{"id":725,"date":"2008-03-13T19:42:10","date_gmt":"2008-03-13T22:42:10","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/?p=725"},"modified":"2023-03-13T21:23:11","modified_gmt":"2023-03-14T00:23:11","slug":"250-anos-de-sepe-tiaraju","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=725","title":{"rendered":"250 anos de Sep\u00e9 Tiaraju"},"content":{"rendered":"<figure class=\"image-container image-post-defautl\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/BXK1485_Sao_MigueldasMissoes_RS800.jpg\" title=\"As torres destas ru\u00ednas refletem a disputa pela mem\u00f3ria e a ideologia da Rep\u00fablica Missioneira. - Foto:\" alt=\"As torres destas ru\u00ednas refletem a disputa pela mem\u00f3ria e a ideologia da Rep\u00fablica Missioneira. - Foto:\" class=\"image\"><figcaption class=\"fig-caption\">As torres destas ru\u00ednas refletem a disputa pela mem\u00f3ria e a ideologia da Rep\u00fablica Missioneira.<\/figcaption><small itemprop=\"copyrightHolder\" class=\"copyright\"> Foto:<\/small><\/figure>\n<p >Viam\u00e3o\/RS, 28\/02\/2006<\/p>\n<p ><?xml:namespace prefix = st1 ns = \"schemas-houaiss\/mini\" \/>Hist\u00f3ria e ideologia definitivamente n\u00e3o s\u00e3o a mesma <?xml:namespace prefix = st2 ns = \"schemas-houaiss\/acao\" \/>coisa. A interpreta\u00e7\u00e3o do mito \u00e9 a a\u00e7\u00e3o de <st2:hm>reescrever<\/st2:hm> a hist\u00f3ria de forma permanente. A narrativa popular quando revisitada, revivida, serve para distintos interesses. No caso da Rep\u00fablica Guaran\u00edtica Missioneira, vale uma breve narrativa hist\u00f3rica para <st2:hdm>situar<\/st2:hdm> o leitor na import\u00e2ncia do tema.<\/p>\n<p >Os <?xml:namespace prefix = st1 ns = \"schemas-houaiss\/mini\" \/>povos guaranis que habitavam o territ\u00f3rio hoje equivalente ao Paraguai e as prov\u00edncias do Nordeste argentino (Litoral e Misiones) tomaram contato com os jesu\u00edtas no ano de 1612. A tens\u00e3o da catequese e de alguns caciques arredios \u00e0s redu\u00e7\u00f5es n\u00e3o impediu o crescimento das novas cidades. Em 1626 as Miss\u00f5es Jesu\u00edticas do Paraguai atravessam o <?xml:namespace prefix = st2 ns = \"schemas-houaiss\/acao\" \/>Rio Uruguai e se instalam em terras \u201cent\u00e3o espanholas\u201d e hoje pertencentes ao Rio Grande do Sul. O desenvolvimento desta civiliza\u00e7\u00e3o se depara com outra tens\u00e3o, que vai al\u00e9m da resist\u00eancia a catequiza\u00e7\u00e3o de parte das tribos. <\/p>\n<p >Diversas bandeiras sa\u00edam com tropas de mesti\u00e7os mamelucos, provenientes da S\u00e3o Paulo de Piratininga rumo ao sul da Am\u00e9rica. Atravessavam os limites de Tordesilhas, invadindo territ\u00f3rio em tese espanhol, mas de fato Guarani e Jesu\u00edta. Sua \u201cmiss\u00e3o civilizat\u00f3ria\u201d era bem simples. <st2:hm>Estender<\/st2:hm> os limites lusos, e de quebra, <st2:hm>saquear<\/st2:hm> riquezas, <st2:hm>estuprar<\/st2:hm> mulheres, <st2:hdm>matar<\/st2:hdm> quem se <st2:hdm>atravessar<\/st2:hdm> na frente e <st2:hm>escravizar<\/st2:hm> os ind\u00edgenas sobreviventes. Em 1641, na Batalha do Mboror\u00e9, come\u00e7a a <st2:hm>nascer<\/st2:hm> o mito da rebeldia ga\u00facha. Neste local, os bandeirantes s\u00e3o derrotados por tropas missioneiras, compostas por guerreiros guaranis. Por 100 anos se desenvolveria com relativa tranq\u00fcilidade uma outra civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p >Entre 1641 e 1750, nascem nas Miss\u00f5es as bases da economia ga\u00facha. A metalurgia, a cria\u00e7\u00e3o de gado, a manufatura do setor-coureiro cal\u00e7adista, a ind\u00fastria t\u00eaxtil, a cultura de gr\u00e3os, os ervais, a constru\u00e7\u00e3o civil e a escolaridade plena florescem. \u00c9 ing\u00eanuo <st2:hm>crer<\/st2:hm> que tudo fora obra dos jesu\u00edtas operando sua capacidade organizativa sobre \u201cselvagens\u201d de bom esp\u00edrito. Da fus\u00e3o de mitos e formas de civiliza\u00e7\u00e3o nasce uma outra distinta. A \u201cterra sem males\u201d dos guaranis ganha novos contornos quando estes se alfabetizam em seu pr\u00f3prio idioma e em latim. Em compensa\u00e7\u00e3o, os paj\u00e9s s\u00e3o sacrificados ou re-convertidos. <\/p>\n<p >A civiliza\u00e7\u00e3o missioneira assim nasce e brota da rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as entre jesu\u00edtas e guaranis. Se a religiosidade foi vencida pela Igreja, no mundo do trabalho a vit\u00f3ria foi guaran\u00edtica. Havia duas modalidades de produ\u00e7\u00e3o praticadas, a individual chamada de abanba\u00e9 e a coletiva, conhecida como \u201ctrabalho para Deus\u201d, a tupanba\u00e9. A produ\u00e7\u00e3o em lotes individuais era quase irrelevante, portanto a produ\u00e7\u00e3o coletiva sustentava os 33 povos das miss\u00f5es. Eram 26 do outro lado do Rio Uruguai e 7 no lado de c\u00e1, na Regi\u00e3o ent\u00e3o conhecida como Miss\u00f5es Orientais, isto at\u00e9 o acordo firmado pelo em 1828 pelo general cisplatino (<?xml:namespace prefix = st3 ns = \"schemas-houaiss\/dicionario\" \/><st3:sinonimos>uruguaio<\/st3:sinonimos>) Juan Antonio Lavalleja, com o Imp\u00e9rio sediado no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p >Outra marca da organiza\u00e7\u00e3o social guarani que permanecera nas Miss\u00f5es era a democracia interna. Todos os cargos p\u00fablicos eram eleitos e o sistema dos povos funcionava atrav\u00e9s de uma esp\u00e9cie de federalismo. Mesmo sendo complicado <st2:hm>fazer<\/st2:hm> compara\u00e7\u00f5es de tipo ideol\u00f3gico, \u00e9 preciso <st2:hm>ressaltar<\/st2:hm> que durantes estes 100 anos n\u00e3o havia desigualdades sociais e nem sombra de <st3:sinonimos>escravagismo<\/st3:sinonimos>. O total de popula\u00e7\u00e3o assim organizada eram ao redor de 50 mil pessoas, 95% compostas por guaranis. <\/p>\n<p >Um dos eleitos para fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica era um \u00f3rf\u00e3o guarani, nascido em 1722 ou 1723 e batizado Sep\u00e9 Tiaraju. Criado na redu\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Miguel, este homem foi eleito para alferes e corregedor, uma esp\u00e9cie de prefeito de seu cabildo, \u00f3rg\u00e3o administrativo da redu\u00e7\u00e3o. Em 1750, a pol\u00edtica pombalina portuguesa vira o jogo e \u00e9 assinado o Tratado de Madrid. Neste, Espanha receberia a Col\u00f4nia de Sacramento, fundada em 1680 na margem direita do Prata e Portugal receberia os 7 Povos das Miss\u00f5es, compostos por S\u00e3o Miguel, S\u00e3o Borja, S\u00e3o Louren\u00e7o, S\u00e3o Jo\u00e3o, Santo \u00c2ngelo, S\u00e3o Lu\u00eds Gonzaga e S\u00e3o Nicolau. Recuaria assim a fronteira para a margem esquerda do Uruguai. Para <st2:hm>fazer<\/st2:hm> <st2:hm>valer<\/st2:hm> o acordo, uma expedi\u00e7\u00e3o <st2:hm>militar<\/st2:hm> comum foi criada entre os dois imp\u00e9rios. <\/p>\n<p >Nasce o mito de Sep\u00e9 por sua lideran\u00e7a e <st3:sinonimos>mudan\u00e7a<\/st3:sinonimos> de posi\u00e7\u00e3o. A princ\u00edpio manteve-se leal aos jesu\u00edtas, que aconselharam a <st3:sinonimos>demarca\u00e7\u00e3o<\/st3:sinonimos> das terras e fronteiras de acordo com o novo tratado. Alguns caciques rebeldes se recusavam a <st2:hm>obedecer<\/st2:hm> ao governador de Buenos Aires e n\u00e3o mexiam nos marcos. Sep\u00e9 mudou sua posi\u00e7\u00e3o, segundo a lenda jesu\u00edta, por <st2:hdm>ter<\/st2:hdm> tido uma vis\u00e3o, onde o arcanjo S\u00e3o Miguel aconselhava a um pequeno \u00edndio para que o povo n\u00e3o mudasse a fronteira. Da\u00ed para \u00e0 frente \u00e9 hist\u00f3ria conhecida.<\/p>\n<p >Em 1752 come\u00e7am os trabalhos de <st3:sinonimos>demarca\u00e7\u00e3o<\/st3:sinonimos> do Tratado de Madrid. Em 1753 Sep\u00e9 lidera expedi\u00e7\u00f5es militares para <st2:hdm>impedir<\/st2:hdm> a nova fronteira. No ano seguinte, come\u00e7a a Guerra Guaran\u00edtica, onde a Rep\u00fablica enfrenta a dois imp\u00e9rios, Portugal e Espanha. No dia 7 de fevereiro de 1756, Sep\u00e9 cai em combate, no arroio Caiboat\u00e9, onde hoje se localiza a cidade de S\u00e3o Gabriel. Tr\u00eas dias depois nasce o mito, pois neste combate, onde 1.500 guerreiros guaranis foram massacrados pelas for\u00e7as conjuntas, o povo afirma <st2:hdm>ter<\/st2:hdm> visto \u201cS\u00e3o Sep\u00e9\u201d.<\/p>\n<p >Entre os dias 3 e 7 de fevereiro de 2006, na mesma cidade onde o cacique ca\u00edra em combate, diversos setores do movimento popular, entre eles o MST, os setores de pastorais da Igreja, remanescentes de quilombos e o pr\u00f3prio Movimento Tradicionalista Ga\u00facho (MTG), de forma razoavelmente unificada, coordenaram a mem\u00f3ria viva do m\u00e1rtir do Rio Grande. A luta institucional est\u00e1 sendo travada para o reconhecimento oficial do governo do estado, e o decreto de feriado estadual no dia 7 de fevereiro. No n\u00edvel popular, a defesa do mito criador do povo ga\u00facho j\u00e1 \u00e9 exercida h\u00e1 muito, sendo que os Trabalhadores Sem-terra, os ativistas culturais missioneiros e os pesquisadores e folcloristas est\u00e3o \u00e0 frente disso. No n\u00edvel pol\u00edtico, a <st3:sinonimos>reivindica\u00e7\u00e3o<\/st3:sinonimos> nas ruas foi feita apenas por um setor da extrema-esquerda local, com colagens na Regi\u00e3o Metropolitana promovidas pela Federa\u00e7\u00e3o Anarquista Ga\u00facha (FAG).<\/p>\n<p >\u00c9 interessante <st2:hm>observar<\/st2:hm> as deriva\u00e7\u00f5es e consequ\u00eancias na defesa do mito de S\u00e3o Sep\u00e9. Tiaraju n\u00e3o foi canonizado, assim como tamb\u00e9m n\u00e3o foram Ant\u00f4nio Conselheiro e o monge Jo\u00e3o Maria do Contestado. Popularmente se faz refer\u00eancia ao cacique-corregedor, estando nele a representa\u00e7\u00e3o coletiva da Rep\u00fablica Missioneira. S\u00e3o Sep\u00e9 \u00e9 hoje o nome de uma cidade na Regi\u00e3o Central do estado. Este munic\u00edpio, assim como S\u00e3o Gabriel, na Fronteira Oeste, por ironia da hist\u00f3ria, s\u00e3o os centros do latif\u00fandio e da UDR ga\u00facha. Estes territ\u00f3rios s\u00e3o um foco de permanente tens\u00e3o e disputa pela posse da terra. As contradi\u00e7\u00f5es n\u00e3o param por a\u00ed.<\/p>\n<p ><st2:hdm>Reivindicar<\/st2:hdm> a Sep\u00e9 n\u00e3o \u00e9 del\u00edrio folcl\u00f3rico, mas a afirma\u00e7\u00e3o de uma identidade hist\u00f3rica. A Regi\u00e3o das Miss\u00f5es era praticamente um auto-governo, liderado por n\u00e3o-brancos e controlando autonomamente um vasto territ\u00f3rio. Sequer nasce luso-brasileira, tal e qual o Rio Grande do Sul. <st2:hm>Afirmar<\/st2:hm> a Tiaraju \u00e9 <st2:hdm>repetir<\/st2:hdm> conflitos e <st2:hdm>questionar<\/st2:hdm> a Hist\u00f3ria ga\u00facha e brasileira.<\/p>\n<p >O mito por si s\u00f3 vai sendo reproduzido nas situa\u00e7\u00f5es mais inesperadas. No embate atual pelo controle da RS 040, em Viam\u00e3o, a \u00e1rea de recuo dos manifestantes costuma <st2:hm>ser<\/st2:hm> um assentamento do MST, chamado de Filhos de Sep\u00e9. Do outro lado se posiciona uma institui\u00e7\u00e3o criada pelo governo central, em 1837. Aprinc\u00edpio chamada de Corpo <st2:hdm>Auxiliar<\/st2:hdm> de Pol\u00edcia Imperial, combateu duramente os Farrapos. Foi depois reorganizada como ex\u00e9rcito estadual, renomeada, na ditadura de J\u00falio de Castilhos e Borges de Medeiros como Brigada <st2:hm>Militar<\/st2:hm>. <\/p>\n<p >A Sep\u00e9 Tiaraju se atribuem duas senten\u00e7as emblem\u00e1ticas, cujas conseq\u00fc\u00eancias se refletem na atualidade das lutas populares:<\/p>\n<p >\u201cEsta terra tem dono!\u201d <\/p>\n<p >\u201cN\u00e3o se pode <st2:hdm>servir<\/st2:hdm> a dois senhores!\u201d <\/p>\n<p >artigo originalmente publicado no Blog de Noblat<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As torres destas ru\u00ednas refletem a disputa pela mem\u00f3ria e a ideologia da Rep\u00fablica Missioneira. Foto: Viam\u00e3o\/RS, 28\/02\/2006 Hist\u00f3ria e ideologia definitivamente n\u00e3o s\u00e3o a mesma coisa. 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