{"id":690,"date":"2008-03-13T19:42:10","date_gmt":"2008-03-13T22:42:10","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/?p=690"},"modified":"2023-03-13T21:23:42","modified_gmt":"2023-03-14T00:23:42","slug":"o-dilema-da-esquerda-mais-a-esquerda-do-pt","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=690","title":{"rendered":"O dilema da esquerda mais \u00e0 esquerda do PT"},"content":{"rendered":"<p>Viam\u00e3o, 14\/07\/2005<\/p>\n<p>O PT ainda \u00e9, ao menos numericamente, o maior partido de &#8220;esquerda&#8221; da Am\u00e9rica Latina. Nascido na segunda metade da d\u00e9cada de 70, fruto de a\u00e7\u00f5es pastorais no movimento comunit\u00e1rio e a partir das oposi\u00e7\u00f5es sindicais chamadas na \u00e9poca de aut\u00eanticas, esse partido nasceu com pluralismo de tend\u00eancias e correntes, sem pensamento \u00fanico e com democracia interna. No debate ideol\u00f3gico da \u00e9poca, defendia um socialismo com democracia e se posicionava contra o Bloco Sovi\u00e9tico e o m\u00e9todo de organiza\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria de modelo leninista chamado de centralismo democr\u00e1tico. Obteve a legenda na reorganiza\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria orquestrada pelo Chefe da Casa Civil de Geisel e depois Figueiredo, o tamb\u00e9m general Golbery do Couto e Silva. Nos anos 80 este partido transformou em pol\u00edtica de massa bandeiras populares somadas com participa\u00e7\u00e3o no Estado atrav\u00e9s da disputa eleitoral. <\/p>\n<p>Podemos afirmar que a derrota para Collor em 1989, levou a uma profunda reorganiza\u00e7\u00e3o e reposicionamento de quadros chave (como Geno\u00edno, Z\u00e9 Dirceu e cia.) e suas respectivas correntes internas. Na Conven\u00e7\u00e3o Nacional de 1990, v\u00e1rias decis\u00f5es e rachas posicionam o PT mais \u00e0 direita. Ocorreram alguns, mas um representou a quebra da linha hist\u00f3rica do partido. A Articula\u00e7\u00e3o, que vinha diretamente das lutas de massa dos anos 70, na \u00e9poca ainda estava unit\u00e1ria e respondia por 60% da milit\u00e2ncia. Justo ela, a corrente original, racha em duas: na Articula\u00e7\u00e3o de Esquerda e na Articula\u00e7\u00e3o Unidade na Luta (de direita). V\u00eam desta direita da Articula\u00e7\u00e3o o maior volume de militantes e quadros do Campo Majorit\u00e1rio, hoje controlador dos cargos da Executiva Nacional. A m\u00eddia cobriu o posicionamento das maiores correntes da esquerda, a Democracia Socialista (DS), a A\u00e7\u00e3o Popular Socialista (APS) e a Articula\u00e7\u00e3o de Esquerda (AE). N\u00e3o foi coberto o fato de que os quadros (nacionais e m\u00e9dios) dos movimentos sociais que ainda tem o PT como refer\u00eancia, cada vez mais n\u00e3o se v\u00eaem representados sequer pela esquerda do partido.<\/p>\n<p>Passa desapercebido aos olhos dos analistas pol\u00edticos um processo iniciado em 1997. Surge neste ano um espa\u00e7o de debate e articula\u00e7\u00e3o chamado Consulta Popular, e que hoje j\u00e1 fala discretamente na forma\u00e7\u00e3o de uma outra id\u00e9ia de partido, uma organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica sem fins eleitorais. Adotaram para isso o conceito de instrumento pol\u00edtico. \u00c9 a mesma denomina\u00e7\u00e3o original do MAS boliviano de Evo Morales, cujo nome e id\u00e9ia inicial era ser o &#8220;Instrumento Pol\u00edtico Aut\u00eantico dos Povos Origin\u00e1rios da Bol\u00edvia&#8221;. Isto, antes do MAS ter a possibilidade de ser governo eleito na Bol\u00edvia.<\/p>\n<p>Neste ano de 2005, passaram a se chamar Movimento Consulta Popular. Planejam ir crescendo na medida que ganhem volume e visibilidade em diversos setores do movimento popular. Poderia apenas se tratar de mais uma corrente da esquerda do pa\u00eds, mas n\u00e3o \u00e9. Isto porque quem convoca e garante a exist\u00eancia do Consulta \u00e9 o Movimento Sem Terra (MST) atrav\u00e9s de grande parte de seus quadros m\u00e9dios e nacionais. A campanha dos plebiscitos contra o pagamento da d\u00edvida externa (em 2000) e contra a ALCA (em 2002) foram impulsionados por eles. Neste momento, realizam um trabalho de base, sob o guarda-chuva pol\u00edtico-social da Coordena\u00e7\u00e3o dos Movimentos Sociais (CMS), chamado &#8220;Mutir\u00e3o pelo Brasil que queremos&#8221;. \u00c9 uma campanha simples, com aplica\u00e7\u00e3o de question\u00e1rios e conversas em comunidades pobres. Nestas atividades, se fala abertamente de temas de fundo. Os eixos s\u00e3o a fal\u00eancia desta forma de representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, a defesa de uma outra organiza\u00e7\u00e3o de Estado e contra a pol\u00edtica econ\u00f4mica subserviente do governo que o pr\u00f3prio Consulta e o MST ap\u00f3iam &#8220;criticamente&#8221;.<\/p>\n<p>O dilema deste setor mais \u00e0 esquerda \u00e9 justamente este &#8220;apoio cr\u00edtico&#8221;. H\u00e1 setores inteiros do MST que n\u00e3o querem nem ouvir falar mais em elei\u00e7\u00e3o, muito menos em governo de coaliz\u00e3o. Simultaneamente, este movimento encabe\u00e7a ao lado da CUT (hoje no Minist\u00e9rio do Trabalho) a &#8220;Carta ao Povo Brasileiro&#8221;, convocando as for\u00e7as sociais a apoiarem ao governo Lula e combaterem a sua pol\u00edtica econ\u00f4mica. Reproduzem uma louca teoria de que &#8220;o governo est\u00e1 em disputa&#8221; enquanto existe um &#8220;cerco ao presidente&#8221;. Ambas id\u00e9ias j\u00e1 foram aplicadas pelos Montoneros para justificarem seu &#8220;apoio cr\u00edtico&#8221; ao 2\u00ba governo de Per\u00f3n (1973-1974). Com a Argentina em quase guerra civil, Per\u00f3n os expulsou do governo e do Partido Justicialista. Dois anos depois veio um golpe militar proto-fascista. Embora longe desta conjuntura, o Consulta, o MST e seus militantes vivem este mesmo dilema. Uma possibilidade \u00e9 partirem para a disputa interna no PT dominado pelo Campo Majorit\u00e1rio (ala direita). Para isto ter\u00e3o de se aliar com as correntes da esquerda petista (DS, AE e APS) o que hoje a maioria de sua milit\u00e2ncia quer \u00e9 dist\u00e2ncia. Ou ent\u00e3o abandonam de vez a disputa eleitoral e buscam um modelo de luta de massas aos moldes bolivianos. <\/p>\n<p>Este debate, longe de parecer algum del\u00edrio de extrema-esquerda, \u00e9 a conversa corrente entre os mais de 5.000 militantes do MST, que somando fam\u00edlias acampadas e assentadas, s\u00e3o mais de 2 milh\u00f5es de pessoas. Sem contar os setores da Igreja Cat\u00f3lica que hoje discutem acaloradamente duas op\u00e7\u00f5es. Podem deixar o PT e buscar uma via mais radicalizada, como fez a mesma Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Central e Andina. Ou desistem de fazer pol\u00edtica social e se concentram apenas na disputa por fi\u00e9is. Um observador atento pode acompanhar este dilema nas edi\u00e7\u00f5es semanais do jornal Brasil de Fato e nos artigos mensais de Jo\u00e3o Pedro St\u00e9dile na revista Caros Amigos. A crise pol\u00edtica antecipou a corrida eleitoral e tamb\u00e9m as crises no interior da pr\u00f3pria esquerda. Neste momento, o setor que tem a hegemonia no movimento popular brasileiro n\u00e3o sabe o que fazer. Se tenta salvar o governo Lula e disputa o PT por dentro, ou vai para a luta direta contra a pol\u00edtica econ\u00f4mica e a pr\u00f3pria forma de governar o pa\u00eds. <\/p>\n<p>Originalmente publicado no Blog de Ricardo Noblat<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Viam\u00e3o, 14\/07\/2005 O PT ainda \u00e9, ao menos numericamente, o maior partido de &#8220;esquerda&#8221; da Am\u00e9rica Latina. 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