas internacionais e faz a alegria macabra do FMI, que exige o cumprimento do absurdo acordo de endividamento assinado por Mauricio Macri no governo anterior. Tal como no Panam\u00e1, apenas o movimento social organizado e em luta consegue impor as condi\u00e7\u00f5es ao governo nacional e colocar contra a parede os oligarcas e traidores de seu povo.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse texto demonstra o \u00f3bvio. Quando a teoria parece um panfleto, \u00e9 porque a transforma\u00e7\u00e3o concreta da realidade \u00e9 urgente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bruno Beaklini (@estanalise) \u2013 julho 2022 Ao contr\u00e1rio do que costumamos publicar neste portal, este artigo n\u00e3o ser\u00e1 nem de an\u00e1lise de conjuntura,nem hist\u00f3rico. 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