{"id":700,"date":"2008-03-13T19:42:10","date_gmt":"2008-03-13T22:42:10","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/?p=700"},"modified":"2023-03-13T21:23:55","modified_gmt":"2023-03-14T00:23:55","slug":"roberto-macunaima-jefferson","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=700","title":{"rendered":"Roberto Macuna\u00edma Jefferson"},"content":{"rendered":"<p>Viam\u00e3o, 16\/09\/2005 <\/p>\n<p>Depois de discursar na C\u00e2mara, o ainda deputado federal Roberto Jefferson foi para seu apartamento funcional. De l\u00e1, acompanhou a vota\u00e7\u00e3o que o cassou, quando 313 deputados votaram contra ele e 156 parlamentares o defenderam, desejando ver o advogado fluminense no posto at\u00e9 o final de 2006. Agora acabou. Meses ap\u00f3s a crise pol\u00edtica ser deflagrada por uma opera\u00e7\u00e3o da Abin nos Correios, o grande orador vai ter de se contentar em cantar \u00f3pera na sala. <\/p>\n<p>Ap\u00f3s o t\u00e9rmino da sess\u00e3o, Roberto Jefferson recebe amigos, parentes e correligion\u00e1rios. Confraternizam com champagne o fim de um calv\u00e1rio, talvez aliviado. A maior popularidade veio junto do maior risco. Lula, Jos\u00e9 Dirceu, Palocci e Geno\u00edno esqueceram um dos preceitos b\u00e1sicos da estrat\u00e9gia. N\u00e3o se deve encurralar um inimigo tirando dele toda e qualquer possibilidade de sa\u00edda. O ex-presidente do PTB sabia disto, declarou-se como homem bomba e detonou ao sistema pol\u00edtico do pa\u00eds. Queria somente uma sa\u00edda, alguma cumplicidade. N\u00e3o teve nada disto, apenas indiferen\u00e7a e dist\u00e2ncia. <\/p>\n<p>O homem da tropa de choque de Collor de Mello foi muito feliz ao menos em uma compara\u00e7\u00e3o. Nos governos anteriores, aos parlamentares do Congresso se adulava com emendas, obras e gordos recursos do or\u00e7amento. Os deputados e senadores eram atendidos e devidamente cortejados. Fernando Henrique, por exemplo, foi mestre na arte dos \u201csalamaleques republicanos\u201d. Eventualmente, acusa\u00e7\u00f5es de compra de votos e mudan\u00e7as de legendas apareciam na m\u00eddia. Mas, era uma medida eventual. O baixo clero se alimentava por dentro, atrav\u00e9s de emendas com rubricas. No governo de Lula com Jos\u00e9 Dirceu primeiro-ministro, tudo mudou. O pragmatismo de Dirceu \u00e9 adepto da real politik. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel governar sem maioria. Considerando o perfil \u00e9tico dos congressistas, o melhor \u00e9 comprar a lealdade. Se negocia com dinheiro, que \u00e9 linguagem universal. A isto, Jefferson deu o apelido de mensal\u00e3o e classificou aos parlamentares como tropa mercen\u00e1ria. Foi muito feliz e preciso em ambos conceitos. <\/p>\n<p>A contradi\u00e7\u00e3o de Jefferson passa pela afetividade. Quer carinho de quem o contrata como operador pol\u00edtico. Nos surpreende o espanto deste advogado criminalista, acostumado com os bastidores n\u00e3o-republicanos do Planalto, antes muito bem treinado na barra pesada da Baixada Fluminense. J\u00e1 deveria saber, nenhum contratante nutre sentimentos pelos mercen\u00e1rios. Em Bras\u00edlia, s\u00e3o pe\u00e7as num jogo real de pol\u00edtica crua, disputa direta por interesses, onde orat\u00f3ria e espionagem andam lado a lado. Os momentos de alegria e descontra\u00e7\u00e3o j\u00e1 aconteceram, nas festas euf\u00f3ricas organizadas por Jeanne Mary C\u00f3rner. Agora a festa acabou, sobra apenas ressaca e dor de cabe\u00e7a. <\/p>\n<p>Em outro tipo de conflito, com batalhas mais francas, onde simplesmente homens e mulheres se matam de frente, mercen\u00e1rios sequer s\u00e3o protegidos pela Conven\u00e7\u00e3o de Genebra. Quando aprisionados em campo de batalha, ap\u00f3s serem devidamente interrogados (sob tortura, leia-se), s\u00e3o simplesmente fuzilados. Pouco ou nada diferem dos matadores contratados pelo Esquadr\u00e3o da Morte operando no Rio e no Esp\u00edrito Santo. Geralmente s\u00e3o presos, fazem acordos e t\u00eam suas fugas facilitadas. Na rua, os marginais executam suas v\u00edtimas com armas frias. Algumas semanas depois, s\u00e3o eliminados pelos pr\u00f3prios mandantes, para fins de queima de arquivo. Roberto Jefferson, como advogado criminalista, deveria saber disso. <\/p>\n<p>A Legi\u00e3o Estrangeira \u00e9 a mais famosa unidade de mercen\u00e1rios operando no mundo. Mas, ao contr\u00e1rio dos parlamentares do PTB, PL e PP, estes soldados t\u00eam status de franceses em guerras oficiais. Ainda assim, nas opera\u00e7\u00f5es irregulares, s\u00e3o a bucha de canh\u00e3o da civiliza\u00e7\u00e3o francesa. Mad Mike Hoare nasceu na Irlanda, e ap\u00f3s a 2\u00aa guerra mundial imigrou para a \u00c1frica do Sul. L\u00e1, o veterano coronel que servira nos regimentos Irish London Guards e Chindits, montou uma empresa de mercen\u00e1rios, chamada Commando 5. Orientava seus soldados a n\u00e3o se deixarem capturar. Como tropa mercen\u00e1ria, as multinacionais europ\u00e9ias que os contratavam n\u00e3o moveriam um dedo por suas vidas. Se fossem presos, seriam barbaramente torturados e depois com sorte morreriam fuzilados. Em compensa\u00e7\u00e3o, a comida era boa, os soldos pagos em dia e a pilhagem era livre. O coronel Mike sabia que, mesmo com toda sua experi\u00eancia, n\u00e3o poderia conter uma rebeli\u00e3o de mercen\u00e1rios. <\/p>\n<p>A Ci\u00eancia Pol\u00edtica brasileira trouxe da Hist\u00f3ria um termo para esta forma de acumula\u00e7\u00e3o. Chamou de patrimonialismo a incorpora\u00e7\u00e3o indevida e privada dos bens p\u00fablicos. Recentemente, um dos poucos conceitos corretos dos muitos importados da academia estadunidense, explica de forma mais l\u00facida. Denomina sistema de esp\u00f3lio a apropria\u00e7\u00e3o pessoal e partid\u00e1ria dos recursos p\u00fablicos centralizados pelo Estado. E, como agora a na\u00e7\u00e3o percebe, espoliar \u00e9 uma arte complicada. <\/p>\n<p>Como todo aprendizado, come\u00e7am fazendo de laborat\u00f3rio a prefeituras m\u00e9dias e secretarias estaduais. Uma vez dominado o mecanismo, o alvo \u00e9 o governo da Uni\u00e3o. Para operar neste terreno in\u00f3spito, s\u00e3o necess\u00e1rios aliados. A novidade deste governo no modus operandi do esp\u00f3lio sobre a m\u00e1quina estatal \u00e9 a aus\u00eancia de alian\u00e7a. As velhas oligarquias e os not\u00e1veis do tucanato n\u00e3o s\u00e3o esnobes entre os iguais e sempre compartilharam lucros, dividendos, e emendas. Pagavam o pre\u00e7o justo pelos votos necess\u00e1rios e faziam as devidas cerim\u00f4nias uns com os outros. A nova tropa que chegou em 2003 buscou ser mais direta. Uma vez que a classe pol\u00edtica brasileira \u00e9 considerada por eles como corrupta, e considerando ser imposs\u00edvel governar sem maioria, compra-se esta maioria e n\u00e3o se fala mais nisso. Quando a fonte secou, a tropa auxiliar contratada rebelou-se. Primeiro, elegendo a Severino. Depois, sentindo-se abandonado, o homem a quem o presidente Lula disse que daria um cheque em branco acendeu o pavio. <\/p>\n<p>No dia 14 de setembro o ex-homem de confian\u00e7a foi cassado por seus pares. Estes, constrangidos e temerosos, sequer aplaudiram o pr\u00f3prio ato. A direita diz que n\u00e3o houve aplausos por que Roberto Jefferson foi um her\u00f3i. Denunciara o maior esquema de corrup\u00e7\u00e3o j\u00e1 visto na rep\u00fablica e portanto merece admira\u00e7\u00e3o. Se Jefferson \u00e9 her\u00f3i, \u00e9 mais um Macuna\u00edma, o her\u00f3i sem car\u00e1ter de um povo sem orgulho e contradit\u00f3rio por natureza. Quanto ao car\u00e1ter, estamos de acordo. Afirmar que o povo brasileiro merece os dirigentes que tem, nada pode ser mais ing\u00eanuo e injusto. <\/p>\n<p>Desta classe pol\u00edtica de mercen\u00e1rios e pragm\u00e1ticos, pouco ou nada se pode esperar. Neste momento de crise do sistema pol\u00edtico brasileiro, vale lembrar as palavras de um vecino hermano do Rio Grande, vivendo e peleando um pouco mais ao sul, l\u00e1 na Banda Oriental del Uruguay. Com a sabedoria adquirida na dura lida de lan\u00e7a, vento chumbo e coxilha, Jos\u00e9 Artigas, general de homens livres, dizia nas proclamas a seu povo: <\/p>\n<p>\u201cNada podemos esperar a n\u00e3o ser de n\u00f3s mesmos!\u201d <\/p>\n<p>Originalmente publicado no blog de Ricardo Noblat <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Viam\u00e3o, 16\/09\/2005 Depois de discursar na C\u00e2mara, o ainda deputado federal Roberto Jefferson foi para seu apartamento funcional. De l\u00e1, acompanhou a vota\u00e7\u00e3o que o cassou, quando 313 deputados votaram contra ele e 156 parlamentares o defenderam, desejando ver o advogado fluminense no posto at\u00e9 o final de 2006. Agora acabou. 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