{"id":741,"date":"2008-03-13T19:42:10","date_gmt":"2008-03-13T22:42:10","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/?p=741"},"modified":"2023-03-13T21:22:10","modified_gmt":"2023-03-14T00:22:10","slug":"o-futebol-na-base-do-tecido-social-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=741","title":{"rendered":"O Futebol na base do tecido social brasileiro"},"content":{"rendered":"<figure class=\"image-container image-post-defautl\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/campodarocinha.jpg\" title=\"Em jogos como este, se refor\u00e7am os la\u00e7os sociais e nos redescobrimos como povo e classe - Foto:\" alt=\"Em jogos como este, se refor\u00e7am os la\u00e7os sociais e nos redescobrimos como povo e classe - Foto:\" class=\"image\"><figcaption class=\"fig-caption\">Em jogos como este, se refor\u00e7am os la\u00e7os sociais e nos redescobrimos como povo e classe<\/figcaption><small itemprop=\"copyrightHolder\" class=\"copyright\"> Foto:<\/small><\/figure>\n<p >20 de <?xml:namespace prefix = st1 ns = \"schemas-houaiss\/mini\" \/>junho de 2006, Vila Setembrina dos Farrapos de Viam\u00e3o, Continente do <?xml:namespace prefix = st2 ns = \"schemas-houaiss\/acao\" \/>Rio Grande de S\u00e3o Sep\u00e9<\/p>\n<p >Seguimos falando de futebol, porque somos brasileiros, latino-americanos e cultivadores da mesma paix\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 clich\u00ea, \u00e9 cren\u00e7a mesmo. Este artigo \u00e9 o segundo da trilogia, onde abordamos temas ligados ao mundo da bola. O primeiro tratou de pol\u00edtica com p mai\u00fasculo e min\u00fasculo. O segundo, este, da presen\u00e7a do esporte nos tecidos sociais mais fragilizados do pa\u00eds. No terceiro, abordaremos a triste constata\u00e7\u00e3o que nos faltam pol\u00edticas p\u00fablicas, tanto para o esporte mais querido, como para as demais modalidades.<\/p>\n<p >A <?xml:namespace prefix = st1 ns = \"schemas-houaiss\/mini\" \/>bola \u00e9 fator de motiva\u00e7\u00e3o e associativismo nas camadas mais pobres e com menos <?xml:namespace prefix = st2 ns = \"schemas-houaiss\/acao\" \/><st2:hm>poder<\/st2:hm> de decis\u00e3o da sociedade brasileira. Uma sociedade em frangalhos como a nossa, sempre se escora nos h\u00e1bitos e costumes populares, para <st2:hm>ag\u00fcentar<\/st2:hm> mais um pouco. Padr\u00f5es b\u00e1sicos de socializa\u00e7\u00e3o passam pelo esporte. Especificamente, pelo futebol amador praticado de norte a sul do pa\u00eds. \u00c9 este o motor da paix\u00e3o pelo time canarinho; e gra\u00e7as a estes an\u00f4nimos ainda aturamos a propaganda ufanista do Galv\u00e3o Bueno e os desmandos do cons\u00f3rcio de transnacionais e empresas associadas, que gerenciam a CBF de Ricardo Teixeira.<\/p>\n<p >Compondo as bases de um sem n\u00famero de institui\u00e7\u00f5es sociais &#8211; formais e informais \u2013 est\u00e1 uma infinidade de times de pelada. Na v\u00e1rzea, na quadra p\u00fablica, nos campos de ch\u00e3o batido, no arei\u00e3o com pedra, no futebol de areia de praia, jogando de 11, so\u00e7aite ou futsal, milh\u00f5es de brasileiros se encontram e se divertem todos os dias. H\u00e1bitos como estes, garantem a socializa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, ultrapassando as barreiras do dia-dia, dentre elas a ditadura da intermedia\u00e7\u00e3o da m\u00eddia. <\/p>\n<p >Embora sejam pouco aproveitados como fator de c\u00e2mbio social, uma das \u00faltimas trincheiras contra o individualismo absurdo \u00e9 a associa\u00e7\u00e3o livre e amadora para <st2:hm>fazer<\/st2:hm> aquilo que se gosta e todos sabem um pouco. Isto, somado a virtudes m\u00ednimas, tais como conectividade, solidariedade, confian\u00e7a e um pouco de altru\u00edsmo, comp\u00f5em os ingredientes daquilo que a academia chama de Capital Social. Esta defini\u00e7\u00e3o foi sacada do artigo escrito para este blog por meu amigo Dejalma Cremonese, professor da Uniju\u00ed e especialista no tema. Recordando conversas que tivemos, me explicava o professor de origem camponesa, da import\u00e2ncia que via nas peladas semanais com professores e t\u00e9cnicos administrativos de seu local de trabalho. Valia, era compensador, fazendo-o at\u00e9 <st2:hm>abstrair<\/st2:hm> das botinadas e da canela roxa de toda 2\u00aa de manh\u00e3.<\/p>\n<p >Particularmente, nada tenho contra este conceito, muito pelo contr\u00e1rio. Ainda assim, prefiro a id\u00e9ia oriunda de movimentos populares do Rio da Prata, denominando as institui\u00e7\u00f5es sociais mais de base, como aquelas que comp\u00f5em o tecido social. Tecido ou Capital social, o efeito \u00e9 o mesmo, e a defini\u00e7\u00e3o quase id\u00eantica. Recurso final contra a individualiza\u00e7\u00e3o extrema, o aumento do estoque deste Capital ben\u00e9fico \u00e9 fator essencial para o desenvolvimento da sociedade. Uma constata\u00e7\u00e3o \u00e9 simples: o associativismo volunt\u00e1rio no Brasil tem seus bancos de escola nos rateios para a compra de jogos de camisa. Entre rach\u00f5es, varzeanos, ligas de areia ou simples pelada dos com camisa contra sem camisa, nos damos conta que precisamos de outros seres para <st2:hm>viver<\/st2:hm> e <st2:hm>compartilhar<\/st2:hm> as desgra\u00e7as ou alegrias da vida coletiva. <\/p>\n<p >Infelizmente, tamanho potencial n\u00e3o passa desapercebido pelos agentes e atores, cuja meta \u00e9 <st2:hm>desorganizar<\/st2:hm> para <st2:hm>usurpar<\/st2:hm> seu potencial de auto-representa\u00e7\u00e3o. Quem pensou no mais obscuro cabo eleitoral, distribuindo uniforme com a cara e o n\u00famero do vereador ou deputado, acertou. O mesmo se d\u00e1 nas \u201ccopas\u201d com nome de fulano ou beltrano. Estas, somadas \u00e0s \u201cfestas\u201d com o apoio de algum pol\u00edtico ou candidato, e j\u00e1 est\u00e1 maculado o esfor\u00e7o social. Se ficasse apenas na baixa classe pol\u00edtica, seria menos ruim. Mas n\u00e3o \u00e9. De uns quinze anos para c\u00e1, tornou-se costume o patroc\u00ednio para times de pelada. Nomes tradicionais, associados a um bairro, rua, loteamento, termos folcl\u00f3ricos ou turma de amigos, v\u00e3o sendo substitu\u00eddos por times batizados com marcas de drogarias, tele-entregas de pizza ou mercadinhos de vilas ou periferias.<\/p>\n<p >Tamanho esfor\u00e7o de apadrinhamento n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa. Muitas vezes um campeonato de primeira divis\u00e3o estadual tem as arquibancadas do est\u00e1dio vazias, e ao mesmo tempo, v\u00e1rias canchas de bairros est\u00e3o lotadas. Duas ruas acima e quadras de aluguel de futsal tem uma longa fila de espera. Por momentos, temos mais de 100 pessoas compartilhando o gin\u00e1sio do bairro e outras 500 est\u00e3o acompanhando os primeiros e segundos quadros do time da beira da sanga contra a equipe do p\u00e9 do morro. Ao longo da malha perif\u00e9rica, muitas vezes os nomes das canchas denominam tamb\u00e9m o bairro. No entorno do campo de v\u00e1rzea as pessoas foram ocupando \u00e1reas verdes, terrenos baldios e construindo suas casas. Diamantina, Monte Alegre, \u00cdndio Jar\u00ed, <?xml:namespace prefix = st3 ns = \"schemas-houaiss\/dicionario\" \/><st3:sinonimos>Florescente<\/st3:sinonimos>, Vila Para\u00edso, Vila Augusta, dentre outras vilas e periferias. Ao largo do campinho, bares, padarias, postos de sa\u00fade, cabines policiais, associa\u00e7\u00f5es de moradores, igrejas de diversos matizes v\u00e3o sendo erguidas. Estes exemplos foram trazidos para o texto atrav\u00e9s de simples observa\u00e7\u00e3o do bairro onde resido e do seu entorno. Sem maiores conjecturas, podemos <st2:hm>imaginar<\/st2:hm> que o mesmo se d\u00ea por todo o pa\u00eds.<\/p>\n<p >Como diz um outro amigo, residente na cidade de Gua\u00edba, do outro lado do Lago de mesmo nome: \u201cT\u00e3o bom quanto o Gre-Nal \u00e9 a final do varzeano daqui. Por vezes \u00e9 at\u00e9 mais emocionante!\u201d <\/p>\n<p >Me recordo de outro exemplo, este do Rio de Janeiro, especificamente em uma determinada comunidade de favela. Muitas vezes, a esvaziada turma de alfabetiza\u00e7\u00e3o de adultos tinha na sala central da associa\u00e7\u00e3o de moradores uma barulhenta presen\u00e7a de vizinhos. Sede lotada, o assunto era s\u00e9rio. Tratava-se da aprova\u00e7\u00e3o do regulamento do campeonato de futebol so\u00e7aite daquela comunidade. Inscritos, 35 times, todos completos, com <st2:hm>titular<\/st2:hm> e banco de reserva, uniforme de jogo e de <st3:sinonimos>treino<\/st3:sinonimos>. Toda a sociedade local estava mobilizada e representada por times. Tanto neo-pentecostais participavam como a \u201crapaziada do movimento\u201d tinha duas equipes. As regras, como sempre, s\u00e3o adapt\u00e1veis a cada realidade.<\/p>\n<p >Al\u00e9m das tabelas, escala\u00e7\u00e3o dos ju\u00edzes e premia\u00e7\u00f5es com trof\u00e9us, tr\u00eas assuntos graves foram decididos. Como no morro \u00e9 proibido <st2:hdm>brigar<\/st2:hdm>, o mesmo teria de <st2:hm>valer<\/st2:hm> para o jogo. Assim, por pior que fosse a falta, ningu\u00e9m podia <st2:hm>apelar<\/st2:hm>. Quem mandava era o \u00e1rbitro e todos tinham de <st2:hm>respeitar<\/st2:hm>, fosse ou n\u00e3o do \u201ccontexto\u201d. Segundo, se o morro fosse ocupado, o campeonato seria suspenso, at\u00e9 que os homens da lei sa\u00edssem da comunidade. Terceiro, em caso de invas\u00e3o repentina, os times da \u201cfarm\u00e1cia\u201d n\u00e3o seriam punidos com WO. Assim, a partida seria adiada at\u00e9 que a situa\u00e7\u00e3o \u201cacalmasse\u201d. Nada disso ouvi <st2:hdm>falar<\/st2:hdm>, mas vi com meus pr\u00f3prios olhos. Detalhe, todas as regras foram cumpridas \u00e0 risca.<\/p>\n<p >Como podemos <st2:hm>observar<\/st2:hm>, do lado certo ou errado da vida, o futebol em suas mais variadas vers\u00f5es \u00e9 tijolo e alicerce da sociabilidade b\u00e1sica do brasileiro. Deste caldo de cultura apaixonado, brota a for\u00e7a motora que faz com que nos esque\u00e7amos das imbecilidades b\u00e1sicas ditas em in\u00fameras entrevistas de campo e coletivo. Esta for\u00e7a social, pouca ou nenhuma rela\u00e7\u00e3o tem com a cobertura ostensiva de r\u00e1dios AMs e a transmiss\u00e3o sem fim, que gera uma overdose de futebol na TV aberta e por assinatura.<\/p>\n<p >Estes costumes s\u00e3o muito mais fortes e importantes do que os desmandos da cartolagem, a aliena\u00e7\u00e3o das estrelas e as manipula\u00e7\u00f5es do cons\u00f3rcio gestor da canarinho. Nos sagrados rach\u00f5es da v\u00e1rzea, nos encontramos com o melhor de n\u00f3s mesmos como povo e classe. Vamos assim alimentando uma paix\u00e3o que costura o tecido social brasileiro. <\/p>\n<p >Artigo originalmente publicado no blog de Ricardo Noblat<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em jogos como este, se refor\u00e7am os la\u00e7os sociais e nos redescobrimos como povo e classe Foto: 20 de junho de 2006, Vila Setembrina dos Farrapos de Viam\u00e3o, Continente do Rio Grande de S\u00e3o Sep\u00e9 Seguimos falando de futebol, porque somos brasileiros, latino-americanos e cultivadores da mesma paix\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 clich\u00ea, \u00e9 cren\u00e7a mesmo. 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