{"id":66,"date":"2008-03-13T19:42:10","date_gmt":"2008-03-13T22:42:10","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/?p=66"},"modified":"2023-03-13T20:43:20","modified_gmt":"2023-03-13T23:43:20","slug":"coletanea-critica-sobre-o-telejornalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=66","title":{"rendered":"Colet\u00e2nea Cr\u00edtica sobre o Telejornalismo"},"content":{"rendered":"<figure class=\"image-container image-post-defautl\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/jornalnacional.jpg\" title=\"O Telejornalismo \u00e9 o produto de informa\u00e7\u00e3o de maior impacto na sociedade contempor\u00e2nea. - Foto:canal13\" alt=\"O Telejornalismo \u00e9 o produto de informa\u00e7\u00e3o de maior impacto na sociedade contempor\u00e2nea. - Foto:canal13\" class=\"image\"><figcaption class=\"fig-caption\">O Telejornalismo \u00e9 o produto de informa\u00e7\u00e3o de maior impacto na sociedade contempor\u00e2nea.<\/figcaption><small itemprop=\"copyrightHolder\" class=\"copyright\"> Foto:canal13<\/small><\/figure>\n<p>Novembro de 2000<\/p>\n<p><strong>Premissas para a cr&iacute;tica<br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p>Em toda discuss&atilde;o ou tema debatido, deve-se partir de um acordo de entendimento m&iacute;nimo. Geralmente tal acordo &eacute; de ordem sem&acirc;ntica, buscando expor a disputa conceitual e n&atilde;o escond&ecirc;-la atrav&eacute;s de palavras. No caso deste trabalho, entendo ser a discuss&atilde;o da linguagem telejornal&iacute;stica fruto de uma premissa. Esta se d&aacute; no campo conceitual, no debate de id&eacute;ias antecessor da forma. As premissas da ind&uacute;stria camuflada por seus mitos e da &quot;opini&atilde;o p&uacute;blica&quot;, em tese fiscalizadora do poder que estaria para servi-la.<\/p>\n<p>A premissa do tema &eacute; a da neutralidade jornal&iacute;stica. Se partirmos da id&eacute;ia-guia que n&atilde;o h&aacute; estudo, constru&ccedil;&atilde;o, discurso, linguagem ou mesmo palavra &quot;neutra&quot;, compreendemos que toda e qualquer empresa da ind&uacute;stria de telejornais gera sua pr&oacute;pria narrativa sobre a realidade coletiva.<\/p>\n<p>Na base da lei, a liberdade de imprensa &eacute; garantida, mas toda e qualquer empresa de difus&atilde;o de massa (r&aacute;dio e televis&atilde;o) &eacute; uma concess&atilde;o de ordem p&uacute;blica. Entenda-se o Estado como gestor do que seria p&uacute;blico e com mandato gerado atrav&eacute;s de um contrato social, inclu&iacute;do neste o monop&oacute;lio da viol&ecirc;ncia e a regulamenta&ccedil;&atilde;o da vida em sociedade. As empresas jornal&iacute;sticas, hoje caracterizadas como uma das partes de grupos de comunica&ccedil;&atilde;o de massa, seriam concession&aacute;rias de um bem p&uacute;blico (a informa&ccedil;&atilde;o de massa transmitida pela televis&atilde;o) cedidas pelo Estado gestor da sociedade e ponderador de conflitos.<\/p>\n<p>O &quot;jogo democr&aacute;tico&quot; implicaria um poder de press&atilde;o da chamada opini&atilde;o p&uacute;blica (as camadas receptoras), sobre as empresas privadas concession&aacute;rias de benef&iacute;cio p&uacute;blico (os grupos de telecomunica&ccedil;&atilde;o) que t&ecirc;m a delega&ccedil;&atilde;o da pr&oacute;pria &quot;democracia de direito&quot; para construir linguagens de comunica&ccedil;&atilde;o social. O telejornal exp&otilde;e e transmite constru&ccedil;&otilde;es de realidade (atrav&eacute;s de linguagens midi&aacute;ticas), partindo de seu pr&oacute;prio ponto de vista. <br \/>\nTamb&eacute;m faz parte do &quot;jogo democr&aacute;tico&quot; hip&oacute;teses de &quot;teoria da brecha&quot;. Partindo de duas premissas, a de que a verdade por si s&oacute; &eacute; transformadora. O olhar do rep&oacute;rter d&aacute; sentido e forma a mat&eacute;ria, o ritmo alucinado de gera&ccedil;&atilde;o das not&iacute;cias permite uma certa &quot;abertura&quot; para a assinatura do profissional de comunica&ccedil;&atilde;o. Desta forma, profissionais seriam disputados por blocos ideol&oacute;gicos, como fazia o antigo PCB ou o consenso da imprensa democr&aacute;tica-nacional do per&iacute;odo da abertura do regime militar. Seu bem mais valioso seria a capacidade, ainda que pequena, de interferir na realidade atrav&eacute;s do texto e do olhar.<\/p>\n<p>Em tese, uma &quot;democracia representativa e de direito&quot; implica em partidos consolidados com programas definidos. Parcelas da popula&ccedil;&atilde;o que seriam formadoras de opini&atilde;o p&uacute;blica, teriam fra&ccedil;&otilde;es organizadas nestes partidos ou sofrendo influ&ecirc;ncia destes agrupamentos pol&iacute;ticos. Nos pap&eacute;is cl&aacute;ssicos das categorias profissionais construtoras de realidades, estes blocos pol&iacute;tico-ideol&oacute;gicos disputariam a forma&ccedil;&atilde;o cultural, a consci&ecirc;ncia nacional e o pr&oacute;prio olhar destes trabalhadores intelectuais. Assim, a pir&acirc;mide receptora t&ecirc;m na sua ponta os int&eacute;rpretes da realidade, cuja fun&ccedil;&atilde;o &eacute; criar &quot;brechas&quot; ou construir sua pr&oacute;pria linguagem dentro dos limites da ind&uacute;stria.<\/p>\n<p>A ind&uacute;stria de comunica&ccedil;&atilde;o teria o jornalista como m&atilde;o de obra produtora de linguagens. Ao mesmo tempo, os profissionais de comunica&ccedil;&atilde;o s&atilde;o parte da popula&ccedil;&atilde;o formadora de opini&atilde;o p&uacute;blica. Como produtora de mensagens, esta categoria seria disputada por blocos de opini&atilde;o, oscilando entre algumas influ&ecirc;ncias. Os interesses econ&ocirc;mico-pol&iacute;ticos, e a fronteira entre ambos &eacute; t&atilde;o t&ecirc;nue como confusa. Seus pr&oacute;prios pontos de vista, que s&atilde;o tamb&eacute;m pr&eacute;-moldados e propositadamente confundidos com os da ind&uacute;stria (vide manuais de reda&ccedil;&atilde;o e a autocensura). Somadas estas as raz&otilde;es de mercado e a fun&ccedil;&atilde;o exercida nos grupos para os quais trabalha.<\/p>\n<p>De sua parte, a ind&uacute;stria em si se equilibraria entre as raz&otilde;es de mercado, tabelas de anunciantes, choques e conflu&ecirc;ncias de interesses. Isto sem perder de vista que seu produto &eacute; informa&ccedil;&atilde;o e sua marca credibilidade.<\/p>\n<p>A narrativa acima, ao menos em tese, representaria uma esp&eacute;cie de &quot;normalidade democr&aacute;tica&quot;. &Ecirc;nfase bastante grande estaria voltada sobre o jornalista, como fator essencial da gera&ccedil;&atilde;o do produto &quot;not&iacute;cia televisiva&quot;. V&aacute;rias discuss&otilde;es est&atilde;o abertas a partir desta &quot;normalidade&quot;. Apenas para cit&aacute;-las, seriam estas de relev&acirc;ncia:<\/p>\n<p>-A instantaneidade da ind&uacute;stria impediria uma constru&ccedil;&atilde;o mais profunda da realidade?<br \/>\n-As limita&ccedil;&otilde;es de interven&ccedil;&atilde;o do profissional de comunica&ccedil;&atilde;o teriam como marcos sua pr&oacute;pria forma&ccedil;&atilde;o e posi&ccedil;&atilde;o social, al&eacute;m dos interesses da ind&uacute;stria?<br \/>\n-N&atilde;o seria a opini&atilde;o p&uacute;blica outro mito do &quot;jogo democr&aacute;tico-representativo&quot;, onde as maiorias receptoras teriam uma capacidade m&iacute;nima de interven&ccedil;&atilde;o limitada, sempre e quando respeitem as pr&oacute;prias regras do jogo? <br \/>\n-Seguindo a suposi&ccedil;&atilde;o dos mitos &quot;democr&aacute;tico-representativos&quot;, n&atilde;o caberia &agrave;s maiorias receptoras constru&iacute;rem seus pr&oacute;prios ve&iacute;culos, com regras aut&ocirc;nomas de produ&ccedil;&atilde;o, recep&ccedil;&atilde;o e interven&ccedil;&atilde;o na linguagem transmitida?<br \/>\n-N&atilde;o &eacute; a discuss&atilde;o de fundo o controle da m&iacute;dia de massas? Seria esta a forma hegem&ocirc;nica de gerar consenso em sociedade, consenso inclusive do tema das pol&ecirc;micas? Sobreviveriam os mitos e o &quot;jogo&quot; em si n&atilde;o fosse este pr&oacute;prio consenso?<\/p>\n<p>Penso que &eacute; necess&aacute;rio aprofundar estes temas em outras oportunidades. Creio haver exposto com um grau m&iacute;nimo de rigor um olhar particular sobre os mitos e regras b&aacute;sicas da ind&uacute;stria dos telejornais. Compreendo enfim, ser esta uma discuss&atilde;o de fundo, tal como afirmado no in&iacute;cio, partindo de premissas b&aacute;sicas, buscando apontar o n&iacute;vel de profundidade (e de cr&iacute;tica) o qual se pretende atingir.<\/p>\n<p><strong>O TELEJORNALISMO POLICIAL E AS CLASSES PERIGOSAS<\/strong><\/p>\n<p>O tema abordado no texto acima foi o de determinadas premissas de abordagens jornal&iacute;sticas. S&atilde;o coordenadas de pontos de partida para onde tentei desenvolver um olhar sobre aquilo que entendo serem os par&acirc;metros de consenso poss&iacute;veis. Os consensos a que me refiro s&atilde;o anteriores a toda e qualquer forma de linguagem e conven&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o s&atilde;o as regras do jogo mas os &quot;crit&eacute;rios de jurisprud&ecirc;ncia&quot; para desenvolver as regras da ind&uacute;stria da telecomunica&ccedil;&atilde;o de massa. S&atilde;o tamb&eacute;m os n&iacute;veis de controle social toler&aacute;veis por esta mesma ind&uacute;stria. Isto, partindo do princ&iacute;pio que os grupos de comunica&ccedil;&atilde;o s&atilde;o um dos pilares de uma sociedade de controle.<\/p>\n<p>Neste texto a inten&ccedil;&atilde;o &eacute; de abordar alguns par&acirc;metros do olhar, ou varia&ccedil;&otilde;es de olhares partindo de um ponto de vista semelhante da ind&uacute;stria. Vou abordando o tema da viol&ecirc;ncia urbana como b&aacute;sico, isto porque os textos e o cotidiano permitem este subs&iacute;dio.<\/p>\n<p>&quot;A associa&ccedil;&atilde;o de imagens entre pobreza e viol&ecirc;ncia &eacute; ainda feita nos programas televisivos quando os territ&oacute;rios demarcados e segregados da pobreza &#8211; morros, favelas e bairros pobres da periferia &#8211; servem como cen&aacute;rio, pano de fundo, das tomadas das mat&eacute;rias do jornalismo policial, quando se mostram policiais em a&ccedil;&atilde;o&quot; (Elizabeth Rondelli).<\/p>\n<p>Quando a autora afirma que &quot;a viol&ecirc;ncia &eacute; ainda feita&#8230;&quot; se sup&otilde;e um mover de vontades para que a feitura dos telejornais mude seu &acirc;ngulo e ponto de vista. Vive-se a transfer&ecirc;ncia de problemas de viol&ecirc;ncia onde a pr&oacute;pria ind&uacute;stria participa. Quando o Estado chega numa zona de exclus&atilde;o, entra batendo e acompanhado de seu &quot;cronista oficial&quot;. Ao tecer a identidade do lugar (pobreza = criminalidade), de antem&atilde;o existe uma hierarquia do crime no Brasil. Porque a associa&ccedil;&atilde;o da pobreza com o crime em pequena escala (ainda que mais violenta) n&atilde;o gera tamb&eacute;m a associa&ccedil;&atilde;o da ilustra&ccedil;&atilde;o com o crime de colarinho branco? A imprensa desde que fundada na Idade Moderna &eacute; a alma da cidade, da &quot;urbis&quot;. Porque ela associa a baixa urbaniza&ccedil;&atilde;o ao crime sem ao mesmo associar a cidade sofisticada com corrup&ccedil;&atilde;o?<\/p>\n<p>&quot;Aqui Agora: o cinema do submundo ou o tele-show da realidade&quot; (Ivanna Bentes).<\/p>\n<p>Pode parecer estranho, mas creio que se responde as perguntas acimas com a afirma&ccedil;&atilde;o do trabalho sobre o extinto telejornal do SBT, chamado Aqui Agora. Este n&atilde;o foi o primeiro mas rompeu com limites, indo al&eacute;m da transposi&ccedil;&atilde;o da r&aacute;dio-novela policial (ainda muito popular nas r&aacute;dios AMs) para a televis&atilde;o. O trabalho da professora Ivanna &eacute; s&eacute;rio e contundente, mas n&atilde;o ser&aacute; que o pr&oacute;prio t&iacute;tulo j&aacute; cont&eacute;m sua resposta? Como pode existir um &quot;teleshow da realidade&quot;? Cai no lugar comum afirmar a espetaculariza&ccedil;&atilde;o do cotidiano, mas o dito submundo, coberto por uma c&acirc;mara de TV como se fora de cinema, j&aacute; &eacute; enquadrado conceitualmente nesta pr&oacute;pria denomina&ccedil;&atilde;o: submundo. Se os espa&ccedil;o das maiorias &eacute; o dito submundo, &eacute; porque j&aacute; se prev&ecirc; uma realidade excludente, hegemonizada pelos que est&atilde;o no mundo das leis e dos brancos, do c&oacute;digo civil e seus respectivos direitos garantidos pelo regime democr&aacute;tico. Enfim, a maioria s&atilde;o os n&atilde;o-brancos, que vivem em seu pr&oacute;prio submundo regidos por suas leis, o mundo real e n&atilde;o-legal, o c&oacute;digo penal e seus executores oficiais ou p&aacute;ra-policiais. <\/p>\n<p>No final do s&eacute;culo XIX foi desenvolvida a ci&ecirc;ncia forense e criminal&iacute;stica. Uma de suas bases te&oacute;ricas era a Lombrosiana (batizada com o nome de seu criador, Lombroso), uma vari&aacute;vel do determinismo biol&oacute;gico (lamarquista) e positivismo da &eacute;poca. O trabalho policial nos centros urbanos brasileiros destes tempos, p&oacute;s-aboli&ccedil;&atilde;o, era centrado em duas categorias: &quot;a q&uuml;est&atilde;o social &eacute; um caso de pol&iacute;cia&quot; e o controle da exclus&atilde;o das classes perigosas. Origin&aacute;rio das novelas folhetinescas, a narrativa policial nos jornais brasileiros acompanhava o trabalho de inspetores e detetives nos &quot;submundos&quot; e as interven&ccedil;&otilde;es das tropas de choque em greves e levantes como a Revolta da Vacina, e as Greves de 1913, 1917 e 1918. No in&iacute;cio do s&eacute;culo XX, a cidade do Rio, no governo do prefeito franc&oacute;filo Pereira Passos, foi retirada parte da &quot;Pequena &Aacute;frica&quot;, as zonas da Central, Portu&aacute;ria e da Sa&uacute;de, para dar vaz&atilde;o aos grandes bulevares. Ou seja, era a reprodu&ccedil;&atilde;o da c&oacute;pia do modelo parisiense promovido pela rea&ccedil;&atilde;o prussiana ap&oacute;s o Levante da Comuna de Paris. Ent&atilde;o, a imprensa policial do Rio cobria os combates &agrave;s maltas de capoeiras que controlavam corti&ccedil;os e mocambos, resistindo ao despejo for&ccedil;ado. Acompanhava tamb&eacute;m &agrave;s persegui&ccedil;&otilde;es da pol&iacute;cia t&eacute;cnica, a partir da primeira conven&ccedil;&atilde;o policial latino-americana, cujos objetos de estudo foram o sindicalismo revolucion&aacute;rio e a insurrei&ccedil;&atilde;o urbana.<\/p>\n<p>Dos folhetins de jornais passou-se para as r&aacute;dio-novelas policialescas. Nos anos 60, do r&aacute;dio se foi para a televis&atilde;o. N&atilde;o que necessariamente toda e qualquer cobertura de pol&iacute;cia numa cidade brasileira seja tendenciosa. A &quot;premissa&quot; &eacute; outra, &eacute; o ponto de observa&ccedil;&atilde;o de toda e qualquer narrativa que observa a singularidade do grotesco na viol&ecirc;ncia entre os pobres. A folhetiniza&ccedil;&atilde;o das not&iacute;cias e narrativas cotidianas n&atilde;o &eacute; um fen&ocirc;meno exclusivo da TV brasileira. Tamb&eacute;m n&atilde;o &eacute; feito apenas nas editorias de pol&iacute;cia. O controle dos meios, a abund&acirc;ncia de fatos e situa&ccedil;&otilde;es, a instantaneidade da ind&uacute;stria e a suposta passividade da audi&ecirc;ncia s&atilde;o fen&ocirc;menos mundiais. O que acontece na cobertura da viol&ecirc;ncia urbana &eacute; a transposi&ccedil;&atilde;o do modo de produ&ccedil;&atilde;o da ind&uacute;stria somado ao controle social e exclus&atilde;o das chamadas classes perigosas. Ou como diz o pr&oacute;prio FMI, s&atilde;o popula&ccedil;&otilde;es chamadas de &quot;sobrantes ou perif&eacute;ricas&quot;. <\/p>\n<p>&quot;O que n&atilde;o toleramos na viol&ecirc;ncia &eacute; v&ecirc;-la na vida real, apesar da insist&ecirc;ncia da televis&atilde;o em mostr&aacute;-la. Por isso ela tem que ser afastada, escondida.&quot;<\/p>\n<p>&quot;Para que, desse modo factual de se construir a viol&ecirc;ncia, se passe a propor, num discurso velado, como medidas de profilaxia e higiene social, a elimina&ccedil;&atilde;o dos pobres, como mecanismo de erradica&ccedil;&atilde;o do crime e da pobreza, tida como a sua principal causa, n&atilde;o h&aacute; muita dist&acirc;ncia.&quot; (Elizabeth Rondelli).<\/p>\n<p>Se o que &quot;n&atilde;o (n&oacute;s) toleramos &eacute; v&ecirc;-la na vida real&quot;, fica a pergunta de quem &eacute; esse &quot;n&oacute;s coletivo&quot; que n&atilde;o tolera algo que vive em seu pr&oacute;prio cotidiano? Talvez seja &oacute;bvia a resposta, essa identidade social n&atilde;o tolerante a viol&ecirc;ncia &eacute; aquela que convive na cidade ordenada. Ainda que esta voz seja cr&iacute;tica, pertence e vive na expectativa que a viol&ecirc;ncia urbana &eacute; um &quot;problema&quot; e que tem solu&ccedil;&atilde;o. Mas como esta solu&ccedil;&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel se a pr&oacute;pria cria&ccedil;&atilde;o do aparato repressor t&ecirc;m suas origens na exclus&atilde;o? A ind&uacute;stria de telecomunica&ccedil;&atilde;o n&atilde;o reproduz a sociedade, ainda que como mediadora? Que sociedade justa &eacute; esta que a m&iacute;dia representa e media?<\/p>\n<p>Simplesmente nenhuma pois esta n&atilde;o existe. Para aqueles que incorrem em infra&ccedil;&atilde;o, mas vivem no mundo das leis, a m&iacute;dia d&aacute; direito de resposta, ouve o advogado e pondera em suas afirma&ccedil;&otilde;es. Na maioria dos que vivem no mundo real, a TV chega junto com a pol&iacute;cia, focalizando a c&acirc;mara atr&aacute;s da al&ccedil;a de mira do fuzil. Se o meio faz o homem, ent&atilde;o &eacute; impens&aacute;vel que um edif&iacute;cio na Barra desabe por erro na constru&ccedil;&atilde;o. Mas, &eacute; suport&aacute;vel ver fam&iacute;lias vitimadas por enchentes h&aacute; quase meia d&eacute;cada, continuarem a viver em abrigos. Uma vez que a pobreza e o crime caminham juntos, n&atilde;o ser&aacute; poss&iacute;vel aceitar o empobrecimento de fam&iacute;lias de classe m&eacute;dia alta, pois estas pertencem a outro lugar.<\/p>\n<p>A &uacute;ltima abordagem que gostaria de desenvolver &eacute; a vis&atilde;o de &quot;solu&ccedil;&atilde;o do problema da viol&ecirc;ncia&quot;. Poderia ser um outro problema qualquer da urbaniza&ccedil;&atilde;o brasileira, como enchentes, falta de escolas, sa&uacute;de e etc. Quando se parte do ponto de vista que h&aacute; um problema, &eacute; porque est&aacute; compreendido que h&aacute; uma solu&ccedil;&atilde;o. E, esta &eacute; justa porque existe um direito, derivado numa lei para o que &eacute; justo. A vis&atilde;o reformadora do caos urbano, &quot;a desordem do mundo e a ordem do jornal&quot;, &eacute; um dos pap&eacute;is mediadores da ind&uacute;stria da comunica&ccedil;&atilde;o de massa.<\/p>\n<p>Se mudamos a premissa, e partimos do princ&iacute;pio que a sociedade que a ind&uacute;stria media &eacute; estruturalmente injusta, qual media&ccedil;&atilde;o justa far&aacute; esta mesma televis&atilde;o? Quando assumimos o princ&iacute;pio que n&atilde;o h&aacute; inoc&ecirc;ncia ou displic&ecirc;ncia profunda em setores de alto n&iacute;vel de responsabilidade e decis&atilde;o, se assume a premissa do cinismo da ind&uacute;stria. Este cinismo &eacute; uma de suas caracter&iacute;sticas b&aacute;sicas, &eacute; um dos pilares da &quot;fabrica&ccedil;&atilde;o do consenso&quot; (Chomsky). Entramos tamb&eacute;m na discuss&atilde;o dos controles dos meios de difus&atilde;o, e o n&iacute;vel de associativismo das camadas receptoras.<\/p>\n<p>Voltando ao tema da viol&ecirc;ncia, partindo da premissa da necessidade do controle social da difus&atilde;o coletiva (o que implica um outro consenso sobre a fun&ccedil;&atilde;o da m&iacute;dia), cito um rep&oacute;rter especial da toda-poderosa Rede Globo:<\/p>\n<p>&quot;Sonho com um jornalismo popular, jornalismo a favor da popula&ccedil;&atilde;o. Numa a&ccedil;&atilde;o policial, por exemplo, mostrar a pol&iacute;cia entrando numa favela e posicionar a c&acirc;mera l&aacute; no meio da favela, nos barracos, apanhando com o povo&quot; (Caco Barcellos).<\/p>\n<p><strong>O CONSENSO, O SOFISTICADO E O GROTESCO<\/strong><\/p>\n<p>H&aacute; uma discuss&atilde;o muitas vezes deixada em segundo plano por profissionais de comunica&ccedil;&atilde;o. Esta &eacute; a produ&ccedil;&atilde;o de bens simb&oacute;licos de corte popular. Com o Plano Real, o consumo de televisores cresceu ainda mais, trazendo outros padr&otilde;es de consumo de produtos televisivos. O aumento da oferta atinge uma camada cada vez maior das chamadas classe C, D e E (obs: como para mim &eacute; imposs&iacute;vel propor no texto outra segmenta&ccedil;&atilde;o social, acato o conceitos de classes A, B, C, D e E). A presen&ccedil;a da TV aberta na vida das fam&iacute;lias brasileiras, j&aacute; era grande e depois se torna gigantesca.<\/p>\n<p>A explica&ccedil;&atilde;o &eacute; simples. Com a estabiliza&ccedil;&atilde;o monet&aacute;ria, passou a ser poss&iacute;vel para as fam&iacute;lias de baixa renda, poupar e comprar no credi&aacute;rio, ainda que pagando juros absurdos. Nos g&ecirc;neros dom&eacute;sticos de &quot;primeira&quot; necessidade, o consumo de televisores coloridos cresceu vertiginosamente. Desde os tempos do &quot;milagre econ&ocirc;mico&quot; da ditadura militar, o Brasil tem mais televisores do que geladeiras. Esta pol&iacute;tica de consumo &eacute; ainda mais incentivada a partir de 1994. O aumento dos aparelhos de TVs nos lares, somado ao advento da televis&atilde;o a cabo e por assinatura, gera uma mudan&ccedil;a na grade da programa&ccedil;&atilde;o das emissoras abertas. &Eacute; a mudan&ccedil;a da grade, com o aumento dos &quot;programas populares&quot;, a ess&ecirc;ncia da reflex&atilde;o que desejo aportar.<\/p>\n<p>Em tese o advento das TVs por assinatura (transmitida por cabo ou direto, via sat&eacute;lite) leva ao crescimento da segmenta&ccedil;&atilde;o do p&uacute;blico receptor. Como discutimos em sala de aula, se levanta a pol&ecirc;mica se de fato h&aacute; uma &quot;segmenta&ccedil;&atilde;o de p&uacute;blico&quot; ou o fen&ocirc;meno &eacute; uma &quot;massifica&ccedil;&atilde;o dos mercados segmentados poss&iacute;veis&quot;. Particularmente fico com a segunda hip&oacute;tese. Ainda que massificada, a pouca segmenta&ccedil;&atilde;o que existe, &quot;empurra&quot; as classes ditas A e B para os programas das TVs por assinatura. Com a migra&ccedil;&atilde;o da audi&ecirc;ncia &quot;formadora de opini&atilde;o&quot; (basicamente por ser reprodutora de cadeias hier&aacute;rquicas na sociedade), a grade das &quot;abertas&quot; tenderia a se dedicar mais e mais a disputar os p&uacute;blicos das classe subalternas (e\/ou oprimidas, e\/ou espoliadas, e\/ou exploradas, e\/ou exclu&iacute;das). Estes dados acima me parecem ser de um realismo (ainda que superficial) irrefut&aacute;vel.<\/p>\n<p>Fa&ccedil;o o primeiro q&uuml;estionamento neste sentido. Porque apenas quando as classes reprodutoras de opini&atilde;o come&ccedil;am a migrar sua recep&ccedil;&atilde;o (audi&ecirc;ncia) para a TV por assinatura, a&iacute; sim a grade de programa&ccedil;&atilde;o torna-se mais &quot;popularizada&quot;? No meu entendimento, h&aacute; um conjunto de fatores operando (mercadol&oacute;gicos, potencial de consumo direto da massa receptora, pol&iacute;tica das emissoras), embora um seja determinante. Este &eacute; a &quot;garantia de representa&ccedil;&atilde;o&quot; numa sociedade excludente. Ou seja, apenas quando se garante a identifica&ccedil;&atilde;o da elite consigo mesma (no caso agora nas TVs por assinatura), &eacute; que se &quot;permite&quot; uma massifica&ccedil;&atilde;o da representa&ccedil;&atilde;o &quot;popular&quot;. Isto, mesmo que estas representa&ccedil;&otilde;es sejam alvos de cr&iacute;tica. &Eacute; impens&aacute;vel uma estrutura de exclus&atilde;o social onde a elite n&atilde;o tenha a hegemonia da representa&ccedil;&atilde;o. Toda uma gama de &quot;novos&quot; valores de consumo, incorporando a recep&ccedil;&atilde;o de bens simb&oacute;licos como fator de sofistica&ccedil;&atilde;o (status) &eacute; implantada no governo Collor e depois consolidada no Plano Real e nos dois mandatos de FHC. &Eacute; somente a&iacute; que a grade das abertas tende a contrapor o sofisticado com o grotesco, ou seja, o &quot;popular&quot;, segundo os media brasileiros.<\/p>\n<p>No Brasil vivemos sob a associa&ccedil;&atilde;o de que todo um caldo de cultura popular, quando assimil&aacute;vel no &quot;consenso&quot;, torna-se nacional. Quando este mesmo caldo n&atilde;o se permite assimilar, &eacute; classificado como &quot;grotesco&quot; ou ilegal. No caso das grades de programa&ccedil;&atilde;o das emissoras de sinal aberto, creio existirem tr&ecirc;s n&iacute;veis b&aacute;sicos de pol&iacute;tica de recep&ccedil;&atilde;o. Em tese, se copia a f&oacute;rmula da televis&atilde;o estadunidense. Os talk shows seriam voltados para um p&uacute;blico mais sofisticado e os reality shows trariam um apelo &agrave;s classes subalternas. Ambas &quot;assistiriam a si mesmas&quot; na telinha. A princ&iacute;pio s&atilde;o dados irrefut&aacute;veis, mas falta a mola mestra da cr&iacute;tica &agrave; programa&ccedil;&atilde;o das TVs abertas. Um n&iacute;vel seria mais sofisticado, outro mais popular, mas o &quot;jeitinho brasileiro&quot; de gerar o controle de opini&atilde;o-recep&ccedil;&atilde;o est&aacute; justamente nos programas de maior audi&ecirc;ncia, e que s&atilde;o policlassistas. Me explico.<\/p>\n<p>Assim como &eacute; impens&aacute;vel uma sociedade estruturalmente injusta onde os executores do mecanismo de injusti&ccedil;a (a classe dominante e sua auxiliar) n&atilde;o se vejam representados com privil&eacute;gios, &eacute; igualmente impratic&aacute;vel uma exclus&atilde;o social sem consenso. No Brasil, um dos fatores b&aacute;sicos deste consenso &eacute; a &quot;nacionaliza&ccedil;&atilde;o&quot; de bens simb&oacute;licos. Ou seja, l&iacute;deres absolutos de audi&ecirc;ncia, como o Jornal Nacional e a novela das 8, n&atilde;o funcionam caso sejam excludentes para este ou aquele segmento. &Eacute; na programa&ccedil;&atilde;o l&iacute;der de audi&ecirc;ncia que o &quot;Brasil se v&ecirc;&quot;. &Eacute; quando dom&eacute;sticas e patroas choram juntas, uma sentada no ch&atilde;o e a outra no sof&aacute;, comovidas com o drama da pobre-menina-rica que tem leucemia na novela. A homogeneiza&ccedil;&atilde;o dos conceitos, no caso a doen&ccedil;a, a id&eacute;ia de sofrimento, &eacute; geradora de identidade e cumplicidade. A contradi&ccedil;&atilde;o social presente na vida real, o tratamento diferencial dos sistemas p&uacute;blico e privado de sa&uacute;de, n&atilde;o est&aacute; na novela. Transcende a doen&ccedil;a, o drama comum a todos os seres humanos. Uma enfermidade incur&aacute;vel entregue a Deus e n&atilde;o aos homens, inalcan&ccedil;&aacute;vel tanto para patroas como para dom&eacute;sticas.<\/p>\n<p>Naquilo que &eacute; consensual, o Brasil se enxerga sem muitos dramas. Tomando a novela, herdeira do folhetim e da r&aacute;dio-novela como exemplo, a caracteriza&ccedil;&atilde;o da pobreza &eacute; feita de forma &quot;suport&aacute;vel&quot; para as elites e &quot;agrad&aacute;vel&quot; para os que vivem na pobreza real. J&aacute; os reality shows, uma esp&eacute;cie de &quot;a vida como ela &eacute;&quot; das classes exclu&iacute;das, s&atilde;o grotescos e absurdos. Nos cabe perguntar &quot;porque&quot;? Assim como na programa&ccedil;&atilde;o sofisticada, e com est&eacute;tica de pa&iacute;ses capitalistas centrais, v&aacute;rios fatores operam, e creio que um destes &eacute; determinante. Nos programas de audit&oacute;rio contempor&acirc;neos, tomemos o Ratinho como exemplo, entendo que &eacute; feita uma &quot;apropria&ccedil;&atilde;o&quot; do significado do que seria popular. Ou seja, dentro dos c&oacute;digos atuais e hegem&ocirc;nicos (portanto nada populares), &eacute; gerada uma programa&ccedil;&atilde;o que refor&ccedil;a a expectativa dos valores (de aliena&ccedil;&atilde;o) necess&aacute;rios para manter a exclus&atilde;o social. Isto, agindo no universo dos bens simb&oacute;licos e da gera&ccedil;&atilde;o de sentidos.<\/p>\n<p>Refor&ccedil;ar estere&oacute;tipos pejorativos, somados a figuras salvacionistas, o pr&oacute;prio Ratinho por exemplo, que trazem uma solu&ccedil;&atilde;o ordeira e moral para o drama do povo, &eacute; algo t&atilde;o brasileiro (e antigo) como arroz e feij&atilde;o. Como seria poss&iacute;vel dominar sem alienar de sua pr&oacute;pria pot&ecirc;ncia e identidade as maiorias oprimidas?! N&atilde;o seria, &oacute;bvio que n&atilde;o. Tampouco seria vi&aacute;vel para o capitalismo popularizar os produtos sofisticados (a segmenta&ccedil;&atilde;o massificada), uma vez que a sofistica&ccedil;&atilde;o necessita de diferencial de consumo para se manter como tal. Seu mecanismo de dom&iacute;nio &eacute; outro, seduz pelo privil&eacute;gio, diz ser &quot;para poucos, exclusivo, para voc&ecirc;!&quot; Ainda que fossem apenas estas duas grandes faixas de bens simb&oacute;licos, o sofisticado e o grotesco, a domina&ccedil;&atilde;o alienante n&atilde;o seria t&atilde;o eficiente. &Eacute; necess&aacute;rio o consenso.<\/p>\n<p>Toda e qualquer sociedade necessita de n&iacute;veis m&iacute;nimos de consenso para funcionar. Sociedades injustas e excludentes a partir de sua pr&oacute;pria estrutura, como a brasileira, necessitam de acordos nacionais conservadores. E, estes tem de ser s&oacute;lidos e com credibilidade. A&iacute; entra o padr&atilde;o Globo de qualidade, a grade da TV aberta consolidada desde os tempos da ditadura (a partir do governo M&eacute;dici) e os espa&ccedil;os midi&aacute;ticos, tendo o Jornal Nacional e a novela das 8, como exemplos m&aacute;ximos, onde todo &quot;o pa&iacute;s se v&ecirc;&quot;. A manipula&ccedil;&atilde;o do consenso excludente ser&aacute; mais ou menos sutil segundo o n&iacute;vel das contradi&ccedil;&otilde;es que viva esta mesma sociedade e sua luta de classes e popular. A censura jur&iacute;dica pode ou n&atilde;o ser necess&aacute;ria, mas a manipula&ccedil;&atilde;o da opini&atilde;o p&uacute;blica &eacute; presente tanto nos EUA contempor&acirc;neo, como bem exp&otilde;e a cr&iacute;tica de Chomsky, assim como no regime nazista, com Goebbels como ministro da informa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Voltando ao que chamei de tr&ecirc;s n&iacute;veis de programa&ccedil;&atilde;o, a de consenso, a sofisticada e a grotesca (chamada de &quot;popular&quot; pelos executores desta pol&iacute;tica), gostaria de realizar um &uacute;ltimo di&aacute;logo imagin&aacute;rio com alguns autores. N&atilde;o vejo virtude alguma nas programa&ccedil;&otilde;es de consenso das TVs abertas. Entendo ser esta a parcela estrat&eacute;gica da programa&ccedil;&atilde;o, a mola-mestra e o centro nevr&aacute;lgico da manipula&ccedil;&atilde;o da audi&ecirc;ncia brasileira. Tampouco creio ser poss&iacute;vel &quot;imaginar reformas&quot; nesta ess&ecirc;ncia. Al&eacute;m de floreios de linguagem, todo o resto seria fruto de uma leviana idealiza&ccedil;&atilde;o &quot;de um intelecto com boa vontade&quot;. Ultrapassando o &quot;universo dos desejos&quot; (da boa vontade), o mundo real obriga-nos a v&ecirc;-lo como &eacute;. A partir desta crueza, cada coletividade deve trabalhar ou n&atilde;o para transform&aacute;-la. Acredito que isto se aplica para qualquer pol&iacute;tica central do mecanismo de domina&ccedil;&atilde;o, tal, como a de controle da opini&atilde;o-recep&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><strong>Rio de Janeiro, Maio de 2001<\/strong><\/p>\n<p>Como ve&iacute;culo de comunica&ccedil;&atilde;o de massas, a televis&atilde;o &eacute; o de maior penetra&ccedil;&atilde;o no cotidiano dos brasileiros. A totalidade do territ&oacute;rio nacional &eacute; coberto pela TV brasileira. Esta abrang&ecirc;ncia &eacute; parte de um esfor&ccedil;o econ&ocirc;mico e de planejamento de alto escal&atilde;o, promovido na d&eacute;cada de 1960, para tornar o conjunto do territ&oacute;rio nacional &quot;integrado e govern&aacute;vel&quot;. Deste esfor&ccedil;o fizeram parte o &quot;alto escal&atilde;o do regime militar, a direita org&acirc;nica do Ipes e Ibad, e o grupo Time-Warner associado &agrave;s organiza&ccedil;&otilde;es Globo&quot; (Dreifuss: &quot;1964: a conquista do Estado&quot;). Sendo a TV o ve&iacute;culo mais importante, seria mais que previs&iacute;vel que seu produto de comunica&ccedil;&atilde;o jornal&iacute;stica, o telejornal, se tornasse o de maior impacto na sociedade brasileira.<\/p>\n<p>A fun&ccedil;&atilde;o de um grande ve&iacute;culo integrador n&atilde;o &eacute; um invento dos militares, ao menos n&atilde;o os de 1964. A R&aacute;dio Nacional e seu organismo controlador, o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), do Estado Novo getulista (1937-1945), ocupou &#8211; guardadas &agrave;s devidas propor&ccedil;&otilde;es &#8211; um papel semelhante ao da TV nos dias que seguem a moderniza&ccedil;&atilde;o conservadora dos anos60 e 70. Este mesmo papel teve o cinema na difus&atilde;o do chamado american way of life, em especial no p&oacute;s 2a Guerra Mundial. A vinda de Walt Disney para o Rio de Janeiro, quando a cidade ainda era a capital do pa&iacute;s, como embaixador da Alian&ccedil;a para o Progresso e a cria&ccedil;&atilde;o do personagem Z&eacute; Carioca marca este per&iacute;odo. Reconhece-se o cinema como maior patrim&ocirc;nio e arma de propaganda estadunidense, em todos os tempos, desde que este pa&iacute;s se afirmou como pot&ecirc;ncia. Sem falsas despropor&ccedil;&otilde;es, a TV brasileira teria esta mesma fun&ccedil;&atilde;o como propaganda e controle interno da popula&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s.<\/p>\n<p>Nenhuma moderniza&ccedil;&atilde;o conservadora se realiza sem um modelo concentrador. Tampouco se estabiliza sem garantir a perman&ecirc;ncia de pr&aacute;ticas j&aacute; cristalizadas, tanto no imagin&aacute;rio popular, como no n&iacute;vel educacional da popula&ccedil;&atilde;o que se quer atingir. Uma vez que somos um pa&iacute;s de imensa tradi&ccedil;&atilde;o oral, oralidade esta fruto de comunica&ccedil;&atilde;o popular somada &agrave; car&ecirc;ncia de educa&ccedil;&atilde;o b&aacute;sica da maioria dos brasileiros, obviamente que esta popula&ccedil;&atilde;o vai se comunicar e consagrar a forma oral como ve&iacute;culo principal. Isto j&aacute; ocorria com o r&aacute;dio, sendo o modelo concentrador a j&aacute; citada R&aacute;dio Nacional. O mesmo n&atilde;o acontecia com o primeiro grande grupo de empresas de comunica&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s.<\/p>\n<p>Os Di&aacute;rios Associados, organiza&ccedil;&atilde;o empresarial comandada por Assis Chateaubriand, tinha aspectos empreendedores, um certo tipo de capital nacional n&atilde;o vinculado ao capital transnacional, aplicando um modelo desconcentrador de suas m&iacute;dias. No campo da m&iacute;dia impressa, seguia o modelo de desenvolvimento associado dos jornais do EUA da &uacute;ltima metade do s&eacute;culo XIX. No caso da televis&atilde;o, tentou aplicar o mesmo modelo, com alto n&iacute;vel de autonomia dos gerentes regionais. Mas desta vez, sua forma administrativa era incompat&iacute;vel com o processo de integra&ccedil;&atilde;o nacional promovido pela teoria das fronteiras ideol&oacute;gicas e da associa&ccedil;&atilde;o de capitais brasileiros organicamente vinculados (e financiados) pelo capital estadunidense e de outras matrizes. O impacto tecnol&oacute;gico que este momento proporcionou &agrave; Rede Globo, gerou uma capacidade de gerenciar a ind&uacute;stria da televis&atilde;o que at&eacute; hoje &eacute; imbat&iacute;vel e com grande impacto no mercado de m&iacute;dia internacional. O brasileiro que &quot;n&atilde;o vive sem r&aacute;dio&quot;, passou a ser o pa&iacute;s da televis&atilde;o de alta qualidade.<\/p>\n<p>As tradi&ccedil;&otilde;es dos maiores produtos televisivos tamb&eacute;m prov&ecirc;m de uma heran&ccedil;a dos prim&oacute;rdios da comunica&ccedil;&atilde;o de massas no Brasil. &Eacute; poss&iacute;vel tra&ccedil;ar uma linha cont&iacute;nua de historicidade desde o romance de folhetim, passando pela radio-dramaturgia at&eacute; chegarmos &agrave; atual telenovela. Hoje, a telenovela j&aacute; tem mais de 30 anos de sucesso absoluto do g&ecirc;nero. J&aacute; a r&aacute;dio-dramaturgia, que somada &agrave; teoria lombrosiana de criminal&iacute;stica, marca a pol&iacute;cia de controle social e sua respectiva cobertura jornal&iacute;stica. O peso das verbas p&uacute;blicas apropriadas pelo Estado, hoje se reflete no volume de propaganda oficial e nas concess&otilde;es de canais de r&aacute;dio e TV. Respectivamente, um n&iacute;vel de inger&ecirc;ncia semelhante ao controle de importa&ccedil;&atilde;o de papel dos anos 1940 e 1950, fator de quebra de v&aacute;rios jornais na &eacute;poca.<\/p>\n<p>Do modelo concentrador ao n&iacute;vel econ&ocirc;mico, aplicou-se simultaneamente uma vers&atilde;o oficialesca, &quot;chapa branca&quot;, associando a TV l&iacute;der de audi&ecirc;ncia, a Globo, ao regime que favoreceu a mesma. Finda a ditadura, a concentra&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica permanece, manifestando-se agora ao n&iacute;vel global, com mega-conglomerados de comunica&ccedil;&atilde;o atuando em v&aacute;rias m&iacute;dias simultaneamente. No Brasil, o modelo familiar, como as fam&iacute;lias Marinho, Civita e Saad, que se atualizaram em formas gerenciais, garantiu seus ingressos de capital para atualizar seu parque tecnol&oacute;gico, permanece. Seguimos um formato produtivo de matrizes e repetidoras, com muito pouca produ&ccedil;&atilde;o regionalizada. No que diz respeito aos telejornais, este se verifica nos jornais locais, nas matrizes estaduais, e no primeiro bloco destes jornais, nas emissoras de micro-regi&otilde;es. Apenas como exemplo, no caso do estado do Rio, respectivamente Globo Rio, Serra-Mar, TV Lagos e Alto Litoral.<\/p>\n<p>Da censura dos tempos militares se passou a &quot;orquestra sem regente&quot;, Este &eacute; um conceito cr&iacute;tico da TV Cultura sobre as emissoras comerciais do pa&iacute;s, onde o modelo de telejornalismo &eacute; o &quot;show de imagens&quot;. Em tese, a m&iacute;dia oficiosa foi substitu&iacute;da na disputa por credibilidade. O custo do segundo no intervalo comercial &eacute; o mais caro no per&iacute;odo de telejornais, em todas as TVs brasileiras, n&atilde;o importa qual a emissora. Raz&otilde;es para o impacto na sociedade brasileira contempor&acirc;nea j&aacute; foram acima comentadas al&eacute;m daquelas discutidas em sala de aula. Mas, o porque da imagem do modelo concentrador ter sido alterado para permanecer concentrado, este tema o texto trata a seguir.<\/p>\n<p>Questionado por um estudante de comunica&ccedil;&atilde;o dos EUAa respeito de uma teoria de compl&ocirc;, Noam Chomsky assim respondeu:<\/p>\n<p>Estudante &#8211; &quot;Gostaria de saber como a elite controla a m&iacute;dia?&quot; <br \/>\nChomsky &#8211; &quot;Como &eacute; que ela controla a m&iacute;dia? A pergunta n&atilde;o tem raz&atilde;o de ser. A elite n&atilde;o precisa do controlar a General Motors uma vez que &eacute; sua propriet&aacute;ria.&quot;<\/p>\n<p>A partir desta observa&ccedil;&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel compreender que no caso brasileiro n&atilde;o era apenas a TV que apoiava o regime. Mas o maior conglomerado &eacute; o regime, &eacute; parte fundamental deste, &eacute; e continua sendo. <\/p>\n<p>Assim, &eacute; imposs&iacute;vel &quot;endemoniar&quot; o regime militar como um exemplo &quot;perverso&quot; de tempos de exce&ccedil;&atilde;o. J&aacute; com a abertura do regime vivemos um &quot;per&iacute;odo de normalidade regido por regras de credibilidade de mercado&quot;. A normalidade de mercado encara o telejornal como um espet&aacute;culo televisivo, por vezes pass&iacute;vel de alguma discrep&acirc;ncia com o chamado pensamento &uacute;nico, noutras n&atilde;o.<\/p>\n<p>Caberia o in&iacute;cio de uma discuss&atilde;o da import&acirc;ncia de uma TV p&uacute;blica no pa&iacute;s, organizada com algum grau de independ&ecirc;ncia em rela&ccedil;&atilde;o aos mandantes de turno. Talvez o mais apropriado fosse uma rede de TVs p&uacute;blicas, tomando a Rede Cultura como exemplo, mas com programa&ccedil;&atilde;o com alto grau de regionaliza&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>De acordo com Marco Ant&ocirc;nio Coelho, diretor de jornalismo da Rede Cultura:<\/p>\n<p>&quot;Para os jornalistas formados nas universidades brasileiras, &eacute; dif&iacute;cil contar um caso sem recorrer ao comp&ecirc;ndio de clich&ecirc;s do telejornalismo americano.&quot;<br \/>\n&quot;Foi percebendo a necessidade de quebra da l&oacute;gica dessa orquestra sem regente que a proposta do telejornalismo p&uacute;blico da TV Cultura passa a ser uma alternativa de informa&ccedil;&atilde;o para a sociedade.&quot;<br \/>\n&quot;As hist&oacute;rias p&uacute;blicas s&atilde;o aquelas que superam os interesses privados, mercadol&oacute;gicos e partid&aacute;rios.&quot;<br \/>\n&quot;O fetiche do furo cede lugar &agrave; cobertura regular, aprofundada, purgada do interesse espasm&oacute;dico.&quot;<\/p>\n<p>&Eacute; poss&iacute;vel apontar uma total incompatibilidade entre as fun&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas e mercadol&oacute;gicas da TV. Ou seja, entre o interesse coletivo das maiorias e o privado das grandes corpora&ccedil;&otilde;es. Mas, sendo necess&aacute;rio &quot;credibilidade&quot; como um valor agregado ao produto informativo das emissoras, &eacute; poss&iacute;vel algo como &quot;a teoria de brecha&quot;. Esta ocorre quando alguns produtos de informa&ccedil;&atilde;o tornam-se relevantes para o interesse popular, seja por sua relev&acirc;ncia ou pela capacidade cr&iacute;tica-argumentativa dos trabalhadores de comunica&ccedil;&atilde;o que o produziram.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Telejornalismo \u00e9 o produto de informa\u00e7\u00e3o de maior impacto na sociedade contempor\u00e2nea. Foto:canal13 Novembro de 2000 Premissas para a cr&iacute;tica Em toda discuss&atilde;o ou tema debatido, deve-se partir de um acordo de entendimento m&iacute;nimo. Geralmente tal acordo &eacute; de ordem sem&acirc;ntica, buscando expor a disputa conceitual e n&atilde;o escond&ecirc;-la atrav&eacute;s de palavras. No caso [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-66","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"jetpack_publicize_connections":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/66","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=66"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/66\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10965,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/66\/revisions\/10965"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=66"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=66"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=66"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}