{"id":699,"date":"2008-03-13T19:42:10","date_gmt":"2008-03-13T22:42:10","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/?p=699"},"modified":"2023-03-13T21:23:55","modified_gmt":"2023-03-14T00:23:55","slug":"170-anos-da-revolucao-farroupilha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=699","title":{"rendered":"170 anos da Revolu\u00e7\u00e3o Farroupilha"},"content":{"rendered":"<p>Viam\u00e3o\/RS 24\/09\/2005 <\/p>\n<p>Na ter\u00e7a-feira, dia 20 de setembro, a Revolu\u00e7\u00e3o Farroupilha cumpriu 170 anos. Os festejos tiveram lugar em todo o estado, com maior destaque para o acampamento do Parque da Harmonia, centro de Porto Alegre. Evento tem\u00e1tico, folcl\u00f3rico, tur\u00edstico e hist\u00f3rico, move paix\u00e3o e multid\u00e3o de uma parte do Brasil que com toda certeza, merece a fama e o respeito conquistados. Em um mundo contaminado pelos bens simb\u00f3licos globalizados, cantar e louvar a terra passa a ser um manifesto pol\u00edtico. No pa\u00eds em que vivemos, com crise de valores e classe pol\u00edtica corrupta, o louvor da pr\u00f3pria hist\u00f3ria, somado com carga de valores \u00e9ticos e saud\u00e1veis, \u00e9 base de regenera\u00e7\u00e3o para muita gente. Mas, como tudo na sociedade de classe, est\u00e1 dividida e peleada. Tanto pode salvar a oligarquia ga\u00facha como deve apontar um caminho para as lutas populares daqui. \u00c9 deste aspecto que trata o artigo. <\/p>\n<p>Voltando as comemora\u00e7\u00f5es, os n\u00fameros s\u00e3o impressionantes. Mais de 1 milh\u00e3o de pessoas participaram, apenas na capital, ao longo dos dias da Semana Farroupilha. No desfile oficial e tem\u00e1tico, co-organizado pelo governo do estado e o Movimento Tradicionalista Ga\u00facho (MTG), o p\u00fablico foi de 100.000 pessoas e os cavalarianos chegaram a 5.000. Isto, sem falar no desfile das for\u00e7as da ordem, encabe\u00e7adas pela Brigada Militar (pol\u00edcia-militar ga\u00facha). Esta \u00faltima, por ironia da hist\u00f3ria, foi inimiga dos revolucion\u00e1rios farrapos. Criada em 1836 como for\u00e7a auxiliar das tropas imperiais (caramurus), lutou ao lado de Caxias e Os\u00f3rio contra a independ\u00eancia do Rio Grande. Hoje, desfila ao lado de guascas pilchados com len\u00e7os vermelhos atados ao pesco\u00e7o. Como se v\u00ea, a luta pela afirma\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica est\u00e1 vencida perante a cultura de massas do centro do pa\u00eds. \u00c9 a peleia interna o que falta encarar. Nesta arena, a oligarquia local e o pensamento conservador vencem h\u00e1 d\u00e9cadas. <\/p>\n<p>Longe de ser um devaneio intelectual, este debate \u00e9 sentido, embora n\u00e3o seja ventilado. Basta conversar com algumas pessoas organizadoras de CTGs (Centro de Tradi\u00e7\u00f5es Ga\u00fachas), algumas com mais de 30 anos de lida, para notar esta inquietude. A identidade est\u00e1 ganha, mas e agora? A \u00faltima vez que o Rio Grande se manifestou, de peito aberto, puxando uma parte do povo ga\u00facho para uma luta comum, foi na Campanha da Legalidade e nos preparativos para resistir ao golpe de 1964. Nos anos seguintes, o pensamento conservador teve um terreno f\u00e9rtil e vazio a atuar, defendeu e moldando \u00e0 vontade uma forma de Tradi\u00e7\u00e3o ao seu discurso. Ju\u00edzes, advogados, grandes m\u00e9dicos, empres\u00e1rios, generais de ex\u00e9rcito e coron\u00e9is da Brigada abriram a cancha para uma forma de Tradicionalismo. Embora importante, apenas a est\u00e9tica n\u00e3o define uma identidade. <\/p>\n<p>Ao final da d\u00e9cada de \u201970, com o resgate dos bens simb\u00f3licos da cultura missioneira e fronteiri\u00e7a (nativista), uma outra carga ideol\u00f3gica \u00e9 somada a esta est\u00e9tica. Se afirmam lealdades, a fronteira, aos paises hermanos (Uruguai, Paraguai e Argentina) e a primeira rep\u00fablica. A segunda rep\u00fablica da pampa foi a Rio-Grandense (1835-1845), a primeira foi a Guarani Missioneira (1607-1756). Simbolizados nas guitarras e gaitas de gente como Noel Guarany, Cenair Maic\u00e1, Pedro Orta\u00e7a, e Jorge Guedes entre outros cantadores, alimentados nos versos xucros de diversos poetas, como Jayme Caetano e Jo\u00e3o Sampaio , valores e ideologia populares legitimam-se como tradicionais. Trinta anos depois, a pesquisa hist\u00f3rica dos folcloristas fundadores do MTG e a cultura popular dos artistas missioneiros co-habita o mesmo espa\u00e7o. Mas, identidades \u00e0 parte, as contradi\u00e7\u00f5es continuam, e bem vivas. <\/p>\n<p>Debates centrais necessitam ser feitos. Apenas para citar um entre tantos, o significado pol\u00edtico do cultuado gauchismo. N\u00e3o falamos de simp\u00f3sios e semin\u00e1rios acad\u00eamicos, mas sim de um debate vivo sobre algo que reflete um sentimento popular do Rio Grande. Apenas nas inst\u00e2ncias, entidades e afiliados do MTG circulam mais de 1 milh\u00e3o de pessoas. Sem contar os homens e mulheres da migra\u00e7\u00e3o ga\u00facha, que cultuam sua identidade em galp\u00f5es al\u00e9m fronteiras. Uma primeira observa\u00e7\u00e3o nos tr\u00e1s o \u00f3bvio. O que sucede no imagin\u00e1rio ga\u00facho, n\u00e3o se trata de bairrismo mas sim de identidade. Acirrados os \u00e2nimos, especialmente se h\u00e1 uma causa justa e n\u00e3o simples chauvinismo pol\u00edtico, o governo federal ou da Uni\u00e3o passa a ser visto como governo central. Assim j\u00e1 ocorreu diversas vezes e pode voltar a passar. Basta a motiva\u00e7\u00e3o certa. <\/p>\n<p>Resta saber se a luta pol\u00edtica no interior da identidade ga\u00facha vai mudar ou n\u00e3o de hegemonia. Reunidos no mito fundador, est\u00e3o her\u00f3is e traidores, variando o ponto de vista. A Revolu\u00e7\u00e3o Farroupilha foi mais uma entre tantas revolu\u00e7\u00f5es tra\u00eddas. Ponche Verde, quando foi assinado acordo de paz com o Imp\u00e9rio Luso-brasileiro, consumou a trai\u00e7\u00e3o. Conforme j\u00e1 dissemos, a batalha simb\u00f3lica foi ganha. Falta a ideol\u00f3gica. Estamos falando de identidade popular ou chauvinismo regional? O Rio Grande louva a traidores escravagistas como Vicente da Fontoura, Onofre, Bento Manoel e Canabarro; ou a republicanos abolicionistas como Ant\u00f4nio de Souza Netto, Teixeira Nunes, Giuseppe e Anita Garibaldi? O 20 de setembro afirma os estancieiros que peleavam pelo pre\u00e7o do charque ou aos lanceiros negros e a cavalaria charrua? Trazendo para os dias atuais, louva-se aos grupos econ\u00f4micos e latifundi\u00e1rios que mamam nas tetas do estado ou defende-se aos mais de 1 milh\u00e3o de ga\u00fachos desempregados? <\/p>\n<p>Em 2005, completam-se 170 anos da Revolu\u00e7\u00e3o Farroupilha. Ano que vem, 250 anos da Rep\u00fablica Guarani Missioneira. Talvez a resposta para esta d\u00favida hist\u00f3rica e pol\u00edtica j\u00e1 nos foi dada pelo l\u00edder guarani Sep\u00e9 Tiaraj\u00fa. Os jesu\u00edtas tentaram convencer ao Conselho dos 30 Povos das Miss\u00f5es a se renderem a Portugal e Espanha. Em nome do Conselho, Tiaraj\u00fa respondeu de forma simples e rude: <\/p>\n<p>\u201c N\u00e3o se pode servir a dois senhores! \u201c <\/p>\n<p>artigo originalmente publicado no blog de Ricardo Noblat <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Viam\u00e3o\/RS 24\/09\/2005 Na ter\u00e7a-feira, dia 20 de setembro, a Revolu\u00e7\u00e3o Farroupilha cumpriu 170 anos. Os festejos tiveram lugar em todo o estado, com maior destaque para o acampamento do Parque da Harmonia, centro de Porto Alegre. 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