{"id":743,"date":"2008-03-13T19:42:10","date_gmt":"2008-03-13T22:42:10","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/?p=743"},"modified":"2023-03-13T21:22:17","modified_gmt":"2023-03-14T00:22:17","slug":"tres-confusoes-e-varios-equivocos-da-esquerda-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=743","title":{"rendered":"Tr\u00eas confus\u00f5es e v\u00e1rios equ\u00edvocos da esquerda brasileira"},"content":{"rendered":"<figure class=\"image-container image-post-defautl\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/soldadocabano.jpg\" title=\"Os interesses de homens do povo, como este volunt\u00e1rio da Cabanagem do Gr\u00e3o-Par\u00e1, n\u00e3o se via nem se v\u00ea representado por partidos de intermedia\u00e7\u00e3o das vontades pol\u00edticas.\n\n\n - Foto:\" alt=\"Os interesses de homens do povo, como este volunt\u00e1rio da Cabanagem do Gr\u00e3o-Par\u00e1, n\u00e3o se via nem se v\u00ea representado por partidos de intermedia\u00e7\u00e3o das vontades pol\u00edticas.\n\n\n - Foto:\" class=\"image\"><figcaption class=\"fig-caption\">Os interesses de homens do povo, como este volunt\u00e1rio da Cabanagem do Gr\u00e3o-Par\u00e1, n\u00e3o se via nem se v\u00ea representado por partidos de intermedia\u00e7\u00e3o das vontades pol\u00edticas.<\/p>\n<\/figcaption><small itemprop=\"copyrightHolder\" class=\"copyright\"> Foto:<\/small><\/figure>\n<p >Vila Setembrina dos Farrapos, Continente do Rio Grande de S\u00e3o Sep\u00e9, 4 de julho de 2006<\/p>\n<p >Agora come\u00e7ou. Eliminados vergonhosamente da Copa do Mundo, a primeira semana de julho marca o in\u00edcio da corrida eleitoral. Como no futebol, na disputa das urnas, vamos pagar o pre\u00e7o de fingir n\u00e3o ser quem somos, e por isso mesmo, iludir-nos das discuss\u00f5es de fundo estrat\u00e9gico. Entre Lula e Chuchu, no aperto do corredor polon\u00eas, o que sobrou de esquerda deste pa\u00eds sofre uma grande confus\u00e3o ideol\u00f3gica e de modelos de partido. Neste breve artigo, vamos retomar o debate do tema. <\/p>\n<p >O Brasil, embora peculiar pelo idioma e o tamanho desproporcional para o continente, n\u00e3o \u00e9 uma ilha isolada da Am\u00e9rica Latina. Muito ao contr\u00e1rio, quanto mais nos afastamos, mais \u201csudacas\u201d e \u201ccucarachos\u201d nos tornamos. Tanto pela nega\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria identidade a ser reconstru\u00edda, como pela postura arrogante e sub-imperial que insistimos em reproduzir. Caso conhec\u00eassemos mais a n\u00f3s mesmos, e reivindic\u00e1ssemos as ra\u00edzes da hist\u00f3ria pol\u00edtica latino-americana, tudo seria distinto. Ao menos ter\u00edamos a chance de evitar uma grande confus\u00e3o vivida pela milit\u00e2ncia brasileira mais \u00e0 esquerda nos \u00faltimos 25 anos. <\/p>\n<p >O primeiro conceito que quero trazer \u00e9 a id\u00e9ia de \u201cmelhorista\u201d contra a cl\u00e1ssica no\u00e7\u00e3o de \u201creformista\u201d. Concretamente, o Partido dos Trabalhadores e suas v\u00e1rias correntes, vivem hoje um dilema, acobertado pela \u201cquest\u00e3o conjuntural\u201d das elei\u00e7\u00f5es. A esquerda deste partido ainda v\u00ea como \u201ct\u00e1tica\u201d a participa\u00e7\u00e3o na legenda e passa a fazer uma l\u00f3gica discursiva de dar pouco peso ao n\u00edvel pol\u00edtico. Isto \u00e9 verdade, mas apenas em parte. Porque, quando uma agenda eleitoral pauta a luta popular, repetindo-se a cada dois anos, isto cria uma rotina de projetos de poder\u201d(com p min\u00fasculo) e aponta expectativas e projetos individuais dos militantes. <\/p>\n<p >Reunificando-se a cada dois anos, esta frente de correntes, hoje divididas entre a direita majorit\u00e1ria (melhorista) e a esquerda em minoria (reformista), retoma o pacto de cumplicidade e mata no peito e em conjunto os esc\u00e2ndalos que asseguraram a \u201cgovernabilidade\u201d. Na ess\u00eancia, em minha opini\u00e3o, o governo de Lula partiu de uma perspectiva melhorista e de continuidade com o modelo anterior. N\u00e3o tocou em nenhum elemento central da forma de governar dos 8 anos anteriores de FHC. Mais, aprimorou as diretrizes macro-econ\u00f4micas, sendo que em alguns aspectos, implementou as propostas de governo elaboradas por Jos\u00e9 Serra no segundo mandato de Fernando Henrique. <\/p>\n<p >As correntes da ala esquerda deste partido, representando v\u00ednculos com movimentos populares que tem participa\u00e7\u00e3o lateral no governo, se v\u00ea embretada entre uma perspectiva reformista cl\u00e1ssica e uma postura um pouco mais ousada. N\u00e3o fosse a confus\u00e3o propositada na forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica somada com alguma vontade estrat\u00e9gica, menos massista e mais pol\u00edtica, e possivelmente esta pol\u00eamica n\u00e3o existiria mais. Mas, esta falha de forma\u00e7\u00e3o, quando repetida ciclicamente por mais de duas d\u00e9cadas, deixa de ser falha e vira \u201cvirtude\u201d aos olhos de quem assim foi formado. <\/p>\n<p >Poderia nomear e debater uma s\u00e9rie de conceitos propositadamente confundidos, mas neste breve artigo cito apenas a tr\u00eas. O primeiro \u00e9 uma leitura de \u201cguerra de posi\u00e7\u00f5es\u201d e da \u201cdisputa e correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as\u201d gramscianas, id\u00e9ias-guia estas que simplesmente podem servir para qualquer coisa. Me recordo de um debate, h\u00e1 mais de 15 anos, com um coordenador da Pastoral Oper\u00e1ria, quando este militante dizia: \u201cusamos a B\u00edblia para uma interpreta\u00e7\u00e3o e o neo-pentecostal por vezes utiliza o mesmo vers\u00edculo para dizer o inverso e oposto do que fazemos\u201d. As id\u00e9ias b\u00e1sicas do italiano Antonio Gramsci servem para quase-tudo dentro das perspectivas de uma esquerda eleitoral e cada vez menos classista. <\/p>\n<p >A segunda confus\u00e3o, e esta \u00e9 t\u00e3o enraizada como a anterior, \u00e9 a mescla entre a apropria\u00e7\u00e3o progressiva do Estado pelos poderes p\u00fablicos, provenientes do antagonismo entre o povo e suas elites; e a confus\u00e3o praticada da tomada do aparelho de Estado, por dentro do sistema de esp\u00f3lio da pol\u00edtica brasileira. Este debate mal resolvido, tem suas origens nas disputas internas quando da cria\u00e7\u00e3o das jovens rep\u00fablicas latino-americanas, e os choques entre o patriciado criollo e os ativistas liberais-radicais que queriam construir a res-publica mesti\u00e7a, negra, ind\u00edgena, com cheiro e cara dos povos que resistiram a conquista. Ao ocupar parcelas do Estado, sem fazer com que estes espa\u00e7os adquiridos nas urnas sejam fruto da mudan\u00e7a da correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as na estrutura da sociedade, a milit\u00e2ncia torna-se legitimadora deste mesmo Estado operador da injusti\u00e7a e da desigualdade perante a lei. <\/p>\n<p >A terceira confus\u00e3o \u00e9 a pr\u00f3pria id\u00e9ia de partido. O partido de tipo burgu\u00eas, instrumento de representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica auto-promovida, vive uma crise sem fim. A classe pol\u00edtica brasileira se auto-regula, e tal e qual os capitais vol\u00e1teis da jogatina financeira, ao n\u00e3o terem barreiras, cada vez se regulam menos. Bem, para entrar na rinha de galos, \u00e9 necess\u00e1rio usar biqueira e espora. Se as regras da rinha onde se aceita pelear s\u00e3o estabelecidas pelos donos do rinhadeiro, camada social que estruturou sua pr\u00f3pria posi\u00e7\u00e3o como forma de assegurar estas regras, \u00e9 preciso entrar no clube e pagar a j\u00f3ia do t\u00edtulo de s\u00f3cio propriet\u00e1rio. Ou ent\u00e3o, mudar as regras de fora para dentro, e usar outro tipo de instrumento pol\u00edtico diferente do utilizado pelo advers\u00e1rio. <\/p>\n<p >Mas, ao associar a id\u00e9ia de partido pol\u00edtico como forma de representa\u00e7\u00e3o eleitoral, estes mesmos militantes partid\u00e1rios se negam a ver a independ\u00eancia de classe perante o campo e a classe pol\u00edtica como uma das poucas formas de cria\u00e7\u00e3o de um outro poder. A acumula\u00e7\u00e3o de for\u00e7as que pode assegurar a press\u00e3o necess\u00e1ria sobre o Executivo, a mudan\u00e7a dos rumos da macro-economia e o aumento simult\u00e2neo de uma apropria\u00e7\u00e3o p\u00fablica das capacidades do Estado, passa bem longe das urnas. <\/p>\n<p >Para conseguir esta acumula\u00e7\u00e3o de for\u00e7as, s\u00e3o necess\u00e1rios alguns instrumentos. Um deles \u00e9 pol\u00edtico, a busca pelo modelo apropriado de partido pol\u00edtico. Tal modelo toma a forma de uma agrupa\u00e7\u00e3o de minorias, com vontades estrat\u00e9gicas, e cuja tarefa \u00e9 ser for\u00e7a motora da constru\u00e7\u00e3o deste poder. O outro instrumento \u00e9 a separa\u00e7\u00e3o absoluta entre partido e movimento de classe. Com pautas distintas, sem se entreverar com os espa\u00e7os p\u00fablicos abertos, proibindo a participa\u00e7\u00e3o dos militantes em cargos de confian\u00e7a exercidos em gabinetes e fun\u00e7\u00f5es no Legislativo e no Estado. Por fim, mais uma separa\u00e7\u00e3o decorrente das duas primeiras. Esta \u00e9, a distin\u00e7\u00e3o total entre partido pol\u00edtico, movimento popular e exerc\u00edcio de governo. <\/p>\n<p >Garantindo a ocupa\u00e7\u00e3o distinta dos diferentes espa\u00e7os, ser\u00e1 poss\u00edvel a constru\u00e7\u00e3o de uma outra forma de exerc\u00edcio de poder, atendendo aos interesses estrat\u00e9gicos do pa\u00eds, a partir da sua pr\u00f3pria identidade como povo e classe. Para isto, ser\u00e1 necess\u00e1rio um outro processo pol\u00edtico, cuja resultante \u00e9 a forja de uma milit\u00e2ncia popular desvinculada dos interesses eleitoreiros. <\/p>\n<p >Infelizmente, para sairmos do corredor polon\u00eas formado de um lado pela oligarquia e a jogatina financeira de sempre, e do outro pela alian\u00e7a entre \u201cmelhoristas social-liberais\u201d e \u201creformistas social-democratas\u201d, ser\u00e1 necess\u00e1rio mais uma gera\u00e7\u00e3o de militantes. Outros 25 anos nos esperam.<\/p>\n<p class=MsoPlainText style=\"MARGIN: 0cm 0cm 0pt; mso-outline-level: 1\">Artigo originalmente publicado no blog de Ricardo Noblat<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os interesses de homens do povo, como este volunt\u00e1rio da Cabanagem do Gr\u00e3o-Par\u00e1, n\u00e3o se via nem se v\u00ea representado por partidos de intermedia\u00e7\u00e3o das vontades pol\u00edticas. Foto: Vila Setembrina dos Farrapos, Continente do Rio Grande de S\u00e3o Sep\u00e9, 4 de julho de 2006 Agora come\u00e7ou. 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