{"id":689,"date":"2008-03-13T19:42:10","date_gmt":"2008-03-13T22:42:10","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/?p=689"},"modified":"2023-03-13T21:23:42","modified_gmt":"2023-03-14T00:23:42","slug":"argentina-dezembro-de-2001-ensaios-e-possibilidades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=689","title":{"rendered":"Argentina, dezembro de 2001, ensaios e possibilidades"},"content":{"rendered":"<p>Rio Grande e Rio de Janeiro, 03 04\/01 2001<\/p>\n<p>As mobiliza\u00e7\u00f5es populares que ocorreram na Argentina, entre 19 e 21 de dezembro do ano de 2001, atingiram em cheio ao sistema pol\u00edtico daquele pa\u00eds. Se o aparato repressivo fosse posto em cheque, e caso houvesse uma maior coordena\u00e7\u00e3o entre os v\u00e1rios setores em luta, os eventos teriam se aproximado de uma revolu\u00e7\u00e3o social. <\/p>\n<p>O Estado Argentino estava ac\u00e9falo, sem rumo institucional definido e, portanto, sem poder pol\u00edtico. Por mais de uma semana, intacta mesma s\u00f3 a capacidade repressiva. O cacerolazo resultou, sem d\u00favida alguma, num marco hist\u00f3rico para os movimentos populares na Am\u00e9rica Latina. O poder oscilava entre a oligarquia reunida em pal\u00e1cio e as assembl\u00e9ias de base. As decis\u00f5es estrat\u00e9gicas, passavam tanto pelo imponder\u00e1vel, como pelas dire\u00e7\u00f5es de organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas de esquerda. Os escrit\u00f3rios clandestinos do Servi\u00e7o de Intelig\u00eancia e Defesa do Estado (SIDE) e seus v\u00ednculos com o Partido Justicialista, contra-operavam de modo fren\u00e9tico.<\/p>\n<p>Com uma capacidade maior de coordena\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica, os cord\u00f5es perif\u00e9ricos e as assembl\u00e9ias na capital poderiam ter aprofundado o duplo poder. Um ensaio disso chegou a ocorrer, como durante as madrugadas, quando setores piqueteros fecharam as ruas de acesso e organizaram breves mil\u00edcias em alguns bairros oper\u00e1rios. O ensaio de controle de territ\u00f3rio urbano era para conter as &#8220;bandas de servicios&#8221;, grupos de provocadores, punteros da direita peronista, que ordenados pelo SIDE, realizavam saques e roubos entre todos. Na mem\u00f3ria coletiva, o povo argentino recordava Villa Constituci\u00f3n e Villa Devoto.<\/p>\n<p>A pueblada teve um resultado concreto. A Argentina despertou sem cabe\u00e7a pol\u00edtica, com os bancos fechados e uma consigna simples e contundente, Que se vayan todos! O candidato da direita peronista, derrotado por De la R\u00faa no pleito de sucess\u00e3o a Menem, vem a assumir a Casa Rosada em t\u00edpico acordo olig\u00e1rquico. Se esperava do ex-governador da Prov\u00edncia de Buenos Aires um governo assistencial e manejado atrav\u00e9s de sua m\u00e1quina privada-p\u00fablica-partid\u00e1ria-policial, que tem como bra\u00e7o armado operacional a temida Pol\u00edcia Bonaerense e seus m\u00e9todos de gatillo f\u00e1cil. Duhalde assume na defensiva, numa conjuntura onde salvaguardar o sistema pol\u00edtico, e enterrar de vez a Alianza social-liberal s\u00e3o as medidas concretas. UCR e Frepaso s\u00e3o os cad\u00e1veres pol\u00edticos do cacerolazo, tendo de pagar a conta dos 8 anos de Menem e suas barbaridades governamentais. Outro resultado concreto \u00e9 a id\u00e9ia de auto-goveno, ou usando o termo cl\u00e1ssico, da implementa\u00e7\u00e3o de medidas e vontades para exerc\u00edcio de Poder Popular e Autogest\u00e3o Social. <\/p>\n<p>Sem d\u00favida, mesmo com os custos de uma prov\u00e1vel guerra civil, ao aplicar estas pol\u00edticas o povo argentino poderia come\u00e7ar a sair do buraco negro onde a oligarquia e os financistas meteram o pa\u00eds. O Estado Argentino, os capitalistas financeiros, as elites econ\u00f4micas que sacaram a base monet\u00e1ria do pa\u00eds e a li\u00e7\u00e3o de casa do FMI quase faliram a na\u00e7\u00e3o. Os momentos de duplo poder das Assembl\u00e9ias Populares, das Coordena\u00e7\u00f5es Piqueteras , motivados por quest\u00f5es de interesse imediato e social, j\u00e1 d\u00e3o um tom de maturidade pol\u00edtica dos trabalhadores formais e informais daquele pa\u00eds. Se fosse um processo de maior avan\u00e7o na luta de classes, fatalmente uma situa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria estaria conformada hoje na Argentina. Mesmo assim a realidade de combate \u00e9 positiva e contundente, estando o povo mobilizado e alerta. Os setores piqueteros e o impulso de algumas poucas organiza\u00e7\u00f5es de esquerda, como o PCR, Auca e Patria Libre, levaram para a capital federal os n\u00edveis de enfrentamento j\u00e1 existentes nas prov\u00edncias do norte de Jujuy e Tucum\u00e1n e na sulina Patag\u00f4nia, onde o Cutralcazo e os sucessos de 1996 e 1997 reinauguram as jornadas de lutas na Era Menem.<\/p>\n<p>Economicamente, a Argentina \u00e9 um pa\u00eds cheio de potencialidades. \u00c9 auto-suficiente em petr\u00f3leo, n\u00e3o tem problema com falta de energia el\u00e9trica e \u00e9 dotado de abundantes recursos h\u00eddricos. Com solo f\u00e9rtil e poderoso setor do agro, produz quantidade de alimentos capaz de sustentar a mais de 300 milh\u00f5es de pessoas ao ano. Sua popula\u00e7\u00e3o tem n\u00edveis de escolaridade muito superiores que a m\u00e9dia da Am\u00e9rica Latina. Praticamente n\u00e3o tinha analfabetos at\u00e9 o in\u00edcio dos 8 anos de Menem e tem escolariza\u00e7\u00e3o m\u00e9dia de 2o grau. Al\u00e9m disso, seu territ\u00f3rio tem um \u00f3timo tamanho, podendo crescer e expandir suas bases de ocupa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e territorial e sendo perfeitamente govern\u00e1vel. Sua popula\u00e7\u00e3o \u00e9 5 vezes menor que a do Brasil; fazendo que o pa\u00eds seja de f\u00e1cil administra\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Fica a pergunta. Como puderam levar esse pa\u00eds ao caos? \u00c9 muito simples. A Argentina seguiu na \u00faltima d\u00e9cada todo o receitu\u00e1rio neoliberal ditado pelas na\u00e7\u00f5es capitalistas desenvolvidas atrav\u00e9s do FMI. <\/p>\n<p>O Sr. Cavallo virou o queridinho do FMI, um Aexemplo@ a ser seguido em toda a Am\u00e9rica Latina. A partir desta posi\u00e7\u00e3o privilegiada, o economista j\u00e1 derrubou dois governos equatorianos e um argentino com seus planos mirabolantes. Muito bem, o pa\u00eds se abriu para o mercado externo, deu liberdade para entrada e sa\u00edda de capitais de sua economia e fixou o c\u00e2mbio ao d\u00f3lar. O inteligente povo argentino, que produziu grandes economistas at\u00e9 para a CEPAL, ficara vinculado a uma sa\u00edda escapista e intelectualmente med\u00edocre. No in\u00edcio, quando o Estado Argentino conseguia se endividar sem maiores problemas de insolv\u00eancia, tudo foi maravilhoso. Capitais externos entraram em profus\u00e3o para comprar as estatais argentinas. S\u00f3 faltou privatizar de vez a pol\u00edcia, porque todo o resto venderam. A pra\u00e7a financeira ganhou a liberdade de lucrar e sair sem dificuldade ou \u00f4nus. No longo prazo, essa op\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica foi fatal, pois a Argentina se esquecera de alinhavar planos para sua agricultura, ind\u00fastria, com\u00e9rcio (incluindo aqui a exporta\u00e7\u00e3o), perdera a possibilidade de fazer pol\u00edtica monet\u00e1ria e muito pouco poderia fazer com rela\u00e7\u00e3o aos juros. Quando se percebeu que essa desaten\u00e7\u00e3o com a economia real (agricultura, ind\u00fastria e com\u00e9rcio) e a falta de liquidez estava levando o pa\u00eds a n\u00e3o crescer mais, j\u00e1 era tarde demais. A Argentina tinha um grande furo anual em suas contas correntes, pois tem compromissos anuais na ordem de US$ 14 bilh\u00f5es de servi\u00e7os de sua d\u00edvida externa (que hoje \u00e9 de US$ 132 bilh\u00f5es) e n\u00e3o podia tentar compensar isso com algum super\u00e1vit comercial, pois o produto argentino atrelado ao d\u00f3lar ficava car\u00edssimo. Observando estes furos, acompanhados da fal\u00eancia do sistema pol\u00edtico, as ag\u00eancias de classifica\u00e7\u00e3o de risco come\u00e7aram a rebaixar os papeis argentinos. <\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o de fato, j\u00e1 em julho de 2001, era essa. O pa\u00eds n\u00e3o conseguia mais captar recursos, a n\u00e3o ser em troca de juros extorsivos, o que jogava ainda mais a Argentina no buraco. Some-se a isso, um Estado que tinha que perseguir o d\u00e9ficit zero por exig\u00eancia dos credores internacionais, os quais n\u00e3o est\u00e3o interessados na situa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, mas apenas em ver seu dinheiro de volta. Ou seja, o Estado Argentino refor\u00e7ou a tend\u00eancia recessiva ao cortar seus gastos. Pronto, com essa administra\u00e7\u00e3o subserviente, o governo De la R\u00faa apenas completou a pol\u00edtica errada de Menem. Os geniais doutores em economia conseguiram levar a Argentina \u00e0 bancarrota.<\/p>\n<p>Resumo da \u00f3pera, agora que o bom aluno est\u00e1 em dificuldades por causa da receita do professor, o FMI diz que An\u00e3o \u00e9 culpa dele@ e abandona o pa\u00eds a pr\u00f3pria sorte. E talvez seja melhor assim. A Argentina tem condi\u00e7\u00f5es de restabelecer uma condi\u00e7\u00e3o digna para seu povo, mas temos nossas d\u00favidas se isso seria poss\u00edvel dentro do modo capitalista de produ\u00e7\u00e3o. De qualquer forma, s\u00f3 sobrou para a Argentina a op\u00e7\u00e3o de se fechar, olhar para si e desenvolver um projeto nacional para sua economia, abandonando a louca aventura da economia globalizada. Para finalizar a dem\u00eancia macroecon\u00f4mica, trazemos um fato verdadeiro, mas triste. Nos \u00faltimos 4 anos o \u00fanico produto de exporta\u00e7\u00e3o que a Argentina estava conseguindo emplacar no mercado internacional eram os seus jogadores de futebol. Somos obrigados a reconhecer que estes boleiros s\u00e3o \u00f3timos, jogando com garra e habilidade. Mas, para sustentar um pa\u00eds, exportar jogadores de futebol n\u00e3o basta. <\/p>\n<p>A contraparte vem vindo das ruas. \u00c9 importante lembrar que mesmo com a economia em baixa e os n\u00edveis de emprego e produtividade quebrados, a capacidade de luta da popula\u00e7\u00e3o vem crescendo h\u00e1 pelo menos 5 anos. Com panela\u00e7os ou pedradas, as puebladas de 2001 trouxeram a melhor tradi\u00e7\u00e3o Argentina. Uma breve volta no tempo nos tr\u00e1s \u00e0s \u00faltimas montoneras do s\u00e9culo XIX; passando pelas greves da Semana Tr\u00e1gica e da Patag\u00f4nia rebelde; pela her\u00f3ica gera\u00e7\u00e3o do Cordobazo dos anos 60 e 70 e os estallidos sociales dos anos 80. Dezembro de 2001 culmina o desejo das maiorias argentinas, Que se vayan todos! Resta saber se a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as e o grau de coordena\u00e7\u00e3o das esquerdas tornar\u00e1 poss\u00edvel esta tentativa. Ou ent\u00e3o, se a press\u00e3o das ruas servir\u00e1 apenas para conter outra onda neoliberal, e se poss\u00edvel, renegociar a d\u00edvida Argentina em termos mais favor\u00e1veis. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rio Grande e Rio de Janeiro, 03 04\/01 2001 As mobiliza\u00e7\u00f5es populares que ocorreram na Argentina, entre 19 e 21 de dezembro do ano de 2001, atingiram em cheio ao sistema pol\u00edtico daquele pa\u00eds. Se o aparato repressivo fosse posto em cheque, e caso houvesse uma maior coordena\u00e7\u00e3o entre os v\u00e1rios setores em luta, os [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-689","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"jetpack_publicize_connections":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/689","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=689"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/689\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11495,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/689\/revisions\/11495"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=689"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=689"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=689"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}